Amor & Sexo & FEMINISMO

Você conhece o programa Amor & Sexo, exibido no canal Rede Globo e apresentado pela Fernanda Lima?

Para quem não conhece o show, ele foi lançado em 2009 e aborda sexualidade de uma maneira direta, porém sutil. Tanto a apresentadora, quanto os convidados famosos e a plateia falam sobre a liberdade individual, diversidade e respeito nos relacionamentos, estimulando o diálogo entre amigos e famílias.

Cada temporada possui dez episódios e, cada episódio, possui um tema específico. Nesta quinta-feira, 26, o programa estreou sua décima temporada e o assunto da vez foi o FEMINISMO.

“A gente acredita na igualdade de direitos entre homens e mulheres. Para quem não sabe, isso é feminismo” diz a apresentadora.

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A apresentadora e redatora final, Fernanda Lima.

Particularmente, sempre achei as pautas do Amor & Sexo maravilhosas e, elas me ajudaram muito, para entender melhor sobre sexo e relacionamento, visto que o primeiro ainda é um grande tabu na nossa sociedade e ambos vêm carregados de regras machistas.

Com isso em mente, o episódio de ontem fez HISTÓRIA e nós precisamos falar sobre isso. Quando um canal aberto como a Globo, que normalmente investe em conteúdos com padrões conservadores e misóginos, exibe um espetáculo de empoderamento feminino, todos nós, seres humanos, ganhamos e MUITO.

O programa começou com uma apresentação musical, como de costume, com a música “Piranha*” e, seguiu, com Fernanda Lima, as bailarinas e as convidadas, “queimando” sutiãs e questionando o machismo que cada uma vivencia no dia a dia.

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Ao tirar o sutiã e queimá-lo, cada mulher falava uma frase empoderada, como: “Se eu quiser, eu dou na primeira vez.”

Nesse momento, algumas convidadas usaram palavras como piranha, vadia, vagabunda, que, sempre vêm carregadas de ódio e repressão e as deram novos significados, como:

Piranha: “É o direito de fazer o que quiser com o nosso corpo”, dito pela pesquisadora na área de Filosofia Política e feminista Djamila Ribeiro.

Além disso, a apresentadora abriu espaço para outras vozes feministas, além dela, como mulher cis, branca e hétero, para falarem das suas necessidades. Como já foi dito no site do Projeto Nellie Bly, no texto “A luta feminista: dos anos sessenta aos dias atuais”, é muito importante entendermos que dentro do feminismo existem várias questões, mas, se as mulheres não se unirem e deixarem de abraçar as questões das outras, todas nós perdemos.

Sendo assim, o programa convidou as cantores Gaby Amarantos e Karol Conka, que falaram do feminismo das mulheres negras e, também, abriu espaço, mesmo que pouco, para mulheres da comunidade LGBTQ. Infelizmente, estas últimas não tiveram muita chance de falar, no entanto, a cantora da banda do programa é a drag queen Pabllo Vittar e isso já é incrível e merece ser aplaudido, além de que, a primeira bailarina a queimar o sutiã, falou: “Pelo prazer de ser uma mulher homossexual”.

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A apresentadora e redatora final, Fê Lima, ainda deu espaço para Thais Ataíde falar da Marcha das Vadias*, que começou no Canadá em 2011, quando um policial foi dar dicas de seguranças e errou feio, dizendo que mulheres deveriam evitar se vestir como vadias para não serem estupradas. A partir disso, mulheres do Canadá e, agora, de todo o mundo, participam dessa Marcha, vestidas de “vadias”, para mostrar que independente da roupa que usamos, homem NENHUM tem o direito de encostar no nosso corpo, sem a nossa permissão.

E o que falar da habitante da Galáxia Clitoriana, que, inclusive, fez questão de mudar seu gênero e se autonomeou A Clitória?

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Grace Gianoukas como Clitônia.

A atriz e humorista, Grace Gianoukas, fez uma participação vestida de Clitóris (órgão do prazer feminino) para falar do orgasmo feminino e quebrar mais este tabu, visto que a maioria das mulheres nunca teve um orgasmo na vida. Com a fala “Yes, nós temos ereção!”, a personagem deixou claro que PRECISAMOS FALAR DE ORGASMO E CLITÓRIS, SIM, até porque, senhoras e senhores, somente nós, mulheres, conseguimos ter orgasmos múltiplos e isso é maravilhoso!

