Madame Bovary: Livro vs Filme & a depressão de uma extraordinária mulher.

No final do ano passado, eu terminei de ler o livro Madame Bovary, escrito por Gustave Flaubert. A versão que li foi da coleção Clube do Livro, pela editora Novas Fronteira Participações S.A., com tradução de Sérgio Duarte e prefácio de Otto Maria Carpeaux.

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Capa do Livro Madame Bovary, sexto volume da coleção Clube do Livro.

Assim que acabei o livro, fui em busca de alguma produção cinematográfica da história e, dei preferência pelo longa de 2015, pois foi escrito e dirigido por uma mulher, Sophie Barthes, também conhecida pelo filme Almas à venda (2009). Com isso em mente, eu quis fazer uma comparação entre o livro e o filme, além de tentar entender a visão da diretora sobre a vida dessa incrível personagem.

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Poster do filme.

Para quem não conhece a trama, Madame Bovary conta a trajetória de Emma Bovary, uma jovem sonhadora, que acredita estar próxima da felicidade, quando aceita se casar com Charles Bovary. No entanto, Emma acaba entediada em seu casamento com um médico do interior e reprimida numa cidade pequena. Para fugir da monotonia e da depressão, Emma persegue seus sonhos de paixão e excitação, independente do que isso possa custar.

No livro, a história começa com a apresentação de Charles, quando jovem, até sua graduação em medicina e seu primeiro casamento. Ele perde sua mulher muito cedo e, em uma consulta médica ao pai de Emma, M. Rouault, acaba se apaixonando por ela. Logo na primeiro parte, os dois se casam, Charles extremamente apaixonado e Emma com expectativas de que sua vida vai mudar para melhor.

No longa-metragem, o roteiro já começa com o casamento de Emma e Charles e sua ida para a cidade de Yonville. Apesar de ter gostado muito do filme e ter achado que a direção está maravilhosa, fiquei decepcionada com algumas mudanças na narrativa, como por exemplo, antes de morar na cidade de Yonville, o casal vive em Tostes, mas Emma entra em depressão e, para ajudá-la, Charles decide se mudar para uma cidade “maior” (entre aspas, pois ambas as cidades eram pequenas).

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Emma Bovary (Mia Wasikowska), Charles Bovary (Henry Lloyd-Hughes) e Rodolphe (Logan Marshall-Green).

Além disso, nessa etapa, Emma está grávida de sua única filha, Bertha Bovary, sendo que, no filme, é como se ela não tivesse tido filhos. No entanto, talvez, pelo ponto de vista da diretora e roteirista, ela deve ter omitido a criança da história, visto que ambos os pais não ligavam e não cuidavam muito dela, inclusive ela mal aparece na escrita literária.

A partir disso, acredito que ambos os trabalhos, livro e filme, entram em sitonia, justamente na fase em que, Emma, lutando contra o tédio e a falta de interesse em sua vida, se envolve em dois casos extra-conjugais.

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León Dupuis (Ezra Miller) e Emma (Mia Wasikowska).

Como não quero dar spoilers, preferi me ausentar dos detalhes dessa narrativa e focar no assunto mais interessante do drama, a depressão da protagonista.

Uma das maiores críticas do autor, Flaubert, aos romancistas de sua época, era a fantasia de suas histórias, iludando o público com tramas que não retratavam a realidade como ela é. Ou seja, ele era contra os romances que tinham finais “felizes para sempre”.

Assim, ele decidiu escrever Madame Bovary, relatando a vida de uma forma nua e crua, em que nos jogamos em fantasias amorosas ou em outras situações, como tentativas de enriquecer a vida, quando na verdade, estamos todos em busca da tal felicidade e ela não é fácil de ser conquistada.

Com isso, o escritor criou Emma Bovary e, em todas as partes do conto, deixa claro as dificuldades dessa em ser feliz e sua eterna luta contra a depressão e melancolia.

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Sim, Emma… sabemos que não é fácil.

Apesar de ter uma vida razoavelmente boa, ao menos para a época em que vivia, Emma era constantemente ignorada pelo marido e pelos seus amantes que, no final, se mostraram todos uns “monstros”. Ela tenta buscar respostas com paixões, religião, roupas, festas, mas, acaba totalmente endividada, num século em que mulheres eram donas de casa e suas expectativas, culturalmente ensinadas, eram se casar e ter filho.

Emma não é um exemplo de mãe, inclusive, eu acho incrível que um livro de 1857 prove que não existe o tal “instinto materno”. Em nenhum momento a personagem fica animada com a maternidade. Talvez, antes de ter a filha, ela se anime com a ideia, mas quando Bertha nasce, Bovary descobre que nunca quis ser mãe, nos lembrando que isso sempre foi e, ainda é, uma imposição da sociedade e uma felicidade que não é para todas.

Na visão da sétima arte, Sophie Barthes mostra de uma forma majestosa a vida simples e sem muitas novidades de Emma. Ademais, também entendemos o desânimo de nossa heroína, pois ela se casou com um homem sem muitas ambições e, que, por mais que fosse apaixonado por ela, ele não entendia suas tristezas e acabava sendo um péssimo companheiro para alguém com depressão.

