Moonlight: Sob a Luz do Luar

Ainda na maratona do Oscar 2017, decidi que estava mais do que na hora de falar sobre o filme Moonlight: Sob a Luz do Luar, pois ele está concorrendo na categoria de Melhor Filme e, ao meu ver, este realmente foi o MELHOR FILME de 2016.

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Filme escrito e dirigido por Barry Jenkins.

Sinopse: Moonlight narra a vida de um jovem negro desde a infância até a idade adulta, em que luta para encontrar seu lugar no mundo enquanto cresce em um bairro violento de Miami.

O filme é divido em três partes: Little, Chiron, Black. Inclusive, é possível notar esta divisão no poster do filme, aonde vemos os três rostos de Chiron, nas distintas etapas de vida – infância, adolescência e vida adulta. Sendo assim, falarei de cada fase, separadamente, sem dar spoilers*.

1) Parte 1: Little

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Alex R. Hibbert como Little.

Na primeira parte do filme somos apresentados a Chiron, mais conhecido como Little (Alex R. Hibbert), um menino de mais ou menos 9 anos de idade, bastante tímido e fechado. O ponto principal dessa fase é mostrar os dois temas que serão trabalhados no longa-metragem: machismo e homofobia.

Little tem uma relação difícil com sua mãe, Paula (Naomie Harris), pois esta é viciada em drogas e, ao mesmo tempo em que quer cuidar do filho, acaba não sabendo exercer o papel de mãe e sempre perde sua batalha para as drogas. Eu falo melhor dessa personagem no texto Oscar 2017: Melhor Atriz Coadjuvante.

Além disso, Little sofre bullying de seus “colegas” porque eles o consideram afeminado, sendo Kevin (Jaden Piner) o seu único amigo. Em uma de suas fugas, parar tentar escapar da violência dos meninos do bairro, Little se esconde em uma casa abandonada e conhece Juan (Mahershala Ali).

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Little e Juan.

Juan exerce o papel de amigo e mentor, sendo ele e sua namorada, Teresa (Janelle Monáe), os únicos a conversarem com Little e explicarem sobre homosexualidade. Aliás, essa parte do filme é bastante forte, até porque, inclusive a mãe do protagonista é homofóbica e isso se torna um peso muito grande na jornada do nosso herói.

ALERTA MINI SPOILER – que não afetará muito aos que ainda não viram o filme- : uma das cenas mais marcantes e arrepiantes da parte 1 é quando Little pergunta para Juan “Eu sou gay?” e este responde “Não sei, mas você descobrirá um dia.”

2) Parte 2: Chiron

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Ashton Sanders como Chiron.

No segundo capítulo vemos a adolescência de Chiron, fase em que este começa a responder aos estímulos do machismo e, também, se permite explorar sua sexualidade.

Chiron é um menino muito doce e carinhoso com sua mãe, que ainda é viciada em drogas. Além disso, ele continua não tendo muitos amigos e interage pouco com as pessoas de sua escola, porém, Kevin (Jharrel Jerome), seu amigo de infância, continua sendo o único menino que conversa com Chiron.

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Kevin e Chiron.

O roteiro nos mostra todo o machismo que está impregnado em nossa sociedade, desde a época de escola. Infelizmente, o bullying piora e Chiron tem de lidar com o preconceito dos rapazes de seu colégio, além de lidar com a própria dificuldade em se achar no mundo.

As primeiras duas divisões deste projeto me lembraram o documentátrio The Mask You Live In, que mostra como os meninos/homens lidam com o machismo, ao qual o Projeto Nellie Bly fala no texto A máscara que os meninos usam.

3) Parte 3: Black

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Trevante Rhodes como Black.

No último capítulo vemos toda a trasformação do pequeno Chiron, agora conhecido como Black, um homem musculoso e alto, mas, que mantém o jeito tímido e doce de ser.

É incrível ver como os preconceitos da sociedade mudam uma pessoa por completo e a narrativa de Moonlight faz isso de uma forma brilhante. Eu me emocionei em todas as etapas da trama e senti as dores do protagonista, que é sempre rechaçado e humilhado pelos outros, por fugir das normas da masculinidade.

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Black.

Chiron volta a sua cidade natal e reencontra Kevin, pessoa ao qual tem uma grande conexão, além de lidar com sua mãe, agora disposta a se livrar das drogas e tentando se reconectar com o filho.

