Joey & Barney: o mulherengo que NÃO precisamos em nossas vidas

Como toda fã de Friends, recentemente voltei a assistir o seriado, pois é e sempre será uma das melhores séries de comédia que já existiu. Ao mesmo tempo, também decidi rever How I Met Your Mother porque é outra sitcom maravilhosa e tem minha amada Robyn Scherbatsky (Cobie Smulders).

No entanto, agora, já com 25 anos de idade e bastante engajada no feminismo, não consigo deixar de notar e me incomodar com dois personagens dessas comédias: Joey (Matt LeBlanc) e Barney (Neil Patrick Harris).

Para quem entende das séries, provavelmente já sabe o porquê deu ter escolhido justamente esses dois personagens, mais conhecidos como os mulherengos e pegadores do grupo. Assim, farei uma breve análise e introdução dos dois e, depois, explicarei o porquê esses personagens precisam de uma bela repaginada.

1) Joey Tribbiani – FRIENDS

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“Ichiban, batom para homem.”

O Joey é um aspirante a ator, não muito inteligente, descendente de italiano, tem sete irmãs e leva muito jeito com as mulheres. Com o passar das temporadas, ele finalmente consegue um papel importante na sua carreira, como o famoso Dr. Drake Ramoray, no entanto, ao contrário dos outros, não muda muito o seu jeito de ser.

Sim, ele é hilário. Sim, tem cenas que matam a gente de tanto rir. Sim, é fofo quando ele se apaixona pela Rachel (Jennifer Aniston) e, sendo bem sincera, torci mais por esse casal do que por Rachel e Ross (David Schwimmer). Sim, sim, sim. Sabemos de tudo! Agora, vamos aos fatos:

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“Como você vai?”

Com a famosa frase “Como você vai?”, nosso querido galanteador conquista milhares de mulheres, mesmo não sendo esse colírio todo (ao menos não pra mim). E qual o problema disso?

O problema é que de todas as mulheres, apenas 2 ou 3 tem nome e mexem com os sentimentos do personagem. O resto não tem nome, sobrenome, não falam e ainda viram deboche das inúmeras piadas machistas do programa.

Além disso, lembro de um episódio que o Joey vai num apartamento que ele já tinha ido antes e fica revoltado porque acha que a mulher não lembra de ter dormido com ele. Ou seja, esquecer o nome delas, mentir, não ligar no dia seguinte, tudo bem, MAS, esquecer o famoso Joey, NÃO PODE, pois ai você mexe com o ego do bonitão. Outro episódio que me recordo, é quando a Rachel passa a morar com o Joey e eles combinam que ela iria ajudá-lo a despachar as mulheres que dormiam com ele.

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“Não estou arrependido!” Sabemos que você não está arrependido.

Novamente, eu gosto da série e do personagem, porém, devemos problematizar essas atitudes machistas e misóginas. Depois que eu falar sobre o Barney, vou refletir melhor sobre o assunto. Sigam-me os bons!

2) Barney Stinson – HOW I MET YOUR MOTHER

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O Barney tem uma ótima vida financeira, detesta relacionamento sério, foi criado, junto de seu irmão, somente por sua mãe e é o cara mais pedante e carente possível, que passa a maioria dos episódios tentando levar alguma mulher desconhecida pra sua casa e, adivinha… ele consegue!

Apesar de adorar a série, eu realmente não gosto do Barney. Acho ele chato e desnecessário, mas entendo o motivo do personagem existir e é ótimo pra discussão.

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“Desafio aceito!” Também aceitei o desafio, querido.

O personagem pega milhares de mulheres, todas sem nome, se envolve amorosamente 2 ou 3 vezes, o relacionamento mais importante é com a Robyn e, inclusive, tem um livro de cantadas, ao qual ele se vangloria e acha que deve ensinar outros homens a serem iguais a eles.

Agora que fiz uma pequena introdução dos personagens, vamos problematizar direito.

Qual o problema deles serem mulherengos e não gostarem de relacionamento sério?

O problema é simples: nossa sociedade machista. Mas como assim? O que isso tem a ver com machismo?

