Conspiração e Poder | Um filme sobre jornalismo e a busca pela verdade

Procurei o que assistir na Netflix na noite desta terça-feira sem muita convicção de que algo iria despertar minha atenção. Mas quando vi “Conspiração e Poder” na lista dos adicionados recentemente, me senti atraída para clicar e saber mais. E o que me fez assistir não foi a capa, o título, ou a presença da Cate Blanchett no elenco, tampouco o fato de ser um filme baseado em fatos reais. Eu decidi assistir por ser um filme sobre jornalistas que cometeram um erro que lhes custou o emprego e a reputação, contado sob o ponto de vista da produtora do extinto programa jornalístico. Até hoje, ela defende a veracidade da matéria.

Em setembro de 2004, o programa 60 Minutes 2, da CBS, veiculou uma reportagem que apontava privilégios que George W. Bush teria tido durante seu serviço militar na Guarda Nacional do Texas em 1973. No entanto, pouco tempo depois da divulgação, diversas críticas à matéria apareceram e rapidamente se espalharam pela internet. Blogs conservadores apontavam de que forma os documentos mostrados pelo 60 Minutes 2 poderiam ser facilmente forjados no Microsoft Word.

Como a equipe de jornalistas envolvidos na apuração detinha apenas cópias dos documentos que provariam os supostos privilégios de Bush, eles não puderam comprovar a veracidade dos papéis. Para preservar a imagem da empresa, o respeitado âncora, Dan Rather (Robert Redford), precisou pedir desculpas pelo erro enquanto apresentava o programa. (Ainda que a equipe tenha insistido na história relatada após as primeiras críticas).

Por fim, ocorreu uma investigação interna pela emissora, e a produtora Mary Mapes (Cate Blanchett) foi demitida, assim como os demais integrantes, com excessão de Dan Rather que, pouco depois, contudo, pediu demissão.

É evidente perceber a semelhança entre essa história e a segunda temporada da série The Newsroom, produzida pela HBO.

Assim como MacKenzie, a produtora da ficção, Mapes tem o compromisso com a verdade correndo em suas veias. No entanto, a sede por reportar o que a população precisa saber (e isso vale para ambas) atropelou a apuração e a posterior checagem dos fatos apurados.

A questão que deteriorou a reportagem foi a falta de provas. Por mais que todas as peças se encaixassem, por mais que faça sentido Bush ter recebido tratamento diferenciado enquanto servia ao exército porque vinha de uma família abastada e importante no Texas, os jornalistas precisavam da certeza, em 100%.

A pressa contribuiu para essa falha. Não havia muitas datas disponíveis para exibir a reportagem e a escolhida deixou a equipe com apenas uma semana para concluir toda a investigação.

Eles estavam tão envolvidos na apuração que enxergaram apenas o que era o bastante para veicular as informações. No entanto, deixaram os riscos debaixo do tapete.

Um jornalista deve duvidar sempre, inclusive de si próprio. Seja nessa história real, quanto em The Newsroom, os jornalistas confiaram na história e fecharam os olhos para a possibilidade de estarem errados.

Os jornalistas, na série, têm a “missão de civilizar”, por meio do telejornal. Diferentemente da concorrência, eles querem resgatar o que o jornalismo tem de bom. E isso inclui o compromisso com a verdade, com a população e com a necessidade de informar o que é de interesse público. A série cita Dom Quixote, de Miguel de Cervantes (1547-1616), em diversos momentos. Assim como o personagem da clássica história, os personagens de The Newsroom acreditam que precisam espalhar a verdade a que eles têm acesso para os demais, desprovidos das informações deixadas de lado pelo restante da mídia pelo fato de elas não serem rentáveis à empresa. Por isso, há constantes conflitos da redação com o departamento de marketing. Aliás, essa conturbada relação também aparece em alguns momentos do filme Conspiração e Poder.

Vale dizer, contudo, que a verdade mesmo jamais conheceremos. Sem provas, não há como dizer que Bush recebeu tratamento diferenciado no exército. Isso pode ser um fato ou pode ser algo criado por documentos forjados que acabaram gerando essa dúvida.

Vale salientar que toda essa situação ocorreu em período eleitoral. O pai de Mapes a chamou de liberal, em entrevistas à imprensa na época do escândalo, e disse que ela era feminista radical (como se isso fosse algum tipo de ofensa). Mapes não falava com o pai havia anos. O filme deixa claro que havia muita mágoa na relação que ela tinha com o pai. Quando criança, Mapes sofria com o pai alcóolatra e violento, mas nunca pedia para ele parar. Porque ela queria passar a imagem de que era forte. Mas ao ver o que ele estava falando dela para os jornalistas, Mapes pediu que parasse. E essa cena é muito impactante. Na verdade, é, para mim, a mais intensa de todo o filme.

Com essa ausência do pai em sua vida, é lindo ver a relação que ela desenvolve com o âncora do jornal.  É só amor ali, um pelo outro, e de ambos pelo jornalismo.

