A máscara que os meninos usam

O documentário The Mask You Live In, do roteiro e direção de Jennifer Siebel Newsom, e disponível na Netflix, é um daqueles filmes que deveria ser assistido por todos, meninos ou meninas, homens ou mulheres. O filme aborda como a masculinidade é socialmente construída e o quanto isso fere a forma de como os homens poderiam se expressar. Mas também fala sobre bullying, assassinato, agressividade e suicídio. Eu sou feminista, o que significa que sou contra o machismo. Isso também significa que eu não sou contra os homens. E este texto é sobre eles.

“Ele veste uma máscara, e seu rosto se molda a ela…” – esta frase de George Orwell foi um excelente ponto de partida do documentário The Mask You Live In (que em português pode ser traduzido como A Máscara Em Que Você Vive).

A partir daí, dá-se início à discussão sobre como a cultura norte-americana contribui para solidificar essa máscara nos homens, desde a infância, impedindo que eles exponham o que há por baixo dela.

É interessante observar o amadurecimento de alguns deles. Me impressionou a história de um rapaz que, no ensino médio, sentiu a necessidade por afirmar-se como homem com H maiúsculo e deixou de fazer coisas que gostava, entrou para o time de futebol da escola, namorou uma líder de torcida e deixou de ser amigo do menino que conhecia desde o ensino fundamental porque ele não seguiu esse mesmo caminho e continuou fazendo coisas consideradas como “não masculinas o suficiente”. O outro menino perguntou para ele o porquê do afastamento e, na época, ele não soube responder. A ficha só caiu anos depois, quando ele reconheceu as pressões da família, da escola, da sociedade como um todo para “ser um homem”. Ademais, reconhece, inclusive, os privilégios de ser um homem branco, quando fala sobre o seu avô, um “macho alfa”, em suas palavras.

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Este é um dos entrevistados. Ele conta sobre sua passagem do ensino fundamental para o médio, quando sofreu bullying, abandonou o teatro (que anos depois ele retomaria, porque – afinal – ele gosta!) e a necessidade que havia por afirmar-se como homem. Aqui, nesta passagem, ele fala sobre o avô, um homem branco do sul dos EUA, que serviu ao exército e viveu o “sonho americano”.

Coloco aqui a fala de um psicólogo que resume a mensagem do documentário e também do que vivo tentando dizer para as pessoas:

Meninos e meninas são muito mais humanos e muito mais iguais do que são diferentes. Se você der 50 mil testes psicológicos para meninas, os resultados formarão uma curva em forma de sino. Se der os mesmos 50 mil testes psicológicos para meninos, os resultados formarão uma curva de sino de meninos. Se sobrepuser as duas, elas coincidirão em 90%”, afirma o psicólogo Dr. Michael Thompson

Concluindo:

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A neurologista Lise Eliot explica as diferenças entre os conceitos de sexo, um termo biológico, e gênero, uma construção social, em que há “expressões de masculinidade e feminilidade”. O problema da construção da masculinidade durante a infância dos meninos é passar para eles a ideia de que devem rejeitar o que é considerado feminino. Com o tempo, eles acabam acreditando que são superiores às mulheres e aí vem toda a história do machismo que nós já conhecemos bem.

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A neurologista Lise Eliot explica as diferenças entre sexo e gênero e afirma que as expressões de masculinidade e feminilidade são socialmente construídas.

Como afirmei no início do texto, essa é uma publicação sobre os homens, mas também é para os homens. Por isso, deixo aqui uma mensagem para eles:

Prezados homens,

sei que houve momentos em que vocês se sentiram tristes, solitários e assustados, mas não demonstraram isso porque vocês pensavam que deveriam agir de outro modo. E essa é a máscara que os meninos usam. Vocês, mesmo que sem notarem, escondem quem são, ou ao menos esconderam durante um período da vida. Agora, como muitos dos entrevistados (já na fase adulta), é possível que tenham enxergado que não é essa máscara que faz de vocês homens, que define vocês. Porque, antes de mais nada, vocês são humanos e está tudo bem se demonstrarem isso.