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Mia Wasikowska como Emma Bovary.

Minha maior decepção com o filme, foi o fato de não enfatisar o problema de saúde mental que a personagem principal tinha. Naquela época, acredito eu, não era comum a palavra depressão, mas, lendo a história, sabemos que Emma tinha momentos de crise, aos quais nem sempre conseguia se livrar. Ela culpa a todo o instante o marido, por seus problemas, mas ela mesma sabe que não é só isso.

Atualmente, a depressão é um grande problema na vida de muitas pessoas e, quanto mais falarmos sobre o assunto e quebrarmos esse tabu, mais conseguiremos ajudar “Emmas” do século XXI.

Aliás, Emma era uma mulher além de seu tempo, iludida com todos os romances que havia lido e com grandes expectativas, que não foram alcançadas, sobre a vida. Outra coisa que acho majestoso na história, é que não a criticamos por trair o marido. Naquela época, seria de se esperar uma trama que a condenasse pela traição, porém, muito pelo contrário, torcemos junto com ela, para que encontre alguém que a faça feliz.

No entanto, felicidade é uma luta constante e individual. Nos relacionamentos devemos somar e não preencher vazios. Essa foi a maior luta de Madame Bovary, enfrentar seus demônios, todos os dias, enquanto tinha que sorrir para as pessoas a sua volta e fingir que estava tudo bem.

É importante lembrar que, quando foi divulgada, a escrita foi altamente criticada e rechaçada, pois envolvia o tema adultério, criticava a alta sociedade da França e a religião. Hoje, é considerado um dos pioneiros da literatura realista.

Sendo assim, eu me encantei com o livro porque eu adoro personagens realísticos, que vemos e sentimos suas dores de perto, ainda mais uma protagonista feminina, num período em que mulheres não tinham muito espaço. Bovary é uma potência de personalidade e história.

O filme, apesar das pequenas omissões, também é maravilhoso. As atuações estão ótimas, a direção incrível, assim como a arte e o figurino. O roteiro foi bem desenvolvido e, do começo ao fim, já sabemos o trágico fim de nossa querida Emma, mas assistimos com a fantasia de que, talvez, ela conseguirá ser feliz.

No demais, Madame é mais uma protagonista mulher, que nos encanta, fazendo uma pessoa em pleno 2017, escrever uma resenha sobre uma história de 1857.

Trailer de Madame Bovary, por Sophie Barthes.

BIBLIOGRAFIA

IMDB. Madame Bovary. 2015. Disponível em: <http://www.imdb.com/title/tt2334733/?ref_=nm_flmg_act_9&gt;. Acesso em: 06 de jan. 2017

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Ah, se todos lessem Eleanor & Park…

Esta é uma resenha sem spoilers

Na época da faculdade, quando um professor mandava escrever resenha de livro era um fardo a ser carregado por semanas, mesmo se o livro fosse bom. O problema eram as milhares de outras tarefas para fazer que atrapalhavam e ficavam no caminho.

Em 2017, as coisas começaram diferentes. Não há mais aulas, provas, trabalhos ou TCC.

O tempo livre tornou-se exatamente o que deveria ser. Um espaço de tempo que parece mais uma casinha aconchegante onde posso entrar e permanecer por horas, viajando por entre as histórias que leio. E foi em uma dessas visitas ao meu escape da realidade diário que me apaixonei pelo livro Eleanor & Park.

Havia me cansado um pouco de romances que não me levavam a lugar algum. Só que esse livro se mostrou completamente diferente de tudo o que eu esperava. E isso foi muito bom.

Eleanor & Park dói em você como uma triste canção dos Smiths. Você se deixa levar pelo ritmo e, quando percebe, está refletindo sobre um milhão de coisas que não tinham ressoado antes na sua mente. Ou que não ressoavam havia algum tempo.

Estou falando sobre detalhes. O livro conta a história de um menino que conhece uma menina no ônibus da escola em 1986. Ela é aluna nova, com roupas masculinas, cabelos vermelhos e é grande. Até aí você pode imaginar um filme de adolescente com os mesmos clichês: garoto cool se apaixona pela garota estranha, ela passa por uma transformação (solta o cabelo e tira os óculos) e vivem felizes para sempre após o baile de formatura.

Mas não é isso o que acontece. (Pra começar, Eleanor nem usa óculos. E partes do livro parecem até mesmo zombar desses momentos que transformam o patinho feio em um “lindo” cisne. Tudo isso é relativo).

Ela vive em uma casa lotada de gente, autopreservação e medo. Divide o quarto com seus quatro irmãos mais novos: Ben, Mouse, Maisie e o “little Richie”, sendo este ainda um bebê. E logo descobrimos que nem sempre ela ficou com eles, devido a um incidente com o padrasto.

