Dois Irmãos e a violência como sinal de masculinidade

Nesse ano de 2017 foi lançada a minissérie Dois Irmãos, no canal Rede Globo. A produção é baseada na obra de Milton Hatoum, foi escrita por Maria Camargo e tem direção artística de Luiz Fernando Carvalho.

A produção técnica do programa, assim como a maioria das produções do canal, é incrível e digna de Hollywood. Da fotografia ao som, não há o que questionar. No entanto, o conteúdo, mais especificamente, o roteiro, não segue o mesmo caminho e perpetua esteriótipos que estão mais do que na hora de serem questionados e quebrados na programação brasileira.

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Sinopse: A história gira em torno de dois irmãos gêmeos idênticos, Omar e Yaqub, que têm personalidades conflitantes desde pequenos, e suas relações com a mãe (Zana), o pai (Halim) e a irmã (Rânia). Moram na casa da família a empregada Domingas e seu filho, Nael. O menino é quem narra, após trinta anos, os dramas que testemunhou calado. Do seu canto, ele vê entes da família de origem libanesa terem desejos incestuosos e se entregarem à vingança, à paixão desmesurada, em Manaus.

No primeiro capítulo, somos apresentados a Manaus, mais parecida com uma vila, em plena década de 20. Na trama, o personagem Halim (Bruno Anacleto) é apaixonado por Zana (Gabriela Mustafá) e, um dia, decide entrar no restaurante do pai desta e recitar um poema. Assim, com esse simples gesto, a menina se encanta e está decidida e a se casar com o moço.

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Halim (Bruno Anacleto) e Zana (Gabriela Mustafá)

Recentemente, vi uma crítica que dizia achar incrível que Zana avisa ao pai que irá se casar, como quem diz que vai na padaria. Porém, ao meu ver, eu questiono muito essa forma de romance, em que nada acontece e é só o rapaz declamar um poema para que a menina, considerada a mais linda da cidade, caia de amores. Eu amo poemas e poesias, mas convenhamos que ninguém se apaixona por alguém em três segundos, muito menos por causa de uma declamação , a não ser em filmes à la Disney.

A partir disso, os anos se passam e o casal está pronto para ter filhos. Na verdade, a mulher que exige filhos, já que o marido, não gostaria de ser pai. Assim, eles têm os gêmeos Omar e Yaqub, e se inicia toda a tragédia.

De acordo com o narrador, o filho “caçula”, Omar, nasceu muito fraco e quase morreu e, por isso, a mãe o cuidou com mais zelo e carinho, do que seu irmão. Por meio dessa preferência da mãe, surgiu uma relação de ciúme doentio dentro da família, do pai com os filhos e de Omar (o filho queridinho) com Yaqub (o menino calado).

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Os intérpretes de Omar e Yaqub, Lorenzo e Enrico Rocha, Matheus Abreu e Cauã Reymond.

Por meio disso, a história incita o ódio entre os irmãos o tempo todo, justificando a briga e violência destes, por causa de ciúmes e culpando todas as mulheres envolvidas. Ainda no capítulo 1, Omar, agora com uns 10 anos de idade, e Yaqub, se apaixonam por Lívia e esta, parece interessada nos dois. Não conhecemos nada da menina, ela simplesmente aparece para “provocá-los” e causar discórdia.

Na cena em que eles vão a exibição de um filme, na casa dos vizinhos, Yaqub beija Lívia e Omar, possuído pelo ciúme e ódio, quebra uma garrafa de vidro e corta o rosto do irmão. Zana, a mãe sofredora, não sabe lidar com a situação sem magoar um dos filhos e Halim, o pai bipolar, decide enviar o filho machucado para o Líbano, seu país de origem, por alguns anos.

Nesse trailer da série é possível ver a cena do corte.

O tempo passsa e a relação de Zana e Omar, agora confusa, com beijos no pescoço e pegadas por trás, fica mais forte e ambígua, enquanto Yaqub, volta, anos depois, mais quieto do que nunca e sem se sentir um membro da família. Ou seja, Yaqub, quem levou a cortada, que foi mandado embora e, exatamente ninguém, sentou para conversar com Omar e dizer que o que ele fez foi errado.

Por meio de narrativas assim, continuamos a ensinar aos meninos que quanto mais violento e dominador eles forem, mais eles provarão sua masculinidade. A mídia, seja televisão, cinema, internet, quadrinhos, etc, tem um papel essencial na construção de um indivíduo e quando mostramos cenas nesse estilo , crianças e adultos permanecem com a ideia estereotipada de masculinidade como forma de oprimir e dominar.