E é esse amor que conecta todos os personagens.

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Em um dos episódios de Supergirl (calma, eu não fugi do tema!), Alex, a irmã da heroína, questiona seu chefe do porquê ela ter conquistado sua vaga na instituição que investiga alienígenas inimigos e pergunta se foi por causa do seu parentesco com a Kara que ela foi aceita. A resposta é afirmativa, mas ele ressalta que aquele era só o motivo de ela ter entrado na companhia, não a razão por ali ter permanecido. Quanto a isso, ele completa dizendo que o desempenho dela, e unicamente dela, é o que justifica as suas conquistas.

Nossas escolhas profissionais são semelhantes a este caso. Assim, percebi que, depois de um tempo, não importa por que escolhemos o Jornalismo. O que importa é por que permanecemos nele. E ele em nós.

A segunda temporada de The Newsroom subiu muito no meu conceito devido à semelhança que ela apresenta ao caso real do 60 Minutes 2. Antes, não gostava tanto por achar que fugia da realidade. Mas a arte às vezes também imita a vida. Esta série pode não ter seu roteiro baseado em fatos reais, mas tem muitos aspectos da realidade ali contida. Sem contar as maravilhosas cenas em que vemos os bastidores da produção de notícias. ❤

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Bastidores ❤

E quer ver uma arte mais bonita do que a própria representação do real? Por isso amamos o jornalismo. Somos Dom Quixotes.

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O jornalismo machista nas matérias de esporte

Por um jornalismo mais humano e feminista

Que a imprensa não dá a menor relevância para as notícias de esporte feminino, isso nós já sabemos. No entanto, uma manchete do jornal Manaus Hoje desta segunda-feira, 12 de dezembro, viralizou nas redes sociais diante do quão absurda foi.

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A manchete “Meninas dão de quatro” do jornal Manaus Hoje recebeu duras críticas por ter escrachado algo que já sabemos que existe, mas que às vezes não fica tão evidente: o jornalismo machista nas matérias de esporte.
A matéria em questão dizia respeito à vitória da seleção feminina de futebol contra a Rússia. Com este resultado, o Brasil conquistou uma vaga antecipada para a final em Manaus.

Mas, você provavelmente está se perguntando: “como um título desses foi aprovado?”, ou então: “como alguém até mesmo pensou em publicar isso?”

Esse tipo de atrocidade acontece porque alguns jornalistas ainda não enxergaram a linha que separa o que é genuinamente engraçado do que é desrespeitoso, que, aliás, ultrapassa muitas vezes o machismo aqui comentado e criticado.

O jornalismo trabalha com humor e não raro apropria-se de chavões para atrair a atenção dos leitores e conquistar audiência. Até aí, beleza. No entanto, quando o humor pertence aquele discurso de quem diz “o mundo está ficando muito chato, não se pode nem mais fazer uma brincadeira”, aí entra o problema.

Como ainda bem que o mundo está ficando um lugar muito chato para os machistas de forma geral reproduzirem seus discursos, o jornal recebeu, de forma muito merecida, uma enxurrada de críticas.

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Este é um conselho muito bom. E digo isso para jornalistas de todos os veículos de comunicação.
Com isso, como já era de se esperar, o jornal Manaus Hoje pediu desculpas na edição desta terça-feira, 13, oferecendo, inclusive, o mesmo espaço da ridícula matéria.

Mesmo que essa atitude tenha sido a esperada e, portanto, não é nem um pouco surpreendente que tenham feito o mínimo de assumir o erro e pedir desculpas, queria levantar alguns pontos aqui que me chamaram a atenção nessa retratação deles.

O pedido de desculpas do jornal Manaus Hoje foi publicado na edição da terça-feira, 13 de dezembro, um dia depois de terem cometido um ˜deslize˜ na manchete, atrelando uma piada de cunho sexual ao resultado de um jogo de futebol feminino.
Eles usaram o espaço que tinham para pedir desculpas para dizer algo como: “poxa, gente, vocês ficaram chateadas? Pedimos desculpa, de verdade. Mas, olha só, nós fizemos uma ~homenagem linda e fofa~ pra vocês no Dia das Mulheres. Nós gostamos tanto dela que vamos botar aqui de novo, ó”.

Antes de mais nada, não gostei desse tom usado na edição de 8 de março. Achei que foi mais um exemplo que romantiza uma data que deve ser lembrada pela luta por direitos; e não para dizer “ah, mulheres, vocês são lindas, mas se deem ao respeito. Vocês são lindas, mas não andem à noite na rua. Vocês são lindas, mas se forem abusadas é porque estavam querendo, né? Parabéns!”.

Uma capa ˜bonitinha˜ no Dia das Mulheres não compensa erro grotesco algum. Não sei por que eles relacionaram o fato de terem sido o único jornal num raio de x km que homenagearam as mulheres por seu dia. Gente, e se os outros jornais estivessem mais preocupados em fazer um bom jornalismo? Desconheço a concorrência deles e nem estou defendendo eles, mas, acho que me fiz clara quanto a este ponto.