As pesquisas indicadas no documentário mostram que a fase da vida em que os garotos começam a esconder as emoções consideradas femininas coincide com o aumento do número de suicídios, que são superiores ao das garotas.

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O número de suicídio de meninos aumenta na fase da vida em que eles mais sentem pressão social para serem machos e não demonstrarem emoções consideradas femininas.

Este é um dado muito delicado e abordado de uma forma emocionante pelo documentário, com depoimentos de rapazes que consideraram ou até mesmo tentaram suicídio. As causas e consequências são analisadas pelos especialistas que salientam a necessidade da observação em casos de determinados comportamentos típicos da depressão. O problema, contudo, é que o senso comum acaba confundindo tristeza com depressão, o que pode dificultar o diagnóstico da doença nos garotos. Os que sofrem desse mal podem demonstrá-la por meio de agressividade, crimes (quantas notícias já vimos sobre atentados de jovens americanos com armas de fogo?) e, por fim, o suicídio.

Há muitos aspectos relatados no documentário que são dignos de serem mencionados aqui (arquétipos da cultura pop, bullying, sexualidade, bebidas, drogas, aversão ao que é feminino, a ideia que fazem das meninas, entre muitos outros), mas acredito que você deva assistir e permitir emocionar-se com os relatos dos garotos entrevistados. Há criminosos em prisão perpétua, estudantes de periferia, jovens de classe média, crianças, adultos, gays, héteros, e por aí vai.

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Um resumo do que você vai encontrar no documentário

É por isso que defendo o feminismo e acredito que ele seja, sim, um movimento para todas e todos. Seria ótimo se os homens, de modo geral, enxergassem que a igualdade de gêneros também diz respeito à liberdade de eles serem quem são e não precisarem se esconder atrás de uma máscara imposta pela sociedade.

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Esta é uma das minhas cenas favoritas, em que um professor faz uma dinâmica com os alunos. Ele dá uma folha para cada um com uma máscara desenhada em um dos lados e pede para que escrevam ali o que os outros sabem deles e, no verso, o que eles não permitem que os outros vejam. Boa parte das respostas contiveram “dor”. Por que meninos não mostram que sentem dor?
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A luta feminista: dos anos sessenta aos dias atuais.

Assistindo ao documentário “She is Beautiful when she’s angry” (Ela fica linda quando está com raiva), dirigido por Mary Dore, me deparei com mulheres fantásticas que lutaram por seus direitos, nos EUA, nas décadas de 60-80.

É incrível e, ao mesmo tempo, assustador vermos que os anos passam e ainda usamos os mesmos discursos, pelo simples fato de que nossa sociedade parece não conseguir se livrar da visão de mundo machista que a domina.

Eu me identifiquei com muitas falas das feministas presentes no doc, sendo que a produção é sobre a luta das mulheres que ocorreu há mais de 40 anos. Protagonistas maravilhosas que, desde aquela época, já entendiam sobre as desigualdades de gênero que contaminam o mundo e, hoje, infelizmente, ainda precisamos lutar, da mesma forma, porque por mais que a gente tenha evoluído, ainda estamos longe de estar num mundo ideal para a população do gênero feminino.

No longa de uma hora e trinta e dois minutos, as entrevistadas contam que elas exigiam igualdade de salários, direito ao aborto, eram contra o abuso e a violência dos homens, lutavam por mais creches – onde elas pudessem deixar seus filhos e irem trabalhar assim como seus respectivos maridos – entre outras exigências, que são o mínimo, para que finalmente possamos ser vistas de igual para igual e não submissas aos homens.

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“Se os homens pudessem engravidar, anticoncepcionais estariam disponíveis em máquinas de chiclete.”

No discurso de uma das entrevistadas, ela comenta como elas, nos anos em que iniciaram os movimentos feministas, mal sabiam sobre o movimento das Sufragistas, ocorrido no final do século XIX e início do XX, na Inglaterra. Por sinal, essa história foi muito bem retratada no filme “As Sufragistas” (2015).

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“Nunca desista da luta.” E tem a participação de Meryl Diva Streep.

Com isso em mente, tentei lembrar dos tempos de escola e, me veio a cabeça, que eu mal ouvi falar das lutas das mulheres, no máximo pelo direito dos votos e olhe lá. E isso é um erro extremo, pois nós temos e devemos aprender sobre as incríveis mulheres do nosso passado, que conquistaram tanta coisa por nós, pessoas das quais devemos nos orgulhar e nos inspirar e buscarmos forças nessa batalha que persiste até os dias atuais.

Tantas histórias de líderes homens, visionários, outros, não, e as mulheres, parece que são sempre deixadas de lado. A não ser que tenham sido princesas ou rainhas, é raro escutarmos na sala de aula do ensino fundamental e médio, sobre os direitos e lutas das mulheres, que ocorrem há anos, pelo simples fato de que, culturalmente falando, não faz sentido ensinar pequenas meninas sobre seus direitos, já que os homens se sentem ameaçados com nossas conquistas e insistimos nesses ensinamentos conservadores e retrógrados.

Algumas das feministas entrevistadas no documentário “She is Beautiful When she’s Angry”.

Além disso, um assunto bastante interessante que elas mencionam na produção, é o fato de existirem divisões dentro do próprio feminismo, e isso me fez refletir e questionar o meu feminismo.

O projeto nos mostra líderes de vários movimentos feministas e, como as mulheres negras e as lésbicas, acabavam formando seus próprios grupos, pois não se identificavam com a luta das mulheres cis brancas e heteros. Lembrei de textos como “Jout Jout, Clarice e o feminismo branco” e “Seu feminismo acolhe mulheres lésbicas?” do site fridadiria.com, em que o movimento feminista é questionado, pois, na maioria das vezes, ele é voltado para mulheres cis, brancas e heteros.

É um assunto delicado, mas deve ser debatido sempre. Uma das representantes que aparece no documentário, comenta que, as militantes, quando exigiam seus direitos, eram chamadas de lésbicas pelos homens e, em sua visão, se elas começassem a lutar pelos direitos Lgbts, acabariam dando crédito à essa visão.

Assim, ela argumentou que, nos anos de 60-70, optou por lutar pelos direitos das mulheres, sem envolver a homosexualidade, por exemplo, e, que, depois de conquistas, seria a hora de lutar por outras vertentes.

No entanto, não podemos nos esquecer que uma mulher lésbica sofre com o machismo por ser mulher e por ser lésbica. Primeiro que lésbica não deveria ser uma ofensa. Segundo que, acaba sendo usado pelos homens e, até mulheres, como ofensa, pois lésbicas são rechaçadas e consideradas como pessoas do gênero feminino que querem ser do sexo masculino ou mulheres que ainda não encontraram o homem certo em suas vidas. Então como pedir pra elas deixarem sua sexualidade de lado, se isso é essencial em sua luta?

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“Fail” total!

Além disso, não podemos negar que uma mulher negra sofre muito mais preconceito e machismo em nossa sociedade, do que uma mulher branca. Infelizmente isso acontece, então como podemos dizer “primeiro conquistamos o direito das mulheres, depois vemos a questão racial”, sendo que uma mulher negra lida com o machismo e racismo todos os dias de sua vida?

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“Nunca deixe que ninguém a faça sentir como se você não importasse.” Michelle Obama sempre maravilhosa.

Sem contar as mulheres de baixa renda que, quase nunca, tem a chance de erguer suas vozes. Para isso, filmes como “Que horas ela volta?” da Anna Muylaert são importantíssimos e maravilhosos, pois nos fazem refletir essas questões.