Ademais, em uma das cenas mais lindas, Elza Soares foi homenageada no programa de estreia e LACROU*, entrando no palco sentada num trono em forma de salto alto, aonde cantou e, depois, falou da sua história de vida e como batalhou para conquistar seu espaço. Hoje, Rainha Elza, é uma das maiores artistas do Brasil, não sendo à toa que a cantora e compositora venceu o Grammy Latino 2016 pelo disco “A Mulher do Fim do Mundo“.

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Elza Soares em Amor & Sexo.

Por fim, depois de muitos assuntos maravilhosos, debatidos de forma descontraída e divertida, Fernanda Lima fala sobre o Ligue 180 – número para denúncia da violência contra a mulher – e fecha o show, mostrando que mesmo com todas as conquistas para a igualdade de gênero, as estatísticas no Brasil confirmam que ainda são necessárias MUITAS MUDANÇAS, pois “A cada 11 minutos, uma mulher é estuprada no Brasil”.

Trecho em que a apresentadora fala sobre as estatísticas.

BÔNUS DO DIA

Para quem tem interesse em assistir o episódio comentado, segue o link no YouTube, com o programa completo.

Link com o episódio de estreia da décima temporada de Amor & Sexo.

*Piranha: música interpretada por Alípio Martins.

*Marcha das Vadias: é um movimento que surgiu a partir de um protesto realizado no dia 3 de abril de 2011 em Toronto (Canadá) e, desde então, se internacionalizou, sendo realizado em diversas partes do mundo. A Marcha protesta contra a crença de que as mulheres que são vítimas de estupro teriam provocado a violência por seu comportamento. As mulheres durante a marcha usam não só roupas cotidianas, mas também roupas consideradas provocantes, como blusas transparentes, lingerie, saias, salto alto ou apenas o sutiã.

*Lacrou: é uma gíria que corresponde a um elogio para quem foi muito bem em alguma coisa, que deixou os outros sem fala ou sem reação.

BIBLIOGRAFIA:

GSHOW.’Amor & Sexo’ fala sobre feminismo em programa de estreia. Confira!. 2017. Disponível em: <http://gshow.globo.com/tv/noticia/amor-sexo-fala-sobre-feminismo-em-programa-de-estreia-confira.ghtml&gt;. Acesso em: 27 de jan. 2017.

GSHOW. ‘Elza Soares é homenageada na estreia de ‘Amor & Sexo’: ‘Ia até o inferno por amor, hoje não vou mais’. 2017. Disponível em: <http://gshow.globo.com/tv/noticia/elza-soares-e-homenageada-na-estreia-de-amor-sexo-ia-ate-o-inferno-por-amor-hoje-nao-vou-mais.ghtml&gt;. Acesso em: 27 de jan. 2017.

SPM. Central de Atendimento à Mulher. 2017. Disponível em: <http://www.spm.gov.br/ligue-180&gt;. Acesso em: 27 de jan. 2017.

WIKIPEDIA. Marcha das Vadias. 2017.Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Marcha_das_Vadias&gt;. Acesso em: 27 de jan. 2017.

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Dois Irmãos e a violência como sinal de masculinidade

Nesse ano de 2017 foi lançada a minissérie Dois Irmãos, no canal Rede Globo. A produção é baseada na obra de Milton Hatoum, foi escrita por Maria Camargo e tem direção artística de Luiz Fernando Carvalho.

A produção técnica do programa, assim como a maioria das produções do canal, é incrível e digna de Hollywood. Da fotografia ao som, não há o que questionar. No entanto, o conteúdo, mais especificamente, o roteiro, não segue o mesmo caminho e perpetua esteriótipos que estão mais do que na hora de serem questionados e quebrados na programação brasileira.

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Sinopse: A história gira em torno de dois irmãos gêmeos idênticos, Omar e Yaqub, que têm personalidades conflitantes desde pequenos, e suas relações com a mãe (Zana), o pai (Halim) e a irmã (Rânia). Moram na casa da família a empregada Domingas e seu filho, Nael. O menino é quem narra, após trinta anos, os dramas que testemunhou calado. Do seu canto, ele vê entes da família de origem libanesa terem desejos incestuosos e se entregarem à vingança, à paixão desmesurada, em Manaus.

No primeiro capítulo, somos apresentados a Manaus, mais parecida com uma vila, em plena década de 20. Na trama, o personagem Halim (Bruno Anacleto) é apaixonado por Zana (Gabriela Mustafá) e, um dia, decide entrar no restaurante do pai desta e recitar um poema. Assim, com esse simples gesto, a menina se encanta e está decidida e a se casar com o moço.

