Me livrei das amarras conservadoras (e quiçá fascistas) que ainda prendem membros da minha família

A História é cíclica e já é possível perceber semelhanças entre o que está acontecendo no Brasil, diante da liderança de Você-Sabe-Quem nas pesquisas eleitorais, e o movimento integralista nos anos 1930. A Ação Integralista Brasileira tinha por inspiração o fascismo, disseminado por Mussolini na Itália, e por Hitler na Alemanha (nazismo).

“Os integralistas (…) seguiam o lema ‘Deus, pátria e família’ e saudavam o chefe com o brado ‘Anauê!’. Os integralistas sonhavam com uma ditadura nacionalista que eliminasse os comunistas. Na época, a Igreja católica era politicamente conservadora. Muitos padres brasileiros aderiram ao integralismo crendo que só o fascismo preservaria a moral cristã no Brasil”. (SCHMIDT, 2005, p. 144)

O discurso fascista mostrado no trecho acima, retirado do livro “Nova História Crítica”, que foi o que usei na 8ª série, lembra bastante o atual bordão daquele-que-não-deve-ser-nomeado: “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”. Aliás, ainda durante o início do governo de Getúlio Vargas, em 1934, o presidente já demonstrava simpatia ao movimento integralista. O problema maior surgiu em 1937, quando o governo forjou uma tramoia comunista e a usou como pretexto para dar um golpe na democracia.

“Apoiado pelas Forças Armadas, Getúlio cancelou as eleições e fechou o Congresso”. (SCHMIDT, 2005, p. 146)

Daí veio uma nova Constituição e começou a ditadura do Estado Novo, que perdurou até 1945.

Mas por que estou falando sobre esse período em particular, se em geral as pessoas comentam mais a respeito da Ditadura Militar de 1964 a 1985 para criticar o inominável? Porque me preocupa o tempo que leva para determinados pensamentos serem erradicados na sociedade.

Digamos que um homem que apoiava o integralismo tenha tido uma filha, que por sua vez tornou-se mãe. E o filho dela também procriou. Como quebrar essa linha de pensamento que contamina as relações humanas com discriminação, seja por meio do racismo, homofobia, ou machismo.

Com tantas pessoas ainda hoje apoiando esse tipo de discurso, quando a sociedade será formada por indivíduos que entendam os erros do passado para que eles não sejam repetidos? Até quando o nome de Deus será usado para legitimar discurso de ódio? E pior: demonstrar o ódio às minorias, como vimos nesta semana um vídeo de homens gritando que Você-Sabe-Quem mataria os gays. Afinal, não foi o próprio inominável que disse preferir um filho morto do que um filho homossexual? Difícil pensar que não há relação entre a fala e a manifestação de ódio, não é mesmo?

Mas eu tento não julgar essas pessoas por elas terem crescido no meio de homens opressores que estavam ali moldando a visão de mundo delas desde crianças. Se antes a função social da mulher era ser esposa e mãe, por exemplo, após a luta de muitas, hoje podemos estudar, trabalhar, sermos independentes. E ainda temos que persistir nessa luta diária pela equidade.  O que me motiva é justamente a minha própria existência. Quando penso que me livrei das amarras conservadoras (e quiçá fascistas) que ainda prendem membros da minha família, me vejo abraçada pela esperança de uma sociedade menos facista e mais liberal.

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Uma História de Amor e Fúria: A animação brasileira que você precisa assistir.

Antes de mais nada, acredito que você, assim como a maioria dos brasileiros, mal conheça animações nacionais. Infelizmente, como já é muito difícil produzir a sétima arte no Brasil, com o desenho animado não seria diferente, então é normal não conhecer essas produções, pois elas não existem em grande quantidade como a norte-americana e tampouco são divulgadas como deveriam.

No entanto, nossa produção não é nula, muito pelo contrário, o conteúdo de filmes de animação no Brasil tem qualidade, não sendo à toa que no ano de 2016, O Menino e O Mundo concorreu ao Oscar de melhor animação, merecidamente.

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Poster do filme O Menino e o Mundo, filme de Alê Abreu.

Com isso, a intenção deste texto é justamente falar de uma das animações brasileiras que você, ela e todo mundo, precisam assistir.

 

Trailer do filme.

Filme escrito e dirigido por Luis Bolognesi, também conhecido pelos roteiros de Bicho de sete cabeças (2000), As Melhores Coisas do Mundo (2010) e Elis (2016).

O longa-metragem Uma história de amor e Fúria (2013) conta a história de um guerreiro imortal, que está vivo há mais de 600 anos, sempre em busca do seu eterno amor, Janaína. Mas como o próprio título já diz, essa trama, além de amor, contém fúria, passando por momentos marcantes da evolução de nosso país, desde a época em que “Brasil era o nome de uma árvore”, até o ano de 2096.

Apesar de ser uma ficção, a narrativa nos encanta com essa relação do casal, que perpetua por séculos, além de nos mostrar toda a força e resistência do povo brasileiro, contra as injustiças que, infelizmente, continuam até hoje.