Além disso, a não ser pela personagem Zana, que é a mãe dos gêmeos, todas as mulheres mal falam e tampouco tem personalidade e histórias interessantes. A maioria aparece para saciar as vontades dos homens ou causar “discórdia” entre eles, o que me fez lembrar o texto que li no site groknation.com, “Porquê mulheres são vistas como puritanas ou putas?”.

Na imagem, a personagem Lívia, mais conhecida como a “causa” da discórdia entre os irmãos.

Segundo uma das colaboradoras do groknation*, Sa’iyda Shabazz, “As duas primeiras imagens de mulheres foram ou a Virgem Maria ou Maria Madalena, uma prostituta que buscava a redenção de Jesus. Quando somente há duas únicas visões de mulheres, desde os primórdios, como é que se supõe que iremos passar adiante disso? […] Nós ainda preferimos manter as mulheres ao padrão da mãe virgem, porque é mais seguro, do que ver as mulheres como pessoas totalmente formadas que podem desfrutar de algo como o sexo, sem motivos de procriação.” (Tradução livre)

Outro detalhe interessante é vermos as cenas de Zana e Rânia, sua filha, numa eterna disputa de poder e beleza, além de que, conforme a própria narração diz sobre a mãe: “ao envelhecer, Zana perde sua beleza para a filha”. Enquanto jovens, somos lindas, quando envelhecemos, somos esquecidas e rechaçadas e, claro, a disputa entre mulheres não foge nem dentro da família. Nao sei aonde iremos parar com esses “ensinamentos”.

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Zana, interpretada por Gabriela Mustafá, Juliana Paes e Eliane Giardini.

E o quê falar da personagem Domingas (Zahy Guajajara)?

Quando criança, ela fica órfã e é entregue à Zana, como um presente, para servir como empregada doméstica, mas, na verdade, ela se torna uma escrava. O próprio narrador, que é seu filho, comenta “Domingas é meio ãma, meio escrava”. Meio não, ela é escravizada, humilhada e abusada o tempo todo. Inclusive, a personagem é estuprada pelo gêmeo Omar e NINGUÉM comenta o assunto e a jovem ainda é humilhada, quando anda com seu filho pela cidade, chamada por nomes horríveis, até mesmo pela “patroa”, que diz não querer “um filho de ninguém” em sua casa.

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Domingas (Zahy Guajajara).

Será que ninguém percebe o quão errado é isso? No momento em que uma das personagens é humilhada, estuprada, abusada, e não tem sequer voz e história por trás, fica a entender de que ela pertence à família e eles podem fazer o que quiserem com ela, especialmente os homens. Esse tipo de história concretiza a ideia de que nós, mulheres, somos meros objetos de prazer masculino. E não, nós NÃO somos! Sem contar que, também remete à ideia de que índios são inferiores, sendo justificável os brancos, no caso, libaneses, escravizá-los.

Para piorar, as outras mulheres, maioria negras ou estrangeiras, aparecem quando Omar quer transar ou quando quer provocar sua família, em particular sua mãe, que insiste em humilhar as moças, as chamando de vadias e destruidoras de lares, passando a mão na cabeça do filho, que estupra, abusa e soca quem ele quiser, sem nunca ser punido.

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O filho quem leva a “destruidora de lares” para casa e ela quem é humilhada e expulsa do lugar.

Por fim, entendemos que a redenção de Omar acontece, quando seu filho, Nael, vindo de um estupro, estende suas mãos ao “pai”, querendo ouvi-lo dizer perdão. Infelizmente, Omar, assim como a maioria dos homens, que usam e abusam de sua “masculinidade”, nunca assume e, talvez, nem entenda seus erros, enquanto, Domingas são esquecidas e jogadas ao mar. É simplesmente cansativo vermos minisséries como esta, em que os homens seguem esse padrão de violentar quem eles bem quiserem para provar seu lugar como macho alfa e nunca serem reprimidos ou punidos por seus crimes.

Até quando insistiremos em histórias assim?

Ano passado, tivemos o prazer de assistir Justiça que, mesmo tendo histórias tristes e pesadas, deu um show de humanidade. Então por que não vemos mais programas como este, ao invés de Dois Irmãos, que somente investe em misoginia, preconceito, ódio e mais ódio? O que estamos querendo passar aos nossos meninos/homens e o que estamos dizendo sobre nossas meninas/mulheres?