Tudo, eu lhes digo. Pois enquanto você, homem, é ensinado que deve sair e se relacionar com o máximo de mulheres possíveis, até encontrar a tal pra casar, caso encontre, nós, mulheres, somos ensinadas a buscar um príncipe encantado (ao qual nunca existirá) e claro, se dar ao respeito e ter poucos parceiros na vida.

Ou seja, é muito fácil pra um Joey ou um Barney paquerar uma mulher, levar ela pra cama e no dia seguinte esquecer o nome dela, pois ele já está pensando na outra que ele vai conquistar. Mas, não é fácil pra uma mulher, dentro da sociedade MACHISTA, se libertar dos ensinamentos dados a ela e ir pra cama com um cara, sem envolver sentimentos. Pior ainda é que, quando envolvemos sentimentos e ficamos interessada no outro, somos grudentas e carentes. Quando dormimos e não nos importamos com o nome dele, somos, no mínimo, vadias ou mulheres que não são pra casar.

Eu sei que muitas mulheres incríveis estão quebrando isso na vida delas e ajudando outras amigas a quebrarem também, no entanto, a verdade é que a maioria das mulheres ainda vive dentro dessa bolha e é muito difícil rompê-la, é mais difícil ainda quando vemos séries, filmes ou novelas, com os tais galãs, que perpetuam esses ensinamentos de tratar mulher como objetos sexuais e depósito de esperma.

Claro que rimos e nos divertimos com Joey e Barney, mas, se trouxermos essas histórias pra vida real, com certeza eu ou você, conhecemos alguma mulher que foi tratada desse jeito e levou bastante tempo pra superar isso, até porque, a sociedade ensina as mulheres a sempre verem defeito nela mesma, enquanto o homem vê defeito no outro.

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“Morto para mim!” Isso aí, Lily… temos que ACABAR com essa cultura machista!

Digo isso, pois, nos últimos dias, tive uma conversa com alguns amigos e eles admitiram que já xingaram muitas mulheres que o rejeitaram, enquanto eu, quando fui rejeitada, critiquei a mim mesma, pois sempre achei que o defeito estava em mim. Isso ainda é um processo, mas hoje em dia já quebrei mil tabus que não voltam mais, só que ainda sei que muitas meninas vão passar pelo o que passei e serão poucas as pessoas que vão conversar com elas e explicar que NÃO, o problema não está nelas. E pior ainda é quem justifica, dizendo que é instinto de homem. Não é instinto, mas, SIM, cultura.

Homens não pegam mulheres só por instinto, pois nós também temos instintos e todos sabemos o quanto sexo é bom. No entanto, eles são ensinados e provocados a todo o instante a irem atrás de mulheres diferentes e gozarem o máximo que puderem, sem se preocupar com o nome delas, em ligar no dia seguinte, muito menos em ter um relacionamento sério, pois, “macho que é macho”, faz isso tudo e um pouco mais.

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“Foda-se essa porra sexista.”

Sexo por sexo seria ótimo se todos tivéssemos a mesma criação, porém, enquanto nossa cultura ensinar que mulheres devem ser “belas e recatadas e que saibam o promoção do dia dos mercados” e homens “devem se sentir o máximo e acharem que seus órgãos genitais são mágicos”, Joeys e Barneys vão sempre ser homens idiotas e covardes, mas, que a sociedade sempre criticará as mulheres fáceis que quiseram deitar com eles, ao invés de criticá-los, por terem tratado elas como a presa do dia.

Me questiono ainda mais, como Joey, que tem sete irmãs, é capaz de fazer isso, sem se sentir mal. Aparentemente, se não for família, ai pode tratar mulher como objeto, né? Muito menos entendo justificarem as atitudes do Barney, dizendo que ele foi abandonado pelo pai, sem mencionar que ele tem uma mãe fantástica, que deu tudo do bom e do melhor pra ele. Claro que tem outras justificativas, como ele ter gostado de uma garota que destruiu seu coração, mas, coração partido todo mundo tem e nem por isso é razão pra tratarmos os outros de uma forma desprezível e descartável.