A animação começa em 2096, com uma cena rápida e, volta para o ano de 1566, na Guanabara, quando o o guerreiro Tupinambá Abeguar, descobre seu destino. Segundo o xamã da tribo, Abeguar foi escolhido pelo deus Munhã para liderar seu grupo e lutar contra o malvado Anhangá. Quando seu povo é dizimado pelos portugueses, o herói se transforma em um pássaro e voa por mais de duzentos anos para encontrar Janaína, que foi morta no massacre aos índios.

As quatro encarnações de Janaína e seu guerreiro imortal.

 

Assim, vamos para o ano de 1825, onde nosso protagonista é Manuel Balaio que vive com Janaína e suas duas filhas, no Maranhão. Quando uma de suas filhas é abusada pelo comandante policial, Balaio lidera os moradores oprimidos e eles libertam a cidade de Caxias. No entanto, o governo envia Duque de Caxias e suas tropas vencem o povo. Balaio se transforma novamente em um pássaro, indo encontrar sua amada, no ano de 1968, no Rio de Janeiro.

Mesmo sendo uma animação, lembrando que este tipo de produção nem sempre é voltado para crianças, vemos cenas fortes de tortura e violência, mostrando a dura época da ditadura. Após essa fase, o roteiro nos leva de volta à cena inicial, no ano de 2096, onde a disputa agora, é pela água, que vale mais do que qualquer outra coisa.

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Cena do filme.
É incrível como a partir de uma história de amor, o público é levado pro passado e futuro, nos lembrando de todas as feridas, que ainda não foram cicatrizadas, e nos fazendo refletir, sobre aonde podemos chegar e o que perderemos com tudo isso.

O motivo de resistência por parte do nosso guerreiro é seu amor por Janaína e, como nossa querida Janaína, foi uma guerreira em todas as suas vidas, nosso personagem principal segue os passos desta e não desiste nunca do amor e de um mundo melhor.

Aliás, Janaína é dublada pela Camila Pitanga e, só isso, já é maravilhoso. Ela é poderosa em todas as suas encarnações, sendo dolorosas, todas as vezes que perdemos nossa personagem, instantes em que sentimos na pele, o sofrimento do pássaro e viajante do tempo, dublado pelo Selton Melo.

Eu me arrepio com a eterna luta desse casal, de libertar seu povo e ficar junto. E mesmo com todas as derrotas, com todo o sofrimento, basta o sorriso um do outro, que eles lembram que estão do lado certo na luta. Mesmo eu não acreditando em destino, eu me emociono demais com as cenas dos dois, em que o mundo para pra ouvir esses corações apaixonados.

Para o texto não ficar muito melancólico e romântico, esse filme, além de ter esse lindo romance, vale pela história do nosso Brasil. Claro que somente quatro épocas são retratadas, sendo que uma se passa num futuro que ainda faltam 80 anos pra chegar, mas todas as dores permanecem até os dias atuais, nos fazendo questionar o por quê de tanta guerra e injustiça.

Normalmente eu não sou fã de longas com narrador, mas, como o narrador, no caso, é o próprio protagonista, nos contando sua história de vida e nos mostrando seu ponto de vista, é impossível não se envolver nas falas deste. Por sinal, as falas são muito marcantes e fortes, nos comovendo e nos fazendo pensar sobre nosso passado, os erros já cometidos e que ainda não foram consertados. Como o narrador diz: “Viver sem conhecer o passado é andar no escuro.”

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“Meus heróis nunca viraram estátuas. Morreram lutando contra os caras que viraram.”
Assim, eu aconselho essa produção cinematográfica pelos personagens, pela história de amor, resistência e fúria, além de ser uma animação maravilhosa, que nos lembra que é possível produzirmos esse tipo de filme no nosso país.

Eu, que escolhi a carreira de cinema, levo pancadas quase todos os dias por essa escolha difícil, mas são filmes como este, que me lembram de continuar minha jornada.

BIBLIOGRAFIA:

IMDB. Uma história de amor e fúria. 2013. Disponível em: <http://www.imdb.com/title/tt2231208/&gt;. Acesso em: 16 de jan. 2017.

UMA HISTÓRIA DE AMOR E FÚRIA. 2013. Disponível em: <http://www.umahistoriadeamorefuria.com.br&gt;. Acesso em: 16 de jan. 2017.

A luta feminista: dos anos sessenta aos dias atuais.

Assistindo ao documentário “She is Beautiful when she’s angry” (Ela fica linda quando está com raiva), dirigido por Mary Dore, me deparei com mulheres fantásticas que lutaram por seus direitos, nos EUA, nas décadas de 60-80.

É incrível e, ao mesmo tempo, assustador vermos que os anos passam e ainda usamos os mesmos discursos, pelo simples fato de que nossa sociedade parece não conseguir se livrar da visão de mundo machista que a domina.

Eu me identifiquei com muitas falas das feministas presentes no doc, sendo que a produção é sobre a luta das mulheres que ocorreu há mais de 40 anos. Protagonistas maravilhosas que, desde aquela época, já entendiam sobre as desigualdades de gênero que contaminam o mundo e, hoje, infelizmente, ainda precisamos lutar, da mesma forma, porque por mais que a gente tenha evoluído, ainda estamos longe de estar num mundo ideal para a população do gênero feminino.

