American Horror Story: Cult e o futuro que mais tememos

American Horror Story é uma série de terror norte-americana, criada por Ryan Murphy (também criador de Glee), que a cada temporada exibe universos diferentes com os mesmos atores.

Ela está na oitava temporada, mas esse post será dedicado inteiramente a sétima temporada, American Horror Story: Cult.  (p.s. o post contém alguns spoilers, mas nada que afete a trama principal)

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Cartaz da sétima temporada.

A narrativa dessa temporada começa literalmente um dia após Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, ganhar as eleições de 2016. Antes que pense que é baseado em fatos reais, não é, mas poderia ser e esse foi o motivo de eu fazer essa análise.

Nós seguimos a história de um casal lésbico, Ally Mayfair-Richards (Sarah Paulson) e Ivy Mayfair-Richards (Alison Pill), após a ascensão de Trump e o declínio mental de todos os personagens em volta das duas.

Assim que o candidato, que odeia a comunidade LGBTQ, ganha, a vida de Ally e Ivy muda pra pior. Além de o casal não poder mais mostrar afeto na rua, pois são ameaçadas por homofóbicos, a saúde mental de Ally piora devido ao medo de ser quem é e, assim, todas as fobias que ela já teve na vida voltam a atormentá-la.

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Ally em choque quando Trump ganha as eleições.

Ao mesmo tempo em que acompanhamos o casal, vemos a trajetória de Kai Anderson (Evan Peters), um jovem eleitor de Trump, que se sente humilhado, pois ninguém dá atenção para as coisas que ele diz, o que o motiva a se candidatar a vereador de sua cidade.

Para Kai, é necessário que os políticos assustem as pessoas da violência da cidade e, assim, darem ao estado o direito de fazer o que for necessário para proteger os moradores de lá.

Visto que Kai mal recebe apoio dos cidadãos, ele decide agir com as próprias mãos e começa a recrutar seguidores para concretizar seu plano de salvar a nação do mal.

E como ele faz isso?

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Kai Anderson (Evan Peters)

Kai vai atrás de pessoas que estão passando por alguma crise, seja financeira ou existencial, pessoas que se sentem abandonadas pela sociedade e usa a insegurança dessas pessoas a seu favor. Mas, como?

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O casal Harrison e Meadow Wilton

Um dos primeiros a serem recrutados por Kai é o casal Harrison (Billy Eichner) e Meadow Wilton (Leslie Grossman). Harrison e Meadow são amigos há anos e tinham um pacto: caso nenhum dos dois se casasse até os 35 anos, eles iriam se casar.

No entanto, Harrison é gay e não consegue ter relação com Meadow. Já ela, é apaixonada pelo amigo e mesmo sabendo da sexualidade dele, topou se casar. Ainda, os dois enfrentam uma difícil crise financeira, em que a única saída é hipotecar a casa e pagar suas dívidas.

Eis que chega o salvador! Kai Anderson investiga a vida de Harrison e se aproxima dele, dizendo que tem a solução dos seus problemas e que ele só tem que acreditar em Kai.

Kai consegue um novo apartamento para o casal e em troca eles o obedecem sem questionar qualquer ato de Kai.

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Beverly Hope (Adina Porter)

A próxima a ser recrutada é Beverly Hope, uma repórter negra, que trabalha duro para conseguir destaque, mas perde todas as oportunidades para uma repórter branca e mais nova, que está se relacionando com o patrão.

Para convencê-la a se juntar ao grupo, Kai mata a outra repórter e diz que a partir de agora Beverly tem que confiar nele, pois ele quer o melhor para ela.

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A outra repórter (Emma Roberts) sendo assassinada.

A partir do início desse culto, Kai se aproveita do medo de seus seguidores e os manipula a enfrentar todo o mal que os cerca.

E o que é esse mal?

Esse mal é toda e qualquer pessoa que pensa diferente dele. Até mesmos seus fiéis discípulos, quando ousam questionar alguma de suas ideias, sofrem com a repressão.

Agora eu te pergunto: por que os roteiristas da série fizeram uma história assim justamente após a eleição de Donald Trump?

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“Nós vamos construir uma grande muralha!”

Donald Trump conquistou seus fiéis instigando o medo e o ódio. Ou seja, grande parte de sua campanha foi baseada em acusações aos mexicanos, gays, negros e mulheres de serem o problema da sociedade americana e que se ele fosse eleito, iria corrigir tudo isso.

Sem adentrar muito na política, o que a ficção de American Horror Story tem de semelhante com a vida real?

Quando as pessoas estão perdidas e desacreditadas do futuro, é fácil para um salvador chegar e dizer que vai solucionar tudo rapidamente. Isso é exatamente o que todos queremos ouvir! Quem me dera alguém resolvendo todos os meus problemas num piscar de olhos e foi exatamente isso que aconteceu nos EUA e está acontecendo com a sociedade brasileira atual.

O Brasil está economicamente mal e todos estão sofrendo com isso, logo, quando chega um candidato como o Jair Bolsonaro dizendo que vai resolver todos os problemas, é fácil acreditar porque é isso o que queremos, uma solução rápida.

No entanto, o que a série mostra, é que soluções rápidas trazem perdas irreversíveis. O personagem Kai queria tanto salvar a população do mal, que se propôs a matar e assustar pessoas, culpando mexicanos, por exemplo, para dizer que era só acabar com os mexicanos que os americanos estariam salvos da violência.

E a verdade é: Kai era o problema. Ele queria tanto ser adorado e amado por todos, que topou fazer de tudo, inclusive matar, para conquistar a confiança de seus seguidores e mostrar uma falsa civilização em que nada de ruim aconteceria.

Problemas vão acontecer sempre, quer a gente queira ou não, porém, não dá pra aceitar soluções fáceis caso essas soluções prejudiquem outras pessoas porque isso é o início de uma guerra.

Acabar com uma minoria pode até aliviar pro lado de alguns, mas com o passar do tempo, essa minoria vai ter seu medo e ódio instigado e provavelmente vai querer vingança também. É justamente isso que a série alerta!

Sem querer dá um spoiler do final, mas a ideia é que todos os humilhados caso não tenham chances na sociedade atual, um dia vão buscar suas oportunidades com as próprias mãos, assim como o Kai fez e ninguém vai ganhar com isso.

A série mostra que é fácil “lavar as mãos” e deixar um salvador tomar as decisões por todos, mesmo que essa decisão afete a vida de milhões, e caso algo dê muito errado, todos apontam o “salvador” como o culpado e acreditam que não tem culpa de nada, quando na verdade ao dar voz a ele, todos se tornaram cúmplices e culpados também.

Assim, minha dica é: assista a série e reflita sobre nossa sociedade atual e veja o quão próximo dessa realidade estaremos caso a gente não faça nada para evitar isso.

É claro que a ficção leva tudo ao extremo, ainda mais porque a série é de terror, mas traga a ficção para a realidade – a morte de Marielle Franco, a morte de Mestre Moa, a morte de pessoas da comunidade LGBTQ – e tire suas próprias conclusões. Você prefere se omitir e lavar as mãos ou prefere evitar um futuro trágico como esse?

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“Ally: Eu não sou a inimiga!”

BIBLIOGRAFIA:

G1.”O que se sabe sobre as mortes de Marielle Franco e Anderson Gomes”. 2018. Disponível em:<http://gshow.globo.com/tv/noticia/amor-sexo-fala-sobre-feminismo-em-programa-de-estreia-confira.ghtml&gt;. Acesso em: 21 de out. 2018.

G1. “Investigação policial conclui que morte de Moa do Katendê foi motivada por briga política; inquérito foi enviado ao MP”2018. Disponível em: <https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2018/10/17/investigacao-policial-conclui-que-morte-de-moa-do-katende-foi-motivada-por-briga-politica-inquerito-foi-enviado-ao-mp.ghtml>. Acesso em: 21 de out. 2018.

WIKIPEDIA. “American Horror Story: Cult“. 2018. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/American_Horror_Story:_Cult&gt;.Acesso em: 21 de out. 2018.

 

 

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Jane, A Virgem: o dramalhão mais divertido da atualidade

Sabe aquela série que você assiste o primeiro episódio e acha meio “bleh”? Então, eu assisti  Jane, The Virgin e não me apaixonei, no entanto, por uma sorte muito grande, recentemente eu insisti nessa série e finalmente DEU MATCH!

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Cartaz da série.

SINOPSE: Jane é uma jovem religiosa que trabalha como garçonete em um hotel em Miami e tem sua vida virada de cabeça para baixo quando sua médica acidentalmente faz uma inseminação artificial nela. Agora, Jane precisa tomar a maior decisão de sua vida.

O piloto da série não me convence tanto porque fazer inseminação artificial na paciente errada é um erro médico gravíssimo e uma clínica série nunca faria isso. Porém, depois de conhecer melhor a médica que comete o erro e entender que esse acidente foi só o impulso da série, eu ignorei esse detalhe e fui me encantar com tamanha criatividade e diversidade numa série americana.

Antes de qualquer coisa, é preciso deixar claro que essa série é uma adaptação da telenovela venezuelana Juana, la virgen (2002). Eu não acompanhei a novela, mas a série é bastante fiel aos clichês de novelas, o que dá um charme ao programa.

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“Mas eu nunca fiz sexo!”

1) Representatividade Latina

Pra quem está acompanhando o que tem acontecido em Hollywood sabe que muitas celebridades estão falando abertamente sobre os abusos, machismo e a falta de punição aos opressores. Além disso, existem outras reivindicações, como uma maior diversidade na frente e por trás das câmeras.

Ou seja, ninguém aguenta mais ver macho hetero branco sendo protagonista porque o mundo vai além de macho branco. Sendo assim, uma maior diversidade seria dar protagonismo as mulheres, aos negros, personagens LGBTQ e de outras nacionalidades, por exemplo.