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Assim, fica a reflexão, do por quê não é legal ser um Joey ou Barney, ainda mais na era Tinder, em que o sexo ficou muito mais acessível. Precisamos falar de amor e sexo, mas deixando claro e evidente que amor e sexo só será algo lindo e maravilhoso de se viver, quando mulheres e homens tiverem direitos iguais, inclusive e, especialmente, na vida amorosa, evitando, assim, que mulheres sofram ou se punam por motivos e pessoas desnecessárias e que entrem em relacionamentos abusivos e destrutivos.

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Adiós, muchachos!

Para as pessoas que querem mudar isso, independente se você sai com homem ou mulher, se é hetero, bi ou gay, não importa, apenas sejam sinceros e tratem o outro como uma pessoa com sentimentos. Caso você queira só sexo, dê a chance do outro escolher, se ela/ele quer e aceita só isso, também. Talvez algo não te afete tanto, mas pro outro pode ser uma grande facada. Sendo sincero (a), você já permite que o outro escolha o melhor caminho nessa situação.

Vai ter FEMINISMO, SIM! Juntas enfrentamos o machismo de todo o dia.

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Juntinhas!!!

 

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O protagonismo feminino no cinema nacional 2016.

O cinema nacional, de uns anos pra cá, tem ganho uma força monstruosa, e não só o conteúdo, quanto a qualidade técnica, estão cada vez mais impressionantes.

Nesse ano, tivemos muitos lançamentos, alguns já batidos mas que não deixam de ter um valor simbólico, outros que não se saíram tão bem e, claro, o que nos deixaram de queixo caído.

O ano de 2016 foi um ano de muita luta pela igualdade de gênero, dentro e fora das câmeras, uma luta que vem ocorrendo há anos e cada vez mais obtém força e sucesso. Com isso em mente, nesse texto eu gostaria de destacar seis produções cinematográficas com protagonismo feminino, seja na frente ou por trás das câmeras, pois valem a reflexão, a homenagem e o orgulho de quem aprecia a sétima arte brasileira, além de ser um pequeno avanço na luta pela igualdade entre homens e mulheres no meio audiovisual.

AQUARIUS

Sinopse: Clara (Sonia Braga) mora de frente para o mar no Aquarius, último prédio de estilo antigo da Av. Boa Viagem, no Recife. Jornalista aposentada e escritora, viúva com três filhos adultos e dona de um aconchegante apartamento repleto de discos e livros, ela irá enfrentar as investidas de uma construtora que tem outros planos para aquele terreno: demolir o Aquarius e dar lugar a um novo empreendimento.”

O filme foi escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Sonia Braga. Pra quem assistiu a outra realização do diretor, Som ao Redor (2012), notou semelhanças na estrutura narrativa e na direção do filme, o que deu ao longa um estilo bem autoral, e por sinal, igualmente ao trabalho anterior, mostra toda a beleza de Recife.

No entanto, quem rouba a cena, sem sombra de dúvidas, é Sonia Braga. Ela está um furacão de personagem, de carisma, de sensualidade, de interpretação, de tudo o que você puder imaginar. A personagem principal é a força de tudo na história! É incrível assistir à garra dessa mulher ao defender seu apartamento, que é e sempre foi, seu lar, além de vermos a fragilidade desta, com assuntos mais delicados como saúde e família.

Além disso, a atriz, aos 66 anos de idade, esbanja sensualidade e inclusive quebra um grande tabu com suas cenas de sexo, pois mulheres dessa faixa etária, aos olhos da sociedade machista, não são procuradas para esse tipo de papel, já que sexo após certa idade é visto como algo grotesco e não comercial, e claro, mulheres não podem envelhecer né?

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Sonia Braga divando aos 66 anos de idade.

O drama é incrível e foi muito bem construído e levou vários prêmios mundo afora, pela potência que foi. No entanto, é importante frisar que a trama foca no público de classe média alta, então, ao meu ver, tem alguns equívocos ao retratar certas mordomias dessa classe.

No geral, esse filme é tudo o que você já deve ter ouvido falar e um pouco mais. Aquarius deu e ainda vai dar muito orgulho ao cinema nacional.