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Halim (Bruno Anacleto) e Zana (Gabriela Mustafá)

Recentemente, vi uma crítica que dizia achar incrível que Zana avisa ao pai que irá se casar, como quem diz que vai na padaria. Porém, ao meu ver, eu questiono muito essa forma de romance, em que nada acontece e é só o rapaz declamar um poema para que a menina, considerada a mais linda da cidade, caia de amores. Eu amo poemas e poesias, mas convenhamos que ninguém se apaixona por alguém em três segundos, muito menos por causa de uma declamação , a não ser em filmes à la Disney.

A partir disso, os anos se passam e o casal está pronto para ter filhos. Na verdade, a mulher que exige filhos, já que o marido, não gostaria de ser pai. Assim, eles têm os gêmeos Omar e Yaqub, e se inicia toda a tragédia.

De acordo com o narrador, o filho “caçula”, Omar, nasceu muito fraco e quase morreu e, por isso, a mãe o cuidou com mais zelo e carinho, do que seu irmão. Por meio dessa preferência da mãe, surgiu uma relação de ciúme doentio dentro da família, do pai com os filhos e de Omar (o filho queridinho) com Yaqub (o menino calado).

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Os intérpretes de Omar e Yaqub, Lorenzo e Enrico Rocha, Matheus Abreu e Cauã Reymond.

Por meio disso, a história incita o ódio entre os irmãos o tempo todo, justificando a briga e violência destes, por causa de ciúmes e culpando todas as mulheres envolvidas. Ainda no capítulo 1, Omar, agora com uns 10 anos de idade, e Yaqub, se apaixonam por Lívia e esta, parece interessada nos dois. Não conhecemos nada da menina, ela simplesmente aparece para “provocá-los” e causar discórdia.

Na cena em que eles vão a exibição de um filme, na casa dos vizinhos, Yaqub beija Lívia e Omar, possuído pelo ciúme e ódio, quebra uma garrafa de vidro e corta o rosto do irmão. Zana, a mãe sofredora, não sabe lidar com a situação sem magoar um dos filhos e Halim, o pai bipolar, decide enviar o filho machucado para o Líbano, seu país de origem, por alguns anos.

Nesse trailer da série é possível ver a cena do corte.

O tempo passsa e a relação de Zana e Omar, agora confusa, com beijos no pescoço e pegadas por trás, fica mais forte e ambígua, enquanto Yaqub, volta, anos depois, mais quieto do que nunca e sem se sentir um membro da família. Ou seja, Yaqub, quem levou a cortada, que foi mandado embora e, exatamente ninguém, sentou para conversar com Omar e dizer que o que ele fez foi errado.

Por meio de narrativas assim, continuamos a ensinar aos meninos que quanto mais violento e dominador eles forem, mais eles provarão sua masculinidade. A mídia, seja televisão, cinema, internet, quadrinhos, etc, tem um papel essencial na construção de um indivíduo e quando mostramos cenas nesse estilo , crianças e adultos permanecem com a ideia estereotipada de masculinidade como forma de oprimir e dominar.

Além disso, a não ser pela personagem Zana, que é a mãe dos gêmeos, todas as mulheres mal falam e tampouco tem personalidade e histórias interessantes. A maioria aparece para saciar as vontades dos homens ou causar “discórdia” entre eles, o que me fez lembrar o texto que li no site groknation.com, “Porquê mulheres são vistas como puritanas ou putas?”.

Na imagem, a personagem Lívia, mais conhecida como a “causa” da discórdia entre os irmãos.

Segundo uma das colaboradoras do groknation*, Sa’iyda Shabazz, “As duas primeiras imagens de mulheres foram ou a Virgem Maria ou Maria Madalena, uma prostituta que buscava a redenção de Jesus. Quando somente há duas únicas visões de mulheres, desde os primórdios, como é que se supõe que iremos passar adiante disso? […] Nós ainda preferimos manter as mulheres ao padrão da mãe virgem, porque é mais seguro, do que ver as mulheres como pessoas totalmente formadas que podem desfrutar de algo como o sexo, sem motivos de procriação.” (Tradução livre)

Outro detalhe interessante é vermos as cenas de Zana e Rânia, sua filha, numa eterna disputa de poder e beleza, além de que, conforme a própria narração diz sobre a mãe: “ao envelhecer, Zana perde sua beleza para a filha”. Enquanto jovens, somos lindas, quando envelhecemos, somos esquecidas e rechaçadas e, claro, a disputa entre mulheres não foge nem dentro da família. Nao sei aonde iremos parar com esses “ensinamentos”.

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Zana, interpretada por Gabriela Mustafá, Juliana Paes e Eliane Giardini.

E o quê falar da personagem Domingas (Zahy Guajajara)?