Para refletir sobre o assunto, indico o documentário the Mask You Live In , abordado pela Louise Queiroga, no texto “A máscara que os meninos usam”, em que a autora diz O filme aborda como a masculinidade é socialmente construída e o quanto isso fere a forma de como os homens poderiam se expressar”. Ademais, o doc ainda mostra como a mídia influência no desenvolvimento de caráter de uma pessoa.

Sendo assim, uma produção que tinha tudo para ser extraordinária, acaba ferindo as mulheres e perpertua a educação machista de nossa sociedade. Uma das coisas que salva o programa, é a maravilhosa interpretação de Juliana Paes e Eliane Giardini, mas, até mesmo a primeira, quando elogiada, tem seu corpo e nudez glorificado e o talento velado.

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As primeiras notícias do Google, ao pesquisar sobre a atriz na minissérie, são sobre as cenas em que ela aparece nua.

*groknation.com: é o site da atriz e neurocientista Mayim Bialik, mais conhecida pelo papel de Amy Farrah Fowler, na sitcom americana The Big Bang Theory.

BIBLIOGRAFIA:

GROKNATION. FEMINISM 101: WHY ARE WOMEN ONLY SEEN AS “PRUDES” OR “SLUTS”?. 2017. Diponível em: <http://groknation.com/women/feminism-101-why-are-women-only-seen-as-prudes-or-sluts/&gt;. Acesso em: 22 de jan. 2017.

GSHOW.‘Dois Irmãos’: conheça a história da nova minissérie da Globo. 2017. Disponível em: http://gshow.globo.com/tv/noticia/2016/11/dois-irmaos-conheca-historia-da-nova-minisserie.html&gt;. Acesso em: 22 de jan. 2017.

WIKIPEDIA. Dois Irmãos. 2017. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Dois_Irmãos_(minissérie)&gt;. Acesso em: 22 de jan. 2017.

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Madame Bovary: Livro vs Filme & a depressão de uma extraordinária mulher.

No final do ano passado, eu terminei de ler o livro Madame Bovary, escrito por Gustave Flaubert. A versão que li foi da coleção Clube do Livro, pela editora Novas Fronteira Participações S.A., com tradução de Sérgio Duarte e prefácio de Otto Maria Carpeaux.

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Capa do Livro Madame Bovary, sexto volume da coleção Clube do Livro.

Assim que acabei o livro, fui em busca de alguma produção cinematográfica da história e, dei preferência pelo longa de 2015, pois foi escrito e dirigido por uma mulher, Sophie Barthes, também conhecida pelo filme Almas à venda (2009). Com isso em mente, eu quis fazer uma comparação entre o livro e o filme, além de tentar entender a visão da diretora sobre a vida dessa incrível personagem.

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Poster do filme.

Para quem não conhece a trama, Madame Bovary conta a trajetória de Emma Bovary, uma jovem sonhadora, que acredita estar próxima da felicidade, quando aceita se casar com Charles Bovary. No entanto, Emma acaba entediada em seu casamento com um médico do interior e reprimida numa cidade pequena. Para fugir da monotonia e da depressão, Emma persegue seus sonhos de paixão e excitação, independente do que isso possa custar.

No livro, a história começa com a apresentação de Charles, quando jovem, até sua graduação em medicina e seu primeiro casamento. Ele perde sua mulher muito cedo e, em uma consulta médica ao pai de Emma, M. Rouault, acaba se apaixonando por ela. Logo na primeiro parte, os dois se casam, Charles extremamente apaixonado e Emma com expectativas de que sua vida vai mudar para melhor.

No longa-metragem, o roteiro já começa com o casamento de Emma e Charles e sua ida para a cidade de Yonville. Apesar de ter gostado muito do filme e ter achado que a direção está maravilhosa, fiquei decepcionada com algumas mudanças na narrativa, como por exemplo, antes de morar na cidade de Yonville, o casal vive em Tostes, mas Emma entra em depressão e, para ajudá-la, Charles decide se mudar para uma cidade “maior” (entre aspas, pois ambas as cidades eram pequenas).

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Emma Bovary (Mia Wasikowska), Charles Bovary (Henry Lloyd-Hughes) e Rodolphe (Logan Marshall-Green).

Além disso, nessa etapa, Emma está grávida de sua única filha, Bertha Bovary, sendo que, no filme, é como se ela não tivesse tido filhos. No entanto, talvez, pelo ponto de vista da diretora e roteirista, ela deve ter omitido a criança da história, visto que ambos os pais não ligavam e não cuidavam muito dela, inclusive ela mal aparece na escrita literária.

