This is US: o mais novo amor em forma de série.

Representatividade importa e muito. Esse assunto tem sido o tópico de muitos textos, não só do Projeto Nellie Bly, como vários outros blogs, de pessoas que estão cansadas das mesmas histórias, com o mesmo tipo de protagonista, como se o mundo não tivesse a diversidade que tem.

No entanto, essa luta não é só do público, na verdade, existem pessoas no mercado que entendem essa demanda, pois fogem ou também se cansam do padrão, e estas pessoas nos presenteiam com trabalhos incríveis. Este texto é justamente sobre uma das mais recentes séries dramáticas americanas, que o público ganhou e MUITO.

This is US

Trailer da série.

Série criada por Dan Fogelman e exibida pelo canal NBC, lançada em 2016.

Sinopse: Rebecca Pearson teve uma gravidez difícil de trigêmeos. O nascimento dos filhos aconteceu no dia em que seu marido, Jack Pearson, completava 36 anos. A vida de Rebecca, Jack e seus três filhos – Kevin, Kate e Randall – são apresentadas em diferentes fases. As histórias de Rebecca e Jack geralmente ocorrem durante a fase inicial do casamento, em torno do nascimento das três crianças ou em diferentes etapas da educação destas. Além disso, seguimos as narrativas de Kevin, Kate e Randall, quando estes tem exatamente 36 anos, cada um com sua própria bagagem. Assim, presenciamos essas tramas, todas conectadas entre si, não só pelo laço familiar, mas pelo emocional.

No piloto da série, já é possível entender a ligação de todos os personagens e perceber que, as histórias mostradas, se passam em épocas diferentes e isso é o charme de This is Us. Tudo começa com Rebecca (Mandy Moore), comemorando o aniversário do marido, Jack (Milo Ventimiglia), e antes que ela pudesse finalizar sua dancinha sensual, sua bolsa estoura e eles correm para o hospital.

Ao mesmo tempo em que conhecemos o casal, somos apresentados à novos personagens, que vivem situações separadas, mas todos estão interligados, pois fazem parte da mesma família. Decidi falar de casal em casal, porque é muito amor para uma série só e todos merecem uma chance de brilhar.

1) Rebecca e Jack Pearson.

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Rebecca Pearson (Mandy Moore) e Jack Pearson (Milo Ventimiglia)
O casal central deste novo drama tem uma linha narrativa muito intrigante. A vida deles se passa nos anos 70, às vezes pulando décadas, mas, no começo, é sobre a etapa de vida em que eles são pais de trigêmeos. Primeiro que, no dia do parto, o casal já sofre uma das maiores perdas possíveis e, de alguma forma, a vida dá uma oportunidade pra eles, de passar e superar essa dor, justamente através do amor.

Além disso, acho maravilhosa a relação deles, pois cada um lida de uma forma diferente com tantas mudanças na vida e, sempre quando achamos que eles vão surtar e ter um problema, o casal consegue fazer o que a maioria dos casais se esquecem: conversar. A partir disso, um consegue compreender o lado do outro e vemos como eles vão amadurecendo, juntos, com todas as dificuldades, ganhos e perdas, e o público se envolve com essa relação fofa.

Aliás, outro fato interessante é que Rebecca deixa bem claro que não será mãe sozinha. Como a história se passa nos anos setenta, normalmente vemos o pai trabalhando e voltando pra casa, enquanto a mãe toma conta dos filhos e do lar. Porém, já nos primeiros episódios, a personagem se impõe, dizendo que não vai aceitar isso e que espera uma atitude de pai, em relação ao Jack, e, por incrível que pareça, ao invés de se irritar ou dizer que ele é quem trás o dinheiro pra casa, ele entende as questões da mulher e seu dever como marido e pai e assume isso pra si. Como não faltam reviravoltas nessa série, é importante falar que estou me referindo somente ao início da relação deles.

2) Beth e Randall Pearson.

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Beth Pearson (Susan Kelechi Watson) e Randall Pearson (Sterling K. Brown)
A sequência do casal Beth e Randall se passa nos dias atuais, já casados e com duas filhas pequenas. No entanto, como grande parte desta trama tem a ver com Randall em busca de seu verdadeiro pai, volta e meia, o programa mostra essa narrativa no passado, para entendermos como este foi abandonado pelo pai biológico e adotado pela família de Rebecca.

Primeiro que o Randall é um fofo, que abraça tudo e todos. Eu me surpreendo muito com as atitudes dele e com seu sofrimento, de tentar achar respostas, sem magoar ninguém e me encanto, pois, infelizmente, acaba sendo diferente vermos personagens masculinos com tanta sensibilidade, quando, na verdade, era o tipo de representatividade que mais precisamos para acabar com esse esteriótipo de que homem tem que gritar, provar que é machão e nunca chorar.

Segundo que a mulher dele é incrível. Ela é a mentora dele, ao mesmo tempo em que ela precisa se achar e se impor no meio dessa busca do marido, pelo pai biológico. Aliás, a grande sacada dessa série é justamente um personagem ser o mentor do outro. Acho incrível essa troca de conhecimento, pois todos temos muito o que apender e ensinar, também.

Por fim, é bastante interessante vermos a infância e juventude dele, quando este sofria preconceito na escola por ser negro e adotado, e toda a dificuldade que Randall passa, às vezes recebendo o apoio da família, outras, sendo negado por esta, como é o caso de seu irmão, Kevin, que também reproduzia os preconceitos da sociedade.

3) Kate e Kevin Pearson.

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Kate Pearson (Chrissy Metz) e Kevin Pearson (Justin Hartley).
Kate e Kevin são irmãos gêmeos, do tipo que conseguem sentir a dor física do outro, mesmo estando a quilômetros de distância. Talvez, essa seja minha trama preferida, porque vemos Kevin, um ator famoso, lindo e rico, irritado com o último papel que conseguiu e buscando novas oportunidades, sendo divertido assistir um homem branco objetificado na sitcom em que trabalha e magoado com isso. Quem sabe assim, alguns homens entendam o quão cansativo e vazio é pra nós, mulheres, quando atuamos ou vemos isso acontecendo com a maioria dos personagens femininos.

Além disso, Kate trabalha para o irmão, mas tem seu drama pessoal, que é sua dificuldade em se aceitar, devido ao seu peso. Ela inicia uma terapia em grupo, onde conhece Toby Damon (Chris Sullivan), um cara que enfrenta os mesmos problemas que esta e, pela primeira vez, ela consegue assumir o protagonismo em sua vida e não mais viver às sombras do irmão. Eu não consigo deixar de me apaixonar pela Kate, toda vez que ela entra em cena e dá um show de talento e sensibilidade, nos provando que ela tem tanto brilho quanto o irmão.

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Sua linda!
Aliás, essa história é emocionante, não só por dar voz a uma personagem que, normalmente, é o alívio cômico* das séries, mas, porque, assim como ela, posso me identificar com a dificuldade em conseguir achar seu espaço nesse mundo machista e padronizado, que costuma dar voz aos “Kevins” que existem.

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Poster da série.
This is US está na primeira temporada, sendo que já foi renovada para mais duas e levou o prêmio de melhor série dramática estreante no People’s Choice Awards* 2017. Isso não é mera coincidência e, sim, devido à maravilhosa forma como o roteiro nos guia, nas dores pessoais de cada um, além de seguir um dos temas mais prestigiados da televisão: família.

Sentimos, através da história, dos diálogos e dos atores, a dificuldade de cada um, nos simpatizando e nos identificando, como humanos. Claro que cada um tem um problema diferente, uns com assuntos mais pesados, outros menos, mas todos com dores e sofrimentos, aos quais podemos ter empatia e entender cada vez mais, o que é estar na pele de uma pessoa diferente de você.

Assim, prepare seu coração e guarde um horário na semana, para começar a maratona e se emocionar e encantar com novos pontos de vista dentro de uma produção televisiva.

BÔNUS DO DIA

Como de costume, sempre coloco um “bônus” nos meus textos e nesse não seria diferente. Eu posso estar ficando maluca, mas não consigo assistir ao programa, sem comparar Mandy Moore, no papel de Rebecca Pearson mais velha, com a Diane Keaton e lembrar do filme, em que elas fizeram papel de mãe e filha, Minha mãe quer que eu case (2007).

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Mandy Moore como Rebecca Pearson mais velha.