O livro trata de temas polêmicos, como violência à mulher e papéis de gênero na sociedade, com uma sutileza avassaladora, ao mesmo tempo em que mostra os encantos e as descobertas do primeiro amor.

  • Há molas que rangem no quarto da mãe e gritos de madrugada. Há cheiro de bebida vindo da sala e de silêncio perturbador, do quarto das crianças.
  • Alunos que se acham no direito de zombar de alguém novo e diferente só por considerarem este um passatempo divertido. Um estudo sobre bullying no Canadá, publicado recentemente pela Child Abuse & Neglect (2016), mostra que:
    • Um a cada quatro estudantes sofreram bullying no último ano.
    • Meninas são mais propensas a sofrerem bullying. Aproximadamente 27% disseram passar por este problema, enquanto para os meninos essa porcentagem gira em torno de 22%.
    • Alunos com renda familiar mais baixa – especialmente as meninas – sofrem mais bullying do que os estudantes de famílias mais abastadas.
  • Mensagens obscenas escritas nos livros da escola, misturadas às frases de músicas que ela gostaria de ouvir – e depois que Park lhes apresenta, que ela gosta de ouvir.
  • Park desabafa como a cultura pop trabalha a imagem dos asiáticos. (Ele é coreano). E critica o fato de as mulheres asiáticas serem tratadas como sexy por serem exóticas, enquanto isso nunca ocorre com os homens. E ele se sente mal com essa falta de representação de homens asiáticos na cultura pop como pessoas também bonitas. Eu nunca havia parado para pensar nessa questão e acredito que essa seja uma reflexão válida. Depois, a Eleanor acaba dizendo para ele há o Bruce Lee. Ela o considera sexy. Além de considerar o Park lindo, um gatinho, como ela diz.

Por outro lado, em um canto do beliche de Eleanor há uma caixa de segredos e sonhos. Lá é o lugar onde ela encontra esperança, felicidade e conforto nas lembranças de Park. Na casa dele, ela conhece o que é amor e acolhimento e quando as brigas ocorrem porque as pessoas gostam umas das outras. Vemos que problemas existem em todas as casas. Os da família de Park são apenas mais leves, ainda que também estejam lá.

Eleanor & Park é como uma música. Não só porque a narrativa tem ritmo e porque há infinitas referências a bandas e músicas da época, mas também, principalmente, porque ele gruda em você e uma vez que você tenha começado a “escutar” a história, não tem mais como parar. É viciante.

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A cereja do bolo são as referências (maravilhosas) à cultura pop que a gente ama!

Há uma frase do livro Jornalismo Literário, do jornalista Felipe Pena, que ficou marcada em mim. “Escrevo porque não sei fazer música. Se soubesse ler partituras e articular notas harmônicas, não me arriscaria nessas linhas tortas e analfabetas” (PENA, 2008, p. 16). Gostaria de tê-la citado na minha monografia, mas infelizmente precisei cortar. De qualquer forma, tenho guardado o trecho que escrevi, refletindo sobre o que o Felipe disse.

Obras de arte são formas de comunicação e, dependendo de como são interpretadas, podem angariar mais ou menos tempo de memorização. A música, para o jornalista Felipe Pena, é mais facilmente gravada na mente, de modo que seja possível ser atribuída a determinadas épocas da vida, a momentos específicos, congelando uma memória, como se o tempo passasse mais lentamente. Por outro lado, a literatura enfrenta um desafio maior nessa questão da memória. […] Mesmo que não seja possível saber de cor linha por linha de um livro, como geralmente acontece com uma música, ainda assim é possível deixar registrado relatos de outros tempos, como se o passado pudesse ser revisitado a qualquer momento. – Parte que precisou ser cortada da minha monografia (no momento de tirar os excessos de texto).

Dizem que não nos esquecemos do primeiro amor. Talvez por ele ser bom como sua música favorita. Talvez porque a história tenha sido tão marcante que não é possível esquecê-la.

Esse livro resgata de você a ingenuidade que se perdeu com o tempo, a esperança nas pessoas e o quanto algumas coisas não têm importância – enquanto outras são as mais importantes de todo o mundo. Além disso, corrobora o pensamento do jornalista, reescrito por mim no trecho acima. Eleanor & Park reflete o espírito de uma época, oferece a oportunidade de visitarmos o passado. No entanto, por se tratar de um tema tão agradável, e essa é uma boa palavra nesse caso, consegue ser facilmente atribuída a uma determinada época da vida, a momentos específicos, congelando uma memória, como se o tempo passasse mais lentamente.

Ah, se todos lessem Eleanor & Park…

Bibliografia

JOURNALIST’S RESOURCE. Student bullying on school buses: Comparing teen boys and girls. Disponível em: https://journalistsresource.org/studies/society/education/bullying-students-school-bus-teen-research?utm_source=JR-email&utm_medium=email&utm_campaign=JR-email

PENA, Felipe. Jornalismo literário. 1 ed. São Paulo: Contexto, 2008. 142 p.

ROWELL, Rainbow. Eleanor & Park. São Paulo: Novo Século Editora, 2014. 325 p.