A partir disso, acredito que ambos os trabalhos, livro e filme, entram em sitonia, justamente na fase em que, Emma, lutando contra o tédio e a falta de interesse em sua vida, se envolve em dois casos extra-conjugais.

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León Dupuis (Ezra Miller) e Emma (Mia Wasikowska).

Como não quero dar spoilers, preferi me ausentar dos detalhes dessa narrativa e focar no assunto mais interessante do drama, a depressão da protagonista.

Uma das maiores críticas do autor, Flaubert, aos romancistas de sua época, era a fantasia de suas histórias, iludando o público com tramas que não retratavam a realidade como ela é. Ou seja, ele era contra os romances que tinham finais “felizes para sempre”.

Assim, ele decidiu escrever Madame Bovary, relatando a vida de uma forma nua e crua, em que nos jogamos em fantasias amorosas ou em outras situações, como tentativas de enriquecer a vida, quando na verdade, estamos todos em busca da tal felicidade e ela não é fácil de ser conquistada.

Com isso, o escritor criou Emma Bovary e, em todas as partes do conto, deixa claro as dificuldades dessa em ser feliz e sua eterna luta contra a depressão e melancolia.

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Sim, Emma… sabemos que não é fácil.

Apesar de ter uma vida razoavelmente boa, ao menos para a época em que vivia, Emma era constantemente ignorada pelo marido e pelos seus amantes que, no final, se mostraram todos uns “monstros”. Ela tenta buscar respostas com paixões, religião, roupas, festas, mas, acaba totalmente endividada, num século em que mulheres eram donas de casa e suas expectativas, culturalmente ensinadas, eram se casar e ter filho.

Emma não é um exemplo de mãe, inclusive, eu acho incrível que um livro de 1857 prove que não existe o tal “instinto materno”. Em nenhum momento a personagem fica animada com a maternidade. Talvez, antes de ter a filha, ela se anime com a ideia, mas quando Bertha nasce, Bovary descobre que nunca quis ser mãe, nos lembrando que isso sempre foi e, ainda é, uma imposição da sociedade e uma felicidade que não é para todas.

Na visão da sétima arte, Sophie Barthes mostra de uma forma majestosa a vida simples e sem muitas novidades de Emma. Ademais, também entendemos o desânimo de nossa heroína, pois ela se casou com um homem sem muitas ambições e, que, por mais que fosse apaixonado por ela, ele não entendia suas tristezas e acabava sendo um péssimo companheiro para alguém com depressão.

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Mia Wasikowska como Emma Bovary.

Minha maior decepção com o filme, foi o fato de não enfatisar o problema de saúde mental que a personagem principal tinha. Naquela época, acredito eu, não era comum a palavra depressão, mas, lendo a história, sabemos que Emma tinha momentos de crise, aos quais nem sempre conseguia se livrar. Ela culpa a todo o instante o marido, por seus problemas, mas ela mesma sabe que não é só isso.

Atualmente, a depressão é um grande problema na vida de muitas pessoas e, quanto mais falarmos sobre o assunto e quebrarmos esse tabu, mais conseguiremos ajudar “Emmas” do século XXI.

Aliás, Emma era uma mulher além de seu tempo, iludida com todos os romances que havia lido e com grandes expectativas, que não foram alcançadas, sobre a vida. Outra coisa que acho majestoso na história, é que não a criticamos por trair o marido. Naquela época, seria de se esperar uma trama que a condenasse pela traição, porém, muito pelo contrário, torcemos junto com ela, para que encontre alguém que a faça feliz.

No entanto, felicidade é uma luta constante e individual. Nos relacionamentos devemos somar e não preencher vazios. Essa foi a maior luta de Madame Bovary, enfrentar seus demônios, todos os dias, enquanto tinha que sorrir para as pessoas a sua volta e fingir que estava tudo bem.

É importante lembrar que, quando foi divulgada, a escrita foi altamente criticada e rechaçada, pois envolvia o tema adultério, criticava a alta sociedade da França e a religião. Hoje, é considerado um dos pioneiros da literatura realista.

Sendo assim, eu me encantei com o livro porque eu adoro personagens realísticos, que vemos e sentimos suas dores de perto, ainda mais uma protagonista feminina, num período em que mulheres não tinham muito espaço. Bovary é uma potência de personalidade e história.

