“Mãe!” Significados e referências bíblicas 

“Mãe!” (2017), da direção de Darren Aronofsky, é uma obra para incomodar e promover discussões. Não é um filme para relaxar e assistir despretensiosamente. Admito que até a ficha cair demorou um pouco, pelo menos para mim. O início é arrastado, mas quando você percebe o que está acontecendo, cada minuto compensa. 

Este texto contém spoilers. Caso você não tenha ainda assistido ao filme, recomendo que pare a leitura aqui. 

As referências bíblicas foram surgindo aos poucos e o momento mais claro pra mim de que se tratava de uma alegoria ocorreu na cena em que o poeta (Javier Bardem) marca a testa de um dos seus leitores com tinta. Aquela imagem está tão ligada à Quarta-feira de Cinzas que não consegui imaginar mais em qualquer outra coisa além do Cristianismo. Com isso, quando o bebê nasceu, já tinha entendido que seria Jesus e não me surpreendi quando ele morreu nas mãos dos seguidores do pai dele. 

– A quebra da pedra e a morte do irmão 

Um acontecimento antes mesmo de a personagem da Jennifer Lawrence engravidar passou a fazer sentido depois que pesquei as referências bíblicas. 

O casal de hóspedes (Ed Harris e Michelle Pfeiffer), que invade o escritório do poeta – o cômodo proibido da casa -, representam Adão e Eva. Ela leva o homem até o local onde o Criador não permita a entrada de ninguém sem a sua presença. Lá, encostam e quebram o objeto mais precioso e querido do dono da casa, tal como Eva faz com que Adão coma a maçã da árvore proibida. O seguimento da história segue a mesma alegoria com a morte de um dos irmãos, tal como Caim e Abel. 

– O novo poema 

Depois das histórias do Antigo Testamento, chega uma nova era da vida do Criador. A partir do momento que a mulher engravida, ele escreve mais, o que pode ser interpretado como o Novo Testamento. A vinda de Jesus foi um divisor de águas e modificou a forma de muitas pessoas olharem o mundo. A ideia de sermos irmãos e compartilharmos as coisas fazem parte disso. Até mesmo quando o bebê morre, há a cena em que os seguidores do poeta comem seu corpo, assim como nós, católicos, comemos o corpo e bebemos o sangue de Cristo. 

No entendo, outro pensamento que também tive é que o novo poema do escritor pode ser a própria história a que estamos assistindo. Pode ser uma metalinguagem empregada ali. Afinal de contas, alguém pensou nessa história e criou aqueles personagens. O texto escrito pelo Criador pode ali no filme ser a própria história deles, o que de certa forma, se encaixa com a teoria de uma alegoria ao Novo Testamento. 

– A representação do mundo

As palavras dele se espalham e a população de seguidores surge em sua casa. Uma das cenas parecia claramente a imagem de um noticiário de protesto, ao mostrar conflito entre batalhão do choque e manifestantes. Houve música, explosões de guerra, mortes, fanatismo. Tudo o que existe e nos incomoda. Tudo o que queremos mudar, mas que foge do nosso alcance. Também queremos que parem. Entendi a dor da personagem gritando e clamando e ninguém a ouvindo. 

Nessa parte friso a crítica que o filme fez ao machismo. Chega a doer quando a mãe está sendo agredida devido a sua reação após a morte de seu filho. Os xingamentos são aqueles clássicos dirigidos às mulheres: vadia, puta, cachorra, etc. Vi um machismo também na forma como ela se portava diante do marido por meio da divisão de papéis entre eles. Ele escreve e ela arruma a casa. Depois, claro, entendemos que ela É a casa, o lar. Mas até chegar a esse ponto, ela foi retratada como a musa do poeta. 

– Ninguém ouve 

Isso tudo fez com que eu pensasse no quanto a humanidade está destruindo o mundo e parece que ninguém está ouvindo os chamados da natureza. A casa que estava sob reforma foi ficando cada vez mais danificada. As pessoas estavam derrubando e acabando com todo o trabalho da personagem. E não importava o quanto ela gritasse e pedisse, as pessoas continuavam abusando e utilizando suas coisas e roubando seus pertences. Ela tentou mostrar, mas quem poderia escutá-la? Quem está escutando? São furacões, terremotos e vulcões acontecendo e pessoas morrendo. Não seriam gritos pedindo o fim da destruição? 