Quando criança, ela fica órfã e é entregue à Zana, como um presente, para servir como empregada doméstica, mas, na verdade, ela se torna uma escrava. O próprio narrador, que é seu filho, comenta “Domingas é meio ãma, meio escrava”. Meio não, ela é escravizada, humilhada e abusada o tempo todo. Inclusive, a personagem é estuprada pelo gêmeo Omar e NINGUÉM comenta o assunto e a jovem ainda é humilhada, quando anda com seu filho pela cidade, chamada por nomes horríveis, até mesmo pela “patroa”, que diz não querer “um filho de ninguém” em sua casa.

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Domingas (Zahy Guajajara).

Será que ninguém percebe o quão errado é isso? No momento em que uma das personagens é humilhada, estuprada, abusada, e não tem sequer voz e história por trás, fica a entender de que ela pertence à família e eles podem fazer o que quiserem com ela, especialmente os homens. Esse tipo de história concretiza a ideia de que nós, mulheres, somos meros objetos de prazer masculino. E não, nós NÃO somos! Sem contar que, também remete à ideia de que índios são inferiores, sendo justificável os brancos, no caso, libaneses, escravizá-los.

Para piorar, as outras mulheres, maioria negras ou estrangeiras, aparecem quando Omar quer transar ou quando quer provocar sua família, em particular sua mãe, que insiste em humilhar as moças, as chamando de vadias e destruidoras de lares, passando a mão na cabeça do filho, que estupra, abusa e soca quem ele quiser, sem nunca ser punido.

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O filho quem leva a “destruidora de lares” para casa e ela quem é humilhada e expulsa do lugar.

Por fim, entendemos que a redenção de Omar acontece, quando seu filho, Nael, vindo de um estupro, estende suas mãos ao “pai”, querendo ouvi-lo dizer perdão. Infelizmente, Omar, assim como a maioria dos homens, que usam e abusam de sua “masculinidade”, nunca assume e, talvez, nem entenda seus erros, enquanto, Domingas são esquecidas e jogadas ao mar. É simplesmente cansativo vermos minisséries como esta, em que os homens seguem esse padrão de violentar quem eles bem quiserem para provar seu lugar como macho alfa e nunca serem reprimidos ou punidos por seus crimes.

Até quando insistiremos em histórias assim?

Ano passado, tivemos o prazer de assistir Justiça que, mesmo tendo histórias tristes e pesadas, deu um show de humanidade. Então por que não vemos mais programas como este, ao invés de Dois Irmãos, que somente investe em misoginia, preconceito, ódio e mais ódio? O que estamos querendo passar aos nossos meninos/homens e o que estamos dizendo sobre nossas meninas/mulheres?

Para refletir sobre o assunto, indico o documentário the Mask You Live In , abordado pela Louise Queiroga, no texto “A máscara que os meninos usam”, em que a autora diz O filme aborda como a masculinidade é socialmente construída e o quanto isso fere a forma de como os homens poderiam se expressar”. Ademais, o doc ainda mostra como a mídia influência no desenvolvimento de caráter de uma pessoa.

Sendo assim, uma produção que tinha tudo para ser extraordinária, acaba ferindo as mulheres e perpertua a educação machista de nossa sociedade. Uma das coisas que salva o programa, é a maravilhosa interpretação de Juliana Paes e Eliane Giardini, mas, até mesmo a primeira, quando elogiada, tem seu corpo e nudez glorificado e o talento velado.

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As primeiras notícias do Google, ao pesquisar sobre a atriz na minissérie, são sobre as cenas em que ela aparece nua.

*groknation.com: é o site da atriz e neurocientista Mayim Bialik, mais conhecida pelo papel de Amy Farrah Fowler, na sitcom americana The Big Bang Theory.

BIBLIOGRAFIA:

GROKNATION. FEMINISM 101: WHY ARE WOMEN ONLY SEEN AS “PRUDES” OR “SLUTS”?. 2017. Diponível em: <http://groknation.com/women/feminism-101-why-are-women-only-seen-as-prudes-or-sluts/&gt;. Acesso em: 22 de jan. 2017.

GSHOW.‘Dois Irmãos’: conheça a história da nova minissérie da Globo. 2017. Disponível em: http://gshow.globo.com/tv/noticia/2016/11/dois-irmaos-conheca-historia-da-nova-minisserie.html&gt;. Acesso em: 22 de jan. 2017.

WIKIPEDIA. Dois Irmãos. 2017. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Dois_Irmãos_(minissérie)&gt;. Acesso em: 22 de jan. 2017.