O filme, apesar das pequenas omissões, também é maravilhoso. As atuações estão ótimas, a direção incrível, assim como a arte e o figurino. O roteiro foi bem desenvolvido e, do começo ao fim, já sabemos o trágico fim de nossa querida Emma, mas assistimos com a fantasia de que, talvez, ela conseguirá ser feliz.

No demais, Madame é mais uma protagonista mulher, que nos encanta, fazendo uma pessoa em pleno 2017, escrever uma resenha sobre uma história de 1857.

Trailer de Madame Bovary, por Sophie Barthes.

BIBLIOGRAFIA

IMDB. Madame Bovary. 2015. Disponível em: <http://www.imdb.com/title/tt2334733/?ref_=nm_flmg_act_9&gt;. Acesso em: 06 de jan. 2017

O machismo no mundo dos jogos

No final de 2016, a Nintendo lançou o jogo Super Mario Run para iOS e agora, em 2017, lançará a versão para o sistema operacional, Android.

Como toda criança e adolescente dos anos 90, obviamente, fiquei super empolgada e baixei o jogo, assim que lançou. No entanto, logo de cara me assustei com a narrativa da história, sobre a famosa donzela em perigo.

A princesa Peach convida Mário para comer bolo, que ela mesma cozinhou, em seu castelo, mas o vilão Bowser a sequestra e agora o herói tem que resgatá-la. Ano passado eu li alguns textos sobre o machismo dentro do mundo dos gamers e, a partir disso, comecei a questionar os jogos de vídeo game que passei minha infância jogando, ao lado do meu irmão e meu primo.

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É possível jogar com a princesa Peach, mas, para isso, você precisará vencer todos os 24 níveis do modo World Tour e derrotar Bowser.

Apesar de hoje em dia eu não jogar como antes e não estar atualizada no assunto, eu lembro que na graduação em Cinema & Audiovisual, na aula de roteiro, aprendi que existe a área de roteiro para games e, esse mercado, assim como a maioria no cinema, é dominado pelos homens.

Com isso em mente, lembrei dos famosos jogos da minha infância – Super Mário, Street Fighter, Tekken, GTA, 007, Mortal Kombat, Ragnarok, entre vários outros – e argumentei com uma amiga, que sempre que eu jogava MarioKart Double Dash (o jogo de corrida do Mário para Nitendo GameCube), ninguém escolhia as princesas Daisy e Peach, porque elas eram as piores. Na conversa, ela rebateu dizendo “mas já reparou que as personagens mulheres sempre são piores?”

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Imagem do jogo MarioKart Double Dash, com Peach e Daisy em destaque.

Quando ela me disse isso, lembrei não só das princesas, mas também da Chun Li, de Street Fighter e, que, toda vez que jogávamos com ela, a piada era sobre os “gritos irritantes” que ela dava ao perder a luta. Aliás, haviam poucas mulheres em jogos de luta e a Chun Li é considerada a primeira personagem feminina desse estilo de game.

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Vega vs Chun Li.

Outro fato memorável, foi quando eu joguei Ragnarok, um jogo online, e usava a conta do meu irmão, onde eu só podia escolher personagens masculinos e, ao longo do tempo, descobri que outras meninas também usavam personagens masculinos para não serem intimidadas e assediadas no jogo (era possível casar e até ter filhos em Ragnarok) e que assim elas podiam jogar em paz e serem respeitadas. Ainda me recordo que quando contei para alguns meninos da minha turma, que eu jogava Ragnarok, fui lembrada de que “esse jogo é de menino, não acredito que você saiba jogar”.

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Poster de Ragnarok Online.

E o que isso tem a ver com machismo?

Num universo onde a maioria dos criadores são homens, não é surpreendente ver os heróis representados como homens poderosos e as mulheres como princesas lindas e frágeis. Assim como falei no texto sobre séries televisas, é impossível a visão de mundo do roteirista não interferir em sua escrita e como vivemos num mundo machista, claro que as histórias, sejam cinematográficas, televisas ou de videogames, vão refletir isso.

Eu me questionei seriamente se os personagens femininos, quando não são protagonistas dos jogos, são realmente piores que os homens e se isso era proposital. Seria necessário uma tese de doutorado para abordar esse assunto, porém não acho que essa ideia seja absurda e acredito que tenha muita coisa velada.

É claro que temos jogos (e filmes) como Residente Evil e Tomb Raider, com mulheres fortes e poderosas, mas hipersexulizadas, nos lembrando que, até mesmo as histórias de videogames, protagonizadas por mulheres, foram criadas por homens.