No longa de uma hora e trinta e dois minutos, as entrevistadas contam que elas exigiam igualdade de salários, direito ao aborto, eram contra o abuso e a violência dos homens, lutavam por mais creches – onde elas pudessem deixar seus filhos e irem trabalhar assim como seus respectivos maridos – entre outras exigências, que são o mínimo, para que finalmente possamos ser vistas de igual para igual e não submissas aos homens.

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“Se os homens pudessem engravidar, anticoncepcionais estariam disponíveis em máquinas de chiclete.”

No discurso de uma das entrevistadas, ela comenta como elas, nos anos em que iniciaram os movimentos feministas, mal sabiam sobre o movimento das Sufragistas, ocorrido no final do século XIX e início do XX, na Inglaterra. Por sinal, essa história foi muito bem retratada no filme “As Sufragistas” (2015).

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“Nunca desista da luta.” E tem a participação de Meryl Diva Streep.

Com isso em mente, tentei lembrar dos tempos de escola e, me veio a cabeça, que eu mal ouvi falar das lutas das mulheres, no máximo pelo direito dos votos e olhe lá. E isso é um erro extremo, pois nós temos e devemos aprender sobre as incríveis mulheres do nosso passado, que conquistaram tanta coisa por nós, pessoas das quais devemos nos orgulhar e nos inspirar e buscarmos forças nessa batalha que persiste até os dias atuais.

Tantas histórias de líderes homens, visionários, outros, não, e as mulheres, parece que são sempre deixadas de lado. A não ser que tenham sido princesas ou rainhas, é raro escutarmos na sala de aula do ensino fundamental e médio, sobre os direitos e lutas das mulheres, que ocorrem há anos, pelo simples fato de que, culturalmente falando, não faz sentido ensinar pequenas meninas sobre seus direitos, já que os homens se sentem ameaçados com nossas conquistas e insistimos nesses ensinamentos conservadores e retrógrados.

Algumas das feministas entrevistadas no documentário “She is Beautiful When she’s Angry”.

Além disso, um assunto bastante interessante que elas mencionam na produção, é o fato de existirem divisões dentro do próprio feminismo, e isso me fez refletir e questionar o meu feminismo.

O projeto nos mostra líderes de vários movimentos feministas e, como as mulheres negras e as lésbicas, acabavam formando seus próprios grupos, pois não se identificavam com a luta das mulheres cis brancas e heteros. Lembrei de textos como “Jout Jout, Clarice e o feminismo branco” e “Seu feminismo acolhe mulheres lésbicas?” do site fridadiria.com, em que o movimento feminista é questionado, pois, na maioria das vezes, ele é voltado para mulheres cis, brancas e heteros.

É um assunto delicado, mas deve ser debatido sempre. Uma das representantes que aparece no documentário, comenta que, as militantes, quando exigiam seus direitos, eram chamadas de lésbicas pelos homens e, em sua visão, se elas começassem a lutar pelos direitos Lgbts, acabariam dando crédito à essa visão.

Assim, ela argumentou que, nos anos de 60-70, optou por lutar pelos direitos das mulheres, sem envolver a homosexualidade, por exemplo, e, que, depois de conquistas, seria a hora de lutar por outras vertentes.

No entanto, não podemos nos esquecer que uma mulher lésbica sofre com o machismo por ser mulher e por ser lésbica. Primeiro que lésbica não deveria ser uma ofensa. Segundo que, acaba sendo usado pelos homens e, até mulheres, como ofensa, pois lésbicas são rechaçadas e consideradas como pessoas do gênero feminino que querem ser do sexo masculino ou mulheres que ainda não encontraram o homem certo em suas vidas. Então como pedir pra elas deixarem sua sexualidade de lado, se isso é essencial em sua luta?

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“Fail” total!

Além disso, não podemos negar que uma mulher negra sofre muito mais preconceito e machismo em nossa sociedade, do que uma mulher branca. Infelizmente isso acontece, então como podemos dizer “primeiro conquistamos o direito das mulheres, depois vemos a questão racial”, sendo que uma mulher negra lida com o machismo e racismo todos os dias de sua vida?

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“Nunca deixe que ninguém a faça sentir como se você não importasse.” Michelle Obama sempre maravilhosa.

Sem contar as mulheres de baixa renda que, quase nunca, tem a chance de erguer suas vozes. Para isso, filmes como “Que horas ela volta?” da Anna Muylaert são importantíssimos e maravilhosos, pois nos fazem refletir essas questões.

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Poster do Filme, com Regina Casé.