AMORES URBANOS

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Poster do filme Amores Urbanos.

Sinopse: Amores Urbanos é uma comédia dramática que conta a história de três amigos que vivem no mesmo prédio, em São Paulo. Júlia, Diego e Micaela são jovens anti-heróis, que superam desventuras amorosas e profissionais com humor e muita personalidade.”

Escrito e dirigido por Vera Egito, Amores Urbanos rompe muitas barreiras no cinema brasileiro, pois é um filme com muita carga emocional e conta histórias de relacionamentos amorosos entre pessoas, independente da sexualidade, da forma mais honesta possível.

O longa se utiliza do multiprotagonismo e segue em torno da vida de três amigos Júlia (Maria Laura Nogueira), Micaela (Renata Gaspar) e Diego (Thiago Pethit) e suas vidas amorosas, bastante desastrosas, por sinal.

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Júlia (Maria Laura Nogueira), Micaela (Renata Gaspar) e Diego (Thiago Pethit).

Não há efeitos especiais, não há nenhum artíficio “blockbuster” que prenda a atenção do público, mas tem muita história pessoal dentro do roteiro e que qualquer um na faixa dos 25-35 anos consegue se identificar com as crises pessoais dos personagens.

Além disso, é incrível termos dois protagonistas assumidamente gays, Diego e Micaela, e seus relacionamentos serem mostrados pelo lado bom e também pelo ruim, como qualquer outra relação heterosexual.

No demais, apesar de ser um filme com um público alvo muito fechado, é interessante pela narrativa, pelos personagens, pelas dores vividas por eles e como os três amigos conseguem superar todas as dificuldades juntos. Acredito que seja um filme que retrata família no sentido de conexão e não de sangue e só por isso já é possível se emocionar com o longa-metragem.

ELIS

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Cartaz do filme Elis, com Andreia Horta.

Sinopse: A vida de Elis Regina – indiscutivelmente a maior cantora brasileira de todos os tempos -, é contada nesta cinebiografia em ritmo energético e pulsante. A trendsetter cultural que sinalizou a mudança de estilos de Bossa Nova para MPB, a “pimentinha” ardente (brilhantemente interpretada por Andréia Horta), que viveu uma vida turbulenta. Ao mesmo tempo em que se chocava com a Ditadura Militar no Brasil, ela lutou com seus próprios demônios pessoais. “Elis”, o filme, está imbuído da alma da cantora e do país que ela amava.”

O filme tem a direção de Hugo Prata que também assina o roteiro, junto com Vera Egito e Luiz Bolognesi.

Estrelado por Andreia Horta, que brilhantemente encarna o papel da cantora Elis Regina, o longa segue uma narrativa clássica, e nos retrata muito bem as emoções de Elis com o passar do tempo, do começo de sua carreira ao sucesso, até sua despedida desse mundo.

Assim que assisti ao filme, fiz um texto comentando a falta de personagens femininos no roteiro, além da protagonista, Elis. Uma pessoa que com certeza faltou nesse longa foi Rita Lee, mas, infelizmente, não podemos mudar isso.

No entanto, não posso deixar de elogiar a performance de Andreia e dizer que Elis foi e sempre será um ícone para a música nacional. Toda sua história e seu talento me arrepiam só de pensar e o filme nos deixa arrepiado a todo o instante, tocando clásssicos da cantora, além de mostrar suas crises pessoais, às quais podemos nos indentificar humanamente.

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Andreia Horta como Elis Regina na cena em que Elis fala sobre a didatura militar numa entrevista internacional. “Sem querer ofender os gorilas, obviamente.”

No demais, apesar do erro de não dar voz às outras mulheres que fizeram parte dessa história, a personagem principal, seja por ser uma biografia ou não, dá um banho de presença em todos os homens em cena e nos encanta com tamanha potência, de voz e vida pessoal.

Se eu fui ao cinema apaixonada por Elis Regina, saí completamente encantada e admirada por tudo o que ela passou e conquistou. Esse filme vale a pena, não só pela boa produção, mas pelo nome que traz. Por Elis vale a homenagem e vamos torcer para que as próximas produções venham com mais protagonismo feminino e menos homens desnecessários à trama.