Agora, vamos combinar: essa forma de comunicar está toda errada. Nós estudamos quatro anos na faculdade, nos preocupamos com questões sociais e aí vemos esse tipo de erro de sensacionalismo barato sendo ainda publicado. Não nos resta a ter outra sensação além de: gente, até quando? Como podemos tornar o jornalismo menos machista?

Nessas horas ressoa na minha mente o discurso da Emma Watson na ONU em que ela diz: “Se não agora, quando?”.

Busquei dados para embasar este fato de que o jornalismo é machista, sim. Confira:

Pesquisa da Universidade de Cambridge mostra discrepância entre cobertura relacionada às mulheres e aos homens durante a Rio 2016

Uma pesquisa feita pela Universidade de Cambridge durante as Olimpíadas Rio 2016, comprovou que há uma diferença semântica na cobertura de notícias sobre atletas mulheres e atletas homens. Por exemplo, “o vocabulário nas notícias sobre atletas mulheres tiveram um enfoque desproporcional voltado para a aparência, roupas e vida pessoal, colocando em evidência a estética em detrimento do atletismo”, informa.

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Matérias sobre atletas mulheres costumam adotar um vocabulário mais voltado à aparência, roupas e vida pessoal. A estética supera o atletismo.
Apesar de a pesquisa ter usado uma amostra de notícias em inglês, achei que seria interessante buscar exemplos de mídia nacional para ajudar a explicar o que o item apresentado acima quis dizer.

No exemplo que coloquei aqui, de uma matéria no site da revista Veja, encontramos alguns dos elementos que a pesquisa descobriu que são mais relacionados às notícias sobre atletas mulheres. A matéria em questão aqui foi muito bem escrita e não estou desmerecendo a repórter que a escreveu. Mas, acho válido refletir sobre o uso do adjetivo “doce” no título. Será que se fosse um resultado de jogo masculino essa palavra teria sido empregada? Será que uma matéria iria destacar, no primeiro parágrafo, um presente dado ao atleta homem?

Diferentemente de trabalhar o vocabulário mais voltado às mulheres, sem desrespeitá-las, é usar o seu poder como formador de opinião na área de jornalismo esportivo para falar besteiras.

 

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Muitos seguidores já avisaram para o colega aqui que algo de errado não está certo em sua fala e postura, mas não adiantou. A crítica ao seu machismo entranhado entrou por um ouvido e saiu por outro sem fazer efeito algum em sua consciência.
Ainda sobre a pesquisa da Universidade de Cambridge, matérias sobre esportes feminimos adotam níveis mais altos de infantilização para as atletas. O que estava escrito mesmo no pedido de desculpas do jornal Manaus Hoje? Ah, isso mesmo. “Meninas, nos perdoem”. O mesmo, contudo, não ocorre com homens sendo chamados de “meninos”.

Com relação aos termos mais empregados quando as notícias são sobre as atletas mulheres, se destacam: mais velhas, grávidas, casadas ou solteiras. Já as principais palavras relacionadas aos homens são: mais rápidos, fortes, autênticos e ótimos.

Sobre a forma de retratar o desempenho na competição, a pesquisa mostrou que aos atletas homens são atrelados verbos como: bater, vencer e dominar; enquanto às mulheres: competir, participar e lutar.

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Quando uma atleta mulher se destaca, ela é comparada a um atleta homem de destaque, para que a gente perceba que elas são boas mesmo.
O erro mostrado na imagem acima é um dos mais graves, porque ele mostra que há um hábito de comparar uma atleta mulher que tem um desempenho de destaque perante sua categoria ou no seu time, com um atleta homem renomado. É como se, fazendo isso, a mídia projetasse uma analogia proporcional do tipo: ah, Pelé é uma lenda no futebol brasileiro, então se estão comparando a Marta com ele, é porque a Marta foge da regra das outras atletas mulheres.

Essa matéria do Milton Neves, como um todo, é horrorosa. O “jornalista profissional diplomado, publicitário, empresário e apresentador esportivo” até mesmo disse que a jogadora Marta já conquistou quase tudo – incluindo o respeito.

Pois, é, gente. Parece que, para ele – para outros tantos -, para uma atleta mulher ser respeitada, ela precisa ser “praticamente” um homem. Ele brinca em alguns momentos sobre a entrada dela na seleção masculina. Afinal, onde já se viu uma mulher jogar bola tão bem, não é mesmo?

Que mais pessoas reclamem quando se virem desrespeitadas e que o mundo fique mesmo “mais chato” para os que acham graça de subjugar as mulheres.

E é por isso que luto por um jornalismo mais humano e feminista.

“Se não agora, quando?”

Bibliografia

UNIVERSIDADE DE CAMBRIDGE, Aesthetics, athletics and the olympics, 2016. Disponível em: <http://www.cambridge.org/about-us/news/aest/>. Acesso em: 13 dez. 2016.