Quero deixar claro que eu não sou a melhor pessoa para falar sobre a questão racial ou social, pois não vivo essas dores de perto, porém, cada vez mais, me posiciono para ler, refletir e estudar sobre essas questões, ouvindo o outro lado e, assim, entendendo como posso inserí-las no meu feminismo. Lendo e aprendendo, eu cito a Nathalia Rocha, idealizadora do Frida Diria, no texto”Nicki, Rihanna e o feminismo branco:

E, colocando uma mulher negra que se posiciona contra o racismo como barraqueira, a mídia e a sociedade só contribuíram para apagar o debate e manter uma visão racista sobre as pessoas negras. E é isso que o feminismo branco deveria entender. Dentro do movimento, somos tratadas como “nós”, como “manas”, mas, na prática, o que vemos é um debate que abarca “todas” as mulheres como se todas as mulheres tivessem os mesmos problemas. Na prática, mulheres brancas colocam o seu bem-estar e as suas pautas acima dos problemas das mulheres negras e chamam isso de feminismo.

Apesar do assunto em questão ser a discussão em torno de um desabafo da Nicki Minaj no Twitter e a resposta da Taylor Swift, no ano de 2015, ele me ajudou a compreender um pouco melhor sobre como me posicionar a respeito da luta das mulheres negras.

Essa questão é importante de ser debatida, pois a ideia não é defender a violência de mulheres contra mulheres, mas, sim, lutar por um feminismo universal, abrangendo e respeitando todas as suas vertentes, para que todas as mulheres tenham os mesmos direitos que os homens, em qualquer lugar do planeta, e não somente em sua respectiva comunidade ou grupo racial, étnico, etc.

Querendo ou não, nossa posição é contra a supremacia do homem cis, branco, hétero e rico, logo, precisamos achar um jeito de incluirmos todas as causas que qualquer mulher passa e, assim, a gente finalmente conquistar a tal justiça que queremos e merecemos.

Parece utópico, mas não é. Temos que nos unir, tendo empatia pelas dores alheias, apoiando umas às outras, nessa luta contra o machismo. Para isso, temos que usar nossa maior arma: a FALA. E claro, sempre ouvirmos umas as outras, até porque, se ficarmos contra ou nos separarmos, quem perde somos nós mesmas.

Não estamos erradas em exigir direitos iguais e faremos isso juntas, expondo todas as injustiças do nosso dia a dia e exigindo mudanças, até que finalmente o machismo desapareça de nossas vidas.

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“Mulheres de todo o mundo, unam-se!”

Para quem tem interesse de assistir ao documentário, ele está disponível no Netflix e em DVD. Ademais, também é possível ter informações do projeto, incluso sobre as feministas entrevistadas, no site <http://www.shesbeautifulwhenshesangry.com/women/>.

BIBLIOGRAFIA

MOTTA, Thamires. Seu feminismo acolhe mulheres lésbicas? 2015. Disponível em: <http://www.fridadiria.com/seu-feminismo-acolhe-mulheres-lesbicas/&gt;. Acesso em: 08 de jan. 2017.

MOURA, Gabriela. Jout Jout, Clarice e o feminismo branco. 2015. Disponível em: <http://www.fridadiria.com/jout-jout-clarice-e-o-feminismo-branco/&gt;. Acesso em: 08 de jan. 2017.

ROCHA, Nathalia. Nicki, Rihanna e o feminismo branco. 2015. Disponível em: <http://www.fridadiria.com/nicki-rihanna-e-o-feminismo-branco/&gt;. Acesso em: 09 de jan. 2017.

SHE IS BEAUTIFUL WHEN SHE’S ANGRY. 2014. Disponível em: <http://www.shesbeautifulwhenshesangry.com/the-film/&gt;. Acesso em: 08 de jan. 2017.

O protagonismo feminino no cinema nacional 2016.

O cinema nacional, de uns anos pra cá, tem ganho uma força monstruosa, e não só o conteúdo, quanto a qualidade técnica, estão cada vez mais impressionantes.

Nesse ano, tivemos muitos lançamentos, alguns já batidos mas que não deixam de ter um valor simbólico, outros que não se saíram tão bem e, claro, o que nos deixaram de queixo caído.

O ano de 2016 foi um ano de muita luta pela igualdade de gênero, dentro e fora das câmeras, uma luta que vem ocorrendo há anos e cada vez mais obtém força e sucesso. Com isso em mente, nesse texto eu gostaria de destacar seis produções cinematográficas com protagonismo feminino, seja na frente ou por trás das câmeras, pois valem a reflexão, a homenagem e o orgulho de quem aprecia a sétima arte brasileira, além de ser um pequeno avanço na luta pela igualdade entre homens e mulheres no meio audiovisual.

AQUARIUS

Sinopse: Clara (Sonia Braga) mora de frente para o mar no Aquarius, último prédio de estilo antigo da Av. Boa Viagem, no Recife. Jornalista aposentada e escritora, viúva com três filhos adultos e dona de um aconchegante apartamento repleto de discos e livros, ela irá enfrentar as investidas de uma construtora que tem outros planos para aquele terreno: demolir o Aquarius e dar lugar a um novo empreendimento.”

O filme foi escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Sonia Braga. Pra quem assistiu a outra realização do diretor, Som ao Redor (2012), notou semelhanças na estrutura narrativa e na direção do filme, o que deu ao longa um estilo bem autoral, e por sinal, igualmente ao trabalho anterior, mostra toda a beleza de Recife.