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Gosto muito de Tomb Raider, mas não posso deixar de notar que ela é uma personagem hipersexualizada.

Na verdade, infelizmente, não são só os criadores que refletem essa visão de mundo, como também os jogadores. O caso mais recente que vi sobre machismo no mundo dos jogos, foi em Pokémon Sun e Pokémon Moon, para Nintendo 3ds. A evolução do Pokémon Popplio, Brionne e Primarina, respectivamente, assumiu uma forma mais feminina, e não faltou foi crítica por parte dos meninos, para essa mudança.

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Imagem retirada do site Kotaku.

No site Kotaku, a autora Patricia Hernandez, relata muito bem o ocorrido, dizendo que “Nas mídias sociais, as pessoas estão criticando o design do vestido de Brionne, junto com sua delicadeza, por dar ao Pokémon um ar muito feminino.”

Hernandez continua, mostrando a verdade nua e crua “Parecer feminino é infelizmente considerado uma coisa ruim para algumas pessoas. Afinal, a feminilidade tem estigma, incluindo a suposição de que ela incorpora fraqueza, monotonia ou submissão. Ao aparentar ser ‘feminino’, Brionne não tem a chance de ser considerado ‘legal’ ou ‘forte’ por algumas pessoas, e isso é uma merda.”

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Pokémon Primarina, considerado muito “feminino” pelo público masculino.

Será mesmo que o problema está na aparência feminina ou na visão que a feminilidade tem? Nossa sociedade ainda perpetua esse erro, de ensinar que meninas são frágeis e delicadas, enquanto homens são fortes e líderes nato. Isso é um problema muito sério e que deve ser combatido a todo o custo e a mídia exerce um papel muito grande nisso. Se mantermos essas histórias, de princesas em perigo, vamos sempre acobertar o machismo, dizendo que homens são superiores só por serem homens.

Outro texto importante que achei na internet, foi o do site pokemongobrasil, dizendo que uma pesquisa feita pelo SurveyMonkey mostra que a maioria dos jogadores dos EUA, de Pokémon Go (app para smartphone), são mulheres. Isso é interessante, pois quebra aquela famosa ideia de que só homem gosta e joga videogame.

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Gráfico por: Nick DeSantir/Forbes (imagem retirada do site pokemongobrasil)

Assim, está mais do que na hora de botarmos a boca no trombone e reclamarmos, como clientes e como mulheres, sobre essa hipersexualização e submissão das personagens femininas em jogos. Muitas mulheres gostam de jogar, inclusive querem ou já trabalham na área, e tudo o que exigem é uma boa representação. Igualdade de gênero é mais que necessário e a mídia deve aderir essa causa o quanto antes, para acabarmos de vez com essa visão machista na representação das mulheres.

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Sim Peach, também estamos cansadas do machismo. #machistasnãopassarão

BIBLIOGRAFIA

HERNANDEZ, Patricia. Starter Pokémon’s ‘Feminine’ Evolution Is Bothering Some Fans. 2016. Disponível em: <http://kotaku.com/starter-pokemons-feminine-evolution-is-bothering-some-f-1787416839&gt;. Acesso em: 04 de jan. 2017. 

SCHULZE, Thomas. Como liberar todos os personagens secretos de Super Mario Run. 2016. Disponível em: <http://www.techtudo.com.br/dicas-e-tutoriais/noticia/2016/12/como-liberar-todos-os-personagens-secretos-de-super-mario-run.html&gt;. Acesso em: 04 de jan. 2017.

TADDEO, Tiago. As mulheres estão dominando o Pokémon GO. 2016. Disponível em: <http://www.pokemongobrasil.com/as-mulheres-estao-dominando-o-pokemon-go/&gt;. Acesso em: 04 de jan. 2017.

 

O poder que as histórias têm na formação do caráter humano

E por que isso tem tudo a ver com feminismo.

O machismo se manifesta de diversas formas. Pode ser no Masterchef contra a Dayse, ou nas publicações da mídia contra as famosas. Nesse ano, por exemplo, vários tabloides divulgaram que Jennifer Aniston estava grávida. Afinal, “já passou da idade, não é mesmo?”

Não, não é.

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Já na infância somos apresentados aos estereótipos de gênero. Uma das formas que isso acontece é por meio das histórias que nos contam. Quando ainda não sabemos demonstrar vontades, somos expostos a uma variedade de informações que, com o tempo, agem como blocos na construção da nossa personalidade e caráter.