MÃE SÓ HÁ UMA

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Cartaz do filme Mãe só há uma.

Sinopse: Mãe só há uma é uma tragédia adolescente que confronta a idéia de família, de identidade, de cultura: Pierre, 17 anos, mora no interior de São Paulo com sua amorosa mãe Aracy e sua irmã Jaqueline. Vive uma vida louca até que a polícia aparece em sua casa com uma delicada suspeita. Joca, 13 anos, mora na capital de São Paulo com sua mãe ausente Gloria, seu delicado pai Matheus e sua empregada Marly. Um exame de sangue vai revelar o que havia oculto em sua família.”

Longa escrito e dirigido por Anna Muylaert, primeiro longa lançado após o sucesso de “A Que Horas Ela Volta (2015)”.

A história é baseada num acontecimento real, o famoso “Caso Pedrinho”. Eu era muito nova na época, mas lembro das notícias contando o caso do menino que foi sequestrado por um mulher, que até então assumiu o papel de mãe – e para ele, realmente foi a mãe dele – e 16 anos depois, a polícia o encontra e o leva para sua família biológica.

Apesar desse forte cunho para o lado do suspense, a diretora trabalha a trama de outra forma, bastante singular por sinal. A narrativa já começa com a separação de Pierre com sua mãe “adotiva” e o vemos lidar com a nova vida, além de lidar com sua identidade de gênero e sexualidade.

Pierre gosta de vestir roupas femininas, apesar de ser considerado do gênero masculino, e se relaciona tanto com meninas, quanto com meninos. O interessante disso tudo, é que na ficção criada pela diretora, o rapaz que, até então, poderia explorar seus gostos pessoais na vida que tinha, ao chegar no novo lar, sua sexualidade e rupturas de gênero não são aceitas, e por sinal, são o principal problema da boa relação nesse novo núcleo familiar.

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Don’t call me son (Não Me Chame de Filho), título do filme na versão em inglês.

Acredito que a maioria do público assistirá ao filme e poderá se decepcionar pelo o roteiro não focar na parte do sequestro e da revelação de tudo, mas irá se deliciar com essa narrativa única, de pertencimento e não pertecimento de um menino ao seu corpo, seu gênero, sua sexualidade e a sua mais nova família.

No demais, Anna Muylaert surpreende novamente e traz mais um orgulho para a cinematografia brasileira.

MATE-ME POR FAVOR

 

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Cartaz do filme com a atriz e protagonista Valentina Herszage.

Sinopse: Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Uma onda de assassinatos invade o bairro. O que começa como uma curiosidade mórbida se apodera cada vez mais da vida dos jovens habitantes. Entre eles, Bia, uma garota de 15 anos. Após um encontro com a morte, ela fará de tudo para ter a certeza de que está viva.”

Escrito e dirigido por Anita Rocha da Silveira, Mate-Me Por Favor é, na minha opinião, o filme do ano. Eu diria isso por razões que vão além de considerar um filme um sucesso ou não. O longa é uma mistura de suspense, com thriller, com alívios cômicos, e além de mostrar a vida pessoal de Bia (Valentina Herszage) e suas amigas, nos mostra como todas lidam com os assassinatos que vem ocorrendo na região em que moram, a Barra da Tijuca.

Esse longa-metragem rompe com tantas regras cinematográficas, mas de uma forma tão magnífica, que quase cria um novo gênero no cinema nacional. Não lembro de nenhum outro filme brasileiro que siga esse exemplo, talvez porque infelizmente não é fácil produzir filmes por aqui ou porque também não é fácil divulgar os filmes já realizados, mas nenhum me vem à cabeça e eu fiquei encantada com essa trama.

O filme não só nos dá agonia e receio por tudo o que está acontecendo com as mulheres assassinadas, nos remetendo ao medo que todas as mulheres têm no dia a dia, como ainda nos surpreende com cenas transcedentais e outras engradíssimas, como as sequências do culto Evangélico “Funkeiro”.

Clipe da música Sangue de Jesus, incluída no filme.