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Diane Keaton.
Ok, talvez nas fotos não pareça tanto, mas juro que na série elas se assemelham bastante e lembrar de Diane Keaton é sempre um amorzinho, né?

VAI LOGO ASSISTIR ESSA SÉRIE!

*alívio cômico: é a inclusão de um diálogo, cena ou personagem humorístico, para quebrar situações de drama ou suspense.

*People’s Choice Awards: premiação norte-americana voltado ao cinema, música, televisão e, mais recentemente, internet, aonde o público é quem vota nos seus favoritos.

BIBLIOGRAFIA

ADOROCINEMA. Veja a lista completa de vencedores do People’s Choice Awards 2017. 2017. Disponível em: <http://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-127157/&gt;. Acesso em: 19 de jan. 2017.

IMDB. This is Us. 2016. Disponível em: <http://www.imdb.com/title/tt5555260/&gt;. Acesso em: 19 de jan. 2017.

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Madame Bovary: Livro vs Filme & a depressão de uma extraordinária mulher.

No final do ano passado, eu terminei de ler o livro Madame Bovary, escrito por Gustave Flaubert. A versão que li foi da coleção Clube do Livro, pela editora Novas Fronteira Participações S.A., com tradução de Sérgio Duarte e prefácio de Otto Maria Carpeaux.

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Capa do Livro Madame Bovary, sexto volume da coleção Clube do Livro.

Assim que acabei o livro, fui em busca de alguma produção cinematográfica da história e, dei preferência pelo longa de 2015, pois foi escrito e dirigido por uma mulher, Sophie Barthes, também conhecida pelo filme Almas à venda (2009). Com isso em mente, eu quis fazer uma comparação entre o livro e o filme, além de tentar entender a visão da diretora sobre a vida dessa incrível personagem.

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Poster do filme.

Para quem não conhece a trama, Madame Bovary conta a trajetória de Emma Bovary, uma jovem sonhadora, que acredita estar próxima da felicidade, quando aceita se casar com Charles Bovary. No entanto, Emma acaba entediada em seu casamento com um médico do interior e reprimida numa cidade pequena. Para fugir da monotonia e da depressão, Emma persegue seus sonhos de paixão e excitação, independente do que isso possa custar.

No livro, a história começa com a apresentação de Charles, quando jovem, até sua graduação em medicina e seu primeiro casamento. Ele perde sua mulher muito cedo e, em uma consulta médica ao pai de Emma, M. Rouault, acaba se apaixonando por ela. Logo na primeiro parte, os dois se casam, Charles extremamente apaixonado e Emma com expectativas de que sua vida vai mudar para melhor.

No longa-metragem, o roteiro já começa com o casamento de Emma e Charles e sua ida para a cidade de Yonville. Apesar de ter gostado muito do filme e ter achado que a direção está maravilhosa, fiquei decepcionada com algumas mudanças na narrativa, como por exemplo, antes de morar na cidade de Yonville, o casal vive em Tostes, mas Emma entra em depressão e, para ajudá-la, Charles decide se mudar para uma cidade “maior” (entre aspas, pois ambas as cidades eram pequenas).

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Emma Bovary (Mia Wasikowska), Charles Bovary (Henry Lloyd-Hughes) e Rodolphe (Logan Marshall-Green).

Além disso, nessa etapa, Emma está grávida de sua única filha, Bertha Bovary, sendo que, no filme, é como se ela não tivesse tido filhos. No entanto, talvez, pelo ponto de vista da diretora e roteirista, ela deve ter omitido a criança da história, visto que ambos os pais não ligavam e não cuidavam muito dela, inclusive ela mal aparece na escrita literária.

A partir disso, acredito que ambos os trabalhos, livro e filme, entram em sitonia, justamente na fase em que, Emma, lutando contra o tédio e a falta de interesse em sua vida, se envolve em dois casos extra-conjugais.

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León Dupuis (Ezra Miller) e Emma (Mia Wasikowska).

Como não quero dar spoilers, preferi me ausentar dos detalhes dessa narrativa e focar no assunto mais interessante do drama, a depressão da protagonista.

Uma das maiores críticas do autor, Flaubert, aos romancistas de sua época, era a fantasia de suas histórias, iludando o público com tramas que não retratavam a realidade como ela é. Ou seja, ele era contra os romances que tinham finais “felizes para sempre”.

Assim, ele decidiu escrever Madame Bovary, relatando a vida de uma forma nua e crua, em que nos jogamos em fantasias amorosas ou em outras situações, como tentativas de enriquecer a vida, quando na verdade, estamos todos em busca da tal felicidade e ela não é fácil de ser conquistada.

Com isso, o escritor criou Emma Bovary e, em todas as partes do conto, deixa claro as dificuldades dessa em ser feliz e sua eterna luta contra a depressão e melancolia.

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Sim, Emma… sabemos que não é fácil.

Apesar de ter uma vida razoavelmente boa, ao menos para a época em que vivia, Emma era constantemente ignorada pelo marido e pelos seus amantes que, no final, se mostraram todos uns “monstros”. Ela tenta buscar respostas com paixões, religião, roupas, festas, mas, acaba totalmente endividada, num século em que mulheres eram donas de casa e suas expectativas, culturalmente ensinadas, eram se casar e ter filho.

Emma não é um exemplo de mãe, inclusive, eu acho incrível que um livro de 1857 prove que não existe o tal “instinto materno”. Em nenhum momento a personagem fica animada com a maternidade. Talvez, antes de ter a filha, ela se anime com a ideia, mas quando Bertha nasce, Bovary descobre que nunca quis ser mãe, nos lembrando que isso sempre foi e, ainda é, uma imposição da sociedade e uma felicidade que não é para todas.

Na visão da sétima arte, Sophie Barthes mostra de uma forma majestosa a vida simples e sem muitas novidades de Emma. Ademais, também entendemos o desânimo de nossa heroína, pois ela se casou com um homem sem muitas ambições e, que, por mais que fosse apaixonado por ela, ele não entendia suas tristezas e acabava sendo um péssimo companheiro para alguém com depressão.

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Mia Wasikowska como Emma Bovary.

Minha maior decepção com o filme, foi o fato de não enfatisar o problema de saúde mental que a personagem principal tinha. Naquela época, acredito eu, não era comum a palavra depressão, mas, lendo a história, sabemos que Emma tinha momentos de crise, aos quais nem sempre conseguia se livrar. Ela culpa a todo o instante o marido, por seus problemas, mas ela mesma sabe que não é só isso.

Atualmente, a depressão é um grande problema na vida de muitas pessoas e, quanto mais falarmos sobre o assunto e quebrarmos esse tabu, mais conseguiremos ajudar “Emmas” do século XXI.

Aliás, Emma era uma mulher além de seu tempo, iludida com todos os romances que havia lido e com grandes expectativas, que não foram alcançadas, sobre a vida. Outra coisa que acho majestoso na história, é que não a criticamos por trair o marido. Naquela época, seria de se esperar uma trama que a condenasse pela traição, porém, muito pelo contrário, torcemos junto com ela, para que encontre alguém que a faça feliz.

No entanto, felicidade é uma luta constante e individual. Nos relacionamentos devemos somar e não preencher vazios. Essa foi a maior luta de Madame Bovary, enfrentar seus demônios, todos os dias, enquanto tinha que sorrir para as pessoas a sua volta e fingir que estava tudo bem.

É importante lembrar que, quando foi divulgada, a escrita foi altamente criticada e rechaçada, pois envolvia o tema adultério, criticava a alta sociedade da França e a religião. Hoje, é considerado um dos pioneiros da literatura realista.

Sendo assim, eu me encantei com o livro porque eu adoro personagens realísticos, que vemos e sentimos suas dores de perto, ainda mais uma protagonista feminina, num período em que mulheres não tinham muito espaço. Bovary é uma potência de personalidade e história.

O filme, apesar das pequenas omissões, também é maravilhoso. As atuações estão ótimas, a direção incrível, assim como a arte e o figurino. O roteiro foi bem desenvolvido e, do começo ao fim, já sabemos o trágico fim de nossa querida Emma, mas assistimos com a fantasia de que, talvez, ela conseguirá ser feliz.

No demais, Madame é mais uma protagonista mulher, que nos encanta, fazendo uma pessoa em pleno 2017, escrever uma resenha sobre uma história de 1857.

Trailer de Madame Bovary, por Sophie Barthes.