Com isso, acredito que a série Jane, A Virgem teve êxito nesse quesito, pois a protagonista é uma jovem mulher, interpretada pela atriz Gina Rodriguez, que vive com sua mãe e sua avó, é descendente de venezuelanos e todas falam espanhol. Aliás, a avó só fala a língua espanhola e nada de inglês.

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Aleluia mesmo!

2) Além dos esteriótipos

Para quem está acostumado com novelas sabe que esse tipo de narrativa usa e abusa de esteriótipos e isso é cansativo. Apesar de Jane, The Virgin ser carregado de esteriótipos, a trama usa isso como artifício de humor e, em alguns casos, para nos fazer refletir.

Por exemplo, a Alba (Ivonne Coll), avó de Jane, entrou ilegalmente nos EUA e ela teme que o governo descubra e a deporte. No entanto, o público se encanta com a “abuela” e a gente começa a entender o lado humano e toda vez que ela corre o risco de ser deportada, a gente sofre junto com ela e torce para que isso não aconteça.

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Sim, sim, é amor por você Alba.

Além disso, Alba é uma mulher absurdamente religiosa e foi justamente ela quem convenceu Jane a se casar virgem. Porém, ao mesmo tempo em que é bastante conservadora, ela quebra tabus quando se trata de amor e família, pois sua filha e mãe de Jane, Xiomara (Andrea Navedo), engravidou aos dezesseis anos de idade e criou a filha sozinha com a ajuda da mãe.  Eu não resisto quando tem um núcleo de família em que mãe, filha e neta são super próximas e o porto seguro uma da outra.

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Suas lindas!

3) Mulheres independentes

Falando na Xiomara, a história dela é muito interessante também. Ela engravidou muito nova, contou ao rapaz e ele pediu que ela fizesse um aborto, só que ela seguiu o caminho oposto e criou sua filha sem ajuda nenhuma do pai.

Ademais, ela é aquele mulherão que conquista os homens e ela aproveita isso bastante. Ao longo dos anos, Xiomara se relacionou com vários homens e teve poucos relacionamentos sérios, por escolha própria. Numa sociedade tão conservadora quanto a nossa, essa personagem seria bem crucificada, mas o que a gente vê é uma mãe religiosa que apesar de criticar a filha, nunca a abandonou.

E claro, não posso me esquecer que o sonho de Xiomara é ser uma cantora famosa, mas como ela teve filha muito cedo acabou deixando este sonho de lado. No entanto, agora que sua filha já está crescida, ela continua atrás do seu sonho e a gente sofre com as rejeições que ela tem por ser uma mulher mais velha e torce para que ela tenha seu momento de brilhar.

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Você mesma, Xiomara!

Continuando a listinha, a própria protagonista é um ótimo exemplo de mulher independente. Ela acabou de se formar, não aceita os vacilos dos homens ao seu redor, mesmo quando está mega apaixonada, investe no seu sonho de ser escritora, optou por continuar virgem até o casamento – eu acho isso ótimo porque assim como a mulher tem o direito de transar quando achar que deva, ela também pode fazer essa escolha de se resguardar, cabe a cada mulher (homem também) decidir a hora certa de perder a virgindade – e segue adiante enfrentando tudo o que vem pela frente.

Ainda, aproveito para fazer propaganda da atriz que interpreta Jane, a Gina Rodriguez. Ela luta bastante pela boa representatividade da cultura latina no audiovisual norte-americano, que insistiu por anos em usar esteriótipos ofensivos e repetitivos e agora está dando voz a várias culturas que merecem esse espaço.

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“Esse prêmio vai além de mim. Ele representa uma cultura que quer se ver como heróis.”

Para não falar de todas as personagens mulheres que existem na série, vou terminar a listinha com a Petra Solano (Yael Grobglas).

A Petra é a vilã e rival de Jane, sim ela é um estereótipo que eu particularmente detesto, pois faz de tudo para manter seu homem e ter dinheiro. Entretanto, há algo que eu gosto bastante nessa personagem que é o passado dela e os relacionamentos abusivos que ela vive e como é IMPORTANTE debater isso.

Não irei adentrar na história dela porque seria um baita spoiler, mas direi o seguinte: ela se envolve com homens muito agressivos e vive relacionamentos absurdamente abusivos e, mesmo sendo a vilã da história, a gente sente a dor dela na pele quando ela passa por algum tipo de agressão física ou verbal. A verdade é que homem NENHUM tem o direito de encostar o dedo em alguma mulher de forma violenta ou sem a autorização dela e, independente de ser amiga ou não da mulher em questão, sempre a defenderei de homens machistas que merecem estar na cadeia.

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Feminismo sempre!

4) Representatividade LGBTQ

Apesar de não ter muitos personagens LGBTQ, ao menos não na primeira temporada, o casal Rose (Bridget Regan) e Luisa (Yara Martinez) foge de muitos esteriótipos que estamos acostumados a ver sobre lésbicas.

A história delas é tão louca quanto a do casal protagonista, mas não existe homofobia ou queerbaiting*. Rose é casado com o pai de Luisa, porém elas se envolveram antes de saber desse detalhe e acabaram se apaixonando de verdade.

É difícil falar desse casal sem dar spoiler, no entanto, o que eu acho legal é ver duas mulheres lindas que realmente se apaixonaram uma pela outra e tentam viver essa paixão de alguma forma. Como nenhum casal é normal nessa série, acho mega válida a história delas e AMO todas as cenas em que elas aparecem juntas!

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Rose e Luisa.

5) Os homens da série

É complicado falar de macho sem se decepcionar, ainda mais com tudo o que tem acontecido em Hollywood, todavia, eu gostaria de dar destaque a alguns personagens masculinos.

Vamos começar pelo Michael Cordero Jr. (Brett Dier).

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Michael e Jane.

Ele é um policial, todo certinho, completamente apaixonado pela namorada, que é a Jane e, o que eu acho mais incrível, é que eventualmente ele aceita o fato de que Jane decidi continuar com a gravidez – mesmo tendo sido um erro médico e não sendo filho dele – e ele não age de forma agressiva com ela, como muitos homens agiriam no lugar dele.

Sim, esse personagem comete erros e faz umas machices que cansam, mas ele nunca usa a força física para se impor ou tentar diminuir Jane ou as mulheres a sua volta e, por isso, eu tenho que parabenizá-lo. No mundo em que vivemos, o que eu mais vejo são personagens masculinos, policiais ou não, absurdamente agressivos e grosseiros e ver um que foge desse padrão me deixa contente.

Como ainda estou na primeira temporada, não sei se há alguma mudança brusca no comportamento dele, mas até agora eu gosto bastante da forma como ele age e acho fofo o quanto ele é apaixonado pela Jane.

Agora, vamos ao Rafael Solano.

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Rafael Solano

O maior playboy, filhinho de papai, mas que durante sua jornada na trama tem uma evolução de caráter muito grande. Digamos que ele era o típico Joey e Barney (só que bonito) e isso desanima bastante, porém ele tem câncer e descobre que somente poderá ter filhos com a amostra de esperma que foi acidentalmente inseminado na Jane, ao invés de sua namorada.

A temporada vai seguindo e ele passa a enxergar Jane de um jeito diferente, se apaixonando e se transformando num cara determinado a esperar pelo casamento para finalmente transar com ela, ser pai e constituir uma família.

Acontece muita coisa doida na vida dele, então é possível entender alguns surtos que ele tem, mas eu gosto do jeito que ele vai amadurecendo e melhorando na narrativa.

Por último, o personagem masculino que mais me diverte, Rogelio de La Vega (Jaime Camil).

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Sou eu mesmo.

Rogelio é um ator famoso de telenovelas que só fez sucesso depois dos trinta e nove anos, absurdamente dramático e pai biológico de Jane. Na época, ele não ficou sabendo que Xiomara continuou com a gravidez e só soube da existência de sua filha quando ela já tinha vinte e três anos de idade. Assim, ele decide recuperar o tempo perdido e dá uma de “paizão”.

Apesar do desastre que ele é, fazendo tudo de uma forma épica e exagerada, eu acho muito fofo o jeito que ele se encanta pela filha e como se esforça pra recuperar o tempo perdido. Além disso, ele acaba se apaixonando de novo pela Xiomara e eu AMO o casal Xiomara e Rogelio. É o núcleo mais divertido da série e pra quem gosta de “draminha”, vulgo mimimi, vai se divertir horrores com eles dois.

E claro, por fim, quem interpreta a mãe do Rogelio é a atriz Rita Moreno, a “abuela” de One Day at a Time, deusa, maravilhosa, mais amada do Netflix, que eu falo no meu post anterior.

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Rogelio e Xiomara.

Sendo assim, assistam a série e não julguem sem pelo menos assistir a primeira temporada, pois Jane, The Virgin é uma série de comédia incrível!

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Elenco principal da série.

*queerbaiting – uma estratégia midiática utilizada na indústria do entretenimento para atrair o público que foge do padrão da cis-heteronormatividade. Ele se concretiza quando há alguma espécie de tensão sexual ou romântica entre personagens do mesmo gênero, tendo o intuito de tornar a produção representativa, mas sem desagradar a parcela conservadora da audiência.

One Day At A Time: a sitcom mais incrível da atualidade

Preciso compartilhar com o mundo minha mais recente descoberta na Netflix, a sitcomOne day at a Time.

Música tema e abertura da série, cantada pela Gloria Estefan.  É uma das poucas séries que eu faço questão de assistir a abertura de todos os episódios porque eu fico dançando também.

A série conta a história de uma família de cubanos que mora nos EUA. A “abuelita”/Lydia, interpretada pela rainha Rita Moreno, foi embora de Cuba muito cedo, devido aos problemas políticos, deixando parte de sua família para trás e começando uma nova nos Estados Unidos.