Aproveito para dizer que a trilha sonora está impecável e ela vai de músicas transcedentais até Claudinho e Buchecha. Preciso dizer mais alguma coisa para te convencer a assistir ao filme?

No demais, o longa-metragem consegue entreter, causar e nos fazer refletir sobre como é ser uma menina no mundo em que vivemos e como desde jovens, meninas enfretam medos que, infelizmente, as cercam pelo resto da vida.

PEQUENO SEGREDO

 

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Cartaz do filme Pequeno Segredo.

Sinopse: O longa-metragem de ficção, baseado na história real de Kat Schurmann e que também inspirou o best-seller homônimo de Heloísa Schurmann, revela a força do amor no destino de duas famílias. Ao adotar Kat, o casal Schurmann convive com a delicada escolha de manter ou não um segredo que vai além da adoção.

Dirigido por David Schurmann, Pequeno Segredo, da lista, é o filme que mais foge do ritmo dos outros. A trama começa um pouco perdida, ao tentar situar a história de duas famílias que estão conectadas e só com o desenrolar da história que iremos entender o porquê.

A produção está excelente, mas peca em algumas coisas como direção de atores, no entanto, do meio do filme até o fim, é impossível você desconectar seus olhos da tela. Estamos lidando diretamente com a dor de duas famílias, em proteger Kat (Mariana Goulart), não só do seu “segredo”, como da reação dos outros ao descobrirem esse segredo.

É baseado numa história real, aliás, o diretor do filme é irmão de Kat Schurmann , personagem principal, e fica nítido, a todo o tempo, o amor e carinho que Kat recebeu ao longo de sua vida, além de nos fazer lidar diretamente com tabus que nossa sociedade simplesmente tem medo de tocar.

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Capa do livro de Heloisa Schurmann, com a verdadeira Kat Schurmann.

Mistérios a parte, eu optei por não contar o segredo da protagonista porque é algo muito importante e simbólico para a narrativa e irá surpreender a qualquer um que não conheça a história, ou que conheça, mas verá, através da ficção, o que aconteceu na vida de todos os que estavam presentes na história.

INDICAÇÃO BÔNUS

JUSTIÇA

Apesar de ser uma minissérie, logo foge do tema que é voltado para o cinema, não posso deixar de comentar essa obra-prima criada por Manuela Dias.

Sinopse: A narrativa segue a história de quatro personagens, que no mesmo dia, são julgados e condenados a sentença de seus “crimes” e, a todo o instante, lidamos com a pergunta: “Justiça pra quem?”

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Vicente(Jesuíta Barbosa), Fátima (Adriana Esteves), Rose (Jéssica Ellen) e Maurício (Cauá Reymond).

Cada episódio segue o desenrolar da condenação de um dos protagonistas, mas todas as histórias estão interligadas entre si.

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Vicente Menezes (Jesuíta Barbosa), possuído por ciúme e raiva, atira e mata sua noiva, covardemente, ao vê-la se relacionando com o ex. Ele pega cinco anos de cadeia e, ao sair, busca mais que tudo, o perdão de sua sogra, interpretada por Deborah Block.

Caso Fátima Libéria do Nascimento

A personagem Fátima, interpretada por Adriana Esteves, que está maravilhosa no papel, atira no cachorro do vizinho para proteger seu filho pequeno. Com raiva do ocorrido, o vizinho, Douglas (Enrique Díaz), que é policial, enterra drogas no terreno de Fátima e esta é condenada  por tráfico. Quando sai da cadeia, Fátima tem o sonho de reconstruir a família, mas o marido Waldir (Ângelo Antônio) já faleceu, seu filho Jesus (Bernardo Berruezo/Tobias Carrieres) se tornou morador de rua e a filha Mayara (Letícia Braga/Julia Dalavia) se prostitui.

Caso Rose Silva dos Santos

Comemorando ter passado no vestibular, numa festa na praia, Rose (Jéssica Ellen) é presa com drogas dos amigos, enquanto sua melhor amiga, Débora (Luisa Arraes), é liberada. Rose sai da cadeia sem ter para onde ir e busca por Débora, agora casada e com um grande ódio dentro de si. Débora conta a Rose sobre o dia em que foi estuprada e, assim, as duas decidem procurar o homem que a violentou e fazer justiça com as próprias mãos.