BIBLIOGRAFIA

IMDB. Madame Bovary. 2015. Disponível em: <http://www.imdb.com/title/tt2334733/?ref_=nm_flmg_act_9&gt;. Acesso em: 06 de jan. 2017

O machismo no mundo dos jogos

No final de 2016, a Nintendo lançou o jogo Super Mario Run para iOS e agora, em 2017, lançará a versão para o sistema operacional, Android.

Como toda criança e adolescente dos anos 90, obviamente, fiquei super empolgada e baixei o jogo, assim que lançou. No entanto, logo de cara me assustei com a narrativa da história, sobre a famosa donzela em perigo.

A princesa Peach convida Mário para comer bolo, que ela mesma cozinhou, em seu castelo, mas o vilão Bowser a sequestra e agora o herói tem que resgatá-la. Ano passado eu li alguns textos sobre o machismo dentro do mundo dos gamers e, a partir disso, comecei a questionar os jogos de vídeo game que passei minha infância jogando, ao lado do meu irmão e meu primo.

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É possível jogar com a princesa Peach, mas, para isso, você precisará vencer todos os 24 níveis do modo World Tour e derrotar Bowser.

Apesar de hoje em dia eu não jogar como antes e não estar atualizada no assunto, eu lembro que na graduação em Cinema & Audiovisual, na aula de roteiro, aprendi que existe a área de roteiro para games e, esse mercado, assim como a maioria no cinema, é dominado pelos homens.

Com isso em mente, lembrei dos famosos jogos da minha infância – Super Mário, Street Fighter, Tekken, GTA, 007, Mortal Kombat, Ragnarok, entre vários outros – e argumentei com uma amiga, que sempre que eu jogava MarioKart Double Dash (o jogo de corrida do Mário para Nitendo GameCube), ninguém escolhia as princesas Daisy e Peach, porque elas eram as piores. Na conversa, ela rebateu dizendo “mas já reparou que as personagens mulheres sempre são piores?”

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Imagem do jogo MarioKart Double Dash, com Peach e Daisy em destaque.

Quando ela me disse isso, lembrei não só das princesas, mas também da Chun Li, de Street Fighter e, que, toda vez que jogávamos com ela, a piada era sobre os “gritos irritantes” que ela dava ao perder a luta. Aliás, haviam poucas mulheres em jogos de luta e a Chun Li é considerada a primeira personagem feminina desse estilo de game.

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Vega vs Chun Li.

Outro fato memorável, foi quando eu joguei Ragnarok, um jogo online, e usava a conta do meu irmão, onde eu só podia escolher personagens masculinos e, ao longo do tempo, descobri que outras meninas também usavam personagens masculinos para não serem intimidadas e assediadas no jogo (era possível casar e até ter filhos em Ragnarok) e que assim elas podiam jogar em paz e serem respeitadas. Ainda me recordo que quando contei para alguns meninos da minha turma, que eu jogava Ragnarok, fui lembrada de que “esse jogo é de menino, não acredito que você saiba jogar”.

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Poster de Ragnarok Online.

E o que isso tem a ver com machismo?

Num universo onde a maioria dos criadores são homens, não é surpreendente ver os heróis representados como homens poderosos e as mulheres como princesas lindas e frágeis. Assim como falei no texto sobre séries televisas, é impossível a visão de mundo do roteirista não interferir em sua escrita e como vivemos num mundo machista, claro que as histórias, sejam cinematográficas, televisas ou de videogames, vão refletir isso.

Eu me questionei seriamente se os personagens femininos, quando não são protagonistas dos jogos, são realmente piores que os homens e se isso era proposital. Seria necessário uma tese de doutorado para abordar esse assunto, porém não acho que essa ideia seja absurda e acredito que tenha muita coisa velada.

É claro que temos jogos (e filmes) como Residente Evil e Tomb Raider, com mulheres fortes e poderosas, mas hipersexulizadas, nos lembrando que, até mesmo as histórias de videogames, protagonizadas por mulheres, foram criadas por homens.

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Gosto muito de Tomb Raider, mas não posso deixar de notar que ela é uma personagem hipersexualizada.

Na verdade, infelizmente, não são só os criadores que refletem essa visão de mundo, como também os jogadores. O caso mais recente que vi sobre machismo no mundo dos jogos, foi em Pokémon Sun e Pokémon Moon, para Nintendo 3ds. A evolução do Pokémon Popplio, Brionne e Primarina, respectivamente, assumiu uma forma mais feminina, e não faltou foi crítica por parte dos meninos, para essa mudança.

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Imagem retirada do site Kotaku.

No site Kotaku, a autora Patricia Hernandez, relata muito bem o ocorrido, dizendo que “Nas mídias sociais, as pessoas estão criticando o design do vestido de Brionne, junto com sua delicadeza, por dar ao Pokémon um ar muito feminino.”

Hernandez continua, mostrando a verdade nua e crua “Parecer feminino é infelizmente considerado uma coisa ruim para algumas pessoas. Afinal, a feminilidade tem estigma, incluindo a suposição de que ela incorpora fraqueza, monotonia ou submissão. Ao aparentar ser ‘feminino’, Brionne não tem a chance de ser considerado ‘legal’ ou ‘forte’ por algumas pessoas, e isso é uma merda.”

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Pokémon Primarina, considerado muito “feminino” pelo público masculino.

Será mesmo que o problema está na aparência feminina ou na visão que a feminilidade tem? Nossa sociedade ainda perpetua esse erro, de ensinar que meninas são frágeis e delicadas, enquanto homens são fortes e líderes nato. Isso é um problema muito sério e que deve ser combatido a todo o custo e a mídia exerce um papel muito grande nisso. Se mantermos essas histórias, de princesas em perigo, vamos sempre acobertar o machismo, dizendo que homens são superiores só por serem homens.

Outro texto importante que achei na internet, foi o do site pokemongobrasil, dizendo que uma pesquisa feita pelo SurveyMonkey mostra que a maioria dos jogadores dos EUA, de Pokémon Go (app para smartphone), são mulheres. Isso é interessante, pois quebra aquela famosa ideia de que só homem gosta e joga videogame.

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Gráfico por: Nick DeSantir/Forbes (imagem retirada do site pokemongobrasil)

Assim, está mais do que na hora de botarmos a boca no trombone e reclamarmos, como clientes e como mulheres, sobre essa hipersexualização e submissão das personagens femininas em jogos. Muitas mulheres gostam de jogar, inclusive querem ou já trabalham na área, e tudo o que exigem é uma boa representação. Igualdade de gênero é mais que necessário e a mídia deve aderir essa causa o quanto antes, para acabarmos de vez com essa visão machista na representação das mulheres.

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Sim Peach, também estamos cansadas do machismo. #machistasnãopassarão

BIBLIOGRAFIA

HERNANDEZ, Patricia. Starter Pokémon’s ‘Feminine’ Evolution Is Bothering Some Fans. 2016. Disponível em: <http://kotaku.com/starter-pokemons-feminine-evolution-is-bothering-some-f-1787416839&gt;. Acesso em: 04 de jan. 2017. 

SCHULZE, Thomas. Como liberar todos os personagens secretos de Super Mario Run. 2016. Disponível em: <http://www.techtudo.com.br/dicas-e-tutoriais/noticia/2016/12/como-liberar-todos-os-personagens-secretos-de-super-mario-run.html&gt;. Acesso em: 04 de jan. 2017.

TADDEO, Tiago. As mulheres estão dominando o Pokémon GO. 2016. Disponível em: <http://www.pokemongobrasil.com/as-mulheres-estao-dominando-o-pokemon-go/&gt;. Acesso em: 04 de jan. 2017.

 

UnREAL: o drama, sem drama, que você respeita.

Recentemente um professor comentou que as séries que a esposa dele assiste, Grey’s Anatomy e Scandal, são dramalhões muito chatos. Fiquei com isso na cabeça e tentei fazer uma análise com o outro exemplo que ele citou, Breaking Bad.

Não posso negar que os trabalhos da deusa Shonda Rhimes são dramalhões, mas muito maravilhosos. Também não posso negar que Breaking Bad é puro drama, só que o foco do protagonista vai da família ao poder, enquanto os personagens da Shondaland lidam e focam em milhares de coisas.

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“Alguém me dê um sedativo.” Até Yang sofre em Grey’s, admitimos isso. #tamojunto

Para não rebater o argumento usado com outro projeto que a própria Shonda tenha criado ou produzido, pensei em abordar outro programa, que também tenha protagonismo feminino, seja do gênero drama, além de ser o oposto das séries citadas.