Apesar da perda, a narrativa nos leva para uma nostalgia muito grande por parte da avó, onde aprendemos e sentimos de perto sua dor, além de nos trazer problemas bastante atuais com a história dos netos e da filha.

One day at a time é um remake* de uma sitcom com o mesmo nome. A série foi exibida entre os anos de 1975 – 1984 no canal CBS no EUA, tendo um total de nove temporadas.

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Cartaz da série original.

A série original contava a história de Ann Romano (Bonnie Franklin), uma mulher recém divorciada que se muda para a cidade de Indianapolis com suas duas filhas.

Apesar de ser uma série antiga, ela também abordava assuntos bastante delicados pra época, como uma mulher divorciada que, ao mesmo tempo em que quer educar as filhas, quer dar a liberdade que ela nunca teve quando mais nova.

O remake da Netflix segue o mesmo caminho, atualizando os papeis dentro da família e alguns temas abordados.

1) Lydia ou “Abuelita” (Rita Moreno)

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Rita Moreno como Lydia.

Quem é a melhor personagem e porque é a “abuelita”?

Sinceramente, nem sei como começar a falar dessa personagem. Eu amo a Lydia de todas as formas! Ela é absurdamente engraçada, mas também nos faz chorar toda vez que ela relembra seu passado, é conservadora, mas aceita toda a diversidade que está presente em sua casa, ela faz drama, drama, drama, ou seja, ela é simplesmente incrível.

Eu tenho esse carinho especial pela “abuelita”, pois a associo com pessoas da minha vida, como minhas tias por parte de pai. Assim como Lydia, minhas tias eram musas inspiradoras quando jovem, os homens babavam por elas – e babam até hoje – e foram mulheres absurdamente corajosas e guerreiras, então não tem como eu não me apaixonar por essa personagem. Tudo nela é encantador e é só ela abrir a boca que eu já estou rindo com suas maluquices.

Para não ficar uma hora falando desse amorzinho de pessoa, vou fechar com uma notícia que enche meu coração de alegria. A atriz que interpreta a Lydia é ninguém mais, ninguém menos, que Rita Moreno. Moreno é uma atriz, cantora e dançarina porto-riquenha, ganhadora do Oscar, Emmy, Grammy e Tony, que tem 86 anos de idade e esbanja juventude, talento e carisma. Quer mais o quê?

Vídeo feito pela Netflix em homenagem a carreira de Rita Moreno.

2) Penelope (Justina Machado)

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Justina Machado como Penelope.

Penelope é filha de Lydia, nascida nos Estados Unidos e ex-veterana de guerra. Quando sua filha mais velha, Lena, nasceu, ela e seu ex-marido decidiram se realistar no exército devido ao ataque terrorista de 11 de setembro em Nova Iorque. Anos depois, ela voltou para o EUA e, atualmente, mora com os filhos e a mãe em Los Angeles, onde trabalha como enfermeira.

Essa personagem tem uma trajetória muito interessante e quanto mais a gente conhece a história dela, mais nos apaixonamos por ela. Penelope está em processo de separação do marido por vários motivos pesados e agora cuida dos filhos com a ajuda da mãe, mas é ela quem banca os custos da casa.

Ou seja, além de ser mãe solteira e ter que lidar com todas as dificuldades que vem com esse papel, Penelope também lida com sua depressão pós-guerra. Ela toma anti-depressivos e faz terapia, mas a gente vê de perto a dificuldade que é enfrentar tudo isso e manter um sorriso estampado no rosto. Eu simplesmente adoro a veracidade dessa personagem e a força dela como mulher independente num mundo tão machista quanto o nosso.

3) Elena (Isabella Gomez)

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Isabella Gomez como Lena.

Porque ela é a segunda melhor personagem e eu a AMO tanto? Talvez seja porque Lena é FEMINISTA, MARAVILHOSA, luta pela diversidade e é contra o privilégio dos homens brancos heteros. Ela é o pacote completo da perfeição e só não é a minha favorita porque a “abuelita” me ganha toda vez que acorda dançando.

A primeira temporada mostra a descoberta da sexualidade de Lena de uma forma extraordinária. A personagem começa a questionar se ela gosta de meninas ou meninos e vai descobrindo aos poucos, de uma forma muito bastante sincera. Eu sou completamente apaixonada por essa personagem e pela narrativa abordar a homossexualidade de uma forma natural e acolhedora. Para mim, a série vale só pela jornada da Lena.

Além disso, Elena é uma personagem muito fiel as meninas e mulheres que estão cansadas de serem diminuídas por causa do seu gênero e por isso abraçam o feminismo. Eu AMO essa personagem e a riqueza que vem junto com ela. Por favor, que venham mais Lenas na televisão, no cinema, na música, no MUNDO.

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“Ei ,mãe, eu acho que gosto de garotas.”

4) Alex ou “Papito” (Marcel Ruiz)

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Marcel Ruiz como Alex ou “Papito”.

Pra quem tem um irmão, seja mais novo ou mais velho, sabe o que é ter um “Papito” na sua vida. Que menino mimado, senhor! A avó não cansa de elogiar o Alex e dizer o quão especial ele é e deixa a Lena de lado. Apesar de ser engraçado, eu vejo muito isso ao meu redor, onde só por você nascer homem, sua família automaticamente te enxerga como alguém especial.

Felizmente, isso tem mudado bastante. Com Lenas vindo por aí, dou alguns anos para os paparicos virem tanto para meninas quanto meninos, cis ou trans, heteros ou gays, não importa. Todo mundo tem um quê de especial e os privilégios vão acabar, eu tenho certeza disso.

No entanto, eu admito que na segunda temporada o Alex tem um salto gigante na narrativa e ele começa a enfrentar a xenofobia* na escola, ou seja, por ele ser descendente de cubanos, ele é ofendido o tempo todo. É muito incrível a forma como a série aborda esse assunto e, pela idade dele, eu fico boba quando ele dá uma banho de ensinamento na mãe e na avó ao aceitar super bem o fato da Lena talvez gostar de meninas assim como ele.

Tomara que os meninos que estão vindo por aí aprendam com esse personagem e deixem de lado essa mania de querer socar tudo e achar que pra ser homem é preciso esconder sua dor. Homens, por favor, se libertem do machismo assim como o “Papito”, ser homem não te impede de chorar, nem de ser sensível e nem de aceitar as diferenças dos outros, pelo contrário, está mais do que na hora dos homens entrarem na luta e acabar de ver com o machismo da sociedade. Juntos somos mais!

5) Schneider e Dr. Berkowitz

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À esquerda, Todd Grinnell (Schneider), e a direita Stephen Tobolowsky (Dr. Berkowitz).

Eu queria dedicar uma seção para cada um desses personagens, mas devido a todas as acusações em Hollywood, temo estar dando espaço para quem não merece. No entanto, como esses dois personagens são muito especiais, não vou deixar de falar deles.

O Schneider é um canadense que mora nos EUA há anos e é dono do prédio em que a família da Penelope mora. Ele é um homem branco hetero mega privilegiado, mas que aos poucos vai entendendo, mesmo que MUITO DEVAGAR, o quão privilegiado ele é e vai mudando a partir do momento em que entende as vantagens que ele tem sobre os outros.

Ele tem um passado com drogas e álcool que a série ainda não abordou muito a fundo, mas que a gente começa a entender sua trajetória quando ele fala da sua família, que não parece ser tão conectada quanto a família dos seus vizinhos cubanos. No entanto, ele tem um jeito muito sensível e acaba conquistando seu lugar na família cubana que ele tanto perturba.

Já o Dr. Berjowitz é uma figura! Sério, que personagem divertido. Ele é apaixonado pela Lydia, mas ela diz que pertence ao Berto, seu falecido marido, e deixa o médico na zona de amigo e ele leva de boa. Às vezes, eu torço por esse casal, mas ao mesmo tempo eu entendo que a “abuelita” não quer e fico feliz pela série abordar essa amizade inusitada e extremamente engraçada.

No geral, gosto muito desses dois personagens, pois são homens heteros fora da caixinha, visto que eles abraçam a diversidade, choram, são amigos e sensíveis, ou seja, o tipo de homem que a gente torce pra ver na vida real. Tomara que seja o começo de personagens masculinos assim na ficção e que a era do “macho fazendo machice” acabe de vez.

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Está esperando o que para começar a maratona?

*sitcom: comédia de situação, onde existem uma ou mais histórias de humor encenadas em ambientes comuns, como família, grupo de amigos ou local de trabalho.

*remake: refilmagem de algum filme ou série antiga.

 

 

Steven Universe e Star vs As forças do mal: os desenhos animados que você TEM que assistir

Bom, faz um tempo que não escrevo aqui no site, pois estou na reta final da minha Pós-Graduação e tive que me ausentar.

No entanto, como eu faço Pós-Graduação em Roteiro para Cinema e Televisão e meu trabalho de conclusão é uma série de comédia teen voltada para o público LGBTQ, eu tenho assistido e investido muito em conteúdos parecidos para usar como referências no meu trabalho.

Sendo assim, eu vim aqui falar de duas animações televisivas que me encantaram e merecem demais a nossa atenção, justamente por abordar assuntos delicados de uma forma tão sensível e divertida: Steven Universe e Star vs As forças do mal.

1) Steven Universe

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Cartaz do desenho animado “Steven Universe”.

Steven Universo (Steven Universe) narra a trajetória de Steven, um menino de doze anos, metade humano e metade Gem, que vai morar com as outras Gems: Pérola, Garnet e Ametista.

As Gems são criaturas de outro planeta que resolveram ficar e proteger o planeta Terra, influenciadas pela Rose, mãe de Steven. No entanto, Rose se envolve com Greg Universe, um humano da cidade fictícia Beach City, e eles têm um filho. Para que o filho possa viver, Rose tem de abrir mão da sua forma humanóide.

Assim, vemos como Steven lida com o fato de nunca ter conhecido sua mãe, além de aprender como controlar seus poderes e o que é ser humano.