– O trabalho como um parto 

Quando fazemos um trabalho que exige muito de nós, dizemos que foi “um parto”. Então acredito que essa também seja uma interpretação válida para explicar que a partir do momento que a inspiração do poeta engravidou, ele começou a escrever. Quando o trabalho foi concluído, ela deu à luz. Um trabalho importante é como um filho, é como algo que faz parte da gente, porque, afinal, é algo que veio de nós, saiu de nossas entranhas. Ao terminarmos, entregamos para o mundo aquilo que somos. E as pessoas fazem daquilo o que bem entenderem. (Desde fanfics até adaptações para o cinema, no caso de livros, por exemplo). As pessoas podem até mesmo destroçar a sua criação. Isso pode ser simbolizado na morte do bebê. (E que cena forte foi aquela!) 

“Mãe!” é provocativo e é um ótimo filme para ser visto e debatido. Você saí do cinema com vontade de conversar. Você olha pro lado e já quer falar com sua companhia: “Você entendeu o mesmo que eu?”. 

E vocês, o que entenderam depois de assistir a “Mãe!”? Deixe sua opinião nos comentários! 

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Uma resenha sobre Para Sempre Alice em forma de conto

Os créditos apareceram na tela, mas a escritora Beatriz ficou paralisada enquanto eles subiam, sem entender por que demorou tanto para assistir ao filme Para Sempre Alice.

O título não estava nem mais disponível na Netflix, mas ela precisava assisti-lo porque só assim poderia terminar a história que ela começara a escrever um ano antes, mas que ficou deixada de lado durante todo aquele tempo. Sua personagem, Dona Josefine era uma senhora com Alzheimer que recebia uma visita todos os dias.

Quando ainda estava bem de saúde, Dona Josefine gostava de cultivar flores na janela e ir ao mercado diariamente para comprar frutas e vegetais. Passou boa parte de sua vida ensinando português em uma escola no final da rua, onde conheceu seu marido. Apesar de ter amado dar aulas, sua grande paixão era a escrita. Josefine sempre teve grande apreço por cada um de seus personagens. Era quase como se eles tivessem vida própria. As manhãs eram preenchidas pelo som de suas conversas com eles. Durante o almoço o mesmo ocorria, e claro que antes de dormir também.

Mas a rotina de Dona Josefine passou a incluir cada vez menos as conversas com os personagens, o barulho reconfortante da máquina de escrever e os encontros com a filha, conforme o Alzheimer avançava.

Determinado dia, ela recebeu uma visita. Era uma moça que segurava-lhe a mão enquanto balbuciava qualquer coisa. A moça ficou ali por horas, desde que Dona Josefine acordou. E só apagou a luz e saiu quando a professora aposentada já estava pegando no sono. E não é que em outro dia Dona Josefine também recebeu a mesma visita? Ela se perguntou se aquela não era sua irmã mais velha, Cecília. Resolveu chamar por ela. A moça sorriu, mas os olhos não. Aliás, eles ficaram marejados. Em outro dia, sua filha veio vê-la. Dona Josefine então chamou por seu nome, ao que a filha respondeu “estou aqui, mamãe”.

Os dias se passaram até Dona Josefine não mais receber visitas, pois seus dias já tinham atingido a marca no relógio que contou seu tempo aqui. Era sua hora de ir. Os personagens por quem ela era apaixonada, contudo, permaneceram e jamais iriam embora. Nem ela tampouco iria. Sua história ficou aqui, independentemente do que lhe acontecera.

Beatriz sentiu que o desenvolvimento da personagem andava bem. Ela precisava, contudo, ajustar ainda diversos pontos da história que ficaram soltos. Mas, se tudo seguisse conforme seus planos indicavam, no próximo ano o livro estaria publicado.

Após ter desligado e computador, Beatriz ficou contente por ter assistido ao filme. Ele não apenas lhe servira como fonte de inspiração, mas também lhe dera força. O que ela mais gostou do filme foi de ver o desenvolvimento da relação entre a personagem principal, Alice (Julianne Moore), e sua filha mais nova, Lydia (Kristen Stewart). Ao que tudo indicava no início do filme, ela era a mais distante dos seus filhos. No jantar do seu aniversário, em outubro, ela foi a pessoa que faltou. Quando as duas conversavam sobre o futuro de Lydia, sempre discutiam. Beatriz entendeu o lado da mãe em querer que ela tivesse um sustento próprio e não dependesse do pai. Mas também entendia o lado da filha de querer buscar os seus sonhos.