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A que histórias vocês foram apresentados quando eram crianças?

Por exemplo, o vídeo da menininha que viralizou nas redes sociais, em que ela pergunta à mãe por que as roupas das meninas dizem que elas devem ser bonitas, e as dos meninos dizem que eles devem ser aventureiros, é análogo ao que estou dizendo sobre essa exposição a histórias durante a infância.

Quero dizer, ela diz “Hey!”, escrito em uma das blusas, “O que isso ao menos significa? Que mensagem isso passa?”, e compara com a frase na blusa masculina “Pense fora da caixa” que, evidentemente, diz alguma coisa.

Juro que pensei em falar sobre o ensino das crianças nesse texto. Mas aí vi que talvez eu também tivesse me esquecido o quanto é importante educarmos as adultas e os adultos. Gente, é só pararmos um pouquinho para ler os comentários das notícias, como a que Buenos Aires permitiu multa aos homens que praticarem assédio nas ruas contra as mulheres. Essa atitude do governo é ótima? É. Mas, há cada “opinião” por aí que assusta.

Vejamos alguns exemplos:

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O primeiro comentário começou mal ao dizer “não concordo com algumas bizarrices do feminismo”. Fico aqui pensando o que ele acha de tão bizarro: direitos iguais?

Então eu penso: o que aconteceu na vida dessas pessoas que as tornou assim? Quais foram os fatores ao longo do crescimento delas que impediu o surgimento da ideia de sermos iguais?

Eu admiro muito o poder da literatura e entendo que nem todos tiveram as mesmas oportunidades e privilégios que pude acessar ao longo da minha vida, mas não estou nem querendo dizer sobre o poder de compra no caso de livros. Estou falando sobre as histórias que ouvimos de forma geral. No meu caso, a literatura desempenhou bem essa função humanista na minha formação. Mas, e as pessoas machistas? Que histórias elas ouviam quando eram pequenas?

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Um exemplo para embasar o que estou dizendo é uma pesquisa da Universidade Federal do Piauí (UFPI), intitulada Influência das estórias infantis na formação dos papéis de gênero.

Os pesquisadores fizeram uma seleção aleatória de 10 livros infantis e descobriram que 72,7% dos autores eram do sexo feminino. No entanto, entre os ilustradores, as mulheres eram apenas 40%. Diante disso, para a maior parte dos personagens ilustrados correspondentes ao gênero feminino, foram atribuídas as seguintes características: gorda, baixa, feia, idosa e fraca. Por outro lado, a maior parte dos personagens ilustrados do gênero masculino receberam características como: alto, magro, bonito, jovem e forte.

“Com relação aos valores humanos associados a cada gênero observou-se que nas estórias estudadas as características relacionadas ao gênero feminino foram, paciência/tolerância, solidariedade, proteção, medo, emotividade e aspectos comumente atribuídos à imagem da mulher como um ser bondoso e frágil, porém que protege maternalmente”. (Lembra daquilo que falei sobre a Jennifer Aniston? Então.)

As atitudes precisam ser mudadas hoje

Para entender melhor nossa realidade, conferi alguns dados que mostram, em números, a presença do machismo que todas e todos nós sabemos que existe. Dê só uma olhada:

Na última quarta-feira, 7 de dezembro, o Instituto Avon e o Instituto Locomotiva lançaram a pesquisa “O papel do homem na desconstrução do machismo“.

“Mas cabe apenas às mulheres desconstruir essa cultura? Se todos nascemos, crescemos e vivemos imersos nela, não seríamos todos responsáveis por acabar com ela? E os homens, de que forma podem contribuir nesse processo?” – trecho do editorial da pesquisa O papel do homem na desconstrução do machismo.

Assim que vi essa pesquisa me lembrei do movimento HeForShe da ONU. Em outras palavras, nós, mulheres, não estamos sozinhas. Os homens também devem ser feministas e prezar pelo respeito a todos e pela igualdade de gênero.

Enquanto quase 90% dos entrevistados reconhecem a existência da desigualdade entre homens e mulheres na sociedade brasileira, apenas 59% acreditam que todas as mulheres devam ser respeitadas, não importando sua aparência ou seu comportamento.

Ou seja, gente, aproximadamente 40% acham que a aparência e o comportamento são fatores que importam para uma mulher ser ou não ser respeitada.