E por quê essa história é incrível?

Primeiro por um motivo MUITO maravilhoso: o desenho foi criado por Rebecca Sugar e é a primeira animação do canal Cartoon Network desenvolvido por uma mulher.

É bizarro pensar que já estamos em 2017 e somente uma mulher teve a oportunidade de produzir uma animação no canal. Como eu já relatei em outros textos, infelizmente essa área ainda é muito dominada pelos homens, mas é justamente por isso que temos que parabenizar e valorizar o trabalho de mulheres como a Rebecca.

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Rebecca Sugar, criadora de “Steven Universe”.

Eu poderia ficar horas falando da Rebecca porque ela é animadora*, compositora, roteirista, diretora, maravilhosa, ela é GIRL POWER total. No entanto, eu vou focar no desenho, pois foi por isso que vim escrever.Como falar dessa animação que tem cinco temporadas e já ganhou meu coração? (Saudades dos depoimentos do velho Orkut*).

Antes de tudo, preciso dizer que apesar de ser uma animação voltada para crianças, a trama do programa é muito complexa e seria quase impossível explicar os detalhes sem dar spoiler* ou confundir vocês. Então, eu vou abordar somente alguns dos fatores que fazem o desenho ser maravilhoso.

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Uma imagem vale mais que mil palavras, não?

Logo no piloto* da série a gente fica sabendo que a mãe do Steven não está mais entre nós e que ele vai morar com as outras Gems. Ou seja, é uma criança/adolescente de doze anos que tem que lidar com a perda da mãe.Até então, como ele não a conheceu não há uma dor muito profunda, mas como as outras Gems e o pai do menino sempre falam da Rose (mãe de Steven), volta e meia ele faz perguntas para entender o porquê ela deixou tanta saudade e por que ele não pode conhecê-la.

Além disso, a história de cada Gem é encantadora e muito particular. Seria bem difícil explicar os motivos pelos quais elas são maravilhosas, mas tentarei resumir as qualidades das personagens: Pérola, Garnet e Ametista.

A) Pérola

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“Os humanos acham maneiras incríveis para gastar o tempo deles.”

A Pérola é a mais “certinha” do grupo e como ela é uma gem, ela não entende muitas coisas que os seres humanos fazem. Por exemplo, as gems não precisam de alimentos, então ela não compreende como que os humanos comem o tempo todo. Aposto que se ela provasse um açaí com granola e mel mudaria de ideia. Ainda, existem várias Gems que também são Pérolas, elas literalmente tem a mesma forma física e função no planeta Gem, mas foi com a Rose e no planeta Terra que a Pérola se sentiu única e por isso ela não a esquece de jeito nenhum. Mesmo que ela ame o Steven, como ele assumiu o lugar da mãe na Terra, a Pérola sente muita falta da Rose e de vez em quando tem umas crises existenciais bastante humanas, por sinal.

Eu amo essa personagem de todas as formas, até porque é com ela que eu me identifico mais. Essa entrega pelos outros, sua solidão e angústia, além da saudade que sempre a faz chorar por quem já se foi é explorada de um jeito lindo e muito poético.

B) Garnet

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Garnet.

A Garnet é literalmente puro amor. Como não quero dar spoiler não vou falar muito da narrativa dela, mas preciso dizer que é uma história muito especial e digna de conto de fadas da era moderna. Quando eu disse que ela é puro amor foi porque ela mesma fala que é feita de amor e a gente aprende bastante sobre respeito, amor e relacionamento com essa personagem. Aliás, o que é mais legal nela é que o amor que ela tanta fala é um sentimento que não vê cores, gênero ou sexualidade, é o amor da forma mais pura e honesta possível. Não é à toa que tem um episódio que a personagem canta uma música sobre o tema, chamada “Stronger than you (Mais forte que você)”.

No Estados Unidos é a cantora Estelle que dá voz pra personagem e suas lindas canções.

C) Ametista

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Ametista e suas dancinhas maravilhosas.

A Ametista tem um passado distinto das outras, o que a faz se sentir diferente e um pouco “excluída” do grupo. Porém, com o passar das temporadas ela vai deixando o jeito “rebelde” de ser e a gente começa entender o porquê ela tem dificuldades em se abrir com os outros. Eu adoro a Ametista porque ela é o oposto da Pérola. Ela não precisa comer e come o tempo todo, ela não segue regras e adora se divertir com o Steven. É muito legal ver essa diferença das personagens que se completam de alguma forma.

Falando em se completar, Steven Universe fala muito de conexão. As Gems podem fazer fusões, ou seja, elas podem se unir com duas ou mais gems e virar uma só. No entanto, essa união tem que fazer sentido e as intenções têm que ser boas, senão elas sofrem demais e ficam mal após a fusão.

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Opal, fusão da Pérola e Ametista.

Eu aconselho essa história porque mesmo sendo um desenho animado ela lida com assuntos delicados de uma forma extraordinária. A trama fala de perdas, relacionamentos (independente do gênero e sexualidade), amizades, amadurecimento, entre muitos outros assuntos e tanto um adulto quanto uma criança podem ver e se identificar. Tem muito mais coisas que eu poderia dizer, como a lindinha da Connie e sua amizade com o Steven, a relação do Steven com o pai hippie, mas eu fiz esse post só pra te provocar e quando você souber todos os mínimos detalhes a gente fofoca a respeito.

2) Star vs As forças do mal

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Cartaz do desenho “Star vs As forças do mal”

A animação conta a história de Star Butterfly, uma princesa da dimensão mágina de Mewni que ao completar catorze anos ganha de seus pais uma poderosa varinha mágica, além de um livro de magias que contém todos os feitiços criados pelas antigas proprietárias da varinha.

No entanto, Star é péssima em usar sua varinha e seus pais a mandam para o Planeta Terra, onde ela deverá aprender a controlar seus poderes mágicos e ter responsabilidade.

Na Terra, ela fica hospedada na casa de Marcos Díaz, um descendente de mexicanos extremamente certinho e nerd. Juntos, eles lutam contra monstros que tentam a todo custo roubar a preciosa varinha e aprendem lições valiosas sobre amizade e responsabilidade.

Apesar de ser a narrativa de uma princesa e manter o tom de conto de fadas, o humor do programa é bastante ousado e as aventuras que Star vive são hilárias e a ensinam bastante sobre amadurecer e exercer o papel de futura rainha. Aliás, a própria Star é um “desastre” de princesa e é isso que a torna tão especial.

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Star Butterfly, a princesa desastre.

Além disso, a amizade entre Star e Marcos foge de qualquer conto de princesas e mostra que é possível meninos e meninas serem melhores amigos sem segundas intenções. Eu adoro desenhos e filmes que abordam a amizade entre uma garota e um garoto de uma forma positiva, sem necessariamente eles terem que virar um casal no final.

Eu tenho muitos amigos homens e sempre me incomodou o fato das pessoas acharem que eu tinha algo romântico com eles ou vice-versa. Isso é uma besteira! Claro que poderia ser o caso, mas não era. Homens e mulheres podem e devem ser amigos e a gente tem que parar de achar que essa amizade não existe, ela existe SIM e Star e Marcos são a prova disso.

Tem muita gente que chipa* esse casal, mas até onde eu vi do programa eles são só amigos e eu AMO esse fato. O próprio Marcos tem uma crush* pela Jackie Lynn e a Star sempre o incentiva a puxar papo com Jackie e investir nessa história de amor.

Inclusive, tem um episódio em que Star e Marcos vão num show da banda preferida dela e eles cantam a música “Just Friends (Apenas Amigos)”. Eu ia dar um mega spoiler desse momento, mas não farei isso. Porém, não posso deixar de mencionar que essa cena foi a primeira cena de um desenho animado da Disney Television Animation que mostrou um beijo de um casal homossexual e isso é LINDO!

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Casal de homens se beijando em “Star vs As forças do mal”. MUITO AMOR POR ESSA CENA!

Ademais, um grande ponto do programa é a diversidade e a quebra de padrões. O Marcos é um descendente de mexicano nerd, a Star é uma princesa muito doida e que se mete em confusão, sua melhor amiga é um Pônei Colorido sem corpo, um dos vilões adota algumas “crianças” e vira pai solteiro, etc. Quer mais o quê pra eu te convencer que esse programa é único e maravilhoso?

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Star e Pony Head te seduzindo pra assistir o programa.

Sendo assim, só posso dizer que essas duas animações me surpreenderam de uma maneira surreal. Eu já chorei em vários episódios do Steven Universe porque me emociona demais as histórias dos personagens e como eles lidam com suas perdas e ganhos. Já em Star vs As forças do mal, eu me divirto horrores com essa princesa maluca e me encanto com o fato de que ela é uma princesa, porém é dona de si, forte, comete erros e também acertos, se apaixona, mas não fica chorando por nenhum menino e aprende lições valiosas em cada episódio do programa.

VAI LOGO ASSISTIR ESSAS MARAVILHAS!

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Steven e Star Butterfly.

*animadora: uma pessoa que trabalha com desenho animado.

*orkut: antiga rede social que fez muito sucesso entre os brasileiros.

*spoiler: é quando algum site ou alguém revela fatos a respeito do conteúdo de determinado livro, filme, série ou jogo.

*piloto: é o nome dado ao primeiro episódio de uma série televisiva.

*crush: alguém por quem temos uma queda ou paixonite.

*chipar: quando você torce que uma pessoa forme par com outra, ou seja, que eles formem um casal.

Moonlight: Sob a Luz do Luar

Ainda na maratona do Oscar 2017, decidi que estava mais do que na hora de falar sobre o filme Moonlight: Sob a Luz do Luar, pois ele está concorrendo na categoria de Melhor Filme e, ao meu ver, este realmente foi o MELHOR FILME de 2016.

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Filme escrito e dirigido por Barry Jenkins.