No entanto, os outros filhos – que pareciam tão mais próximos enquanto ela estava bem – foram sumindo da história, enquanto Lydia aproximou-se cada vez mais da mãe, lhe fazendo perguntas sobre como ela estava se sentindo e conversando com ela por vídeo mesmo que morasse do outro lado do país.

Naquela noite, enquanto pensava sobre o filme, Beatriz pegou no sono. No quarto ao lado, sua mãe já dormia fazia algumas horas e acordaria cedo no dia seguinte com a visita de uma moça.


 

 

Nimona, a anti-heroína mais heróica (resenha sem spoilers) 

Nimona, de Noelle Stevenson, é uma história em quadrinhos divertida, inspiradora e do tipo isso-poderia-ser-considerado-infantil-mas-é-muito-mais-do-que-algo-para-crianças. Se você está procurando uma boa aventura que resgate de você aquela heroína (leia-se anti-heroína) que você sempre quis ser, leia este livro!

Quem é Nimona?

Nimona é uma menina-monstro. Ela é uma poderosa metamorfa, ou seja, tem o poder de se transformar em qualquer ser vivo “existente” que ela quiser, incluindo dragões!

Por ser a fã número 1 do maior vilão do reino, o temível Ballister Coração-Negro, Nimona inicia a aventura querendo ajudá-lo a realizar os seus malvados planos.

Em um primeiro momento, Coração-Negro não quer uma criança como comparsa, mas Nimona não aceita ter sua ajuda recusada e, quando ele vê que ela pode lhe ser útil, devido ao seu poder de transformação, diz que tudo bem, desde que ela obedeça as suas regras.

Os vilões mais divertidos que você respeita

Regras? Nimona não as conhece. Afinal, que vilão é esse que tem regras de conduta? Não pode isso, não pode aquilo. Como vão causar os transtornos que ela tanto deseja?


“Nimona” é aquela história que ensina que nem todas as pessoas são completamente boas ou más.

Quando Coração-Negro era jovem, perdeu o braço e, com isso, foi marginalizado. Estando à parte da sociedade, ele assumiu o posto de vilão. O seu trabalho era causar problemas ao reino, respeitando as leis da Instituição de Heroísmo & Manutenção da Ordem – que não é tão heróica quanto pensamos.

Além disso, gostei muito da história pela quebra de paradigmas que ela propõe, com a relação entre Coração-Negro e Sir Ouropelvis (o “mocinho” do reino). Ao longo do livro, vamos conhecendo melhor sobre esses dois e o que existe ali que provocou o acidente a Coração-Negro, ocasionando em sua saída da Instituição.

Outro ponto interessante é a mistura de tempo no universo onde vive Nimona. Poderia ser a idade média, se não fossem as televisões, geladeiras, computadores, e diversos aparatos que usamos nos dias de hoje, além das comidas, expressões e crítica social perfeitamente relacionada à nossa realidade.

Tudo isso torna o livro ainda mais encantador e divertido.

Os personagens que amamos

Nimona, discriminada desde criança por ser diferente. Ela cresce sozinha, é auto-suficiente, mas sabemos que precisa de alguém que a ajude a amadurecer. Afinal, ela vivia recusando ajuda.

Coração-Negro, discriminado desde que perdeu o braço e ficou diferente. Ele vive sozinho, é auto-suficiente, mas sabemos que precisa de alguém com quem possa se relacionar e se divertir, tornando a vida mais leve. Afinal, ele se sentia muito abandonado e magoado pelo antigo companheiro, Sir Ouropelvis, e desde então, se isolou.

Ambrosius Ouropelvis, estimado pela Instituição e por todos no reino. Ele é o exemplo para o reino, o herói. No início, sentimos até mesmo raiva de Ouropelvis porque sabemos que perfeito ele não é. Mas, com o tempo, vemos que pessoas admiradas também cometem erros e, apesar de nem todos saberem disso, no fundo, elas não esquecem e também se arrependem do mal que fizeram. É um personagem que ilustra a hipocrisia, mas em que enxergamos a essência humana, e nos identificamos quando há o reconhecimento por seus erros.

Não importa se você tem 10, 25 ou 50 anos! Nimona foi escrito para você, ser humano. 

Vamos encarar 2017 com a coragem de Nimona

Para saber mais, você pode acessar o site da criadora de Nimona, Ginger Haze, ou segui-la no Twitter! (Ambos em inglês).

Onde você encontra Nimona para comprar: