American Horror Story: Cult e o futuro que mais tememos

American Horror Story é uma série de terror norte-americana, criada por Ryan Murphy (também criador de Glee), que a cada temporada exibe universos diferentes com os mesmos atores.

Ela está na oitava temporada, mas esse post será dedicado inteiramente a sétima temporada, American Horror Story: Cult.  (p.s. o post contém alguns spoilers, mas nada que afete a trama principal)

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Cartaz da sétima temporada.

A narrativa dessa temporada começa literalmente um dia após Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, ganhar as eleições de 2016. Antes que pense que é baseado em fatos reais, não é, mas poderia ser e esse foi o motivo de eu fazer essa análise.

Nós seguimos a história de um casal lésbico, Ally Mayfair-Richards (Sarah Paulson) e Ivy Mayfair-Richards (Alison Pill), após a ascensão de Trump e o declínio mental de todos os personagens em volta das duas.

Assim que o candidato, que odeia a comunidade LGBTQ, ganha, a vida de Ally e Ivy muda pra pior. Além de o casal não poder mais mostrar afeto na rua, pois são ameaçadas por homofóbicos, a saúde mental de Ally piora devido ao medo de ser quem é e, assim, todas as fobias que ela já teve na vida voltam a atormentá-la.

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Ally em choque quando Trump ganha as eleições.

Ao mesmo tempo em que acompanhamos o casal, vemos a trajetória de Kai Anderson (Evan Peters), um jovem eleitor de Trump, que se sente humilhado, pois ninguém dá atenção para as coisas que ele diz, o que o motiva a se candidatar a vereador de sua cidade.

Para Kai, é necessário que os políticos assustem as pessoas da violência da cidade e, assim, darem ao estado o direito de fazer o que for necessário para proteger os moradores de lá.

Visto que Kai mal recebe apoio dos cidadãos, ele decide agir com as próprias mãos e começa a recrutar seguidores para concretizar seu plano de salvar a nação do mal.

E como ele faz isso?

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Kai Anderson (Evan Peters)

Kai vai atrás de pessoas que estão passando por alguma crise, seja financeira ou existencial, pessoas que se sentem abandonadas pela sociedade e usa a insegurança dessas pessoas a seu favor. Mas, como?

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O casal Harrison e Meadow Wilton

Um dos primeiros a serem recrutados por Kai é o casal Harrison (Billy Eichner) e Meadow Wilton (Leslie Grossman). Harrison e Meadow são amigos há anos e tinham um pacto: caso nenhum dos dois se casasse até os 35 anos, eles iriam se casar.

No entanto, Harrison é gay e não consegue ter relação com Meadow. Já ela, é apaixonada pelo amigo e mesmo sabendo da sexualidade dele, topou se casar. Ainda, os dois enfrentam uma difícil crise financeira, em que a única saída é hipotecar a casa e pagar suas dívidas.

Eis que chega o salvador! Kai Anderson investiga a vida de Harrison e se aproxima dele, dizendo que tem a solução dos seus problemas e que ele só tem que acreditar em Kai.

Kai consegue um novo apartamento para o casal e em troca eles o obedecem sem questionar qualquer ato de Kai.

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Beverly Hope (Adina Porter)

A próxima a ser recrutada é Beverly Hope, uma repórter negra, que trabalha duro para conseguir destaque, mas perde todas as oportunidades para uma repórter branca e mais nova, que está se relacionando com o patrão.

Para convencê-la a se juntar ao grupo, Kai mata a outra repórter e diz que a partir de agora Beverly tem que confiar nele, pois ele quer o melhor para ela.

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A outra repórter (Emma Roberts) sendo assassinada.

A partir do início desse culto, Kai se aproveita do medo de seus seguidores e os manipula a enfrentar todo o mal que os cerca.

E o que é esse mal?

Esse mal é toda e qualquer pessoa que pensa diferente dele. Até mesmos seus fiéis discípulos, quando ousam questionar alguma de suas ideias, sofrem com a repressão.

Agora eu te pergunto: por que os roteiristas da série fizeram uma história assim justamente após a eleição de Donald Trump?

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“Nós vamos construir uma grande muralha!”

Donald Trump conquistou seus fiéis instigando o medo e o ódio. Ou seja, grande parte de sua campanha foi baseada em acusações aos mexicanos, gays, negros e mulheres de serem o problema da sociedade americana e que se ele fosse eleito, iria corrigir tudo isso.

Sem adentrar muito na política, o que a ficção de American Horror Story tem de semelhante com a vida real?

Quando as pessoas estão perdidas e desacreditadas do futuro, é fácil para um salvador chegar e dizer que vai solucionar tudo rapidamente. Isso é exatamente o que todos queremos ouvir! Quem me dera alguém resolvendo todos os meus problemas num piscar de olhos e foi exatamente isso que aconteceu nos EUA e está acontecendo com a sociedade brasileira atual.

O Brasil está economicamente mal e todos estão sofrendo com isso, logo, quando chega um candidato como o Jair Bolsonaro dizendo que vai resolver todos os problemas, é fácil acreditar porque é isso o que queremos, uma solução rápida.

No entanto, o que a série mostra, é que soluções rápidas trazem perdas irreversíveis. O personagem Kai queria tanto salvar a população do mal, que se propôs a matar e assustar pessoas, culpando mexicanos, por exemplo, para dizer que era só acabar com os mexicanos que os americanos estariam salvos da violência.

E a verdade é: Kai era o problema. Ele queria tanto ser adorado e amado por todos, que topou fazer de tudo, inclusive matar, para conquistar a confiança de seus seguidores e mostrar uma falsa civilização em que nada de ruim aconteceria.

Problemas vão acontecer sempre, quer a gente queira ou não, porém, não dá pra aceitar soluções fáceis caso essas soluções prejudiquem outras pessoas porque isso é o início de uma guerra.

Acabar com uma minoria pode até aliviar pro lado de alguns, mas com o passar do tempo, essa minoria vai ter seu medo e ódio instigado e provavelmente vai querer vingança também. É justamente isso que a série alerta!

Sem querer dá um spoiler do final, mas a ideia é que todos os humilhados caso não tenham chances na sociedade atual, um dia vão buscar suas oportunidades com as próprias mãos, assim como o Kai fez e ninguém vai ganhar com isso.

A série mostra que é fácil “lavar as mãos” e deixar um salvador tomar as decisões por todos, mesmo que essa decisão afete a vida de milhões, e caso algo dê muito errado, todos apontam o “salvador” como o culpado e acreditam que não tem culpa de nada, quando na verdade ao dar voz a ele, todos se tornaram cúmplices e culpados também.

Assim, minha dica é: assista a série e reflita sobre nossa sociedade atual e veja o quão próximo dessa realidade estaremos caso a gente não faça nada para evitar isso.

É claro que a ficção leva tudo ao extremo, ainda mais porque a série é de terror, mas traga a ficção para a realidade – a morte de Marielle Franco, a morte de Mestre Moa, a morte de pessoas da comunidade LGBTQ – e tire suas próprias conclusões. Você prefere se omitir e lavar as mãos ou prefere evitar um futuro trágico como esse?

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“Ally: Eu não sou a inimiga!”

BIBLIOGRAFIA:

G1.”O que se sabe sobre as mortes de Marielle Franco e Anderson Gomes”. 2018. Disponível em:<http://gshow.globo.com/tv/noticia/amor-sexo-fala-sobre-feminismo-em-programa-de-estreia-confira.ghtml&gt;. Acesso em: 21 de out. 2018.

G1. “Investigação policial conclui que morte de Moa do Katendê foi motivada por briga política; inquérito foi enviado ao MP”2018. Disponível em: <https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2018/10/17/investigacao-policial-conclui-que-morte-de-moa-do-katende-foi-motivada-por-briga-politica-inquerito-foi-enviado-ao-mp.ghtml>. Acesso em: 21 de out. 2018.

WIKIPEDIA. “American Horror Story: Cult“. 2018. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/American_Horror_Story:_Cult&gt;.Acesso em: 21 de out. 2018.

 

 

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Uma História de Amor e Fúria: A animação brasileira que você precisa assistir.

Antes de mais nada, acredito que você, assim como a maioria dos brasileiros, mal conheça animações nacionais. Infelizmente, como já é muito difícil produzir a sétima arte no Brasil, com o desenho animado não seria diferente, então é normal não conhecer essas produções, pois elas não existem em grande quantidade como a norte-americana e tampouco são divulgadas como deveriam.

No entanto, nossa produção não é nula, muito pelo contrário, o conteúdo de filmes de animação no Brasil tem qualidade, não sendo à toa que no ano de 2016, O Menino e O Mundo concorreu ao Oscar de melhor animação, merecidamente.

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Poster do filme O Menino e o Mundo, filme de Alê Abreu.

Com isso, a intenção deste texto é justamente falar de uma das animações brasileiras que você, ela e todo mundo, precisam assistir.

 

Trailer do filme.

Filme escrito e dirigido por Luis Bolognesi, também conhecido pelos roteiros de Bicho de sete cabeças (2000), As Melhores Coisas do Mundo (2010) e Elis (2016).

O longa-metragem Uma história de amor e Fúria (2013) conta a história de um guerreiro imortal, que está vivo há mais de 600 anos, sempre em busca do seu eterno amor, Janaína. Mas como o próprio título já diz, essa trama, além de amor, contém fúria, passando por momentos marcantes da evolução de nosso país, desde a época em que “Brasil era o nome de uma árvore”, até o ano de 2096.

Apesar de ser uma ficção, a narrativa nos encanta com essa relação do casal, que perpetua por séculos, além de nos mostrar toda a força e resistência do povo brasileiro, contra as injustiças que, infelizmente, continuam até hoje.

A animação começa em 2096, com uma cena rápida e, volta para o ano de 1566, na Guanabara, quando o o guerreiro Tupinambá Abeguar, descobre seu destino. Segundo o xamã da tribo, Abeguar foi escolhido pelo deus Munhã para liderar seu grupo e lutar contra o malvado Anhangá. Quando seu povo é dizimado pelos portugueses, o herói se transforma em um pássaro e voa por mais de duzentos anos para encontrar Janaína, que foi morta no massacre aos índios.

As quatro encarnações de Janaína e seu guerreiro imortal.

 

Assim, vamos para o ano de 1825, onde nosso protagonista é Manuel Balaio que vive com Janaína e suas duas filhas, no Maranhão. Quando uma de suas filhas é abusada pelo comandante policial, Balaio lidera os moradores oprimidos e eles libertam a cidade de Caxias. No entanto, o governo envia Duque de Caxias e suas tropas vencem o povo. Balaio se transforma novamente em um pássaro, indo encontrar sua amada, no ano de 1968, no Rio de Janeiro.

Mesmo sendo uma animação, lembrando que este tipo de produção nem sempre é voltado para crianças, vemos cenas fortes de tortura e violência, mostrando a dura época da ditadura. Após essa fase, o roteiro nos leva de volta à cena inicial, no ano de 2096, onde a disputa agora, é pela água, que vale mais do que qualquer outra coisa.

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Cena do filme.
É incrível como a partir de uma história de amor, o público é levado pro passado e futuro, nos lembrando de todas as feridas, que ainda não foram cicatrizadas, e nos fazendo refletir, sobre aonde podemos chegar e o que perderemos com tudo isso.

O motivo de resistência por parte do nosso guerreiro é seu amor por Janaína e, como nossa querida Janaína, foi uma guerreira em todas as suas vidas, nosso personagem principal segue os passos desta e não desiste nunca do amor e de um mundo melhor.

Aliás, Janaína é dublada pela Camila Pitanga e, só isso, já é maravilhoso. Ela é poderosa em todas as suas encarnações, sendo dolorosas, todas as vezes que perdemos nossa personagem, instantes em que sentimos na pele, o sofrimento do pássaro e viajante do tempo, dublado pelo Selton Melo.

Eu me arrepio com a eterna luta desse casal, de libertar seu povo e ficar junto. E mesmo com todas as derrotas, com todo o sofrimento, basta o sorriso um do outro, que eles lembram que estão do lado certo na luta. Mesmo eu não acreditando em destino, eu me emociono demais com as cenas dos dois, em que o mundo para pra ouvir esses corações apaixonados.

Para o texto não ficar muito melancólico e romântico, esse filme, além de ter esse lindo romance, vale pela história do nosso Brasil. Claro que somente quatro épocas são retratadas, sendo que uma se passa num futuro que ainda faltam 80 anos pra chegar, mas todas as dores permanecem até os dias atuais, nos fazendo questionar o por quê de tanta guerra e injustiça.

Normalmente eu não sou fã de longas com narrador, mas, como o narrador, no caso, é o próprio protagonista, nos contando sua história de vida e nos mostrando seu ponto de vista, é impossível não se envolver nas falas deste. Por sinal, as falas são muito marcantes e fortes, nos comovendo e nos fazendo pensar sobre nosso passado, os erros já cometidos e que ainda não foram consertados. Como o narrador diz: “Viver sem conhecer o passado é andar no escuro.”

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“Meus heróis nunca viraram estátuas. Morreram lutando contra os caras que viraram.”
Assim, eu aconselho essa produção cinematográfica pelos personagens, pela história de amor, resistência e fúria, além de ser uma animação maravilhosa, que nos lembra que é possível produzirmos esse tipo de filme no nosso país.

Eu, que escolhi a carreira de cinema, levo pancadas quase todos os dias por essa escolha difícil, mas são filmes como este, que me lembram de continuar minha jornada.

BIBLIOGRAFIA:

IMDB. Uma história de amor e fúria. 2013. Disponível em: <http://www.imdb.com/title/tt2231208/&gt;. Acesso em: 16 de jan. 2017.

UMA HISTÓRIA DE AMOR E FÚRIA. 2013. Disponível em: <http://www.umahistoriadeamorefuria.com.br&gt;. Acesso em: 16 de jan. 2017.

A luta feminista: dos anos sessenta aos dias atuais.

Assistindo ao documentário “She is Beautiful when she’s angry” (Ela fica linda quando está com raiva), dirigido por Mary Dore, me deparei com mulheres fantásticas que lutaram por seus direitos, nos EUA, nas décadas de 60-80.

É incrível e, ao mesmo tempo, assustador vermos que os anos passam e ainda usamos os mesmos discursos, pelo simples fato de que nossa sociedade parece não conseguir se livrar da visão de mundo machista que a domina.

Eu me identifiquei com muitas falas das feministas presentes no doc, sendo que a produção é sobre a luta das mulheres que ocorreu há mais de 40 anos. Protagonistas maravilhosas que, desde aquela época, já entendiam sobre as desigualdades de gênero que contaminam o mundo e, hoje, infelizmente, ainda precisamos lutar, da mesma forma, porque por mais que a gente tenha evoluído, ainda estamos longe de estar num mundo ideal para a população do gênero feminino.

No longa de uma hora e trinta e dois minutos, as entrevistadas contam que elas exigiam igualdade de salários, direito ao aborto, eram contra o abuso e a violência dos homens, lutavam por mais creches – onde elas pudessem deixar seus filhos e irem trabalhar assim como seus respectivos maridos – entre outras exigências, que são o mínimo, para que finalmente possamos ser vistas de igual para igual e não submissas aos homens.

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“Se os homens pudessem engravidar, anticoncepcionais estariam disponíveis em máquinas de chiclete.”

No discurso de uma das entrevistadas, ela comenta como elas, nos anos em que iniciaram os movimentos feministas, mal sabiam sobre o movimento das Sufragistas, ocorrido no final do século XIX e início do XX, na Inglaterra. Por sinal, essa história foi muito bem retratada no filme “As Sufragistas” (2015).

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“Nunca desista da luta.” E tem a participação de Meryl Diva Streep.

Com isso em mente, tentei lembrar dos tempos de escola e, me veio a cabeça, que eu mal ouvi falar das lutas das mulheres, no máximo pelo direito dos votos e olhe lá. E isso é um erro extremo, pois nós temos e devemos aprender sobre as incríveis mulheres do nosso passado, que conquistaram tanta coisa por nós, pessoas das quais devemos nos orgulhar e nos inspirar e buscarmos forças nessa batalha que persiste até os dias atuais.

Tantas histórias de líderes homens, visionários, outros, não, e as mulheres, parece que são sempre deixadas de lado. A não ser que tenham sido princesas ou rainhas, é raro escutarmos na sala de aula do ensino fundamental e médio, sobre os direitos e lutas das mulheres, que ocorrem há anos, pelo simples fato de que, culturalmente falando, não faz sentido ensinar pequenas meninas sobre seus direitos, já que os homens se sentem ameaçados com nossas conquistas e insistimos nesses ensinamentos conservadores e retrógrados.

Algumas das feministas entrevistadas no documentário “She is Beautiful When she’s Angry”.

Além disso, um assunto bastante interessante que elas mencionam na produção, é o fato de existirem divisões dentro do próprio feminismo, e isso me fez refletir e questionar o meu feminismo.

O projeto nos mostra líderes de vários movimentos feministas e, como as mulheres negras e as lésbicas, acabavam formando seus próprios grupos, pois não se identificavam com a luta das mulheres cis brancas e heteros. Lembrei de textos como “Jout Jout, Clarice e o feminismo branco” e “Seu feminismo acolhe mulheres lésbicas?” do site fridadiria.com, em que o movimento feminista é questionado, pois, na maioria das vezes, ele é voltado para mulheres cis, brancas e heteros.

É um assunto delicado, mas deve ser debatido sempre. Uma das representantes que aparece no documentário, comenta que, as militantes, quando exigiam seus direitos, eram chamadas de lésbicas pelos homens e, em sua visão, se elas começassem a lutar pelos direitos Lgbts, acabariam dando crédito à essa visão.

Assim, ela argumentou que, nos anos de 60-70, optou por lutar pelos direitos das mulheres, sem envolver a homosexualidade, por exemplo, e, que, depois de conquistas, seria a hora de lutar por outras vertentes.

No entanto, não podemos nos esquecer que uma mulher lésbica sofre com o machismo por ser mulher e por ser lésbica. Primeiro que lésbica não deveria ser uma ofensa. Segundo que, acaba sendo usado pelos homens e, até mulheres, como ofensa, pois lésbicas são rechaçadas e consideradas como pessoas do gênero feminino que querem ser do sexo masculino ou mulheres que ainda não encontraram o homem certo em suas vidas. Então como pedir pra elas deixarem sua sexualidade de lado, se isso é essencial em sua luta?

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“Fail” total!

Além disso, não podemos negar que uma mulher negra sofre muito mais preconceito e machismo em nossa sociedade, do que uma mulher branca. Infelizmente isso acontece, então como podemos dizer “primeiro conquistamos o direito das mulheres, depois vemos a questão racial”, sendo que uma mulher negra lida com o machismo e racismo todos os dias de sua vida?

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“Nunca deixe que ninguém a faça sentir como se você não importasse.” Michelle Obama sempre maravilhosa.

Sem contar as mulheres de baixa renda que, quase nunca, tem a chance de erguer suas vozes. Para isso, filmes como “Que horas ela volta?” da Anna Muylaert são importantíssimos e maravilhosos, pois nos fazem refletir essas questões.

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Poster do Filme, com Regina Casé.

Quero deixar claro que eu não sou a melhor pessoa para falar sobre a questão racial ou social, pois não vivo essas dores de perto, porém, cada vez mais, me posiciono para ler, refletir e estudar sobre essas questões, ouvindo o outro lado e, assim, entendendo como posso inserí-las no meu feminismo. Lendo e aprendendo, eu cito a Nathalia Rocha, idealizadora do Frida Diria, no texto”Nicki, Rihanna e o feminismo branco:

E, colocando uma mulher negra que se posiciona contra o racismo como barraqueira, a mídia e a sociedade só contribuíram para apagar o debate e manter uma visão racista sobre as pessoas negras. E é isso que o feminismo branco deveria entender. Dentro do movimento, somos tratadas como “nós”, como “manas”, mas, na prática, o que vemos é um debate que abarca “todas” as mulheres como se todas as mulheres tivessem os mesmos problemas. Na prática, mulheres brancas colocam o seu bem-estar e as suas pautas acima dos problemas das mulheres negras e chamam isso de feminismo.

Apesar do assunto em questão ser a discussão em torno de um desabafo da Nicki Minaj no Twitter e a resposta da Taylor Swift, no ano de 2015, ele me ajudou a compreender um pouco melhor sobre como me posicionar a respeito da luta das mulheres negras.

Essa questão é importante de ser debatida, pois a ideia não é defender a violência de mulheres contra mulheres, mas, sim, lutar por um feminismo universal, abrangendo e respeitando todas as suas vertentes, para que todas as mulheres tenham os mesmos direitos que os homens, em qualquer lugar do planeta, e não somente em sua respectiva comunidade ou grupo racial, étnico, etc.

Querendo ou não, nossa posição é contra a supremacia do homem cis, branco, hétero e rico, logo, precisamos achar um jeito de incluirmos todas as causas que qualquer mulher passa e, assim, a gente finalmente conquistar a tal justiça que queremos e merecemos.

Parece utópico, mas não é. Temos que nos unir, tendo empatia pelas dores alheias, apoiando umas às outras, nessa luta contra o machismo. Para isso, temos que usar nossa maior arma: a FALA. E claro, sempre ouvirmos umas as outras, até porque, se ficarmos contra ou nos separarmos, quem perde somos nós mesmas.

Não estamos erradas em exigir direitos iguais e faremos isso juntas, expondo todas as injustiças do nosso dia a dia e exigindo mudanças, até que finalmente o machismo desapareça de nossas vidas.

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“Mulheres de todo o mundo, unam-se!”

Para quem tem interesse de assistir ao documentário, ele está disponível no Netflix e em DVD. Ademais, também é possível ter informações do projeto, incluso sobre as feministas entrevistadas, no site <http://www.shesbeautifulwhenshesangry.com/women/>.

BIBLIOGRAFIA

MOTTA, Thamires. Seu feminismo acolhe mulheres lésbicas? 2015. Disponível em: <http://www.fridadiria.com/seu-feminismo-acolhe-mulheres-lesbicas/&gt;. Acesso em: 08 de jan. 2017.

MOURA, Gabriela. Jout Jout, Clarice e o feminismo branco. 2015. Disponível em: <http://www.fridadiria.com/jout-jout-clarice-e-o-feminismo-branco/&gt;. Acesso em: 08 de jan. 2017.

ROCHA, Nathalia. Nicki, Rihanna e o feminismo branco. 2015. Disponível em: <http://www.fridadiria.com/nicki-rihanna-e-o-feminismo-branco/&gt;. Acesso em: 09 de jan. 2017.

SHE IS BEAUTIFUL WHEN SHE’S ANGRY. 2014. Disponível em: <http://www.shesbeautifulwhenshesangry.com/the-film/&gt;. Acesso em: 08 de jan. 2017.

UnREAL: o drama, sem drama, que você respeita.

Recentemente um professor comentou que as séries que a esposa dele assiste, Grey’s Anatomy e Scandal, são dramalhões muito chatos. Fiquei com isso na cabeça e tentei fazer uma análise com o outro exemplo que ele citou, Breaking Bad.

Não posso negar que os trabalhos da deusa Shonda Rhimes são dramalhões, mas muito maravilhosos. Também não posso negar que Breaking Bad é puro drama, só que o foco do protagonista vai da família ao poder, enquanto os personagens da Shondaland lidam e focam em milhares de coisas.

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“Alguém me dê um sedativo.” Até Yang sofre em Grey’s, admitimos isso. #tamojunto

Para não rebater o argumento usado com outro projeto que a própria Shonda tenha criado ou produzido, pensei em abordar outro programa, que também tenha protagonismo feminino, seja do gênero drama, além de ser o oposto das séries citadas.

Com isso em mente, o seriado escolhido foi UnREAL. A trama foi criada por duas mulheres, Marti Noxon e Sarah Gertrude Shapiro, e o protagonismo é encabeçado por Rachel Goldberg (Shiri Appleby) e Quinn King (Constance Zimmer).

 

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Quinn King (Constance Zimmer) e Rachel Goldberg (Shiri Appleby) no cartaz da segunda temporada.

A história mostra os bastidores do reality show Everlasting, que é baseado no famoso reality The Bachelor. O programa original, The Bachelor, é um show onde várias mulheres disputam o coração de um homem. Hoje em dia existe o The Bachelorette, que é a versão onde homens disputam o coração de uma mulher.

Em UnREAL, nós vemos toda a parte da produção e filmagens do programa fictício, Everlasting, e descobrimos que o “príncipe”, tão disputado, não tem nada de encantado, que a maioria das falas das participantes são induzidas pelos produtores e, posteriormente, editadas, além de vermos todos os podres dos bastidores, que apesar de ser ficção, tem muita veracidade.

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Pois é…

Para você ter uma noção de como esse drama é surreal, na primeira temporada, uma das candidatas comete suicídio no local onde o programa é filmado e na segunda temporada, um personagem é morto por racismo. Não estou entrando em detalhes porque não quero dar spoilers, mas quero provar que essa série é um drama bastante pesado e muito bem desenvolvido.

Além do mais, diferentemente de protagonistas como Meredith Grey, nós não gostaríamos nenhum pouco de conhecer Rachel e Quinn, mas a amamos de tão monstras e bizarras que elas são. Sinceramente, Walter White vai pro chinelo perto delas, porque elas conseguem manipular muito bem, tudo e todos, sem precisar fabricar drogas para isso.

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Go Rachel, Go Rachel!

Antes que pensem, eu gosto muito de Breaking Bad. No entanto, é exaustivo quando as pessoas só falam e elogiam esse tipo de programa, com protagonismo masculino, com o argumento de que é excelente e bem desenvolvido, mas nunca ouviram falar de UnREAL, que é tão maravilhoso quanto.

A intenção da série parece bem clara: mostrar todas as mentiras de um reality show, não é à toa que o nome é UnReal (Não Real). Ele mostra como essa indústria é perigosa pras próprias pessoas que participam dela, por tudo o que são obrigados a passar e por toda a competitividade fora e dentro das câmeras.

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O “bachelor” da primeira temporada Adam (Freddie Stroma)
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O “bachelor” da segunda temporada Darius Hill (B.J.Britt)

Aliás, o mais interessante do programa é justamente mostrar como a mídia cria fantasias românticas como se tudo fosse real, mas, na verdade, as pessoas do programa são bastante problemáticas, assim como qualquer outro ser humano, e vivem dentro de um sistema sedutor e destrutível, ao mesmo tempo.

Além disso, a relação das duas anti-heroínas, Rachel e Quinn, é muito questionável, pois elas são uma dupla dinâmica incrível, porém se atacam toda hora, se necessário. A Rachel tem vários problemas de saúde mental e uma mãe psicóloga que cuida dela, mas acaba piorando seu estado, enquanto a Quinn é uma pessoa que só pensa na audiência e em fazer o seu querido show, o melhor de todos, e nunca derrama uma lágrima sequer.