Sinopse: Moonlight narra a vida de um jovem negro desde a infância até a idade adulta, em que luta para encontrar seu lugar no mundo enquanto cresce em um bairro violento de Miami.

O filme é divido em três partes: Little, Chiron, Black. Inclusive, é possível notar esta divisão no poster do filme, aonde vemos os três rostos de Chiron, nas distintas etapas de vida – infância, adolescência e vida adulta. Sendo assim, falarei de cada fase, separadamente, sem dar spoilers*.

1) Parte 1: Little

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Alex R. Hibbert como Little.

Na primeira parte do filme somos apresentados a Chiron, mais conhecido como Little (Alex R. Hibbert), um menino de mais ou menos 9 anos de idade, bastante tímido e fechado. O ponto principal dessa fase é mostrar os dois temas que serão trabalhados no longa-metragem: machismo e homofobia.

Little tem uma relação difícil com sua mãe, Paula (Naomie Harris), pois esta é viciada em drogas e, ao mesmo tempo em que quer cuidar do filho, acaba não sabendo exercer o papel de mãe e sempre perde sua batalha para as drogas. Eu falo melhor dessa personagem no texto Oscar 2017: Melhor Atriz Coadjuvante.

Além disso, Little sofre bullying de seus “colegas” porque eles o consideram afeminado, sendo Kevin (Jaden Piner) o seu único amigo. Em uma de suas fugas, parar tentar escapar da violência dos meninos do bairro, Little se esconde em uma casa abandonada e conhece Juan (Mahershala Ali).

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Little e Juan.

Juan exerce o papel de amigo e mentor, sendo ele e sua namorada, Teresa (Janelle Monáe), os únicos a conversarem com Little e explicarem sobre homosexualidade. Aliás, essa parte do filme é bastante forte, até porque, inclusive a mãe do protagonista é homofóbica e isso se torna um peso muito grande na jornada do nosso herói.

ALERTA MINI SPOILER – que não afetará muito aos que ainda não viram o filme- : uma das cenas mais marcantes e arrepiantes da parte 1 é quando Little pergunta para Juan “Eu sou gay?” e este responde “Não sei, mas você descobrirá um dia.”

2) Parte 2: Chiron

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Ashton Sanders como Chiron.

No segundo capítulo vemos a adolescência de Chiron, fase em que este começa a responder aos estímulos do machismo e, também, se permite explorar sua sexualidade.

Chiron é um menino muito doce e carinhoso com sua mãe, que ainda é viciada em drogas. Além disso, ele continua não tendo muitos amigos e interage pouco com as pessoas de sua escola, porém, Kevin (Jharrel Jerome), seu amigo de infância, continua sendo o único menino que conversa com Chiron.

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Kevin e Chiron.

O roteiro nos mostra todo o machismo que está impregnado em nossa sociedade, desde a época de escola. Infelizmente, o bullying piora e Chiron tem de lidar com o preconceito dos rapazes de seu colégio, além de lidar com a própria dificuldade em se achar no mundo.

As primeiras duas divisões deste projeto me lembraram o documentátrio The Mask You Live In, que mostra como os meninos/homens lidam com o machismo, ao qual o Projeto Nellie Bly fala no texto A máscara que os meninos usam.

3) Parte 3: Black

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Trevante Rhodes como Black.

No último capítulo vemos toda a trasformação do pequeno Chiron, agora conhecido como Black, um homem musculoso e alto, mas, que mantém o jeito tímido e doce de ser.

É incrível ver como os preconceitos da sociedade mudam uma pessoa por completo e a narrativa de Moonlight faz isso de uma forma brilhante. Eu me emocionei em todas as etapas da trama e senti as dores do protagonista, que é sempre rechaçado e humilhado pelos outros, por fugir das normas da masculinidade.

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Black.

Chiron volta a sua cidade natal e reencontra Kevin, pessoa ao qual tem uma grande conexão, além de lidar com sua mãe, agora disposta a se livrar das drogas e tentando se reconectar com o filho.

Este filme é um alerta para todos nós, que lidamos com as dificuldades da vida e com os preconceitos do mundo, mas, como somos nós mesmos que perpetuamos esses preconceitos e esteriótipos. Enquanto o menino afeminado for um problema ou o menino tímido que não reage numa luta for humilhado e instigado a se tornar violento e opressor, estaremos dando um tiro no pé e prejudicando nosso próprio caminho como seres humanos.

É preciso, a todo o instante, falar e enfrentar o machismo e a homofobia que nos cerca, para que Chirons tenham o direito de crescer, sem medo de se amarem e se apresentarem ao mundo.

Sendo assim, para quem ainda não assistiu Moonlight, por favor, ASSISTA. Esse filme é uma obra-prima e relata assuntos tão importantes, emocionando e nos fazendo questionar até onde podemos e devemos mudar o jeito que lidamos com crianças que fogem dos padrões absurdos que, infelizmente, rodeiam nossa cultura. É uma história de autodescoberta, conexão e pertencimento ao mundo, sendo impossível não se identificar e ter empatia por Chiron.

Trailer legendado do filme.

BÔNUS DO DIA

Continuando o bolão Oscar 2017, eis meu palpite sobre a categoria Melhor Filme.

  1. Quem eu acho que vai ganhar: La La Land.
  2. Quem eu gostaria que ganhasse: Moonlight: Sob a Luz do Luar ou Estrelas Além do Tempo.

E você, qual filme acha que vai ganhar?

*spoileré quando algum site ou alguém revela fatos a respeito do conteúdo de determinado livro, filme, série ou jogo. O termo vem do inglês, mais precisamente está relacionado ao verbo “To Spoil”, que significa estragar.

BIBLIOGRAFIA:

IMDB. Moonlight: Sob a Luz do Luar. 2016. Disponível em: <http://www.imdb.com/title/tt4975722/>. Acesso em: 07 de fev. 2017.

WIKIPEDIA.Moonlight. 2016. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Moonlight_(2016_film)&gt;. Acesso em: 07 de fev. 2017.

Dois Irmãos e a violência como sinal de masculinidade

Nesse ano de 2017 foi lançada a minissérie Dois Irmãos, no canal Rede Globo. A produção é baseada na obra de Milton Hatoum, foi escrita por Maria Camargo e tem direção artística de Luiz Fernando Carvalho.

A produção técnica do programa, assim como a maioria das produções do canal, é incrível e digna de Hollywood. Da fotografia ao som, não há o que questionar. No entanto, o conteúdo, mais especificamente, o roteiro, não segue o mesmo caminho e perpetua esteriótipos que estão mais do que na hora de serem questionados e quebrados na programação brasileira.

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Sinopse: A história gira em torno de dois irmãos gêmeos idênticos, Omar e Yaqub, que têm personalidades conflitantes desde pequenos, e suas relações com a mãe (Zana), o pai (Halim) e a irmã (Rânia). Moram na casa da família a empregada Domingas e seu filho, Nael. O menino é quem narra, após trinta anos, os dramas que testemunhou calado. Do seu canto, ele vê entes da família de origem libanesa terem desejos incestuosos e se entregarem à vingança, à paixão desmesurada, em Manaus.

No primeiro capítulo, somos apresentados a Manaus, mais parecida com uma vila, em plena década de 20. Na trama, o personagem Halim (Bruno Anacleto) é apaixonado por Zana (Gabriela Mustafá) e, um dia, decide entrar no restaurante do pai desta e recitar um poema. Assim, com esse simples gesto, a menina se encanta e está decidida e a se casar com o moço.

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Halim (Bruno Anacleto) e Zana (Gabriela Mustafá)

Recentemente, vi uma crítica que dizia achar incrível que Zana avisa ao pai que irá se casar, como quem diz que vai na padaria. Porém, ao meu ver, eu questiono muito essa forma de romance, em que nada acontece e é só o rapaz declamar um poema para que a menina, considerada a mais linda da cidade, caia de amores. Eu amo poemas e poesias, mas convenhamos que ninguém se apaixona por alguém em três segundos, muito menos por causa de uma declamação , a não ser em filmes à la Disney.

A partir disso, os anos se passam e o casal está pronto para ter filhos. Na verdade, a mulher que exige filhos, já que o marido, não gostaria de ser pai. Assim, eles têm os gêmeos Omar e Yaqub, e se inicia toda a tragédia.

De acordo com o narrador, o filho “caçula”, Omar, nasceu muito fraco e quase morreu e, por isso, a mãe o cuidou com mais zelo e carinho, do que seu irmão. Por meio dessa preferência da mãe, surgiu uma relação de ciúme doentio dentro da família, do pai com os filhos e de Omar (o filho queridinho) com Yaqub (o menino calado).

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Os intérpretes de Omar e Yaqub, Lorenzo e Enrico Rocha, Matheus Abreu e Cauã Reymond.

Por meio disso, a história incita o ódio entre os irmãos o tempo todo, justificando a briga e violência destes, por causa de ciúmes e culpando todas as mulheres envolvidas. Ainda no capítulo 1, Omar, agora com uns 10 anos de idade, e Yaqub, se apaixonam por Lívia e esta, parece interessada nos dois. Não conhecemos nada da menina, ela simplesmente aparece para “provocá-los” e causar discórdia.

Na cena em que eles vão a exibição de um filme, na casa dos vizinhos, Yaqub beija Lívia e Omar, possuído pelo ciúme e ódio, quebra uma garrafa de vidro e corta o rosto do irmão. Zana, a mãe sofredora, não sabe lidar com a situação sem magoar um dos filhos e Halim, o pai bipolar, decide enviar o filho machucado para o Líbano, seu país de origem, por alguns anos.

Nesse trailer da série é possível ver a cena do corte.

O tempo passsa e a relação de Zana e Omar, agora confusa, com beijos no pescoço e pegadas por trás, fica mais forte e ambígua, enquanto Yaqub, volta, anos depois, mais quieto do que nunca e sem se sentir um membro da família. Ou seja, Yaqub, quem levou a cortada, que foi mandado embora e, exatamente ninguém, sentou para conversar com Omar e dizer que o que ele fez foi errado.