Caso Maurício de Oliveira

Maurício (Cauã Reymond) foi preso por eutanásia, após matar sua esposa Beatriz (Marjorie Estiano), uma bailarina que foi atropelada e ficou paraplégica. Ao sair da cadeia, Maurício planeja se vingar de Antenor (Antonio Calloni), que durante a fuga com o dinheiro roubado do sócio, atropelou sua esposa e não prestou socorro.

Essa minissérie nos faz questionar tantos problemas do nosso dia a dia, além de nos entreter a todo o instante, com histórias maravilhosas e muito bem desenvolvidas. Eu devorei essa minissérie e fiquei extremamente orgulhosa por saber que foi criada por uma mulher, Manuela Dias, e que foi lançada em canal aberto, pois este não é um espaço que aceite tanta quebra de tabus.

Recomendo o drama pois vivemos num mundo em que Justiça é algo extremamente questionável, pois esta, infelizmente, não é feita para todos. No entanto, podemos e devemos questionar o que deve ser feito para que finalmente todos possam ser tratados da mesma forma perante a lei.

Além disso, a trilha sonora da série está impecável, com músicas do Johnny Hooker, por exemplo.

Nurse Jackie: a protagonista que trai o marido.

Você sabia que existe uma “regra” na televisão americana, em que mulheres não podem trair seus maridos?

De acordo com o livro Na sala de Roteiristas, escrito por Christina Kallas, essa é uma, de provavelmente muitas, das regras veladas das emissoras. O livro fala sobre a sala de roteiristas, muito comum na televisão norte-americana, em que alguns ou vários roteiristas sentam-se numa sala e discutem os episódios da série em questão.

A autora entrevista diversos profissionais da área, alguns roteiristas e produtores-executivos, sobre suas experiências no writer’s room e seus trabalhos em séries famosas como: Sex and the city, Gilmore Girls, Game of Thrones, Mad Men, etc.

O assunto que mais me chamou a atenção foi na entrevista do showrunner* Warren Leight, em que ele comenta sobre essa regra, dizendo que se o personagem feminino trair o marido no programa, as chances do público não gostar mais dela são grandes.

trairnaopodeTrecho do livro Na sala de roteiristas.

Com isso em mente, fiz questão de assistir a série que quebra essa norma, Nurse Jackie, e entender melhor esse regulamento, que mais parece uma imposição. O programa teve sete temporadas e, até agora, assisti as duas primeiras.

Antes de tudo, gostaria de deixar claro que traição não é legal. Quando estamos numa relação monogâmica, seja com quem for, trair é mentir e enganar o outro. Isso quebra a confiança e, pior, afeta a auto-estima do outro e pode causar feridas incuráveis. É muito melhor e mais saudável, quando se há vontade de ficar com outras pessoas, que o casal discuta a respeito e chegue num consenso, onde eles podem abrir a relação ou ser poliamoristas, por exemplo.

Porém, a verdade é: traição existe e ela não é restrita a nenhum gênero. Ela acontece por várias razões e a intenção aqui não é julgar, mas sim compreender o motivo desse princípio absurdo, em que personagens mulheres não podem ou não devem trair seus companheiros, mesmo que na ficção.

Esse assunto surgiu depois que a escritora perguntou “Você dá ouvidos a coisas como ‘o público não vai gostar disso’?” Com essa questão, Warren diz que na sala de roteiristas de Mad Men, eles queriam que a esposa do protagonista, Don Draper (Jon Hamm), tivesse um caso. Eu não assisti essa série, mas na sequência ele conta que a personagem, Betty Draper (January Jones), “acabou traindo, mas não gostou, ou a experiência só serviu para ela dar o troco no marido, mas foi um erro”.

img_8761-jpgTrecho tirado do livro Na sala de Roteiristas.

Refletindo sobre o assunto chego a conclusões óbvias: numa área de trabalho onde a maior parte dos escritores são homens brancos, é difícil conseguir mudar regras as quais eles mesmos criaram.