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Poster do Filme, com Regina Casé.

Quero deixar claro que eu não sou a melhor pessoa para falar sobre a questão racial ou social, pois não vivo essas dores de perto, porém, cada vez mais, me posiciono para ler, refletir e estudar sobre essas questões, ouvindo o outro lado e, assim, entendendo como posso inserí-las no meu feminismo. Lendo e aprendendo, eu cito a Nathalia Rocha, idealizadora do Frida Diria, no texto”Nicki, Rihanna e o feminismo branco:

E, colocando uma mulher negra que se posiciona contra o racismo como barraqueira, a mídia e a sociedade só contribuíram para apagar o debate e manter uma visão racista sobre as pessoas negras. E é isso que o feminismo branco deveria entender. Dentro do movimento, somos tratadas como “nós”, como “manas”, mas, na prática, o que vemos é um debate que abarca “todas” as mulheres como se todas as mulheres tivessem os mesmos problemas. Na prática, mulheres brancas colocam o seu bem-estar e as suas pautas acima dos problemas das mulheres negras e chamam isso de feminismo.

Apesar do assunto em questão ser a discussão em torno de um desabafo da Nicki Minaj no Twitter e a resposta da Taylor Swift, no ano de 2015, ele me ajudou a compreender um pouco melhor sobre como me posicionar a respeito da luta das mulheres negras.

Essa questão é importante de ser debatida, pois a ideia não é defender a violência de mulheres contra mulheres, mas, sim, lutar por um feminismo universal, abrangendo e respeitando todas as suas vertentes, para que todas as mulheres tenham os mesmos direitos que os homens, em qualquer lugar do planeta, e não somente em sua respectiva comunidade ou grupo racial, étnico, etc.

Querendo ou não, nossa posição é contra a supremacia do homem cis, branco, hétero e rico, logo, precisamos achar um jeito de incluirmos todas as causas que qualquer mulher passa e, assim, a gente finalmente conquistar a tal justiça que queremos e merecemos.

Parece utópico, mas não é. Temos que nos unir, tendo empatia pelas dores alheias, apoiando umas às outras, nessa luta contra o machismo. Para isso, temos que usar nossa maior arma: a FALA. E claro, sempre ouvirmos umas as outras, até porque, se ficarmos contra ou nos separarmos, quem perde somos nós mesmas.

Não estamos erradas em exigir direitos iguais e faremos isso juntas, expondo todas as injustiças do nosso dia a dia e exigindo mudanças, até que finalmente o machismo desapareça de nossas vidas.

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“Mulheres de todo o mundo, unam-se!”

Para quem tem interesse de assistir ao documentário, ele está disponível no Netflix e em DVD. Ademais, também é possível ter informações do projeto, incluso sobre as feministas entrevistadas, no site <http://www.shesbeautifulwhenshesangry.com/women/>.

BIBLIOGRAFIA

MOTTA, Thamires. Seu feminismo acolhe mulheres lésbicas? 2015. Disponível em: <http://www.fridadiria.com/seu-feminismo-acolhe-mulheres-lesbicas/&gt;. Acesso em: 08 de jan. 2017.

MOURA, Gabriela. Jout Jout, Clarice e o feminismo branco. 2015. Disponível em: <http://www.fridadiria.com/jout-jout-clarice-e-o-feminismo-branco/&gt;. Acesso em: 08 de jan. 2017.

ROCHA, Nathalia. Nicki, Rihanna e o feminismo branco. 2015. Disponível em: <http://www.fridadiria.com/nicki-rihanna-e-o-feminismo-branco/&gt;. Acesso em: 09 de jan. 2017.

SHE IS BEAUTIFUL WHEN SHE’S ANGRY. 2014. Disponível em: <http://www.shesbeautifulwhenshesangry.com/the-film/&gt;. Acesso em: 08 de jan. 2017.