A pesquisa também mostra que a questão racial precisa ser levada em conta, pois também quase 90% dos entrevistados acreditam que as mulheres negras sofrem ainda mais preconceito do que as mulheres brancas.

É assustador quando vemos que 61% consideram que a mulher que se deixou fotografar também tem culpa quando um homem compartilha suas imagens íntimas sem a sua autorização. E vemos o quanto é necessário falar sobre o feminismo quando 55% acreditam que este movimento é o contrário de machismo.

Não! Feminismo defende a igualdade, não privilégios ou superioridade.

Há uma parte da pesquisa que diz o seguinte:

“A maioria enxerga que o mais importante a fazer é oferecer aos filhos uma educação na qual se ensine a respeitar as mulheres e só depois pensa em rever seu próprio comportamento. E, questionados sobre esteriótipos de gênero, mostram que, muitas vezes, não querem quebrar velhos paradigmas da desigualdade” (Instituto Avon/Locomotiva, p.14, 2016).

Entre as formas de se combater o machismo, os homens elegeram o ensino das crianças como a principal. Bacana, né? Mas, por outro lado, me chamou atenção que 43% dos homens acham que “pega mal” reclamar em um grupo de WhatsApp quando alguém compartilha fotos de mulheres nuas. Ou seja, na infância faz sentido incentivar a mudar mas quando adulto não vale o esforço.


Não é à toa eu pensar da forma como penso hoje. Está inclusive comprovado que ler Harry Potter é uma forma de estimular as leitoras e os leitores a lutarem contra o preconceito em suas mais variadas formas. A quebra de esteriótipos, pensamentos e atitudes machistas pode acontecer a partir do momento que nós falamos sobre isso. Para uns, isso é óbvio. Mas não vamos nos esquecer de que as crianças não são as únicas que precisam ser alertadas. Elas vão ouvir histórias. Se não forem contadas pelos pais, serão por outras pessoas. E essas histórias vão fazer com que elas se tornem alguém que acredita na igualdade, ou alguém que não consegue enxergá-la.

Vamos mudar isso? Vamos contar novas histórias para as adultas e os adultos?

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Bibliografia

INSTITUTO AVON, O papel do homem na desconstrução do machismo. Disponível em: <http://fsb.imcgrupo.com/>. Acesso em: 10 dez. 2016.

O GLOBO, Buenos Aires aprova multa para quem cantar mulheres na rua. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/>. Acesso em: 10 dez. 2016

SILVA, F. P. ; SOUZA, A. B. L. ; FERREIRA, R. S. ; ARAÚJO, L. F. . Representações Sociais Influência das estórias infantis na formação dos papéis de gênero, 2010 <http://www.abrapso.org.br/>. Acesso em: 10 dez. 2016

Nova plataforma da produtora e atriz Reese Witherspoon vai produzir conteúdo multimídia sobre mulheres

A atriz e produtora Reese Witherspoon divulgou na segunda-feira, 21 de novembro, que sua nova empresa Hello Sunshine vai criar histórias multimídia voltadas para o público feminino.

A Hello Sunshine é uma parceria entre a produtora de Reese Witherspoon, Pacific Standard, e a joint venture Otter Media, formada entre The Chernin Group e AT&T.  O conteúdo começará a ser divulgado em 2017 em seu site oficial e outras plataformas. E a Pacific Standard (Garota Exemplar) vai continuar a elevar e defender o storytelling feminino.

Um estudo da Universidade do Sul da Califórnia (USC) Annenberg descobriu que personagens femininas somam apenas 28,7% de todos os papéis falantes em um filme, e ainda, que as mulheres representam apenas 15% dos diretores.

Hello Sunshine se propõe a alavancar a experiência dos seus fundadores para criar, curar e descobrir conteúdo poderoso feito por e para mulheres através de todas as plataformas, desde conteúdo de mídia digital diário até shows televisivos e filmes de longa metragem.

“Estou entusiasmada em formar a parceria com Peter Chernin e AT&T nessa instigante nova companhia. Minha paixão ao longo da vida tem sido dizer histórias de mulheres com autenticidade e humor. Essa parceria vai me permitir  alcançar uma audiência maior que está ávida por mais conteúdo feminino”, disse Witherspoon (conteúdo original em inglês).

“As mulheres estão à procura de entretenimento que fale com elas sobre o que elas valorizam. Hello Sunshine vai produzir conteúdo que entretém, educa e une as mulheres”, conclui.

Interessou? Então acesse http://hello-sunshine.com/ e acompanhe as novidades!