Rita Lee e Elis Regina: a amizade feminina que faltou no filme.

Na semana passada eu fui com meus pais assistir ao filme Elis. Faz alguns meses que eu vi o trailer e estava louca para prestigiar a história desse furacão de mulher.

Quando pequena não era muito fã de música brasileira, mas com o passar dos anos, me aproximei de pessoas que me influenciaram a escutar músicas nacionais.

Comecei me envolvendo com Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Titãs, Tim Maia, até que me encantei e me apaixonei por Rita Lee, e logo mais, Elis Regina. Admito que conheço muito pouco da vida pessoal de todos esses artistas, apesar das histórias surpreendentes, de força e luta.

No entanto, como comecei a apreciar suas canções, quando vi que teria um filme sobre Elis Regina, fiquei extremamente curiosa e ansiosa pela estreia. Eu sabia tão pouco, mas tão pouco da vida pessoal dela, que não fazia ideia da causa de sua morte.

De qualquer forma, ansiei pelo momento do lançamento do filme e, assim que lançou, arrastei meus pais ao cinema e juntos fomos nos arrepiar com a famosa Pimentinha.

É importante dizer que alguns dias antes de ir ao cinema, eu tinha lido uma ótima resenha do longa no site MdeMulher – “Um filme sobre os homens na vida de Elis Regina”. Esse texto me influenciou e, de certa forma, fui assistir a obra cinematográfica com várias questões em mente e, com os olhos nervosos por respostas, eis minhas conclusões.

O filme é muito bom, disso não há dúvidas. Eu fiquei encantada do começo ao fim, da fotografia ao som e ,principalmente, com Andreia Horta que está absurdamente feroz e encantadora. Se eu me incomodei com o playblack no começo do filme, no final eu já achava que ela e Elis eram uma só. Me encantei com tamanha performance e acho que Elis foi bem representada, além de ter sido a melhor personagem do filme, não só por ser a protagonista, mas porque o personagem foi bem desenvolvido.

elis-e-rita-foto

Rita Lee e Elis Regina.

Todavia, eu não pude deixar de notar o óbvio: Elis é a única mulher do filme que tem história e claro, isso porque ela é a personagem principal. Todos os outros que exercem um papel considerável na trama são homens. Inclusive nem a mãe de Elis aparece no projeto e, com isso, eu me perguntava a todo instante– será que veremos a mãe dela ao menos um segundo?

Além disso, fiquei igualmente intrigada em saber se Elis teve alguma amiga próxima e a resposta está no título desse texto. Rita Lee se tornou uma grande amiga de uma das maiores cantoras do Brasil, então por quê raios a Rita Lee não está no filme?

Eu sai do cinema e fiquei com milhares de questionamentos e essa semana resolvi ir atrás de algumas respostas e, assim, tive o prazer de assistir uma entrevista com Rita Lee e fiquei enlouquecida com tudo o que ela disse. Uma parte tão importante da vida de Elis e o roteiro e a direção de sua cinebiografia deixam isso de lado, como pode?

Entrevista com Rita Lee falando sobre sua amizade com Elis Regina.

Resumidamente, Rita Lee diz “A gente tinha se cruzado várias vezes durante os festivais da Record e ela não gostava mesmo, odiava Mutantes (…) Passou várias vezes por mim e não me viu (…) Eis que fui presa em 1976, e a primeira e única pessoa que foi me ver na cadeia, Elis (…) Ameaçando chamar a imprensa, queria me ver porque ela sabia que eu estava grávida que tudo aquilo era uma besteira, era plantado (…) Foi uma força bicho, uma coisa impressionante! E depois continuou porque ela sabia que eu sai da cadeia sem grana nenhuma, devendo minha alma e ela me chamou para fazer algumas coisas, me pediu música (…) A gente ficou muito amiga, tanto que a filha dela chama Maria Rita porque ela me chamava de Maria Rita.”

Uma pena essa relação não estar no drama, e me perdoem, mas nenhuma desculpa sobre arco narrativo irá esquecer essa falha na edição do longa-metragem. Uma parceria incrível, de onde surgiu uma amizade tão forte, a ponto de Elis nomear a filha fazendo uma homenagem a amiga. Tantos personagens masculinos dispensáveis e logo as mulheres que são deixadas de lado. Não há muita dificuldade em entender o motivo dessas escolhas, mas não entrarei nessa discussão.

Apesar dos pesares, no final da trajetória de Elis, é possível nos emocionarmos e sentirmos a dor da protagonista. Aos que já passaram por depressão ou tiveram fases muito difíceis na vida, é emocionante e dilacerante saber como esta querida cantora chegou ao fim. O filme não mostra ao fundo o por quê de tanta melancolia e sofrimento, mas nos deixa sentidos de uma grande perda nacional. Talvez sim os homens a tenham matado, mas somos nós mulheres que ainda nos orgulhamos e nos inspiramos nessa potência de mulher. Nunca serás esquecida, Elis, isso eu te prometo!

Sendo assim, mesmo com essa falha monstruosa no roteiro, vale a pena a ida ao cinema. Felizmente o cinema nacional deste ano está surpreendente, tanto na qualidade técnica, quanto na narrativa em si. Mas obviamente, não podemos deixar de notar os erros, mas devemos fazer críticas construtivas para que nos próximos projetos, o público se incomode cada vez menos e se apaixone cada vez mais por filmes brasileiros.

elis-e-rita

Elis e Rita.

Bibliografia

WARKEN, Julia.Um filme sobre os homens na vida de Elis Regina. 2016. Disponível em: http://mdemulher.abril.com.br/cultura/um-filme-sobre-os-homens-na-vida-de-elis-regina/

Anúncios