Porque é importante debater o caso Aziz Ansari?

Esses dias alguém me perguntou qual era a minha opinião sobre o caso do ator, comediante e criador da premiada série Master of None (Netflix), Aziz Ansari.

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Aziz Ansari.

Resumidamente, há alguns dias, o site Babe postou um relato anônimo, em que uma garota de 23 anos disse ter conhecido Aziz numa festa após o Emmy Awards*, onde eles trocaram telefone e tempos depois tiveram um encontro em New York.

No dia do encontro, eles jantaram e o ator a convidou para o seu apartamento. Ela aceitou e, chegando lá, ele acelerou as coisas e a deixou numa situação desconfortável. Eis uma parte do relato:

“Meu desconforto estava explícito, eu me afastava e contestava. Sei que minha mão parou de mexer, eu congelei (…) Eu acredito que Aziz tenha tirado vantagem de mim. Eu não fui ouvida e fui ignorada. Foi de longe a pior experiência que eu já tive com um homem”.

Antes de mais nada, quero dizer que me considero feminista, mas a cada dia aprendo mais e mais. Obviamente, se aprendo é porque eu questiono as coisas, ouço relatos, converso, debato e leio, leio muito. Estou dizendo isso para que saibam que eu não sou especialista em nada, eu só gostaria de abrir um debate sobre esse assunto e expor minha opinião também.

Minha visão da situação é a seguinte: Pelo relato da moça, no lugar dela eu estaria desconfortável também e talvez não soubesse verbalizar um Não. A maioria das pessoas está dizendo “Porque ela não disse não?” Porque ela não foi embora?”, inclusive saiu uma reportagem no New York Times com um péssimo título “Aziz é culpado sim. De não ler mentes”, onde a autora claramente desqualifica o relato da moça.

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Nada legal.

Eu não acho que o Aziz seja um cara ruim e essa situação está longe de compará-lo com casos piores que estão circulando Hollywood, no entanto, acho que existem níveis diferentes de abuso e a base de tudo começa justamente com o cara legal.

As pessoas tem a mania de achar que homens que cometem estupro, assédio e abusos são monstros, mas, na verdade, eles são homens normais criados dentro de uma sociedade machista. Nossa sociedade é absurdamente machista e ninguém escapa disso, porém, por sorte, muitos começam a refletir, especialmente as mulheres, e entendem o quão ruim é essa cultura machista, misógina e opressora.

Sinceramente, o caso do Aziz foi leve comparado com outros casos vindo à tona na imprensa, mas não foi nenhum pouco legal. No relato, a  jovem diz que falou mais de uma vez que não queria transar e ele insistiu mesmo assim. Então eu já me pergunto, onde foi que ela não verbalizou? Se a pessoa diz que não quer transar, ela NÃO quer transar e ponto. Porque insistir?

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Deusa Michelle me representa, “PORQUE?”

Eu vi algumas pessoas falando nas redes sociais “Mas ela aceitou ir pro apartamento dele para fazer o quê, brincar de adoleta?”. Gente, quer dizer que se a mulher aceita ir no apartamento do cara, obrigatoriamente ela tem que transar com esse cara? Talvez ela estivesse afim de transar, mas quando chegou lá ela mudou de ideia. Entretanto, pela lógica de alguns, se ela topou ir para o apartamento dele, ela teria que transar porque já era tarde demais para mudar de ideia.

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Print com alguns comentários no facebook.

AMIGOS(AS), apenas parem com essa mentalidade! Ela tem todo o direito de mudar de ideia e ponto final. Inclusive, ela tem o direito de aceitar o convite para ir no apartamento de um homem e não ter segundas intenções, pois nem tudo é sexo. Pelo relato dela, ela parecia realmente interessada em conhecê-lo melhor. Já ele, parecia querer sexo, mas se um não quer, NINGUÉM FAZ E PONTO FINAL.

Acho que tem muita gente revoltada achando que esse caso diminui as acusações de outras mulheres sobre casos de assédio, outras estão achando que agora as mulheres querem reclamar de tudo, quando, na verdade, o Aziz é considerado um cara legal, se diz feminista e apoia a causa das mulheres, mas vacilou feio. Se mulheres em situações parecidas com essa não expressarem seus sentimentos agora, caras legais como o Aziz provavelmente vão continuar agindo assim, até correr o risco de fazerem coisas piores.