Além disso, Nurse Jackie, citada na entrevista, tem como protagonista Jackie Peyton (Edie Falco) e ela trai o marido. A série exibida no canal Showtime, foi lançada em 2009 e teve sete temporadas de dez a doze episódios cada. Ou seja, a série pode ser considerada de sucesso, pois um programa que chega ou passa da quinta temporada, já ganha tal mérito.

A trama é protagonizada por Jackie, uma enfermeira de personalidade forte, que entende mais do que alguns médicos sobre salvar vidas, é uma viciada em remédios, e você a ama porque ela faz coisas como: jogar a orelha cortada de um homem na privada porque ele batia na mulher. Isso é contra os princípios da medicina em que a médica ou enfermeira tem que tratar todos os pacientes da mesma forma, mas nossa personagem nunca se contém.

Ademais, um dos arcos principais da trama, é a vida amorosa de Jackie em que, já no piloto da série, a vemos tendo relações com o farmacêutico, Eddie Walzer (Paul Schulze), e retornando a casa para seu marido, Kevin Peyton (Dominic Fumusa), e suas filhas, Gracie (Rubie Jerins) e Fiona (Mackenzie Aladjem).

Essa parte da série não só é importantíssima pra história, como nos prende a todo o instante, e nos provoca a desvendar essa misteriosa mulher, que esconde sua vida pessoal no trabalho e conta poucos detalhes para sua família sobre seu dia a dia no hospital. Até onde vi da série, não dá pra entender os motivos pelo qual Jackie tem um amante – que por sinal, ele não sabe que ela tem marido e filhas – mas isso é o de menos. Assim como é “aceitável” que Don Draper trai sua mulher e sua vida segue normalmente, a vida de Jackie tem o mesmo rumo e nos deliciamos com essa série de comédia dramática que é muito bem escrita e desenvolvida.

Outro caso famoso de traição de uma mulher, também citado na conversa com Warren, é a de Dr. Addison Montgomery (Kate Walsh), em Grey’s Anatomy. Essa mulher linda e maravilhosa retorna a vida de seu marido, Derek Shepherd (Patrick Dempsey), depois de todos os problemas da traição, e faz tanto sucesso com o público que ganhou sua própria série, chamada Private Pratice (2007-2013). Uma série que inclusive teve seis temporadas e é trabalho da deusa Shonda Rhimes.

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Kate Walsh no papel de Addison Sheperd. “Oi, Eu sou Addison Sheperd.”

Mais um exemplo de caso extraconjugal é Skyler White (Anna Gunn), da série Breaking Bad, que trai o famoso professor de química e traficante, Whalter White (Bryan Cranston). Dizer que alguma dessas séries não fez sucesso é loucura. Dizer que essas personagens não são adoradas pelo público é insanidade.

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A atriz Anna Gunn que interpretou Skyler White.

Isso prova que essa regra está dentro da cabeça dos homens que escrevem as séries, que deixam clara sua visão de mundo. Talvez por nunca aceitarem ser traídos, talvez por querer impor isso, ou pelo simples fato de que nossa sociedade impõe tantas coisas as mulheres, como ser uma boa esposa e fiel a seu marido, que isso fica nítido nas histórias por trás e dentro da ficção.

Mesmo sendo dito na entrevista que esse padrão vem da televisão aberta, o exemplo citado – a traição em Mad Men – vem de um canal fechado e passou pelo mesmo problema que qualquer outro canal aberto teria: ser escrito e produzido por homens brancos.

Assim, ao escrever uma série, é impossível a visão de mundo do roteirista não tomar conta de seus personagens e suas tramas, e como a maioria são produzidas por pessoas do sexo masculino, acaba sobrando pras personagens mulheres as regras que os homens sempre nos impõem. Ainda bem que temos Jackies, Addisons, Skylers, para romper com esses padrões e nos encantar com suas histórias fictícias.

*O Showrunner é o cabeça de equipe de uma série televisa. Além de produtor executivo, é roteirista e costuma tomar a decisão final dos episódios.

Bibliografia

KALLAS, Cristina. Na sala de roteiristas. 2014.