Com isso em mente, o seriado escolhido foi UnREAL. A trama foi criada por duas mulheres, Marti Noxon e Sarah Gertrude Shapiro, e o protagonismo é encabeçado por Rachel Goldberg (Shiri Appleby) e Quinn King (Constance Zimmer).

 

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Quinn King (Constance Zimmer) e Rachel Goldberg (Shiri Appleby) no cartaz da segunda temporada.

A história mostra os bastidores do reality show Everlasting, que é baseado no famoso reality The Bachelor. O programa original, The Bachelor, é um show onde várias mulheres disputam o coração de um homem. Hoje em dia existe o The Bachelorette, que é a versão onde homens disputam o coração de uma mulher.

Em UnREAL, nós vemos toda a parte da produção e filmagens do programa fictício, Everlasting, e descobrimos que o “príncipe”, tão disputado, não tem nada de encantado, que a maioria das falas das participantes são induzidas pelos produtores e, posteriormente, editadas, além de vermos todos os podres dos bastidores, que apesar de ser ficção, tem muita veracidade.

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Pois é…

Para você ter uma noção de como esse drama é surreal, na primeira temporada, uma das candidatas comete suicídio no local onde o programa é filmado e na segunda temporada, um personagem é morto por racismo. Não estou entrando em detalhes porque não quero dar spoilers, mas quero provar que essa série é um drama bastante pesado e muito bem desenvolvido.

Além do mais, diferentemente de protagonistas como Meredith Grey, nós não gostaríamos nenhum pouco de conhecer Rachel e Quinn, mas a amamos de tão monstras e bizarras que elas são. Sinceramente, Walter White vai pro chinelo perto delas, porque elas conseguem manipular muito bem, tudo e todos, sem precisar fabricar drogas para isso.

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Go Rachel, Go Rachel!

Antes que pensem, eu gosto muito de Breaking Bad. No entanto, é exaustivo quando as pessoas só falam e elogiam esse tipo de programa, com protagonismo masculino, com o argumento de que é excelente e bem desenvolvido, mas nunca ouviram falar de UnREAL, que é tão maravilhoso quanto.

A intenção da série parece bem clara: mostrar todas as mentiras de um reality show, não é à toa que o nome é UnReal (Não Real). Ele mostra como essa indústria é perigosa pras próprias pessoas que participam dela, por tudo o que são obrigados a passar e por toda a competitividade fora e dentro das câmeras.

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O “bachelor” da primeira temporada Adam (Freddie Stroma)
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O “bachelor” da segunda temporada Darius Hill (B.J.Britt)

Aliás, o mais interessante do programa é justamente mostrar como a mídia cria fantasias românticas como se tudo fosse real, mas, na verdade, as pessoas do programa são bastante problemáticas, assim como qualquer outro ser humano, e vivem dentro de um sistema sedutor e destrutível, ao mesmo tempo.

Além disso, a relação das duas anti-heroínas, Rachel e Quinn, é muito questionável, pois elas são uma dupla dinâmica incrível, porém se atacam toda hora, se necessário. A Rachel tem vários problemas de saúde mental e uma mãe psicóloga que cuida dela, mas acaba piorando seu estado, enquanto a Quinn é uma pessoa que só pensa na audiência e em fazer o seu querido show, o melhor de todos, e nunca derrama uma lágrima sequer.

Ou seja, temos duas mulheres ambiciosas e excelentes exemplos de personagens femininas que vivem dramas, sem fazer drama, até porque, elas são obrigadas a esconder tudo, senão seriam presas em três segundos. E claro, não posso deixar de comentar que ambas tem relacionamentos amorosos péssimos, com homens, mas uma acaba sendo o suporte da outra e sempre dão a volta por cima dos ex, que também não são flor que se cheire.

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“Isso é o poder feminino.”

Em contra partida, temos outros persongens como Jay (Jeffrey Bowyer-Chapman) e Madison (Genevieve Buechner) que tem atitudes mais associáveis, mesmo fazendo besteiras, de vez em quando. Aliás, as próprias candidatas do falso reality são maravilhosas, porque cada uma tem uma história diferente e por mais que elas queiram ganhar o “prêmio”, elas não fazem ideia do que estão fazendo ali e questionam a produção do programa o tempo todo, além de terem medo do que pode acontecer com elas. É si por si, mas volta e meia algumas alianças são formadas, até algo quebrar essa união.

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Elenco da primeira temporada.

É importante frisar que essa narrativa é bem forte e mostra o pior do ser humano e da televisão, nos fazendo refletir e questionar sobre o que assistimos, sobre relacionamentos humanos e ambição profissional, e pior, como que vale tudo por audiência.

Sendo assim, eu recomendo essa série pra quem gosta de assuntos pesados e uma realidade nua e crua, cheia de reviravoltas, com personagens mulheres maravilhosas, algumas assustadoras, mas incríveis, e também porque cada temporada tem somente dez episódios de 40/50 minutos e a terceira temporada ainda vai começar.

BIBLIOGRAFIA

IMDB, UnREAL.2015. Disponível em: <http://www.imdb.com/title/tt3314218/&gt;. Acessado em: 29 de dez.

Tina Fey e o poderoso roteiro de Meninas Malvadas

Vamos deixar algo claro: eu, você, ela e a galera toda da década de 90/00 simplesmente amamos o filme Meninas Malvadas. Todo mundo ri, se identifica e, se deixar, ainda chora com algumas cenas, de tão associável com a nossa realidade no ensino médio.

No entanto, acredito que a maioria das pessoas avalie esse filme como uma comédia sem muita pretensão, a não ser entreter. Eu discordo dessa opinião e vou explicar meus motivos.

Em primeiríssimo lugar, o roteiro foi escrito por ninguém mais, ninguém menos, que Tina Fey, que teve como inspiração o livro Queen Bees & Wannabes de Rosalind Wiseman. Fey interpreta a professora Srta. Norbury, acusada de vender drogas no famoso livro/diário criado pelas populares, o “Burn Book”.

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Quem não morria de medo de aparecer nesse livro, hã?

Eu digo isso porque os trabalhos da Tina, normalmente, vem com muitas mensagens subliminares, digamos assim. Desde suas esquetes em Saturday Night Live (1997-2010) até sua última série Unbreakable Kimmy Schimdt (2015-16), seu humor é bastante sarcástico e sempre tem umas alfinetadas na sociedade, alfinetadas essas, muito bem vindas, por sinal.

Com isso em mente, pelo o que entendo de roteiro, acredito que ela teve claras intenções com o projeto e obteve sucesso com ele. Quando um roteirista inicia um filme, ele segue algumas regras “universais”, para conseguir vender seu trabalho, além de envolver paixão e propagar mensagens, aos quais chamamos de TEMA, no univervo cinematográfico.

O tema do longa-metragem é: escola, relações e amadurecimento.

Diferentemente do filme Patricinhas de Beverly Hills, por exemplo, o argumento de Fey além de enfatizar todos os estereótipos que criamos na época da escola, ele nos mostra o quão mal eles nos fazem, dentro e fora do colégio. Sem desmerecer Patricinhas de Beverly Hills, que também é um excelente filme, mas só querendo marcar um ponto, dizendo que o filme dos anos 90 realmente é um projeto despretencioso e que nos faz refletir de qualquer forma, mas o dos anos 2000 nos impulsiona a refletir o tempo todo, desde a entrada de Cady Heron (Lindsay Lohan) na escola até o acidente com nossa amada inimiga Regina George (Rachel Mcadams).

Além do tema, outra ferramenta utilizada pelos roteiristas são os diálogos e os diálogos de Meninas Malvadas são maravilhosos e tem muita coisa nas entrelinhas. O maior exemplo disso é a fala da professora:

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“Vocês tem que parar de chamar umas as outras de putas e vadias. Isso faz com que seja ok para os meninos chamá-las assim também.”

Você tem noção do quão poderoso essa frase é? É uma simples frase que vem carregada de tanta coisa, e claro, o roteiro não usa argumentos explícitos contra o machismo, mas está ali, embutido. Ela esta falando do machismo da nossa sociedade, que se inicia na infância e vai piorando na adolescência, fase em que nossa sociedade nos provoca a lutarmos umas com as outras, na maiorias das vezes, por homens dispensáveis.