No entanto, quem rouba a cena, sem sombra de dúvidas, é Sonia Braga. Ela está um furacão de personagem, de carisma, de sensualidade, de interpretação, de tudo o que você puder imaginar. A personagem principal é a força de tudo na história! É incrível assistir à garra dessa mulher ao defender seu apartamento, que é e sempre foi, seu lar, além de vermos a fragilidade desta, com assuntos mais delicados como saúde e família.

Além disso, a atriz, aos 66 anos de idade, esbanja sensualidade e inclusive quebra um grande tabu com suas cenas de sexo, pois mulheres dessa faixa etária, aos olhos da sociedade machista, não são procuradas para esse tipo de papel, já que sexo após certa idade é visto como algo grotesco e não comercial, e claro, mulheres não podem envelhecer né?

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Sonia Braga divando aos 66 anos de idade.

O drama é incrível e foi muito bem construído e levou vários prêmios mundo afora, pela potência que foi. No entanto, é importante frisar que a trama foca no público de classe média alta, então, ao meu ver, tem alguns equívocos ao retratar certas mordomias dessa classe.

No geral, esse filme é tudo o que você já deve ter ouvido falar e um pouco mais. Aquarius deu e ainda vai dar muito orgulho ao cinema nacional.

AMORES URBANOS

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Poster do filme Amores Urbanos.

Sinopse: Amores Urbanos é uma comédia dramática que conta a história de três amigos que vivem no mesmo prédio, em São Paulo. Júlia, Diego e Micaela são jovens anti-heróis, que superam desventuras amorosas e profissionais com humor e muita personalidade.”

Escrito e dirigido por Vera Egito, Amores Urbanos rompe muitas barreiras no cinema brasileiro, pois é um filme com muita carga emocional e conta histórias de relacionamentos amorosos entre pessoas, independente da sexualidade, da forma mais honesta possível.

O longa se utiliza do multiprotagonismo e segue em torno da vida de três amigos Júlia (Maria Laura Nogueira), Micaela (Renata Gaspar) e Diego (Thiago Pethit) e suas vidas amorosas, bastante desastrosas, por sinal.

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Júlia (Maria Laura Nogueira), Micaela (Renata Gaspar) e Diego (Thiago Pethit).

Não há efeitos especiais, não há nenhum artíficio “blockbuster” que prenda a atenção do público, mas tem muita história pessoal dentro do roteiro e que qualquer um na faixa dos 25-35 anos consegue se identificar com as crises pessoais dos personagens.

Além disso, é incrível termos dois protagonistas assumidamente gays, Diego e Micaela, e seus relacionamentos serem mostrados pelo lado bom e também pelo ruim, como qualquer outra relação heterosexual.

No demais, apesar de ser um filme com um público alvo muito fechado, é interessante pela narrativa, pelos personagens, pelas dores vividas por eles e como os três amigos conseguem superar todas as dificuldades juntos. Acredito que seja um filme que retrata família no sentido de conexão e não de sangue e só por isso já é possível se emocionar com o longa-metragem.

ELIS

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Cartaz do filme Elis, com Andreia Horta.

Sinopse: A vida de Elis Regina – indiscutivelmente a maior cantora brasileira de todos os tempos -, é contada nesta cinebiografia em ritmo energético e pulsante. A trendsetter cultural que sinalizou a mudança de estilos de Bossa Nova para MPB, a “pimentinha” ardente (brilhantemente interpretada por Andréia Horta), que viveu uma vida turbulenta. Ao mesmo tempo em que se chocava com a Ditadura Militar no Brasil, ela lutou com seus próprios demônios pessoais. “Elis”, o filme, está imbuído da alma da cantora e do país que ela amava.”

O filme tem a direção de Hugo Prata que também assina o roteiro, junto com Vera Egito e Luiz Bolognesi.

Estrelado por Andreia Horta, que brilhantemente encarna o papel da cantora Elis Regina, o longa segue uma narrativa clássica, e nos retrata muito bem as emoções de Elis com o passar do tempo, do começo de sua carreira ao sucesso, até sua despedida desse mundo.

Assim que assisti ao filme, fiz um texto comentando a falta de personagens femininos no roteiro, além da protagonista, Elis. Uma pessoa que com certeza faltou nesse longa foi Rita Lee, mas, infelizmente, não podemos mudar isso.

No entanto, não posso deixar de elogiar a performance de Andreia e dizer que Elis foi e sempre será um ícone para a música nacional. Toda sua história e seu talento me arrepiam só de pensar e o filme nos deixa arrepiado a todo o instante, tocando clásssicos da cantora, além de mostrar suas crises pessoais, às quais podemos nos indentificar humanamente.

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Andreia Horta como Elis Regina na cena em que Elis fala sobre a didatura militar numa entrevista internacional. “Sem querer ofender os gorilas, obviamente.”

No demais, apesar do erro de não dar voz às outras mulheres que fizeram parte dessa história, a personagem principal, seja por ser uma biografia ou não, dá um banho de presença em todos os homens em cena e nos encanta com tamanha potência, de voz e vida pessoal.