Este filme é um alerta para todos nós, que lidamos com as dificuldades da vida e com os preconceitos do mundo, mas, como somos nós mesmos que perpetuamos esses preconceitos e esteriótipos. Enquanto o menino afeminado for um problema ou o menino tímido que não reage numa luta for humilhado e instigado a se tornar violento e opressor, estaremos dando um tiro no pé e prejudicando nosso próprio caminho como seres humanos.

É preciso, a todo o instante, falar e enfrentar o machismo e a homofobia que nos cerca, para que Chirons tenham o direito de crescer, sem medo de se amarem e se apresentarem ao mundo.

Sendo assim, para quem ainda não assistiu Moonlight, por favor, ASSISTA. Esse filme é uma obra-prima e relata assuntos tão importantes, emocionando e nos fazendo questionar até onde podemos e devemos mudar o jeito que lidamos com crianças que fogem dos padrões absurdos que, infelizmente, rodeiam nossa cultura. É uma história de autodescoberta, conexão e pertencimento ao mundo, sendo impossível não se identificar e ter empatia por Chiron.

Trailer legendado do filme.

BÔNUS DO DIA

Continuando o bolão Oscar 2017, eis meu palpite sobre a categoria Melhor Filme.

  1. Quem eu acho que vai ganhar: La La Land.
  2. Quem eu gostaria que ganhasse: Moonlight: Sob a Luz do Luar ou Estrelas Além do Tempo.

E você, qual filme acha que vai ganhar?

*spoileré quando algum site ou alguém revela fatos a respeito do conteúdo de determinado livro, filme, série ou jogo. O termo vem do inglês, mais precisamente está relacionado ao verbo “To Spoil”, que significa estragar.

BIBLIOGRAFIA:

IMDB. Moonlight: Sob a Luz do Luar. 2016. Disponível em: <http://www.imdb.com/title/tt4975722/>. Acesso em: 07 de fev. 2017.

WIKIPEDIA.Moonlight. 2016. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Moonlight_(2016_film)&gt;. Acesso em: 07 de fev. 2017.

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Ah, se todos lessem Eleanor & Park…

Esta é uma resenha sem spoilers

Na época da faculdade, quando um professor mandava escrever resenha de livro era um fardo a ser carregado por semanas, mesmo se o livro fosse bom. O problema eram as milhares de outras tarefas para fazer que atrapalhavam e ficavam no caminho.

Em 2017, as coisas começaram diferentes. Não há mais aulas, provas, trabalhos ou TCC.

O tempo livre tornou-se exatamente o que deveria ser. Um espaço de tempo que parece mais uma casinha aconchegante onde posso entrar e permanecer por horas, viajando por entre as histórias que leio. E foi em uma dessas visitas ao meu escape da realidade diário que me apaixonei pelo livro Eleanor & Park.

Havia me cansado um pouco de romances que não me levavam a lugar algum. Só que esse livro se mostrou completamente diferente de tudo o que eu esperava. E isso foi muito bom.

Eleanor & Park dói em você como uma triste canção dos Smiths. Você se deixa levar pelo ritmo e, quando percebe, está refletindo sobre um milhão de coisas que não tinham ressoado antes na sua mente. Ou que não ressoavam havia algum tempo.

Estou falando sobre detalhes. O livro conta a história de um menino que conhece uma menina no ônibus da escola em 1986. Ela é aluna nova, com roupas masculinas, cabelos vermelhos e é grande. Até aí você pode imaginar um filme de adolescente com os mesmos clichês: garoto cool se apaixona pela garota estranha, ela passa por uma transformação (solta o cabelo e tira os óculos) e vivem felizes para sempre após o baile de formatura.

Mas não é isso o que acontece. (Pra começar, Eleanor nem usa óculos. E partes do livro parecem até mesmo zombar desses momentos que transformam o patinho feio em um “lindo” cisne. Tudo isso é relativo).

Ela vive em uma casa lotada de gente, autopreservação e medo. Divide o quarto com seus quatro irmãos mais novos: Ben, Mouse, Maisie e o “little Richie”, sendo este ainda um bebê. E logo descobrimos que nem sempre ela ficou com eles, devido a um incidente com o padrasto.

O livro trata de temas polêmicos, como violência à mulher e papéis de gênero na sociedade, com uma sutileza avassaladora, ao mesmo tempo em que mostra os encantos e as descobertas do primeiro amor.