Por meio de narrativas assim, continuamos a ensinar aos meninos que quanto mais violento e dominador eles forem, mais eles provarão sua masculinidade. A mídia, seja televisão, cinema, internet, quadrinhos, etc, tem um papel essencial na construção de um indivíduo e quando mostramos cenas nesse estilo , crianças e adultos permanecem com a ideia estereotipada de masculinidade como forma de oprimir e dominar.

Além disso, a não ser pela personagem Zana, que é a mãe dos gêmeos, todas as mulheres mal falam e tampouco tem personalidade e histórias interessantes. A maioria aparece para saciar as vontades dos homens ou causar “discórdia” entre eles, o que me fez lembrar o texto que li no site groknation.com, “Porquê mulheres são vistas como puritanas ou putas?”.

Na imagem, a personagem Lívia, mais conhecida como a “causa” da discórdia entre os irmãos.

Segundo uma das colaboradoras do groknation*, Sa’iyda Shabazz, “As duas primeiras imagens de mulheres foram ou a Virgem Maria ou Maria Madalena, uma prostituta que buscava a redenção de Jesus. Quando somente há duas únicas visões de mulheres, desde os primórdios, como é que se supõe que iremos passar adiante disso? […] Nós ainda preferimos manter as mulheres ao padrão da mãe virgem, porque é mais seguro, do que ver as mulheres como pessoas totalmente formadas que podem desfrutar de algo como o sexo, sem motivos de procriação.” (Tradução livre)

Outro detalhe interessante é vermos as cenas de Zana e Rânia, sua filha, numa eterna disputa de poder e beleza, além de que, conforme a própria narração diz sobre a mãe: “ao envelhecer, Zana perde sua beleza para a filha”. Enquanto jovens, somos lindas, quando envelhecemos, somos esquecidas e rechaçadas e, claro, a disputa entre mulheres não foge nem dentro da família. Nao sei aonde iremos parar com esses “ensinamentos”.

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Zana, interpretada por Gabriela Mustafá, Juliana Paes e Eliane Giardini.

E o quê falar da personagem Domingas (Zahy Guajajara)?

Quando criança, ela fica órfã e é entregue à Zana, como um presente, para servir como empregada doméstica, mas, na verdade, ela se torna uma escrava. O próprio narrador, que é seu filho, comenta “Domingas é meio ãma, meio escrava”. Meio não, ela é escravizada, humilhada e abusada o tempo todo. Inclusive, a personagem é estuprada pelo gêmeo Omar e NINGUÉM comenta o assunto e a jovem ainda é humilhada, quando anda com seu filho pela cidade, chamada por nomes horríveis, até mesmo pela “patroa”, que diz não querer “um filho de ninguém” em sua casa.

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Domingas (Zahy Guajajara).

Será que ninguém percebe o quão errado é isso? No momento em que uma das personagens é humilhada, estuprada, abusada, e não tem sequer voz e história por trás, fica a entender de que ela pertence à família e eles podem fazer o que quiserem com ela, especialmente os homens. Esse tipo de história concretiza a ideia de que nós, mulheres, somos meros objetos de prazer masculino. E não, nós NÃO somos! Sem contar que, também remete à ideia de que índios são inferiores, sendo justificável os brancos, no caso, libaneses, escravizá-los.

Para piorar, as outras mulheres, maioria negras ou estrangeiras, aparecem quando Omar quer transar ou quando quer provocar sua família, em particular sua mãe, que insiste em humilhar as moças, as chamando de vadias e destruidoras de lares, passando a mão na cabeça do filho, que estupra, abusa e soca quem ele quiser, sem nunca ser punido.

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O filho quem leva a “destruidora de lares” para casa e ela quem é humilhada e expulsa do lugar.

Por fim, entendemos que a redenção de Omar acontece, quando seu filho, Nael, vindo de um estupro, estende suas mãos ao “pai”, querendo ouvi-lo dizer perdão. Infelizmente, Omar, assim como a maioria dos homens, que usam e abusam de sua “masculinidade”, nunca assume e, talvez, nem entenda seus erros, enquanto, Domingas são esquecidas e jogadas ao mar. É simplesmente cansativo vermos minisséries como esta, em que os homens seguem esse padrão de violentar quem eles bem quiserem para provar seu lugar como macho alfa e nunca serem reprimidos ou punidos por seus crimes.

Até quando insistiremos em histórias assim?

Ano passado, tivemos o prazer de assistir Justiça que, mesmo tendo histórias tristes e pesadas, deu um show de humanidade. Então por que não vemos mais programas como este, ao invés de Dois Irmãos, que somente investe em misoginia, preconceito, ódio e mais ódio? O que estamos querendo passar aos nossos meninos/homens e o que estamos dizendo sobre nossas meninas/mulheres?

Para refletir sobre o assunto, indico o documentário the Mask You Live In , abordado pela Louise Queiroga, no texto “A máscara que os meninos usam”, em que a autora diz O filme aborda como a masculinidade é socialmente construída e o quanto isso fere a forma de como os homens poderiam se expressar”. Ademais, o doc ainda mostra como a mídia influência no desenvolvimento de caráter de uma pessoa.

Sendo assim, uma produção que tinha tudo para ser extraordinária, acaba ferindo as mulheres e perpertua a educação machista de nossa sociedade. Uma das coisas que salva o programa, é a maravilhosa interpretação de Juliana Paes e Eliane Giardini, mas, até mesmo a primeira, quando elogiada, tem seu corpo e nudez glorificado e o talento velado.

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As primeiras notícias do Google, ao pesquisar sobre a atriz na minissérie, são sobre as cenas em que ela aparece nua.

*groknation.com: é o site da atriz e neurocientista Mayim Bialik, mais conhecida pelo papel de Amy Farrah Fowler, na sitcom americana The Big Bang Theory.

BIBLIOGRAFIA:

GROKNATION. FEMINISM 101: WHY ARE WOMEN ONLY SEEN AS “PRUDES” OR “SLUTS”?. 2017. Diponível em: <http://groknation.com/women/feminism-101-why-are-women-only-seen-as-prudes-or-sluts/&gt;. Acesso em: 22 de jan. 2017.

GSHOW.‘Dois Irmãos’: conheça a história da nova minissérie da Globo. 2017. Disponível em: http://gshow.globo.com/tv/noticia/2016/11/dois-irmaos-conheca-historia-da-nova-minisserie.html&gt;. Acesso em: 22 de jan. 2017.

WIKIPEDIA. Dois Irmãos. 2017. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Dois_Irmãos_(minissérie)&gt;. Acesso em: 22 de jan. 2017.

This is US: o mais novo amor em forma de série.

Representatividade importa e muito. Esse assunto tem sido o tópico de muitos textos, não só do Projeto Nellie Bly, como vários outros blogs, de pessoas que estão cansadas das mesmas histórias, com o mesmo tipo de protagonista, como se o mundo não tivesse a diversidade que tem.

No entanto, essa luta não é só do público, na verdade, existem pessoas no mercado que entendem essa demanda, pois fogem ou também se cansam do padrão, e estas pessoas nos presenteiam com trabalhos incríveis. Este texto é justamente sobre uma das mais recentes séries dramáticas americanas, que o público ganhou e MUITO.

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Trailer da série.

Série criada por Dan Fogelman e exibida pelo canal NBC, lançada em 2016.

Sinopse: Rebecca Pearson teve uma gravidez difícil de trigêmeos. O nascimento dos filhos aconteceu no dia em que seu marido, Jack Pearson, completava 36 anos. A vida de Rebecca, Jack e seus três filhos – Kevin, Kate e Randall – são apresentadas em diferentes fases. As histórias de Rebecca e Jack geralmente ocorrem durante a fase inicial do casamento, em torno do nascimento das três crianças ou em diferentes etapas da educação destas. Além disso, seguimos as narrativas de Kevin, Kate e Randall, quando estes tem exatamente 36 anos, cada um com sua própria bagagem. Assim, presenciamos essas tramas, todas conectadas entre si, não só pelo laço familiar, mas pelo emocional.

No piloto da série, já é possível entender a ligação de todos os personagens e perceber que, as histórias mostradas, se passam em épocas diferentes e isso é o charme de This is Us. Tudo começa com Rebecca (Mandy Moore), comemorando o aniversário do marido, Jack (Milo Ventimiglia), e antes que ela pudesse finalizar sua dancinha sensual, sua bolsa estoura e eles correm para o hospital.

Ao mesmo tempo em que conhecemos o casal, somos apresentados à novos personagens, que vivem situações separadas, mas todos estão interligados, pois fazem parte da mesma família. Decidi falar de casal em casal, porque é muito amor para uma série só e todos merecem uma chance de brilhar.

1) Rebecca e Jack Pearson.

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Rebecca Pearson (Mandy Moore) e Jack Pearson (Milo Ventimiglia)
O casal central deste novo drama tem uma linha narrativa muito intrigante. A vida deles se passa nos anos 70, às vezes pulando décadas, mas, no começo, é sobre a etapa de vida em que eles são pais de trigêmeos. Primeiro que, no dia do parto, o casal já sofre uma das maiores perdas possíveis e, de alguma forma, a vida dá uma oportunidade pra eles, de passar e superar essa dor, justamente através do amor.

Além disso, acho maravilhosa a relação deles, pois cada um lida de uma forma diferente com tantas mudanças na vida e, sempre quando achamos que eles vão surtar e ter um problema, o casal consegue fazer o que a maioria dos casais se esquecem: conversar. A partir disso, um consegue compreender o lado do outro e vemos como eles vão amadurecendo, juntos, com todas as dificuldades, ganhos e perdas, e o público se envolve com essa relação fofa.