Ou seja, temos duas mulheres ambiciosas e excelentes exemplos de personagens femininas que vivem dramas, sem fazer drama, até porque, elas são obrigadas a esconder tudo, senão seriam presas em três segundos. E claro, não posso deixar de comentar que ambas tem relacionamentos amorosos péssimos, com homens, mas uma acaba sendo o suporte da outra e sempre dão a volta por cima dos ex, que também não são flor que se cheire.

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“Isso é o poder feminino.”

Em contra partida, temos outros persongens como Jay (Jeffrey Bowyer-Chapman) e Madison (Genevieve Buechner) que tem atitudes mais associáveis, mesmo fazendo besteiras, de vez em quando. Aliás, as próprias candidatas do falso reality são maravilhosas, porque cada uma tem uma história diferente e por mais que elas queiram ganhar o “prêmio”, elas não fazem ideia do que estão fazendo ali e questionam a produção do programa o tempo todo, além de terem medo do que pode acontecer com elas. É si por si, mas volta e meia algumas alianças são formadas, até algo quebrar essa união.

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Elenco da primeira temporada.

É importante frisar que essa narrativa é bem forte e mostra o pior do ser humano e da televisão, nos fazendo refletir e questionar sobre o que assistimos, sobre relacionamentos humanos e ambição profissional, e pior, como que vale tudo por audiência.

Sendo assim, eu recomendo essa série pra quem gosta de assuntos pesados e uma realidade nua e crua, cheia de reviravoltas, com personagens mulheres maravilhosas, algumas assustadoras, mas incríveis, e também porque cada temporada tem somente dez episódios de 40/50 minutos e a terceira temporada ainda vai começar.

BIBLIOGRAFIA

IMDB, UnREAL.2015. Disponível em: <http://www.imdb.com/title/tt3314218/&gt;. Acessado em: 29 de dez.

A violência à mulher no mundo pop como reflexo da realidade de 1/3 das mulheres

A data 25 de novembro foi escolhida pela ONU, em 1999, para ser lembrada como o Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres. A instituição estima que uma a cada três mulheres tenha sido violentada seja por abuso sexual ou agressão física em geral. A maior parte desses casos ocorre pelas mãos do próprio parceiro da vítima. E ainda há os casos de mutilação genital e casamento infantil. 

No último post, comentei sobre a relação que existe entre a ficção e a realidade. As histórias ficcionais refletem, de certa forma, o espírito do tempo em que são escritas. 

Com isso, selecionei algumas histórias da ficção que mostram a violência à mulher. 

Arlequina e Coringa

A Doutora Harleen Quinzel tornou-se a palhaçada do crime quando foi mentalmente abusada pelo Coringa. Ao invés de ser devidamente tratado no hospital psiquiátrico, o vilão lhe roubou a sanidade, aproveitando-se da faísca de obsessão que começava a brotar na Dra. Quinzel. 


Nos quadrinhos, a Arlequina distanciou-se dessa relação doentia e, como par romântico, a Hera aparece de vez em quando, como um relacionamento mais construtivo e não destrutivo. 

Assim como a Arlequina, outras tantas mulheres não enxergam a pessoa com a qual se relacionam e isso causa males psicológicos profundos. Por mais que elas não tenham duas cores de cabelo ou andem com roupa de palhaça, mesmo assim suas mentes ficam perturbadas pela violência psicológica a que são submetidas. 

Empodere-se.

As Vantagens de Ser Invisível

Esse é meu livro favorito e gosto muito da adaptação feita para o cinema. A violência contra a mulher nesse caso aparece em diferentes situações e com diferentes personagens. 

Quando eu tinha 15 anos, comecei a ler esse livro. No entanto, uma parte me chocou tanto que eu não consegui continuar. Parei de ler, coloquei o livro junto com outros que iam pra doação é só voltei a ouvir falar dele quando veio o filme. O mais estranho é que nesse momento eu não me lembrada do livro. Eu comprei novamente porque havia visto o filme e amado. 


Quando li pela segunda vez, reconheci ao chegar na parte em questão que havia me chocado. O Charlie estava sozinho em um quarto enquanto acontecia uma festa na casa. Um casal entrou e o rapaz abusou da menina que estava bêbada. Ele a forçou a fazer sexo oral. Essa cena não existe no filme. Talvez fosse ficar muito pesado. Não sei. 

Boa parte das personagens importantes na vida de Charlie, sua falecia tia, sua irmã e sua amiga (Sam, interpretada por Emma Watson), sofrem violência. 

A tia apanhava dos namorados e reproduzia em forma de abuso sexual essa violência no próprio Charlie quando criança. 

A irmã recebeu um tapa do namorado durante uma discussão. Ela também engravidou e abortou. 