Não estou dizendo que ele irá fazer algo pior e tampouco acusando ele disso ou daquilo, mas eu sou sempre a favor das mulheres falarem abertamente sobre seu desconforto, mesmo que o caso tenha uma gravidade menor que outros, para a gente possa debater e entender o ponto principal: A cultura machista está impregnada na nossa sociedade e ela afeta a todos nós, especialmente as mulheres. Enquanto uma mulher passar por situações em que ela não consiga expressar sua voz, é mais do que necessário o debate e a reflexão para a gente entenda onde está o problema e tentar consertá-lo da melhor maneira possível.

Ou seja, é importante parar de diminuir a dor ou desconforto de outra mulher. Mesmo que na situação dela você agisse diferente, lembre-se que não é toda mulher que consegue se impor. Nossa cultura sempre ensinou e ainda ensina as mulheres a se preocuparem mais com o bem estar alheio do que com o dela próprio.

Se uma mulher faz um relato desse e todo mundo silencia ela, tentando ensiná-la o que ela deveria fazer e ninguém tenta debater com o homem da situação, sobre o que ele deveria ter feito, a gente continua cometendo o mesmo erro “Culpar as mulheres!”

Vamos elevar a gravidade dessa história e olha onde podemos chegar:

“Mas porque ela estava com uma roupa tão curta?”, “Porque ela não gritou?”, “Porque ela saiu sozinha tão tarde da noite?”.

Você não acha que tem algo parecido nessas situações?

O assunto e a história são mais suaves que outros, mas é a voz de uma mulher desconfortável e ninguém pareceu preocupado em dialogar com o Aziz e dizer o que ele poderia ter feito nessa situação, como ter perguntado – “Poxa, porque você está desconfortável?, “Você quer que eu pare por aqui?”, “O que eu posso fazer para te deixar mais confortável?”. Essas são algumas poucas perguntas que ele poderia ter feito no momento e que talvez ajudasse a situação.

Por fim, gostaria de dizer que estou aberta ao debate e eu quis expor minha opinião, pois sei que muitas mulheres já viveram situações parecidas e não entenderam o porquê do desconforto, achando que foi apenas um encontro ruim, enquanto eu acredito que há um problema maior por trás disso. Talvez sim, tenha sido um encontro ruim, mas talvez e muito provável tenha a ver com nossa cultura machista e opressora.

Notas finais

Sobre o Aziz, acho que foi algo positivo ele não ter negado a história e ter relatado a visão dele, pois demonstra interesse da parte dele em mudar ou se redimir. Mas isso pode ser só impressão minha. Segue o depoimento do artista:

“Em setembro do ano passado, eu conheci uma mulher em uma festa. Nós trocamos telefones. Nós enviamos mensagens e eventualmente saímos em um encontro. Nós saímos para jantar e depois nos envolvemos em atividade sexual, que por todas as indicações eram completamente consensuais. 

No dia seguinte eu recebi uma mensagem dela dizendo que ‘apesar de ter parecido ok’, após ter refletido ela se sentiu desconfortável. É verdade que tudo pareceu ok para mim, então quando eu soube que não era o mesmo para ela eu fiquei surpreso e preocupado. Eu ouvi suas palavras e respondi privadamente depois de ter tido o tempo para processar o que ela disse.

Eu continuo apoiando o movimento que está acontecendo em nossa cultura. É necessário e há muito tempo atrasado”. 

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Print do depoimento original.

Sobre a jornalista do New York Times que escreveu que o Aziz deveria ler mentes, acho que fica a reflexão: Num mundo onde as vozes das mulheres pouco são ouvidas, será que vamos ter que ensinar os homens a lerem mentes?

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Vai saber…

*Emmys Awards:  o maior e mais prestigiado prêmio atribuído a programas e profissionais de televisão.

BIBLIOGRAFIA

BABE. I went on a date with Aziz Ansari. It turned into the worst night of my life. 2018. Disponível em: https://babe.net/2018/01/13/aziz-ansari-28355. Acesso em: 17 de jan. 2018.

EL PAÍS. “Por que ela não foi embora?”: a acusação contra Aziz Ansari abre um debate que nos atinge bem de perto.” 2018. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/15/cultura/1516034198_916720.html. Acesso em: 17 de jan. 2018.

