Tina Fey e o poderoso roteiro de Meninas Malvadas

Vamos deixar algo claro: eu, você, ela e a galera toda da década de 90/00 simplesmente amamos o filme Meninas Malvadas. Todo mundo ri, se identifica e, se deixar, ainda chora com algumas cenas, de tão associável com a nossa realidade no ensino médio.

No entanto, acredito que a maioria das pessoas avalie esse filme como uma comédia sem muita pretensão, a não ser entreter. Eu discordo dessa opinião e vou explicar meus motivos.

Em primeiríssimo lugar, o roteiro foi escrito por ninguém mais, ninguém menos, que Tina Fey, que teve como inspiração o livro Queen Bees & Wannabes de Rosalind Wiseman. Fey interpreta a professora Srta. Norbury, acusada de vender drogas no famoso livro/diário criado pelas populares, o “Burn Book”.

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Quem não morria de medo de aparecer nesse livro, hã?

Eu digo isso porque os trabalhos da Tina, normalmente, vem com muitas mensagens subliminares, digamos assim. Desde suas esquetes em Saturday Night Live (1997-2010) até sua última série Unbreakable Kimmy Schimdt (2015-16), seu humor é bastante sarcástico e sempre tem umas alfinetadas na sociedade, alfinetadas essas, muito bem vindas, por sinal.

Com isso em mente, pelo o que entendo de roteiro, acredito que ela teve claras intenções com o projeto e obteve sucesso com ele. Quando um roteirista inicia um filme, ele segue algumas regras “universais”, para conseguir vender seu trabalho, além de envolver paixão e propagar mensagens, aos quais chamamos de TEMA, no univervo cinematográfico.

O tema do longa-metragem é: escola, relações e amadurecimento.

Diferentemente do filme Patricinhas de Beverly Hills, por exemplo, o argumento de Fey além de enfatizar todos os estereótipos que criamos na época da escola, ele nos mostra o quão mal eles nos fazem, dentro e fora do colégio. Sem desmerecer Patricinhas de Beverly Hills, que também é um excelente filme, mas só querendo marcar um ponto, dizendo que o filme dos anos 90 realmente é um projeto despretencioso e que nos faz refletir de qualquer forma, mas o dos anos 2000 nos impulsiona a refletir o tempo todo, desde a entrada de Cady Heron (Lindsay Lohan) na escola até o acidente com nossa amada inimiga Regina George (Rachel Mcadams).

Além do tema, outra ferramenta utilizada pelos roteiristas são os diálogos e os diálogos de Meninas Malvadas são maravilhosos e tem muita coisa nas entrelinhas. O maior exemplo disso é a fala da professora:

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“Vocês tem que parar de chamar umas as outras de putas e vadias. Isso faz com que seja ok para os meninos chamá-las assim também.”

Você tem noção do quão poderoso essa frase é? É uma simples frase que vem carregada de tanta coisa, e claro, o roteiro não usa argumentos explícitos contra o machismo, mas está ali, embutido. Ela esta falando do machismo da nossa sociedade, que se inicia na infância e vai piorando na adolescência, fase em que nossa sociedade nos provoca a lutarmos umas com as outras, na maiorias das vezes, por homens dispensáveis.

Lembrando que o ódio a Regina George começou pela disputa entre o Aaron Samuels (Jonathan Bennet), certo? Os amigos de Cady tentam convencê-la de destruir a reputação de Regina, mas ela só aceita participar depois que a rainha da escola volta a namorar o Aaron.

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Ele é lindinho, mas homem nenhum vale uma disputa, certo?

Bom, vamos aos fatos: Regina George não é a melhor pessoa do mundo. Ela gosta de ser o centro das atenções, acha que o mundo gira em torno dela e magoa a Cady de propósito, no entanto, a história nos deixa a questão: será que vale a pena essa guerra toda entre meninas?

No final, tanta coisa ruim acontece e tudo por causa de um rapaz – claro que não é só o boy magia, mas, no roteiro, o ato que impulsiona a protagonista a tomar atitudes é ele – e a eterna disputa entre mulheres, quando na verdade, devíamos nos unir. Lembram da nossa amiga do bolo de arco-íris?

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“Eu queria poder fazer um bolo de arco-íris e sorrisos.”

Outro assunto relevante na trama é a polêmica do professor de educação física,Coach Carr (Dwayne Hill), que se relaciona com suas alunas adolescentes. Não é à toa que investigam a professora Norbury por tráfico de drogas, já que descobrem que a acusação ao professor era realmente verdade e é simplesmente muito errado um homem de mais de quarenta anos se envolver com alunas que são menores de idade. Uma das melhores cenas é ele correndo quando descobrem tudo, porque na hora do vamos ver, homem nenhum assume as responsabilidades dos atos criminosos né?

