Grandes olhos: resenha

A artista americana Margaret Keane, de 89 anos, acredita que os olhos são a janela da alma e se baseia em seus sentimentos para pintar belíssimos quadros que encantam a todos. No entanto, para levar o crédito por suas pinturas, precisou vencer o machismo dos anos 1950 e 1960, que se fez presente em sua vida por meio de um relacionamento abusivo que a consumiu por dentro, despedaçando-a pouco a pouco, enquanto seu marido fora reconhecido por um trabalho que não lhe pertencia por anos a fio.

O filme “Grandes Olhos” (2014), dirigido por Tim Burton e estrelado por Amy Adams e Christoph Waltz, apareceu nas opções da Netflix na seção “Adicionados recentemente” e eu e minha mãe resolvemos assisti-lo. E ficamos encantadas. 


A atuação da Amy Adams é deslumbrante, como sempre. (Não teve um trabalho dela de que eu não gostei). Vê-la subjugada provoca uma dor misturada com raiva. Raiva que você não quer sentir dela, porque ela é a vítima ali. O segundo marido aplica um golpe terrível e leva o crédito por todo o trabalho de Margaret, mas ela acredita nas palavras do salafrário de que “é melhor assim”. E continua pintando para ele. 

Gostei muito de ver a relação entre a pintora e a filha. É baseada em companheirismo e amor pleno. Desde o início, quando elas deixam a casa do primeiro marido de Margaret em um típico subúrbio American Way of Life rumo às ladeiras de São Francisco, onde ela começaria a mostrar sua arte em uma freira de rua em dias ensolarados. 

Em um desses dias, ela conhece o homem que, em um primeiro momento, demonstra charme, elegância e sedução com o papinho de “ah, as ruas de Paris”. (Blah). 

Conforme a relação avança, os dois dividem o mesmo sobrenome e, conforme Margaret assina seus quadros, a ideia de assumir o crédito por eles surge na mente do impostor. É assim vai, por anos. 

“De onde vem suas ideias?”, uma pessoa perguntou ao impostor que, boquiaberto, não soube dizer. Ficou ali observando um quadro em uma das exposições de sucesso da arte produzida por sua mulher. 

A mulher dele sofre em silêncio. E parece que quanto mais sofre, mais pinta. Parece trabalho escravo. Extorsão de vida, de identidade. 


Margaret viveu em um tempo em que mulher separada não tinha respeito, arte feminina não costumava ser reconhecida, esposas ficavam em casa enquanto o marido tinha o posto de provedor do lar. Tudo isso favoreceu para ela ficar nas mãos do impostor, que de artista não tinha nada. Mas a mentira dele terminou. A força que ela sempre teve guardada renasceu. E ela continua pintando. Vivendo. E emocionando. 

Deixo aqui essa dica de um filmaço. Verdadeiro e inspirador. 

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