OMELETE. Aziz Ansari é acusado de abuso sexual e responde alegações. 2018. Disponível em: https://omelete.uol.com.br/series-tv/noticia/aziz-ansari-e-acusado-de-abuso-sexual-e-responde-alegacoes/. Acesso em: 17 de jan. 2018.

 

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Impressões após ler ‘O Conto da Aia’

Sem fôlego. É assim que fiquei quando terminei de ler “O Conto da Aia”, escrito pela canadense Margaret Atwood e publicado em 1985. (É bizarro o quanto permanece atual). A história é brutal, mas escrita de forma leve e instigante. É difícil deixar o livro de lado. Admito que comecei a ler, principalmente, por causa da vontade de ver a série depois, produzida pela Hulu, mas, conforme adentrei na cabeça de Offred, mais presa à escrita me senti. Agora, independentemente da adaptação, sei que o livro é indispensável. E estou satisfeita por ter feito a escolha de ler antes de começar a assistir.

O texto deixa a impressão de ir além das palavras redigidas. A experiência de ler “O Conto da Aia” é como acompanhar o processo da pintura de um quadro. A voz da narradora é poderosa e atraente. O livro beira a linguagem poética. Ela vai mostrando ao leitor imagens, pouco a pouco, com cuidado. Fragmentos da realidade em que ela vive na República de Gilead, onde um governo teocrático controla os passos de todos. Como se a personagem estivesse nos conhecendo e como se estivéssemos conquistando sua confiança, ela nos conta episódios de seu passado e os detalhes do presente, já tendo perdido sua identidade. 

“Uma cadeira, uma cama, um abajur. Acima no teto branco, um ornamento em relevo em forma de coroa de flores, e no centro dele um espaço vazio, coberto de emboço, como o lugar em um rosto onde o olho foi tirado fora. Outrora deve ter havido um lustre, um candelabro. Eles tinham removido qualquer coisa em que você pudesse amarrar uma corda.

Uma janela, duas cortinas brancas. Sob a janela, um assento com uma pequena almofada. Quando a janela está parcialmente aberta — ela só se abre parcialmente — o ar pode entrar e fazer as cortinas se mexerem.”

Trecho de: Atwood, Margaret. “O Conto da Aia.” iBooks. 

Seu nome, Offred, faz sentido quando entendemos que “of”, em inglês, significa “de”. Assim, ela é identificada como “De Fred”, sendo este o nome do comandante do qual deve engravidar, para cumprir seu papel na sociedade. 

Facebook (Margaret Atwood)/Reprodução

O livro vale a pena ser lido não só por passar uma mensagem forte, fantasiada de crítica a um pensamento que diminui as mulheres, mas também por ser muito bem escrito. O regime autoritário narrado é assustador, chega a ser angustiante, mas, devido à proximidade que estabelece entre os leitores e a personagem principal, é impossível largar o livro sem saber o que vai acontecer com ela. Lendo, realmente passei a me importar com Offred. Conforme acontecimentos absurdos são expostos, me surpreendo com o quanto refletem visões já presentes entre nós, por algumas pessoas que, aliás, detém posições de liderança política. Tais visões são apenas amplificadas pelo regime autoritário que dissolveu os Estados Unidos, na história. 

Na distopia, o presidente é assassinado, o Congresso desfeito, e os filhos de Jacob assumem o poder. As religiões como conhecemos tampouco são permitidas. O que o livro critica não é a fé, mas, sim, aquela outra palavra com “f”, o fundamentalismo. Os casais que não são unidos na seita bizarra da história têm seus casamentos desfeitos, como acontece com a Offred. Ela começou a se relacionar com Luke quando ele ainda estava casado, portanto, apesar do posterior divórcio, a união deles não é considerada legítima. Sua filha lhe é tirada para morar com outra família que segue os valores tradicionais. De seu marido, não sabemos. Offred, por sua vez, é enviada ao Centro Vermelho Raquel e Lea, onde aprende os dogmas do regime com as Tias, mulheres mais velhas que forçam os novos costumes goela abaixo das “meninas” consideradas privilegiadas por serem férteis numa época em que isso tornou-se raro. 

“Mas de quem foi a culpa?, diz tia Helena, levantando um dedo roliço.

Dela, foi dela, foi dela, foi dela, entoamos em uníssono.

Quem os seduziu? Tia Helena sorri radiante, satisfeita conosco.

Ela seduziu. Ela seduziu. Ela seduziu.

Por que Deus permitiu que uma coisa tão terrível acontecesse?