Aliás, outro fato interessante é que Rebecca deixa bem claro que não será mãe sozinha. Como a história se passa nos anos setenta, normalmente vemos o pai trabalhando e voltando pra casa, enquanto a mãe toma conta dos filhos e do lar. Porém, já nos primeiros episódios, a personagem se impõe, dizendo que não vai aceitar isso e que espera uma atitude de pai, em relação ao Jack, e, por incrível que pareça, ao invés de se irritar ou dizer que ele é quem trás o dinheiro pra casa, ele entende as questões da mulher e seu dever como marido e pai e assume isso pra si. Como não faltam reviravoltas nessa série, é importante falar que estou me referindo somente ao início da relação deles.

2) Beth e Randall Pearson.

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Beth Pearson (Susan Kelechi Watson) e Randall Pearson (Sterling K. Brown)
A sequência do casal Beth e Randall se passa nos dias atuais, já casados e com duas filhas pequenas. No entanto, como grande parte desta trama tem a ver com Randall em busca de seu verdadeiro pai, volta e meia, o programa mostra essa narrativa no passado, para entendermos como este foi abandonado pelo pai biológico e adotado pela família de Rebecca.

Primeiro que o Randall é um fofo, que abraça tudo e todos. Eu me surpreendo muito com as atitudes dele e com seu sofrimento, de tentar achar respostas, sem magoar ninguém e me encanto, pois, infelizmente, acaba sendo diferente vermos personagens masculinos com tanta sensibilidade, quando, na verdade, era o tipo de representatividade que mais precisamos para acabar com esse esteriótipo de que homem tem que gritar, provar que é machão e nunca chorar.

Segundo que a mulher dele é incrível. Ela é a mentora dele, ao mesmo tempo em que ela precisa se achar e se impor no meio dessa busca do marido, pelo pai biológico. Aliás, a grande sacada dessa série é justamente um personagem ser o mentor do outro. Acho incrível essa troca de conhecimento, pois todos temos muito o que apender e ensinar, também.

Por fim, é bastante interessante vermos a infância e juventude dele, quando este sofria preconceito na escola por ser negro e adotado, e toda a dificuldade que Randall passa, às vezes recebendo o apoio da família, outras, sendo negado por esta, como é o caso de seu irmão, Kevin, que também reproduzia os preconceitos da sociedade.

3) Kate e Kevin Pearson.

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Kate Pearson (Chrissy Metz) e Kevin Pearson (Justin Hartley).
Kate e Kevin são irmãos gêmeos, do tipo que conseguem sentir a dor física do outro, mesmo estando a quilômetros de distância. Talvez, essa seja minha trama preferida, porque vemos Kevin, um ator famoso, lindo e rico, irritado com o último papel que conseguiu e buscando novas oportunidades, sendo divertido assistir um homem branco objetificado na sitcom em que trabalha e magoado com isso. Quem sabe assim, alguns homens entendam o quão cansativo e vazio é pra nós, mulheres, quando atuamos ou vemos isso acontecendo com a maioria dos personagens femininos.

Além disso, Kate trabalha para o irmão, mas tem seu drama pessoal, que é sua dificuldade em se aceitar, devido ao seu peso. Ela inicia uma terapia em grupo, onde conhece Toby Damon (Chris Sullivan), um cara que enfrenta os mesmos problemas que esta e, pela primeira vez, ela consegue assumir o protagonismo em sua vida e não mais viver às sombras do irmão. Eu não consigo deixar de me apaixonar pela Kate, toda vez que ela entra em cena e dá um show de talento e sensibilidade, nos provando que ela tem tanto brilho quanto o irmão.

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Sua linda!
Aliás, essa história é emocionante, não só por dar voz a uma personagem que, normalmente, é o alívio cômico* das séries, mas, porque, assim como ela, posso me identificar com a dificuldade em conseguir achar seu espaço nesse mundo machista e padronizado, que costuma dar voz aos “Kevins” que existem.

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Poster da série.
This is US está na primeira temporada, sendo que já foi renovada para mais duas e levou o prêmio de melhor série dramática estreante no People’s Choice Awards* 2017. Isso não é mera coincidência e, sim, devido à maravilhosa forma como o roteiro nos guia, nas dores pessoais de cada um, além de seguir um dos temas mais prestigiados da televisão: família.

Sentimos, através da história, dos diálogos e dos atores, a dificuldade de cada um, nos simpatizando e nos identificando, como humanos. Claro que cada um tem um problema diferente, uns com assuntos mais pesados, outros menos, mas todos com dores e sofrimentos, aos quais podemos ter empatia e entender cada vez mais, o que é estar na pele de uma pessoa diferente de você.

Assim, prepare seu coração e guarde um horário na semana, para começar a maratona e se emocionar e encantar com novos pontos de vista dentro de uma produção televisiva.

BÔNUS DO DIA

Como de costume, sempre coloco um “bônus” nos meus textos e nesse não seria diferente. Eu posso estar ficando maluca, mas não consigo assistir ao programa, sem comparar Mandy Moore, no papel de Rebecca Pearson mais velha, com a Diane Keaton e lembrar do filme, em que elas fizeram papel de mãe e filha, Minha mãe quer que eu case (2007).

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Mandy Moore como Rebecca Pearson mais velha.

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Diane Keaton.
Ok, talvez nas fotos não pareça tanto, mas juro que na série elas se assemelham bastante e lembrar de Diane Keaton é sempre um amorzinho, né?

VAI LOGO ASSISTIR ESSA SÉRIE!

*alívio cômico: é a inclusão de um diálogo, cena ou personagem humorístico, para quebrar situações de drama ou suspense.

*People’s Choice Awards: premiação norte-americana voltado ao cinema, música, televisão e, mais recentemente, internet, aonde o público é quem vota nos seus favoritos.

BIBLIOGRAFIA

ADOROCINEMA. Veja a lista completa de vencedores do People’s Choice Awards 2017. 2017. Disponível em: <http://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-127157/&gt;. Acesso em: 19 de jan. 2017.

IMDB. This is Us. 2016. Disponível em: <http://www.imdb.com/title/tt5555260/&gt;. Acesso em: 19 de jan. 2017.

Uma História de Amor e Fúria: A animação brasileira que você precisa assistir.

Antes de mais nada, acredito que você, assim como a maioria dos brasileiros, mal conheça animações nacionais. Infelizmente, como já é muito difícil produzir a sétima arte no Brasil, com o desenho animado não seria diferente, então é normal não conhecer essas produções, pois elas não existem em grande quantidade como a norte-americana e tampouco são divulgadas como deveriam.

No entanto, nossa produção não é nula, muito pelo contrário, o conteúdo de filmes de animação no Brasil tem qualidade, não sendo à toa que no ano de 2016, O Menino e O Mundo concorreu ao Oscar de melhor animação, merecidamente.

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Poster do filme O Menino e o Mundo, filme de Alê Abreu.

Com isso, a intenção deste texto é justamente falar de uma das animações brasileiras que você, ela e todo mundo, precisam assistir.

 

Trailer do filme.

Filme escrito e dirigido por Luis Bolognesi, também conhecido pelos roteiros de Bicho de sete cabeças (2000), As Melhores Coisas do Mundo (2010) e Elis (2016).

O longa-metragem Uma história de amor e Fúria (2013) conta a história de um guerreiro imortal, que está vivo há mais de 600 anos, sempre em busca do seu eterno amor, Janaína. Mas como o próprio título já diz, essa trama, além de amor, contém fúria, passando por momentos marcantes da evolução de nosso país, desde a época em que “Brasil era o nome de uma árvore”, até o ano de 2096.

Apesar de ser uma ficção, a narrativa nos encanta com essa relação do casal, que perpetua por séculos, além de nos mostrar toda a força e resistência do povo brasileiro, contra as injustiças que, infelizmente, continuam até hoje.

A animação começa em 2096, com uma cena rápida e, volta para o ano de 1566, na Guanabara, quando o o guerreiro Tupinambá Abeguar, descobre seu destino. Segundo o xamã da tribo, Abeguar foi escolhido pelo deus Munhã para liderar seu grupo e lutar contra o malvado Anhangá. Quando seu povo é dizimado pelos portugueses, o herói se transforma em um pássaro e voa por mais de duzentos anos para encontrar Janaína, que foi morta no massacre aos índios.

As quatro encarnações de Janaína e seu guerreiro imortal.

 

Assim, vamos para o ano de 1825, onde nosso protagonista é Manuel Balaio que vive com Janaína e suas duas filhas, no Maranhão. Quando uma de suas filhas é abusada pelo comandante policial, Balaio lidera os moradores oprimidos e eles libertam a cidade de Caxias. No entanto, o governo envia Duque de Caxias e suas tropas vencem o povo. Balaio se transforma novamente em um pássaro, indo encontrar sua amada, no ano de 1968, no Rio de Janeiro.

Mesmo sendo uma animação, lembrando que este tipo de produção nem sempre é voltado para crianças, vemos cenas fortes de tortura e violência, mostrando a dura época da ditadura. Após essa fase, o roteiro nos leva de volta à cena inicial, no ano de 2096, onde a disputa agora, é pela água, que vale mais do que qualquer outra coisa.

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Cena do filme.
É incrível como a partir de uma história de amor, o público é levado pro passado e futuro, nos lembrando de todas as feridas, que ainda não foram cicatrizadas, e nos fazendo refletir, sobre aonde podemos chegar e o que perderemos com tudo isso.

O motivo de resistência por parte do nosso guerreiro é seu amor por Janaína e, como nossa querida Janaína, foi uma guerreira em todas as suas vidas, nosso personagem principal segue os passos desta e não desiste nunca do amor e de um mundo melhor.

Aliás, Janaína é dublada pela Camila Pitanga e, só isso, já é maravilhoso. Ela é poderosa em todas as suas encarnações, sendo dolorosas, todas as vezes que perdemos nossa personagem, instantes em que sentimos na pele, o sofrimento do pássaro e viajante do tempo, dublado pelo Selton Melo.