Se eu fui ao cinema apaixonada por Elis Regina, saí completamente encantada e admirada por tudo o que ela passou e conquistou. Esse filme vale a pena, não só pela boa produção, mas pelo nome que traz. Por Elis vale a homenagem e vamos torcer para que as próximas produções venham com mais protagonismo feminino e menos homens desnecessários à trama.

MÃE SÓ HÁ UMA

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Cartaz do filme Mãe só há uma.

Sinopse: Mãe só há uma é uma tragédia adolescente que confronta a idéia de família, de identidade, de cultura: Pierre, 17 anos, mora no interior de São Paulo com sua amorosa mãe Aracy e sua irmã Jaqueline. Vive uma vida louca até que a polícia aparece em sua casa com uma delicada suspeita. Joca, 13 anos, mora na capital de São Paulo com sua mãe ausente Gloria, seu delicado pai Matheus e sua empregada Marly. Um exame de sangue vai revelar o que havia oculto em sua família.”

Longa escrito e dirigido por Anna Muylaert, primeiro longa lançado após o sucesso de “A Que Horas Ela Volta (2015)”.

A história é baseada num acontecimento real, o famoso “Caso Pedrinho”. Eu era muito nova na época, mas lembro das notícias contando o caso do menino que foi sequestrado por um mulher, que até então assumiu o papel de mãe – e para ele, realmente foi a mãe dele – e 16 anos depois, a polícia o encontra e o leva para sua família biológica.

Apesar desse forte cunho para o lado do suspense, a diretora trabalha a trama de outra forma, bastante singular por sinal. A narrativa já começa com a separação de Pierre com sua mãe “adotiva” e o vemos lidar com a nova vida, além de lidar com sua identidade de gênero e sexualidade.

Pierre gosta de vestir roupas femininas, apesar de ser considerado do gênero masculino, e se relaciona tanto com meninas, quanto com meninos. O interessante disso tudo, é que na ficção criada pela diretora, o rapaz que, até então, poderia explorar seus gostos pessoais na vida que tinha, ao chegar no novo lar, sua sexualidade e rupturas de gênero não são aceitas, e por sinal, são o principal problema da boa relação nesse novo núcleo familiar.

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Don’t call me son (Não Me Chame de Filho), título do filme na versão em inglês.

Acredito que a maioria do público assistirá ao filme e poderá se decepcionar pelo o roteiro não focar na parte do sequestro e da revelação de tudo, mas irá se deliciar com essa narrativa única, de pertencimento e não pertecimento de um menino ao seu corpo, seu gênero, sua sexualidade e a sua mais nova família.

No demais, Anna Muylaert surpreende novamente e traz mais um orgulho para a cinematografia brasileira.

MATE-ME POR FAVOR

 

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Cartaz do filme com a atriz e protagonista Valentina Herszage.

Sinopse: Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Uma onda de assassinatos invade o bairro. O que começa como uma curiosidade mórbida se apodera cada vez mais da vida dos jovens habitantes. Entre eles, Bia, uma garota de 15 anos. Após um encontro com a morte, ela fará de tudo para ter a certeza de que está viva.”

Escrito e dirigido por Anita Rocha da Silveira, Mate-Me Por Favor é, na minha opinião, o filme do ano. Eu diria isso por razões que vão além de considerar um filme um sucesso ou não. O longa é uma mistura de suspense, com thriller, com alívios cômicos, e além de mostrar a vida pessoal de Bia (Valentina Herszage) e suas amigas, nos mostra como todas lidam com os assassinatos que vem ocorrendo na região em que moram, a Barra da Tijuca.

Esse longa-metragem rompe com tantas regras cinematográficas, mas de uma forma tão magnífica, que quase cria um novo gênero no cinema nacional. Não lembro de nenhum outro filme brasileiro que siga esse exemplo, talvez porque infelizmente não é fácil produzir filmes por aqui ou porque também não é fácil divulgar os filmes já realizados, mas nenhum me vem à cabeça e eu fiquei encantada com essa trama.

O filme não só nos dá agonia e receio por tudo o que está acontecendo com as mulheres assassinadas, nos remetendo ao medo que todas as mulheres têm no dia a dia, como ainda nos surpreende com cenas transcedentais e outras engradíssimas, como as sequências do culto Evangélico “Funkeiro”.

Clipe da música Sangue de Jesus, incluída no filme.

Aproveito para dizer que a trilha sonora está impecável e ela vai de músicas transcedentais até Claudinho e Buchecha. Preciso dizer mais alguma coisa para te convencer a assistir ao filme?

No demais, o longa-metragem consegue entreter, causar e nos fazer refletir sobre como é ser uma menina no mundo em que vivemos e como desde jovens, meninas enfretam medos que, infelizmente, as cercam pelo resto da vida.

PEQUENO SEGREDO

 

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Cartaz do filme Pequeno Segredo.

Sinopse: O longa-metragem de ficção, baseado na história real de Kat Schurmann e que também inspirou o best-seller homônimo de Heloísa Schurmann, revela a força do amor no destino de duas famílias. Ao adotar Kat, o casal Schurmann convive com a delicada escolha de manter ou não um segredo que vai além da adoção.