Para lhe ensinar uma lição. Para lhe ensinar uma lição. Para lhe ensinar uma lição.”

Trecho de: Atwood, Margaret. “O Conto da Aia.” iBooks. 

No período que antecedeu o autoritarismo, a taxa de natalidade caiu absurdamente, muitas pessoas contraíram doenças que as impediram de ter filhos e acidentes em usinas nucleares emitiram quantidades grandes de radiação e lixo tóxico que prejudicou ainda mais o meio ambiente, tornando certos locais inviáveis para a habitação humana. Apesar disso, o regime enviou para tais áreas perigosas, consideradas fatais e chamadas de Colônias, os desobedientes, as Não mulheres, como feministas, lésbicas, além daquelas que trabalhavam como Aias, mas não conseguiram gerar bebês. Afinal, elas serviam apenas com esse objetivo. Nem todas as Colônias, porém são tóxicas. Algumas delas são localizadas em plantações e as pessoas que nelas moram trabalham para levar produtos às cidades. Os criminosos, contudo, não tinham a mesma “sorte”. Uma vez executados, tinham seus corpos expostos no Muro, em via pública, servindo de lição para os demais. Como forma de moeda de troca, presos políticos eram apresentados como estupradores diante das Aias, que sem desconfiar de suas reais intenções, podiam agir da forma como bem entendessem, descontando seus sentimentos oprimidos. Tal linchamento recebeu o nome de Particicução. 

Facebook (Margaret Atwood)/Reprodução

Outras mulheres ocupam posições distintas, como as Esposas, as Econoesposas (de famílias menos abastadas), Marthas (empregadas domésticas), Tias (propulsoras do regime), e Salvadoras (capatazes a serviço do governo). (Não oficialmente, havia as prostitutas para o alto escalão).  

“— A Natureza exige variedade para homens. É lógico, razoável, faz parte da estratégia de procriação. É o plano da Natureza. — Não digo nada, de modo que ele prossegue. — As mulheres sabem disso instintivamente. Por que elas compravam tantas roupas diferentes, nos velhos tempos? Para enganar os homens levando-os a pensar que eram várias mulheres diferentes. Uma nova a cada dia.

Ele diz isso como se de fato acreditasse, mas diz muitas coisas assim. Talvez acredite mesmo, talvez não acredite ou talvez faça ambas as coisas ao mesmo tempo. Impossível saber em que ele acredita.

— De modo que agora, que não temos roupas diferentes — digo —, vocês apenas têm mulheres diferentes. — Isso é ironia, mas ele não demonstra ter notado.”
Trecho de: Atwood, Margaret. “O Conto da Aia.” iBooks. 

Os homens também ocupam diferentes cargos, como Comandantes, Guardiões (membros do Exército), Olhos (espiões, tipo investigadores, para pegar quem estaria traindo o regime), Salvadores, além de servos de serviços gerais, como o motorista Nick, que trabalha para o mesmo Comandante que Offred. 

As relações entre as pessoas da sociedade de Gilead são estritamente formais, pelo menos oficialmente, preenchidas com diálogos próprios com base na seita cristã que rege o novo estado.

“— Bendito seja o fruto — diz ela para mim, a expressão de cumprimento considerada correta entre nós.

— Que possa o Senhor abrir — respondo, a resposta também correta.”

Trecho de: Atwood, Margaret. “O Conto da Aia.” iBooks. 

Ao mesmo tempo em que me senti mal pelos personagens e por quem pensa de forma muito semelhante ao que a distopia apresenta, senti-me aliviada por viver numa era em que ainda há esperança de que o mundo mude para melhor. De que as mulheres não sejam vistas como coisas e que as pessoas tenham liberdade para amar quem elas amam e serem quem elas são. De que possamos compreender o outro, respeitando sua realidade, limitações e escolhas. De que medidas de regimes totalitários do passado fiquem no passado. De que haja justiça da forma como deva ser feita justiça. De que haja amor. 

“Nada muda instantaneamente: numa banheira que se aquece gradualmente você seria fervida até a morte antes de se dar conta. Havia matérias nos jornais, é claro. Corpos encontrados em valas ou na floresta, mortos a cacetadas ou mutilados, que haviam sido submetidos a degradações, como costumavam dizer, mas essas matérias eram a respeito de outras mulheres, e os homens que faziam aquele tipo de coisas eram outros homens. Nenhum deles eram os homens que conhecíamos. As matérias de jornais eram como sonhos para nós, sonhos ruins sonhados por outros. Que horror, dizíamos, e eram, mas eram horrores sem ser críveis. Eram demasiado melodramáticas, tinham uma dimensão que não era a dimensão de nossas vidas.