Lembrando que o ódio a Regina George começou pela disputa entre o Aaron Samuels (Jonathan Bennet), certo? Os amigos de Cady tentam convencê-la de destruir a reputação de Regina, mas ela só aceita participar depois que a rainha da escola volta a namorar o Aaron.

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Ele é lindinho, mas homem nenhum vale uma disputa, certo?

Bom, vamos aos fatos: Regina George não é a melhor pessoa do mundo. Ela gosta de ser o centro das atenções, acha que o mundo gira em torno dela e magoa a Cady de propósito, no entanto, a história nos deixa a questão: será que vale a pena essa guerra toda entre meninas?

No final, tanta coisa ruim acontece e tudo por causa de um rapaz – claro que não é só o boy magia, mas, no roteiro, o ato que impulsiona a protagonista a tomar atitudes é ele – e a eterna disputa entre mulheres, quando na verdade, devíamos nos unir. Lembram da nossa amiga do bolo de arco-íris?

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“Eu queria poder fazer um bolo de arco-íris e sorrisos.”

Outro assunto relevante na trama é a polêmica do professor de educação física,Coach Carr (Dwayne Hill), que se relaciona com suas alunas adolescentes. Não é à toa que investigam a professora Norbury por tráfico de drogas, já que descobrem que a acusação ao professor era realmente verdade e é simplesmente muito errado um homem de mais de quarenta anos se envolver com alunas que são menores de idade. Uma das melhores cenas é ele correndo quando descobrem tudo, porque na hora do vamos ver, homem nenhum assume as responsabilidades dos atos criminosos né?

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Então…

Continuando, a personagem Lizzy Caplan (Janis Ian) é outro exemplo excelente na comédia. Ela é uma menina que foge completamente do padrão e, justamente por isso, é acusada de ser lésbica pela famosa queen be. Seria ótimo se ela fosse lésbica, mas não é o caso da personagem, ela simplesmente não se veste e não assume uma postura feminina e, infelizmente, isso é motivo o suficiente para as más linguas a atacarem. Mas ela é a melhor personagem e nós a amamos por todos os tabus que ela quebra.

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E esse terno maravilhoso, hã?

Aliás, o BFF (best friends forever) de Lizzy, Damian (Daniel Franzese), é assumidamente gay e o amamos também. Eu lembro que na minha época de colégio, infelizmente, quase não havia gays assumidos e o motivo é o mesmo de hoje em dia: homofobia. Atualmente as coisas estão mudando, aos poucos, mas só em vermos personagens incríveis como Damian, num filme de 2004, ficamos extremamente felizes pela representatividade, mesmo que não sendo a mais ideal.

Além disso, até a professora interpretada por Tina é um ótimo exemplo. Uma mulher na faixa dos 30/40 anos, divorciada e sem filhos, com mais de um emprego, é outra que sofre com os preconceitos da sociedade e, mesmo assim, é justamente quem apoia e inspira os alunos.

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“Porque eu sou uma incentivadora. Eu incentivo as pessoas.”

E não vamos nos esquecer da participação de Amy Poehler, como a mãe de Regina George, uma mulher descolada que deixa as filhas fazerem o que quiserem, mas também perdida no espaço, com tantas imposições as mulheres de não envelhecerem, serem mães e amigas, além de cuidar da casa, linda e jovem, e sabe-se lá mais o que. Eu sei que ela não é um exemplo de pessoa mas, todas as mulheres sofrem com imposições machistas, isso não podemos negar.

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Difícil, né?

E claro, a personagem que deixei pro final é Karen Smith, interpretada pela Amanda Seyfried. Ninguém a incentiva com suas ideias, sempre a lembram que ela não é considerada inteligente e ela mesma reproduz esse pensamento, e, pior ainda, é a quantidade de vezes que a chamam de “puta”. Na cena em que estão elegendo as meninas que vão disputar a rainha do baile de formatura, Regina diz que Karen nunca é escolhida, apesar de ser considerada bonita, porque ela fica com todos os meninos. E ai, lembram que não podemos ter muitos parceiros, senão somos isso ou aquilo?

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#machistasnãopassarão

Na época em que assisti ao filme, eu tinha apenas 13 anos e ele teve muita importância no meu crescimento pessoal, porque eu vivi de perto muitos dos problemas mostrados no longa e consegui compreender, com o passar do tempo, o que estava por trás de tudo.

Justamente por isso que acho que o roteiro tem muita lição de moral pra todas as jovens meninas e meninos também, sobre a tortura que o ensino fundamental/médio é e como podemos evitar isso, quebrando os ensinamentos conservadores e destrutivos e dando espaço ao respeito e à individualidade.

Peço desculpa aos fãs, caso eu tenha falado algo de que não gostaram ou se esqueci de mencionar alguma coisa importante. Eu amo esse filme e o defendo loucamente porque ele me influenciou bastante e acredito que ainda influencie muitos pré-adolescentes, como eu já fui um dia, e a resolução de tudo é que tem espaço pra todas as diferenças dentro e fora do colégio e está tudo bem. Não precisamos nos encaixar nos padrões, temos que abrir a mente para novas formas de crescimento e aprendizado como grupo e como pessoas individuais. O trabalho de Tina me ajudou muito nesse sentido e mesmo não sendo o filme com maior quebra de tabus possíveis, até porque todos os protagonistas são brancos, lindos e ricos, ele tem questões importantes e que valem a reflexão.

Por fim, em breve farei um texto sobre a carreira e os trabalhos da Tina Fey e contarei sobre o que aprendi lendo seu livro autobiográfico Bossypants e como as séries e filmes dela me inspiram como jovem roteirista. Até breve.

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Bibliografia

IMDB, Mean Girls, 2004. Disponível em: <http://www.imdb.com/title/tt0377092/&gt;. Acesso em: 28 dez. 2016.

WIKIPEDIA, Mean Girls, 2004. Disponível em:<https://pt.wikipedia.org/wiki/Mean_Girls&gt;. Acesso: 28 dez. 2016.

O protagonismo feminino no cinema nacional 2016.

O cinema nacional, de uns anos pra cá, tem ganho uma força monstruosa, e não só o conteúdo, quanto a qualidade técnica, estão cada vez mais impressionantes.

Nesse ano, tivemos muitos lançamentos, alguns já batidos mas que não deixam de ter um valor simbólico, outros que não se saíram tão bem e, claro, o que nos deixaram de queixo caído.

O ano de 2016 foi um ano de muita luta pela igualdade de gênero, dentro e fora das câmeras, uma luta que vem ocorrendo há anos e cada vez mais obtém força e sucesso. Com isso em mente, nesse texto eu gostaria de destacar seis produções cinematográficas com protagonismo feminino, seja na frente ou por trás das câmeras, pois valem a reflexão, a homenagem e o orgulho de quem aprecia a sétima arte brasileira, além de ser um pequeno avanço na luta pela igualdade entre homens e mulheres no meio audiovisual.

AQUARIUS

Sinopse: Clara (Sonia Braga) mora de frente para o mar no Aquarius, último prédio de estilo antigo da Av. Boa Viagem, no Recife. Jornalista aposentada e escritora, viúva com três filhos adultos e dona de um aconchegante apartamento repleto de discos e livros, ela irá enfrentar as investidas de uma construtora que tem outros planos para aquele terreno: demolir o Aquarius e dar lugar a um novo empreendimento.”

O filme foi escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Sonia Braga. Pra quem assistiu a outra realização do diretor, Som ao Redor (2012), notou semelhanças na estrutura narrativa e na direção do filme, o que deu ao longa um estilo bem autoral, e por sinal, igualmente ao trabalho anterior, mostra toda a beleza de Recife.

No entanto, quem rouba a cena, sem sombra de dúvidas, é Sonia Braga. Ela está um furacão de personagem, de carisma, de sensualidade, de interpretação, de tudo o que você puder imaginar. A personagem principal é a força de tudo na história! É incrível assistir à garra dessa mulher ao defender seu apartamento, que é e sempre foi, seu lar, além de vermos a fragilidade desta, com assuntos mais delicados como saúde e família.

Além disso, a atriz, aos 66 anos de idade, esbanja sensualidade e inclusive quebra um grande tabu com suas cenas de sexo, pois mulheres dessa faixa etária, aos olhos da sociedade machista, não são procuradas para esse tipo de papel, já que sexo após certa idade é visto como algo grotesco e não comercial, e claro, mulheres não podem envelhecer né?

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Sonia Braga divando aos 66 anos de idade.