Eu me arrepio com a eterna luta desse casal, de libertar seu povo e ficar junto. E mesmo com todas as derrotas, com todo o sofrimento, basta o sorriso um do outro, que eles lembram que estão do lado certo na luta. Mesmo eu não acreditando em destino, eu me emociono demais com as cenas dos dois, em que o mundo para pra ouvir esses corações apaixonados.

Para o texto não ficar muito melancólico e romântico, esse filme, além de ter esse lindo romance, vale pela história do nosso Brasil. Claro que somente quatro épocas são retratadas, sendo que uma se passa num futuro que ainda faltam 80 anos pra chegar, mas todas as dores permanecem até os dias atuais, nos fazendo questionar o por quê de tanta guerra e injustiça.

Normalmente eu não sou fã de longas com narrador, mas, como o narrador, no caso, é o próprio protagonista, nos contando sua história de vida e nos mostrando seu ponto de vista, é impossível não se envolver nas falas deste. Por sinal, as falas são muito marcantes e fortes, nos comovendo e nos fazendo pensar sobre nosso passado, os erros já cometidos e que ainda não foram consertados. Como o narrador diz: “Viver sem conhecer o passado é andar no escuro.”

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“Meus heróis nunca viraram estátuas. Morreram lutando contra os caras que viraram.”
Assim, eu aconselho essa produção cinematográfica pelos personagens, pela história de amor, resistência e fúria, além de ser uma animação maravilhosa, que nos lembra que é possível produzirmos esse tipo de filme no nosso país.

Eu, que escolhi a carreira de cinema, levo pancadas quase todos os dias por essa escolha difícil, mas são filmes como este, que me lembram de continuar minha jornada.

BIBLIOGRAFIA:

IMDB. Uma história de amor e fúria. 2013. Disponível em: <http://www.imdb.com/title/tt2231208/&gt;. Acesso em: 16 de jan. 2017.

UMA HISTÓRIA DE AMOR E FÚRIA. 2013. Disponível em: <http://www.umahistoriadeamorefuria.com.br&gt;. Acesso em: 16 de jan. 2017.

Madame Bovary: Livro vs Filme & a depressão de uma extraordinária mulher.

No final do ano passado, eu terminei de ler o livro Madame Bovary, escrito por Gustave Flaubert. A versão que li foi da coleção Clube do Livro, pela editora Novas Fronteira Participações S.A., com tradução de Sérgio Duarte e prefácio de Otto Maria Carpeaux.

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Capa do Livro Madame Bovary, sexto volume da coleção Clube do Livro.

Assim que acabei o livro, fui em busca de alguma produção cinematográfica da história e, dei preferência pelo longa de 2015, pois foi escrito e dirigido por uma mulher, Sophie Barthes, também conhecida pelo filme Almas à venda (2009). Com isso em mente, eu quis fazer uma comparação entre o livro e o filme, além de tentar entender a visão da diretora sobre a vida dessa incrível personagem.

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Poster do filme.

Para quem não conhece a trama, Madame Bovary conta a trajetória de Emma Bovary, uma jovem sonhadora, que acredita estar próxima da felicidade, quando aceita se casar com Charles Bovary. No entanto, Emma acaba entediada em seu casamento com um médico do interior e reprimida numa cidade pequena. Para fugir da monotonia e da depressão, Emma persegue seus sonhos de paixão e excitação, independente do que isso possa custar.

No livro, a história começa com a apresentação de Charles, quando jovem, até sua graduação em medicina e seu primeiro casamento. Ele perde sua mulher muito cedo e, em uma consulta médica ao pai de Emma, M. Rouault, acaba se apaixonando por ela. Logo na primeiro parte, os dois se casam, Charles extremamente apaixonado e Emma com expectativas de que sua vida vai mudar para melhor.

No longa-metragem, o roteiro já começa com o casamento de Emma e Charles e sua ida para a cidade de Yonville. Apesar de ter gostado muito do filme e ter achado que a direção está maravilhosa, fiquei decepcionada com algumas mudanças na narrativa, como por exemplo, antes de morar na cidade de Yonville, o casal vive em Tostes, mas Emma entra em depressão e, para ajudá-la, Charles decide se mudar para uma cidade “maior” (entre aspas, pois ambas as cidades eram pequenas).

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Emma Bovary (Mia Wasikowska), Charles Bovary (Henry Lloyd-Hughes) e Rodolphe (Logan Marshall-Green).

Além disso, nessa etapa, Emma está grávida de sua única filha, Bertha Bovary, sendo que, no filme, é como se ela não tivesse tido filhos. No entanto, talvez, pelo ponto de vista da diretora e roteirista, ela deve ter omitido a criança da história, visto que ambos os pais não ligavam e não cuidavam muito dela, inclusive ela mal aparece na escrita literária.

A partir disso, acredito que ambos os trabalhos, livro e filme, entram em sitonia, justamente na fase em que, Emma, lutando contra o tédio e a falta de interesse em sua vida, se envolve em dois casos extra-conjugais.

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León Dupuis (Ezra Miller) e Emma (Mia Wasikowska).

Como não quero dar spoilers, preferi me ausentar dos detalhes dessa narrativa e focar no assunto mais interessante do drama, a depressão da protagonista.

Uma das maiores críticas do autor, Flaubert, aos romancistas de sua época, era a fantasia de suas histórias, iludando o público com tramas que não retratavam a realidade como ela é. Ou seja, ele era contra os romances que tinham finais “felizes para sempre”.

Assim, ele decidiu escrever Madame Bovary, relatando a vida de uma forma nua e crua, em que nos jogamos em fantasias amorosas ou em outras situações, como tentativas de enriquecer a vida, quando na verdade, estamos todos em busca da tal felicidade e ela não é fácil de ser conquistada.

Com isso, o escritor criou Emma Bovary e, em todas as partes do conto, deixa claro as dificuldades dessa em ser feliz e sua eterna luta contra a depressão e melancolia.

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Sim, Emma… sabemos que não é fácil.

Apesar de ter uma vida razoavelmente boa, ao menos para a época em que vivia, Emma era constantemente ignorada pelo marido e pelos seus amantes que, no final, se mostraram todos uns “monstros”. Ela tenta buscar respostas com paixões, religião, roupas, festas, mas, acaba totalmente endividada, num século em que mulheres eram donas de casa e suas expectativas, culturalmente ensinadas, eram se casar e ter filho.

Emma não é um exemplo de mãe, inclusive, eu acho incrível que um livro de 1857 prove que não existe o tal “instinto materno”. Em nenhum momento a personagem fica animada com a maternidade. Talvez, antes de ter a filha, ela se anime com a ideia, mas quando Bertha nasce, Bovary descobre que nunca quis ser mãe, nos lembrando que isso sempre foi e, ainda é, uma imposição da sociedade e uma felicidade que não é para todas.

Na visão da sétima arte, Sophie Barthes mostra de uma forma majestosa a vida simples e sem muitas novidades de Emma. Ademais, também entendemos o desânimo de nossa heroína, pois ela se casou com um homem sem muitas ambições e, que, por mais que fosse apaixonado por ela, ele não entendia suas tristezas e acabava sendo um péssimo companheiro para alguém com depressão.

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Mia Wasikowska como Emma Bovary.

Minha maior decepção com o filme, foi o fato de não enfatisar o problema de saúde mental que a personagem principal tinha. Naquela época, acredito eu, não era comum a palavra depressão, mas, lendo a história, sabemos que Emma tinha momentos de crise, aos quais nem sempre conseguia se livrar. Ela culpa a todo o instante o marido, por seus problemas, mas ela mesma sabe que não é só isso.

Atualmente, a depressão é um grande problema na vida de muitas pessoas e, quanto mais falarmos sobre o assunto e quebrarmos esse tabu, mais conseguiremos ajudar “Emmas” do século XXI.

Aliás, Emma era uma mulher além de seu tempo, iludida com todos os romances que havia lido e com grandes expectativas, que não foram alcançadas, sobre a vida. Outra coisa que acho majestoso na história, é que não a criticamos por trair o marido. Naquela época, seria de se esperar uma trama que a condenasse pela traição, porém, muito pelo contrário, torcemos junto com ela, para que encontre alguém que a faça feliz.

No entanto, felicidade é uma luta constante e individual. Nos relacionamentos devemos somar e não preencher vazios. Essa foi a maior luta de Madame Bovary, enfrentar seus demônios, todos os dias, enquanto tinha que sorrir para as pessoas a sua volta e fingir que estava tudo bem.

É importante lembrar que, quando foi divulgada, a escrita foi altamente criticada e rechaçada, pois envolvia o tema adultério, criticava a alta sociedade da França e a religião. Hoje, é considerado um dos pioneiros da literatura realista.

Sendo assim, eu me encantei com o livro porque eu adoro personagens realísticos, que vemos e sentimos suas dores de perto, ainda mais uma protagonista feminina, num período em que mulheres não tinham muito espaço. Bovary é uma potência de personalidade e história.

O filme, apesar das pequenas omissões, também é maravilhoso. As atuações estão ótimas, a direção incrível, assim como a arte e o figurino. O roteiro foi bem desenvolvido e, do começo ao fim, já sabemos o trágico fim de nossa querida Emma, mas assistimos com a fantasia de que, talvez, ela conseguirá ser feliz.

No demais, Madame é mais uma protagonista mulher, que nos encanta, fazendo uma pessoa em pleno 2017, escrever uma resenha sobre uma história de 1857.

Trailer de Madame Bovary, por Sophie Barthes.

BIBLIOGRAFIA

IMDB. Madame Bovary. 2015. Disponível em: <http://www.imdb.com/title/tt2334733/?ref_=nm_flmg_act_9&gt;. Acesso em: 06 de jan. 2017