Dirigido por David Schurmann, Pequeno Segredo, da lista, é o filme que mais foge do ritmo dos outros. A trama começa um pouco perdida, ao tentar situar a história de duas famílias que estão conectadas e só com o desenrolar da história que iremos entender o porquê.

A produção está excelente, mas peca em algumas coisas como direção de atores, no entanto, do meio do filme até o fim, é impossível você desconectar seus olhos da tela. Estamos lidando diretamente com a dor de duas famílias, em proteger Kat (Mariana Goulart), não só do seu “segredo”, como da reação dos outros ao descobrirem esse segredo.

É baseado numa história real, aliás, o diretor do filme é irmão de Kat Schurmann , personagem principal, e fica nítido, a todo o tempo, o amor e carinho que Kat recebeu ao longo de sua vida, além de nos fazer lidar diretamente com tabus que nossa sociedade simplesmente tem medo de tocar.

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Capa do livro de Heloisa Schurmann, com a verdadeira Kat Schurmann.

Mistérios a parte, eu optei por não contar o segredo da protagonista porque é algo muito importante e simbólico para a narrativa e irá surpreender a qualquer um que não conheça a história, ou que conheça, mas verá, através da ficção, o que aconteceu na vida de todos os que estavam presentes na história.

INDICAÇÃO BÔNUS

JUSTIÇA

Apesar de ser uma minissérie, logo foge do tema que é voltado para o cinema, não posso deixar de comentar essa obra-prima criada por Manuela Dias.

Sinopse: A narrativa segue a história de quatro personagens, que no mesmo dia, são julgados e condenados a sentença de seus “crimes” e, a todo o instante, lidamos com a pergunta: “Justiça pra quem?”

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Vicente(Jesuíta Barbosa), Fátima (Adriana Esteves), Rose (Jéssica Ellen) e Maurício (Cauá Reymond).

Cada episódio segue o desenrolar da condenação de um dos protagonistas, mas todas as histórias estão interligadas entre si.

Caso Vicente Menezes

Vicente Menezes (Jesuíta Barbosa), possuído por ciúme e raiva, atira e mata sua noiva, covardemente, ao vê-la se relacionando com o ex. Ele pega cinco anos de cadeia e, ao sair, busca mais que tudo, o perdão de sua sogra, interpretada por Deborah Block.

Caso Fátima Libéria do Nascimento

A personagem Fátima, interpretada por Adriana Esteves, que está maravilhosa no papel, atira no cachorro do vizinho para proteger seu filho pequeno. Com raiva do ocorrido, o vizinho, Douglas (Enrique Díaz), que é policial, enterra drogas no terreno de Fátima e esta é condenada  por tráfico. Quando sai da cadeia, Fátima tem o sonho de reconstruir a família, mas o marido Waldir (Ângelo Antônio) já faleceu, seu filho Jesus (Bernardo Berruezo/Tobias Carrieres) se tornou morador de rua e a filha Mayara (Letícia Braga/Julia Dalavia) se prostitui.

Caso Rose Silva dos Santos

Comemorando ter passado no vestibular, numa festa na praia, Rose (Jéssica Ellen) é presa com drogas dos amigos, enquanto sua melhor amiga, Débora (Luisa Arraes), é liberada. Rose sai da cadeia sem ter para onde ir e busca por Débora, agora casada e com um grande ódio dentro de si. Débora conta a Rose sobre o dia em que foi estuprada e, assim, as duas decidem procurar o homem que a violentou e fazer justiça com as próprias mãos.

Caso Maurício de Oliveira

Maurício (Cauã Reymond) foi preso por eutanásia, após matar sua esposa Beatriz (Marjorie Estiano), uma bailarina que foi atropelada e ficou paraplégica. Ao sair da cadeia, Maurício planeja se vingar de Antenor (Antonio Calloni), que durante a fuga com o dinheiro roubado do sócio, atropelou sua esposa e não prestou socorro.

Essa minissérie nos faz questionar tantos problemas do nosso dia a dia, além de nos entreter a todo o instante, com histórias maravilhosas e muito bem desenvolvidas. Eu devorei essa minissérie e fiquei extremamente orgulhosa por saber que foi criada por uma mulher, Manuela Dias, e que foi lançada em canal aberto, pois este não é um espaço que aceite tanta quebra de tabus.

Recomendo o drama pois vivemos num mundo em que Justiça é algo extremamente questionável, pois esta, infelizmente, não é feita para todos. No entanto, podemos e devemos questionar o que deve ser feito para que finalmente todos possam ser tratados da mesma forma perante a lei.

Além disso, a trilha sonora da série está impecável, com músicas do Johnny Hooker, por exemplo.

Rita Lee e Elis Regina: a amizade feminina que faltou no filme.

Na semana passada eu fui com meus pais assistir ao filme Elis. Faz alguns meses que eu vi o trailer e estava louca para prestigiar a história desse furacão de mulher.

Quando pequena não era muito fã de música brasileira, mas com o passar dos anos, me aproximei de pessoas que me influenciaram a escutar músicas nacionais.