O drama é incrível e foi muito bem construído e levou vários prêmios mundo afora, pela potência que foi. No entanto, é importante frisar que a trama foca no público de classe média alta, então, ao meu ver, tem alguns equívocos ao retratar certas mordomias dessa classe.

No geral, esse filme é tudo o que você já deve ter ouvido falar e um pouco mais. Aquarius deu e ainda vai dar muito orgulho ao cinema nacional.

AMORES URBANOS

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Poster do filme Amores Urbanos.

Sinopse: Amores Urbanos é uma comédia dramática que conta a história de três amigos que vivem no mesmo prédio, em São Paulo. Júlia, Diego e Micaela são jovens anti-heróis, que superam desventuras amorosas e profissionais com humor e muita personalidade.”

Escrito e dirigido por Vera Egito, Amores Urbanos rompe muitas barreiras no cinema brasileiro, pois é um filme com muita carga emocional e conta histórias de relacionamentos amorosos entre pessoas, independente da sexualidade, da forma mais honesta possível.

O longa se utiliza do multiprotagonismo e segue em torno da vida de três amigos Júlia (Maria Laura Nogueira), Micaela (Renata Gaspar) e Diego (Thiago Pethit) e suas vidas amorosas, bastante desastrosas, por sinal.

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Júlia (Maria Laura Nogueira), Micaela (Renata Gaspar) e Diego (Thiago Pethit).

Não há efeitos especiais, não há nenhum artíficio “blockbuster” que prenda a atenção do público, mas tem muita história pessoal dentro do roteiro e que qualquer um na faixa dos 25-35 anos consegue se identificar com as crises pessoais dos personagens.

Além disso, é incrível termos dois protagonistas assumidamente gays, Diego e Micaela, e seus relacionamentos serem mostrados pelo lado bom e também pelo ruim, como qualquer outra relação heterosexual.

No demais, apesar de ser um filme com um público alvo muito fechado, é interessante pela narrativa, pelos personagens, pelas dores vividas por eles e como os três amigos conseguem superar todas as dificuldades juntos. Acredito que seja um filme que retrata família no sentido de conexão e não de sangue e só por isso já é possível se emocionar com o longa-metragem.

ELIS

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Cartaz do filme Elis, com Andreia Horta.

Sinopse: A vida de Elis Regina – indiscutivelmente a maior cantora brasileira de todos os tempos -, é contada nesta cinebiografia em ritmo energético e pulsante. A trendsetter cultural que sinalizou a mudança de estilos de Bossa Nova para MPB, a “pimentinha” ardente (brilhantemente interpretada por Andréia Horta), que viveu uma vida turbulenta. Ao mesmo tempo em que se chocava com a Ditadura Militar no Brasil, ela lutou com seus próprios demônios pessoais. “Elis”, o filme, está imbuído da alma da cantora e do país que ela amava.”

O filme tem a direção de Hugo Prata que também assina o roteiro, junto com Vera Egito e Luiz Bolognesi.

Estrelado por Andreia Horta, que brilhantemente encarna o papel da cantora Elis Regina, o longa segue uma narrativa clássica, e nos retrata muito bem as emoções de Elis com o passar do tempo, do começo de sua carreira ao sucesso, até sua despedida desse mundo.

Assim que assisti ao filme, fiz um texto comentando a falta de personagens femininos no roteiro, além da protagonista, Elis. Uma pessoa que com certeza faltou nesse longa foi Rita Lee, mas, infelizmente, não podemos mudar isso.

No entanto, não posso deixar de elogiar a performance de Andreia e dizer que Elis foi e sempre será um ícone para a música nacional. Toda sua história e seu talento me arrepiam só de pensar e o filme nos deixa arrepiado a todo o instante, tocando clásssicos da cantora, além de mostrar suas crises pessoais, às quais podemos nos indentificar humanamente.

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Andreia Horta como Elis Regina na cena em que Elis fala sobre a didatura militar numa entrevista internacional. “Sem querer ofender os gorilas, obviamente.”

No demais, apesar do erro de não dar voz às outras mulheres que fizeram parte dessa história, a personagem principal, seja por ser uma biografia ou não, dá um banho de presença em todos os homens em cena e nos encanta com tamanha potência, de voz e vida pessoal.

Se eu fui ao cinema apaixonada por Elis Regina, saí completamente encantada e admirada por tudo o que ela passou e conquistou. Esse filme vale a pena, não só pela boa produção, mas pelo nome que traz. Por Elis vale a homenagem e vamos torcer para que as próximas produções venham com mais protagonismo feminino e menos homens desnecessários à trama.

MÃE SÓ HÁ UMA

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Cartaz do filme Mãe só há uma.

Sinopse: Mãe só há uma é uma tragédia adolescente que confronta a idéia de família, de identidade, de cultura: Pierre, 17 anos, mora no interior de São Paulo com sua amorosa mãe Aracy e sua irmã Jaqueline. Vive uma vida louca até que a polícia aparece em sua casa com uma delicada suspeita. Joca, 13 anos, mora na capital de São Paulo com sua mãe ausente Gloria, seu delicado pai Matheus e sua empregada Marly. Um exame de sangue vai revelar o que havia oculto em sua família.”

Longa escrito e dirigido por Anna Muylaert, primeiro longa lançado após o sucesso de “A Que Horas Ela Volta (2015)”.

A história é baseada num acontecimento real, o famoso “Caso Pedrinho”. Eu era muito nova na época, mas lembro das notícias contando o caso do menino que foi sequestrado por um mulher, que até então assumiu o papel de mãe – e para ele, realmente foi a mãe dele – e 16 anos depois, a polícia o encontra e o leva para sua família biológica.

Apesar desse forte cunho para o lado do suspense, a diretora trabalha a trama de outra forma, bastante singular por sinal. A narrativa já começa com a separação de Pierre com sua mãe “adotiva” e o vemos lidar com a nova vida, além de lidar com sua identidade de gênero e sexualidade.

Pierre gosta de vestir roupas femininas, apesar de ser considerado do gênero masculino, e se relaciona tanto com meninas, quanto com meninos. O interessante disso tudo, é que na ficção criada pela diretora, o rapaz que, até então, poderia explorar seus gostos pessoais na vida que tinha, ao chegar no novo lar, sua sexualidade e rupturas de gênero não são aceitas, e por sinal, são o principal problema da boa relação nesse novo núcleo familiar.

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Don’t call me son (Não Me Chame de Filho), título do filme na versão em inglês.

Acredito que a maioria do público assistirá ao filme e poderá se decepcionar pelo o roteiro não focar na parte do sequestro e da revelação de tudo, mas irá se deliciar com essa narrativa única, de pertencimento e não pertecimento de um menino ao seu corpo, seu gênero, sua sexualidade e a sua mais nova família.

No demais, Anna Muylaert surpreende novamente e traz mais um orgulho para a cinematografia brasileira.

MATE-ME POR FAVOR

 

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Cartaz do filme com a atriz e protagonista Valentina Herszage.

Sinopse: Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Uma onda de assassinatos invade o bairro. O que começa como uma curiosidade mórbida se apodera cada vez mais da vida dos jovens habitantes. Entre eles, Bia, uma garota de 15 anos. Após um encontro com a morte, ela fará de tudo para ter a certeza de que está viva.”

Escrito e dirigido por Anita Rocha da Silveira, Mate-Me Por Favor é, na minha opinião, o filme do ano. Eu diria isso por razões que vão além de considerar um filme um sucesso ou não. O longa é uma mistura de suspense, com thriller, com alívios cômicos, e além de mostrar a vida pessoal de Bia (Valentina Herszage) e suas amigas, nos mostra como todas lidam com os assassinatos que vem ocorrendo na região em que moram, a Barra da Tijuca.

Esse longa-metragem rompe com tantas regras cinematográficas, mas de uma forma tão magnífica, que quase cria um novo gênero no cinema nacional. Não lembro de nenhum outro filme brasileiro que siga esse exemplo, talvez porque infelizmente não é fácil produzir filmes por aqui ou porque também não é fácil divulgar os filmes já realizados, mas nenhum me vem à cabeça e eu fiquei encantada com essa trama.

O filme não só nos dá agonia e receio por tudo o que está acontecendo com as mulheres assassinadas, nos remetendo ao medo que todas as mulheres têm no dia a dia, como ainda nos surpreende com cenas transcedentais e outras engradíssimas, como as sequências do culto Evangélico “Funkeiro”.

Clipe da música Sangue de Jesus, incluída no filme.