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Então…

Continuando, a personagem Lizzy Caplan (Janis Ian) é outro exemplo excelente na comédia. Ela é uma menina que foge completamente do padrão e, justamente por isso, é acusada de ser lésbica pela famosa queen be. Seria ótimo se ela fosse lésbica, mas não é o caso da personagem, ela simplesmente não se veste e não assume uma postura feminina e, infelizmente, isso é motivo o suficiente para as más linguas a atacarem. Mas ela é a melhor personagem e nós a amamos por todos os tabus que ela quebra.

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E esse terno maravilhoso, hã?

Aliás, o BFF (best friends forever) de Lizzy, Damian (Daniel Franzese), é assumidamente gay e o amamos também. Eu lembro que na minha época de colégio, infelizmente, quase não havia gays assumidos e o motivo é o mesmo de hoje em dia: homofobia. Atualmente as coisas estão mudando, aos poucos, mas só em vermos personagens incríveis como Damian, num filme de 2004, ficamos extremamente felizes pela representatividade, mesmo que não sendo a mais ideal.

Além disso, até a professora interpretada por Tina é um ótimo exemplo. Uma mulher na faixa dos 30/40 anos, divorciada e sem filhos, com mais de um emprego, é outra que sofre com os preconceitos da sociedade e, mesmo assim, é justamente quem apoia e inspira os alunos.

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“Porque eu sou uma incentivadora. Eu incentivo as pessoas.”

E não vamos nos esquecer da participação de Amy Poehler, como a mãe de Regina George, uma mulher descolada que deixa as filhas fazerem o que quiserem, mas também perdida no espaço, com tantas imposições as mulheres de não envelhecerem, serem mães e amigas, além de cuidar da casa, linda e jovem, e sabe-se lá mais o que. Eu sei que ela não é um exemplo de pessoa mas, todas as mulheres sofrem com imposições machistas, isso não podemos negar.

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Difícil, né?

E claro, a personagem que deixei pro final é Karen Smith, interpretada pela Amanda Seyfried. Ninguém a incentiva com suas ideias, sempre a lembram que ela não é considerada inteligente e ela mesma reproduz esse pensamento, e, pior ainda, é a quantidade de vezes que a chamam de “puta”. Na cena em que estão elegendo as meninas que vão disputar a rainha do baile de formatura, Regina diz que Karen nunca é escolhida, apesar de ser considerada bonita, porque ela fica com todos os meninos. E ai, lembram que não podemos ter muitos parceiros, senão somos isso ou aquilo?

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#machistasnãopassarão

Na época em que assisti ao filme, eu tinha apenas 13 anos e ele teve muita importância no meu crescimento pessoal, porque eu vivi de perto muitos dos problemas mostrados no longa e consegui compreender, com o passar do tempo, o que estava por trás de tudo.

Justamente por isso que acho que o roteiro tem muita lição de moral pra todas as jovens meninas e meninos também, sobre a tortura que o ensino fundamental/médio é e como podemos evitar isso, quebrando os ensinamentos conservadores e destrutivos e dando espaço ao respeito e à individualidade.

Peço desculpa aos fãs, caso eu tenha falado algo de que não gostaram ou se esqueci de mencionar alguma coisa importante. Eu amo esse filme e o defendo loucamente porque ele me influenciou bastante e acredito que ainda influencie muitos pré-adolescentes, como eu já fui um dia, e a resolução de tudo é que tem espaço pra todas as diferenças dentro e fora do colégio e está tudo bem. Não precisamos nos encaixar nos padrões, temos que abrir a mente para novas formas de crescimento e aprendizado como grupo e como pessoas individuais. O trabalho de Tina me ajudou muito nesse sentido e mesmo não sendo o filme com maior quebra de tabus possíveis, até porque todos os protagonistas são brancos, lindos e ricos, ele tem questões importantes e que valem a reflexão.

Por fim, em breve farei um texto sobre a carreira e os trabalhos da Tina Fey e contarei sobre o que aprendi lendo seu livro autobiográfico Bossypants e como as séries e filmes dela me inspiram como jovem roteirista. Até breve.

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Bibliografia

IMDB, Mean Girls, 2004. Disponível em: <http://www.imdb.com/title/tt0377092/&gt;. Acesso em: 28 dez. 2016.

WIKIPEDIA, Mean Girls, 2004. Disponível em:<https://pt.wikipedia.org/wiki/Mean_Girls&gt;. Acesso: 28 dez. 2016.

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