Comecei me envolvendo com Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Titãs, Tim Maia, até que me encantei e me apaixonei por Rita Lee, e logo mais, Elis Regina. Admito que conheço muito pouco da vida pessoal de todos esses artistas, apesar das histórias surpreendentes, de força e luta.

No entanto, como comecei a apreciar suas canções, quando vi que teria um filme sobre Elis Regina, fiquei extremamente curiosa e ansiosa pela estreia. Eu sabia tão pouco, mas tão pouco da vida pessoal dela, que não fazia ideia da causa de sua morte.

De qualquer forma, ansiei pelo momento do lançamento do filme e, assim que lançou, arrastei meus pais ao cinema e juntos fomos nos arrepiar com a famosa Pimentinha.

É importante dizer que alguns dias antes de ir ao cinema, eu tinha lido uma ótima resenha do longa no site MdeMulher – “Um filme sobre os homens na vida de Elis Regina”. Esse texto me influenciou e, de certa forma, fui assistir a obra cinematográfica com várias questões em mente e, com os olhos nervosos por respostas, eis minhas conclusões.

O filme é muito bom, disso não há dúvidas. Eu fiquei encantada do começo ao fim, da fotografia ao som e ,principalmente, com Andreia Horta que está absurdamente feroz e encantadora. Se eu me incomodei com o playblack no começo do filme, no final eu já achava que ela e Elis eram uma só. Me encantei com tamanha performance e acho que Elis foi bem representada, além de ter sido a melhor personagem do filme, não só por ser a protagonista, mas porque o personagem foi bem desenvolvido.

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Rita Lee e Elis Regina.

Todavia, eu não pude deixar de notar o óbvio: Elis é a única mulher do filme que tem história e claro, isso porque ela é a personagem principal. Todos os outros que exercem um papel considerável na trama são homens. Inclusive nem a mãe de Elis aparece no projeto e, com isso, eu me perguntava a todo instante– será que veremos a mãe dela ao menos um segundo?

Além disso, fiquei igualmente intrigada em saber se Elis teve alguma amiga próxima e a resposta está no título desse texto. Rita Lee se tornou uma grande amiga de uma das maiores cantoras do Brasil, então por quê raios a Rita Lee não está no filme?

Eu sai do cinema e fiquei com milhares de questionamentos e essa semana resolvi ir atrás de algumas respostas e, assim, tive o prazer de assistir uma entrevista com Rita Lee e fiquei enlouquecida com tudo o que ela disse. Uma parte tão importante da vida de Elis e o roteiro e a direção de sua cinebiografia deixam isso de lado, como pode?

Entrevista com Rita Lee falando sobre sua amizade com Elis Regina.

Resumidamente, Rita Lee diz “A gente tinha se cruzado várias vezes durante os festivais da Record e ela não gostava mesmo, odiava Mutantes (…) Passou várias vezes por mim e não me viu (…) Eis que fui presa em 1976, e a primeira e única pessoa que foi me ver na cadeia, Elis (…) Ameaçando chamar a imprensa, queria me ver porque ela sabia que eu estava grávida que tudo aquilo era uma besteira, era plantado (…) Foi uma força bicho, uma coisa impressionante! E depois continuou porque ela sabia que eu sai da cadeia sem grana nenhuma, devendo minha alma e ela me chamou para fazer algumas coisas, me pediu música (…) A gente ficou muito amiga, tanto que a filha dela chama Maria Rita porque ela me chamava de Maria Rita.”

Uma pena essa relação não estar no drama, e me perdoem, mas nenhuma desculpa sobre arco narrativo irá esquecer essa falha na edição do longa-metragem. Uma parceria incrível, de onde surgiu uma amizade tão forte, a ponto de Elis nomear a filha fazendo uma homenagem a amiga. Tantos personagens masculinos dispensáveis e logo as mulheres que são deixadas de lado. Não há muita dificuldade em entender o motivo dessas escolhas, mas não entrarei nessa discussão.

Apesar dos pesares, no final da trajetória de Elis, é possível nos emocionarmos e sentirmos a dor da protagonista. Aos que já passaram por depressão ou tiveram fases muito difíceis na vida, é emocionante e dilacerante saber como esta querida cantora chegou ao fim. O filme não mostra ao fundo o por quê de tanta melancolia e sofrimento, mas nos deixa sentidos de uma grande perda nacional. Talvez sim os homens a tenham matado, mas somos nós mulheres que ainda nos orgulhamos e nos inspiramos nessa potência de mulher. Nunca serás esquecida, Elis, isso eu te prometo!

Sendo assim, mesmo com essa falha monstruosa no roteiro, vale a pena a ida ao cinema. Felizmente o cinema nacional deste ano está surpreendente, tanto na qualidade técnica, quanto na narrativa em si. Mas obviamente, não podemos deixar de notar os erros, mas devemos fazer críticas construtivas para que nos próximos projetos, o público se incomode cada vez menos e se apaixone cada vez mais por filmes brasileiros.

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Elis e Rita.

Bibliografia

WARKEN, Julia.Um filme sobre os homens na vida de Elis Regina. 2016. Disponível em: http://mdemulher.abril.com.br/cultura/um-filme-sobre-os-homens-na-vida-de-elis-regina/