Sam foi abusada pelo chefe do pai quando tinha 11 anos. (Na versão do filme pelo menos. No livro, não me lembro se esses são os detalhes). Ela também sentia que os caras com quem se envolvia não a tratavam bem. 

“Por que eu e todas as pessoas que amo escolhem pessoas que nos tratam como se não fossemos nada?” – Sam

Charlie sente essas dores intensamente. Ele tem empatia. Como disse Patrick, ele vê coisas e entende. Ele é um wallflower

Homens, apoiem as mulheres na luta contra a violência.

Há uma série de outros filmes, séries e livros sobre os quais eu poderia falar aqui, como Sucker Punch, Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, A Garota No Trem, e por aí vai. O ponto é que: seja ficção ou não, essas histórias trazem poderosas mensagens sobre o que está errado. É a partir daí que tomamos a frente para impedir que esse mal se alastre. 

Tal série tal vida

O tão aguardado dia chegou! Falta pouco para Gilmore Girls estar no ar na Netflix para quem quiser matar as saudades de Stars Hollow e nossos habitantes favoritos.

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Eu comecei a assistir a série em 2010, alguns anos depois que ela terminou de ser produzida. Mas como desconhecia o final, tudo pra mim era novidade.

E eu amei logo de cara. Me identifiquei super com a Rory e sua obsessão por livros. Já em outros tantos pontos, eu me sentia a própria Lorelai. (E quem nunca se sentiu a Emily de vez em quando, não é mesmo?)

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Bastou um olhar…

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E uma saída maravilhosa

A série encanta não só porque a cidade é apaixonante, as músicas excelentes e as referências sensacionais. Mas porque aquela vida pode ser a vida de todos nós.

Sem contar o seu maravilhoso storytelling feminino. As mulheres têm personalidade, voz, autonomia e são auto-suficientes. Isso para dizer o mínimo. Cada uma delas demonstra a força que tem por meio das suas atitudes. Os relacionamentos amorosos fazem parte da vida, mas não as completam. Apenas são um adicional de pessoas que tiveram importância proporcional em momentos específicos.

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(Quase me esqueci que tinha uma personagem com meu nome). Na cena acima, Louise pergunta para a Rory: “E o que aconteceu com aquele seu namorado?”

Estava pensando nessa semana sobre o quanto a ficção é capaz de influenciar a vida de quem está aqui deste lado. O lado da realidade. E comecei a planejar o meu próximo vídeo no canal. (Se você não assistiu ao primeiro, pode conferir aqui).

Gilmore Girls é uma daquelas histórias que foram mais do que entretenimento pra mim. Ela provocou mudanças reais na minha vida e, por isso, a considero para além da ficção. Foi como se eu fizesse parte dela como uma personagem, e aqueles personagens também fizessem parte da minha vida.

CALMA. Eu não estou viajando. Já vou explicar. Em 2010, eu estudava engenharia química. Ou seja, estava em uma faculdade que não tinha absolutamente nada a ver comigo. Mas eu permaneci naquela ficção até cair a ficha de que algo estava errado.

Eu estava na sexta temporada (por favor, me corrijam se eu estiver errada) que foi quando a Rory desistiu de Yale e deu alok.

Cara, sério. Aquilo pra mim foi tipo: eu também posso mudar se estiver infeliz.

Os primeiros sintomas de uma depressão que eclodiu anos depois (mais precisamente em 2015) começaram a despertar. Mas Gilmore Girls me mostrou que eu estava vivendo uma ficção, ok, mais pra um pesadelo, em um curso que não gostava para seguir uma profissão na qual não tinha interesse. Simplesmente aquilo não era eu.

Os episódios da série passaram a ser mais reais para mim do que a própria “realidade” que me cercava!

Eu me identifiquei tanto com a vocação dela pro jornalismo que, em um determinado momento, tive certeza de quem eu era.

É engraçado pensar isso porque eu me senti jornalista a partir dessa percepção, meses antes de entrar na ESPM e, com isso, anos antes de me formar.

Determinados acontecimentos da série se espelhavam com o que eu vivia, ou ao menos era essa a forma como eu queria enxergar.

Eu amei quando o Jess reapareceu e disse: “essa não é você!” Aquilo também deixou muito evidente o quanto o tempo permite com que nossas escolhas façam de nós quem somos.
Rory precisou daquele tempo tanto quanto eu precisei de um tempo. E você também, provavelmente, em algum momento, precisou.

Por isso estou tão animada para ver os novos episódios! O quanto será que mudou nas vidas dos nossos queridos e amados personagens? Que escolhas eles tomaram?

A ansiedade está batendo forte, mas em breve vamos estar todos falando rápido juntos com as Gilmore Girls. Antes, só preciso tomar um café. Me acompanha?