O dia em que o Catraca Livre sofreu um agenda setting reverso

A tragédia da queda do avião com o time de futebol Chapecoense comoveu os brasileiros. É natural esperarmos notícias a partir do momento em que sabemos que ocorreu o acidente. Há uma série de informações importantes: Quem eram as pessoas a bordo, quantos estavam lá, quem deixou de ir, quem foi resgatado com vida, quem não sobreviveu, para onde estavam indo e por que, entre muitas outras informações. O problema surge quando o jornalismo abre margem para o que não tem valor notícia e sai até mesmo dos limites do sensacionalismo. 

Lembra quando estudamos na faculdade teorias do jornalismo e aprendemos sobre o agenda setting? Então. O assunto em voga pauta as conversas dos leitores, o assunto se retroalimenta, para o jornalismo oferecer mais informações que farão parte das discussões do público. 

Nesse caso de hoje ocorreu um movimento inverso. As pessoas não receberam bem as publicações desrespeitosas do Catraca Livre. O veículo de comunicação dessa vez não foi o suficiente para continuar com as engrenagens do agenda setting. A velocidade da internet serviria para catalisar as relações entre notícias e público e movimentar o que se fala sobre o assunto que, neste exemplo, foi o acidente de avião. 

Hoje acompanhamos o deplorável exemplo do Catraca Livre que não soube fazer jornalismo. 


  

E por que foi um erro?

De acordo com o inciso II do Art. 11 do Código de Ética do Jornalista: 

“O jornalista não pode divulgar informações: de caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos, especialmente em cobertura de crimes e acidentes”

Além disso, o Art.13 diz ainda que a cláusula de consciência é um direito do jornalista. Isso significa que o profissional está livre para se recusar a executar quaisquer tarefas em desacordo com os princípios do Código de Ética. 

No entanto, sabemos que, com relação a este último, não é algo que se aplica na realidade por motivos de: “se você não fizer, alguém vai”. 

A reação do público é que deu um tapa na cara desse jornalismo pedante que acha que pode passar por cima das pessoas. 

Pierre Lévy já dizia que a inteligência coletiva supera a inteligência dos indivíduos. Hoje, a inteligência coletiva falou mais alto. 

E o movimento de debandada de curtidas da página serviu para mostrar que a sensibilidade do público existe, deve e merece ser respeitada. 

Vendo isso, o Catraca Livre veio com um pedido de desculpas atrás do outro, confuso por não entender o que estava acontecendo. De repente, o movimento começou a ser noticiado por veículos que cobrem assuntos relacionados à comunicação. 


Se o agenda setting é a teoria que diz que o jornalismo pauta as conversas do público, hoje vimos que, na rede social, a reação da inteligência coletiva ao mau uso do jornalismo rebate a agenda. E, assim, o próprio Catraca, que virou notícia, é tema de conversas dos leitores. 

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