Aproveito para dizer que a trilha sonora está impecável e ela vai de músicas transcedentais até Claudinho e Buchecha. Preciso dizer mais alguma coisa para te convencer a assistir ao filme?

No demais, o longa-metragem consegue entreter, causar e nos fazer refletir sobre como é ser uma menina no mundo em que vivemos e como desde jovens, meninas enfretam medos que, infelizmente, as cercam pelo resto da vida.

PEQUENO SEGREDO

 

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Cartaz do filme Pequeno Segredo.

Sinopse: O longa-metragem de ficção, baseado na história real de Kat Schurmann e que também inspirou o best-seller homônimo de Heloísa Schurmann, revela a força do amor no destino de duas famílias. Ao adotar Kat, o casal Schurmann convive com a delicada escolha de manter ou não um segredo que vai além da adoção.

Dirigido por David Schurmann, Pequeno Segredo, da lista, é o filme que mais foge do ritmo dos outros. A trama começa um pouco perdida, ao tentar situar a história de duas famílias que estão conectadas e só com o desenrolar da história que iremos entender o porquê.

A produção está excelente, mas peca em algumas coisas como direção de atores, no entanto, do meio do filme até o fim, é impossível você desconectar seus olhos da tela. Estamos lidando diretamente com a dor de duas famílias, em proteger Kat (Mariana Goulart), não só do seu “segredo”, como da reação dos outros ao descobrirem esse segredo.

É baseado numa história real, aliás, o diretor do filme é irmão de Kat Schurmann , personagem principal, e fica nítido, a todo o tempo, o amor e carinho que Kat recebeu ao longo de sua vida, além de nos fazer lidar diretamente com tabus que nossa sociedade simplesmente tem medo de tocar.

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Capa do livro de Heloisa Schurmann, com a verdadeira Kat Schurmann.

Mistérios a parte, eu optei por não contar o segredo da protagonista porque é algo muito importante e simbólico para a narrativa e irá surpreender a qualquer um que não conheça a história, ou que conheça, mas verá, através da ficção, o que aconteceu na vida de todos os que estavam presentes na história.

INDICAÇÃO BÔNUS

JUSTIÇA

Apesar de ser uma minissérie, logo foge do tema que é voltado para o cinema, não posso deixar de comentar essa obra-prima criada por Manuela Dias.

Sinopse: A narrativa segue a história de quatro personagens, que no mesmo dia, são julgados e condenados a sentença de seus “crimes” e, a todo o instante, lidamos com a pergunta: “Justiça pra quem?”

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Vicente(Jesuíta Barbosa), Fátima (Adriana Esteves), Rose (Jéssica Ellen) e Maurício (Cauá Reymond).

Cada episódio segue o desenrolar da condenação de um dos protagonistas, mas todas as histórias estão interligadas entre si.

Caso Vicente Menezes

Vicente Menezes (Jesuíta Barbosa), possuído por ciúme e raiva, atira e mata sua noiva, covardemente, ao vê-la se relacionando com o ex. Ele pega cinco anos de cadeia e, ao sair, busca mais que tudo, o perdão de sua sogra, interpretada por Deborah Block.

Caso Fátima Libéria do Nascimento

A personagem Fátima, interpretada por Adriana Esteves, que está maravilhosa no papel, atira no cachorro do vizinho para proteger seu filho pequeno. Com raiva do ocorrido, o vizinho, Douglas (Enrique Díaz), que é policial, enterra drogas no terreno de Fátima e esta é condenada  por tráfico. Quando sai da cadeia, Fátima tem o sonho de reconstruir a família, mas o marido Waldir (Ângelo Antônio) já faleceu, seu filho Jesus (Bernardo Berruezo/Tobias Carrieres) se tornou morador de rua e a filha Mayara (Letícia Braga/Julia Dalavia) se prostitui.

Caso Rose Silva dos Santos

Comemorando ter passado no vestibular, numa festa na praia, Rose (Jéssica Ellen) é presa com drogas dos amigos, enquanto sua melhor amiga, Débora (Luisa Arraes), é liberada. Rose sai da cadeia sem ter para onde ir e busca por Débora, agora casada e com um grande ódio dentro de si. Débora conta a Rose sobre o dia em que foi estuprada e, assim, as duas decidem procurar o homem que a violentou e fazer justiça com as próprias mãos.

Caso Maurício de Oliveira

Maurício (Cauã Reymond) foi preso por eutanásia, após matar sua esposa Beatriz (Marjorie Estiano), uma bailarina que foi atropelada e ficou paraplégica. Ao sair da cadeia, Maurício planeja se vingar de Antenor (Antonio Calloni), que durante a fuga com o dinheiro roubado do sócio, atropelou sua esposa e não prestou socorro.

Essa minissérie nos faz questionar tantos problemas do nosso dia a dia, além de nos entreter a todo o instante, com histórias maravilhosas e muito bem desenvolvidas. Eu devorei essa minissérie e fiquei extremamente orgulhosa por saber que foi criada por uma mulher, Manuela Dias, e que foi lançada em canal aberto, pois este não é um espaço que aceite tanta quebra de tabus.

Recomendo o drama pois vivemos num mundo em que Justiça é algo extremamente questionável, pois esta, infelizmente, não é feita para todos. No entanto, podemos e devemos questionar o que deve ser feito para que finalmente todos possam ser tratados da mesma forma perante a lei.

Além disso, a trilha sonora da série está impecável, com músicas do Johnny Hooker, por exemplo.

Filmes de ação com protagonistas mulheres e a crítica às personagens que não são donzelas em perigo.

Em 2000, foi lançado o filme As Panteras, estrelando Cameron Diaz (Natalie), Drew Barrymore (Dylan) e Lucy Liu (Alex), interpretando as famosas espiãs de Charlie.

Eu lembro que na época, com apenas nove anos de idade, fiquei encantada com aquelas mulheres maravilhosas lutando ferozmente contra os vilões. Eu não conhecia a série original Charlie’s Angels e, até então, a referência que eu tinha de mulheres em filmes e, principalmente, em games, eram princesas frágeis esperando ser resgatadas.

Para uma menina como eu, foi uma quebra muito grande com o que eu consumia da mídia e fiquei apaixonada com tudo aquilo.

Trilha Sonora do filme com as Deusas do Destiny’s Child.

Hoje em dia minha visão é diferente. Eu concordo que há uma forte sexualização das personagens e uma necessidade forçada em mostrá-las semi-nuas o tempo todo. No entanto, elas continuam sendo uma referência pra mim, não só pela nostalgia, mas porque existem poucos filmes de ação com protagonistas mulheres que fizeram sucesso desse tamanho.

Além disso, eu lembro que na época ouvi várias retaliações ao filme dizendo o quão surreal eram aquelas personagens enfretarem tantos homens e que faltava veracidade na história. A primeira coisa que passava pela minha cabeça quando eu ouvia esses comentários era: “Tom Cruise faz a mesma coisa em Missão Impossível e ninguém reclama”.

A partir disso, fiz questão de hoje, em pleno 2016, ler críticas cinematográficas de alguns filmes de ação, com protagonistas mulheres, e outros, com protagonistas homens, realizados em épocas parecidas, e eis minha pequena análise.

Busquei a resenha dos três primeiros longas de ação, com personagens femininos, que eu lembrei: As Panteras (2000),  Mulher-Gato (2004) e Salt (2010).

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Angelina Jolie no papel de Evelyn Salt.

Antes de qualquer coisa, gostaria de lembrar que a maioria dos filmes de ação foge da realidade e usa e abusa de efeitos especiais para nos envolver na trama. Com isso em mente, deixei o roteiro de lado e foquei na crítica às atrizes.

A resenha do filme de Cameron, Drew e Lucy falava do exagero destas em exibirem seus corpos, das cenas de lutas surreais em que seus cabelos continuavam perfeitos, o quão engraçado eram mulheres frágeis enfrentando vários homens, e o pior de todos: “se ao menos tivesse cena com elas nuas, o filme se salvaria”.

Em Mulher-Gato a crítica falava do prêmio Framboesa de Ouro* que Halle Berry ganhou, de sua sensualidade e ainda teve quem se referiu a participação da atriz em X-Men, em que interpreta Tempestade, como sendo outro fracasso. Já a avaliação de Salt exaltava a todo o tempo a beleza e sensualidade de Angelina Jolie e que só isso valia o filme todo.