  • Há molas que rangem no quarto da mãe e gritos de madrugada. Há cheiro de bebida vindo da sala e de silêncio perturbador, do quarto das crianças.
  • Alunos que se acham no direito de zombar de alguém novo e diferente só por considerarem este um passatempo divertido. Um estudo sobre bullying no Canadá, publicado recentemente pela Child Abuse & Neglect (2016), mostra que:
    • Um a cada quatro estudantes sofreram bullying no último ano.
    • Meninas são mais propensas a sofrerem bullying. Aproximadamente 27% disseram passar por este problema, enquanto para os meninos essa porcentagem gira em torno de 22%.
    • Alunos com renda familiar mais baixa – especialmente as meninas – sofrem mais bullying do que os estudantes de famílias mais abastadas.
  • Mensagens obscenas escritas nos livros da escola, misturadas às frases de músicas que ela gostaria de ouvir – e depois que Park lhes apresenta, que ela gosta de ouvir.
  • Park desabafa como a cultura pop trabalha a imagem dos asiáticos. (Ele é coreano). E critica o fato de as mulheres asiáticas serem tratadas como sexy por serem exóticas, enquanto isso nunca ocorre com os homens. E ele se sente mal com essa falta de representação de homens asiáticos na cultura pop como pessoas também bonitas. Eu nunca havia parado para pensar nessa questão e acredito que essa seja uma reflexão válida. Depois, a Eleanor acaba dizendo para ele há o Bruce Lee. Ela o considera sexy. Além de considerar o Park lindo, um gatinho, como ela diz.

Por outro lado, em um canto do beliche de Eleanor há uma caixa de segredos e sonhos. Lá é o lugar onde ela encontra esperança, felicidade e conforto nas lembranças de Park. Na casa dele, ela conhece o que é amor e acolhimento e quando as brigas ocorrem porque as pessoas gostam umas das outras. Vemos que problemas existem em todas as casas. Os da família de Park são apenas mais leves, ainda que também estejam lá.

Eleanor & Park é como uma música. Não só porque a narrativa tem ritmo e porque há infinitas referências a bandas e músicas da época, mas também, principalmente, porque ele gruda em você e uma vez que você tenha começado a “escutar” a história, não tem mais como parar. É viciante.

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A cereja do bolo são as referências (maravilhosas) à cultura pop que a gente ama!

Há uma frase do livro Jornalismo Literário, do jornalista Felipe Pena, que ficou marcada em mim. “Escrevo porque não sei fazer música. Se soubesse ler partituras e articular notas harmônicas, não me arriscaria nessas linhas tortas e analfabetas” (PENA, 2008, p. 16). Gostaria de tê-la citado na minha monografia, mas infelizmente precisei cortar. De qualquer forma, tenho guardado o trecho que escrevi, refletindo sobre o que o Felipe disse.

Obras de arte são formas de comunicação e, dependendo de como são interpretadas, podem angariar mais ou menos tempo de memorização. A música, para o jornalista Felipe Pena, é mais facilmente gravada na mente, de modo que seja possível ser atribuída a determinadas épocas da vida, a momentos específicos, congelando uma memória, como se o tempo passasse mais lentamente. Por outro lado, a literatura enfrenta um desafio maior nessa questão da memória. […] Mesmo que não seja possível saber de cor linha por linha de um livro, como geralmente acontece com uma música, ainda assim é possível deixar registrado relatos de outros tempos, como se o passado pudesse ser revisitado a qualquer momento. – Parte que precisou ser cortada da minha monografia (no momento de tirar os excessos de texto).

Dizem que não nos esquecemos do primeiro amor. Talvez por ele ser bom como sua música favorita. Talvez porque a história tenha sido tão marcante que não é possível esquecê-la.

Esse livro resgata de você a ingenuidade que se perdeu com o tempo, a esperança nas pessoas e o quanto algumas coisas não têm importância – enquanto outras são as mais importantes de todo o mundo. Além disso, corrobora o pensamento do jornalista, reescrito por mim no trecho acima. Eleanor & Park reflete o espírito de uma época, oferece a oportunidade de visitarmos o passado. No entanto, por se tratar de um tema tão agradável, e essa é uma boa palavra nesse caso, consegue ser facilmente atribuída a uma determinada época da vida, a momentos específicos, congelando uma memória, como se o tempo passasse mais lentamente.

Ah, se todos lessem Eleanor & Park…

Bibliografia

JOURNALIST’S RESOURCE. Student bullying on school buses: Comparing teen boys and girls. Disponível em: https://journalistsresource.org/studies/society/education/bullying-students-school-bus-teen-research?utm_source=JR-email&utm_medium=email&utm_campaign=JR-email

PENA, Felipe. Jornalismo literário. 1 ed. São Paulo: Contexto, 2008. 142 p.

ROWELL, Rainbow. Eleanor & Park. São Paulo: Novo Século Editora, 2014. 325 p.