Em contra partida, as análises dos filmes Missão Impossível 2 (2000), A Identidade Bourne (2002) e Duro de Matar 4.0 (2007), protagonizados por Tom Cruise, Matt Damon e Bruce Willis, ressaltavam as cenas de lutas como sendo extraordinárias e convincentes, nos fazendo esquecer dos buracos no roteiro.

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Raio neles, Tempestade!

Das obras cinematográficas citadas, todas foram dirigidas por homens e, somente Mulher-Gato, teve a participação de uma mulher no desenvolvimento da história, segundo o site IMDB.

É importante enfatizar que: no cinema, quem tem autonomia sobre o projeto é o diretor e, na maioria dos casos, o roteirista está fora do trabalho após a entrega do último tratamento do roteiro. Ou seja, mesmo os filmes com protagonistas mulheres, são histórias de heroínas pela visão e direção de homens.

Eu sempre falo que é impossível a visão de mundo do roteirista, no caso de séries televisas, e do diretor, no caso de filmes, não interferir no projeto. Sendo assim, nossas protagonistas, hipersexualizadas, são retratadas dessa forma porque um homem assumiu o projeto e é assim que ele imagina heróis femininos em combate.

Infelizmente, não posso negar que As Panteras, Mulher-Gato e Salt têm muitos problemas na narrativa e fogem da realidade, mas isso se aplica à maioria dos filmes do gênero, incluindo os do senhor Tom Cruise que, até hoje, com 54 anos de idade, interpreta os mesmos papéis e ninguém parece preocupado com suas cenas de ação.

Protagonistas de realizações cinematográficas mais recentes, como Rey (Daisy Ridley) em Star Wars: O Despertar da Força (2015) e Imperator Furiosa (Charlize Theron) em Mad Max (2015), também recebem críticas machistas e sem cabimento às personagens, coisa que não acontece com os heróis masculinos.

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Por quê será?

Sendo assim, acredito que quando mulheres roteiristas e diretoras assumirem o comando de filmes de ação, aliás, de qualquer gênero, com protagonistas mulheres, essa hipersexualização diminuirá ou sumirá de vez, mas a fantasia e o exagero desse estilo cinematográfico provavelmente continuará o mesmo e não há problema algum nisso. Porém, criticar heroínas pelos problemas do gênero narrativo é, na verdade, mais uma forma de a sociedade praticar o machismo e misoginia, que já estamos cansadas de ver e ouvir falar.

Que venham mais histórias protagonizadas por mulheres que lutam e acabam com os inimigos e menos machismo dentro e fora da ficção.

*Prêmio Framboesa de Ouro: é o prêmio americano, criado como uma paródia ao Oscar, dado aos piores filmes, atores, diretores, etc, do ano.

Bibliografia

IMDB, Mulher-Gato (2004). Disponível em: <http://www.imdb.com/title/tt0327554/fullcredits?ref_=tt_ov_wr#writers&gt;.

Rita Lee e Elis Regina: a amizade feminina que faltou no filme.

Na semana passada eu fui com meus pais assistir ao filme Elis. Faz alguns meses que eu vi o trailer e estava louca para prestigiar a história desse furacão de mulher.

Quando pequena não era muito fã de música brasileira, mas com o passar dos anos, me aproximei de pessoas que me influenciaram a escutar músicas nacionais.

Comecei me envolvendo com Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Titãs, Tim Maia, até que me encantei e me apaixonei por Rita Lee, e logo mais, Elis Regina. Admito que conheço muito pouco da vida pessoal de todos esses artistas, apesar das histórias surpreendentes, de força e luta.

No entanto, como comecei a apreciar suas canções, quando vi que teria um filme sobre Elis Regina, fiquei extremamente curiosa e ansiosa pela estreia. Eu sabia tão pouco, mas tão pouco da vida pessoal dela, que não fazia ideia da causa de sua morte.

De qualquer forma, ansiei pelo momento do lançamento do filme e, assim que lançou, arrastei meus pais ao cinema e juntos fomos nos arrepiar com a famosa Pimentinha.

É importante dizer que alguns dias antes de ir ao cinema, eu tinha lido uma ótima resenha do longa no site MdeMulher – “Um filme sobre os homens na vida de Elis Regina”. Esse texto me influenciou e, de certa forma, fui assistir a obra cinematográfica com várias questões em mente e, com os olhos nervosos por respostas, eis minhas conclusões.

O filme é muito bom, disso não há dúvidas. Eu fiquei encantada do começo ao fim, da fotografia ao som e ,principalmente, com Andreia Horta que está absurdamente feroz e encantadora. Se eu me incomodei com o playblack no começo do filme, no final eu já achava que ela e Elis eram uma só. Me encantei com tamanha performance e acho que Elis foi bem representada, além de ter sido a melhor personagem do filme, não só por ser a protagonista, mas porque o personagem foi bem desenvolvido.

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Rita Lee e Elis Regina.

Todavia, eu não pude deixar de notar o óbvio: Elis é a única mulher do filme que tem história e claro, isso porque ela é a personagem principal. Todos os outros que exercem um papel considerável na trama são homens. Inclusive nem a mãe de Elis aparece no projeto e, com isso, eu me perguntava a todo instante– será que veremos a mãe dela ao menos um segundo?

Além disso, fiquei igualmente intrigada em saber se Elis teve alguma amiga próxima e a resposta está no título desse texto. Rita Lee se tornou uma grande amiga de uma das maiores cantoras do Brasil, então por quê raios a Rita Lee não está no filme?

Eu sai do cinema e fiquei com milhares de questionamentos e essa semana resolvi ir atrás de algumas respostas e, assim, tive o prazer de assistir uma entrevista com Rita Lee e fiquei enlouquecida com tudo o que ela disse. Uma parte tão importante da vida de Elis e o roteiro e a direção de sua cinebiografia deixam isso de lado, como pode?

Entrevista com Rita Lee falando sobre sua amizade com Elis Regina.

Resumidamente, Rita Lee diz “A gente tinha se cruzado várias vezes durante os festivais da Record e ela não gostava mesmo, odiava Mutantes (…) Passou várias vezes por mim e não me viu (…) Eis que fui presa em 1976, e a primeira e única pessoa que foi me ver na cadeia, Elis (…) Ameaçando chamar a imprensa, queria me ver porque ela sabia que eu estava grávida que tudo aquilo era uma besteira, era plantado (…) Foi uma força bicho, uma coisa impressionante! E depois continuou porque ela sabia que eu sai da cadeia sem grana nenhuma, devendo minha alma e ela me chamou para fazer algumas coisas, me pediu música (…) A gente ficou muito amiga, tanto que a filha dela chama Maria Rita porque ela me chamava de Maria Rita.”

Uma pena essa relação não estar no drama, e me perdoem, mas nenhuma desculpa sobre arco narrativo irá esquecer essa falha na edição do longa-metragem. Uma parceria incrível, de onde surgiu uma amizade tão forte, a ponto de Elis nomear a filha fazendo uma homenagem a amiga. Tantos personagens masculinos dispensáveis e logo as mulheres que são deixadas de lado. Não há muita dificuldade em entender o motivo dessas escolhas, mas não entrarei nessa discussão.

Apesar dos pesares, no final da trajetória de Elis, é possível nos emocionarmos e sentirmos a dor da protagonista. Aos que já passaram por depressão ou tiveram fases muito difíceis na vida, é emocionante e dilacerante saber como esta querida cantora chegou ao fim. O filme não mostra ao fundo o por quê de tanta melancolia e sofrimento, mas nos deixa sentidos de uma grande perda nacional. Talvez sim os homens a tenham matado, mas somos nós mulheres que ainda nos orgulhamos e nos inspiramos nessa potência de mulher. Nunca serás esquecida, Elis, isso eu te prometo!

Sendo assim, mesmo com essa falha monstruosa no roteiro, vale a pena a ida ao cinema. Felizmente o cinema nacional deste ano está surpreendente, tanto na qualidade técnica, quanto na narrativa em si. Mas obviamente, não podemos deixar de notar os erros, mas devemos fazer críticas construtivas para que nos próximos projetos, o público se incomode cada vez menos e se apaixone cada vez mais por filmes brasileiros.

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Elis e Rita.

Bibliografia

WARKEN, Julia.Um filme sobre os homens na vida de Elis Regina. 2016. Disponível em: http://mdemulher.abril.com.br/cultura/um-filme-sobre-os-homens-na-vida-de-elis-regina/