Éramos as pessoas que não estavam nos jornais. Vivíamos nos espaços brancos não preenchidos nas margens da matéria impressa. Isso nos dava mais liberdade.

Vivíamos nas lacunas entre as matérias.”
Trecho de: Atwood, Margaret. “O Conto da Aia.” iBooks. 

Para quem está buscando um livro que seja um soco no estômago, fica aqui a sugestão para  “O Conto da Aia”. Desde que não interpretem seu conteúdo como um manual, tudo bem. Que fique claro que o livro é uma crítica ao regime que ele apresenta. Deve ser lido como “o que devemos evitar”, “para qual caminho não devemos seguir”. Façamos diferente. Sejamos diferentes.

“Quando eu sair daqui, se algum dia conseguir registrar isso, de qualquer modo, mesmo sob a forma de uma voz para outra, será uma reconstrução também, em um grau ainda mais distante. É impossível dizer alguma coisa exatamente da maneira como foi, porque o que você diz nunca pode ser exato, você sempre tem de deixar alguma coisa de fora, existem partes, lados, correntes contrárias e nuances demais; gestos demais, que poderiam significar isto ou aquilo, formas demais que nunca podem ser plenamente descritas, sabores demais, no ar ou na língua, semitonalidades, quase cores, demais. Se acontecer de você ser homem, em qualquer tempo no futuro, e tiver chegado até aqui, por favor lembre-se: você nunca será submetido à tentação de sentir que tem de perdoar um homem, como uma mulher. É difícil de resistir, creia-me. Mas lembre-se de que o perdão também é um poder. Suplicar por ele é um poder, e recusá-lo ou concedê-lo é um poder, talvez de todos o maior.

Talvez nada disso seja a respeito de controle. Talvez não seja realmente sobre quem pode possuir quem, quem pode fazer o que com quem e sair impune, mesmo que seja até levar à morte. Talvez não seja a respeito de quem pode se sentar e quem tem de se ajoelhar ou ficar de pé ou se deitar, de pernas abertas arreganhadas. Talvez seja sobre quem pode fazer o que com quem e ser perdoado por isso. Nunca me diga que isso dá no mesmo.”

Trecho de: Atwood, Margaret. “O Conto da Aia.” iBooks. 

“Mãe!” Significados e referências bíblicas 

“Mãe!” (2017), da direção de Darren Aronofsky, é uma obra para incomodar e promover discussões. Não é um filme para relaxar e assistir despretensiosamente. Admito que até a ficha cair demorou um pouco, pelo menos para mim. O início é arrastado, mas quando você percebe o que está acontecendo, cada minuto compensa. 

Este texto contém spoilers. Caso você não tenha ainda assistido ao filme, recomendo que pare a leitura aqui. 

As referências bíblicas foram surgindo aos poucos e o momento mais claro pra mim de que se tratava de uma alegoria ocorreu na cena em que o poeta (Javier Bardem) marca a testa de um dos seus leitores com tinta. Aquela imagem está tão ligada à Quarta-feira de Cinzas que não consegui imaginar mais em qualquer outra coisa além do Cristianismo. Com isso, quando o bebê nasceu, já tinha entendido que seria Jesus e não me surpreendi quando ele morreu nas mãos dos seguidores do pai dele. 

– A quebra da pedra e a morte do irmão 

Um acontecimento antes mesmo de a personagem da Jennifer Lawrence engravidar passou a fazer sentido depois que pesquei as referências bíblicas. 

O casal de hóspedes (Ed Harris e Michelle Pfeiffer), que invade o escritório do poeta – o cômodo proibido da casa -, representam Adão e Eva. Ela leva o homem até o local onde o Criador não permita a entrada de ninguém sem a sua presença. Lá, encostam e quebram o objeto mais precioso e querido do dono da casa, tal como Eva faz com que Adão coma a maçã da árvore proibida. O seguimento da história segue a mesma alegoria com a morte de um dos irmãos, tal como Caim e Abel. 

– O novo poema 

Depois das histórias do Antigo Testamento, chega uma nova era da vida do Criador. A partir do momento que a mulher engravida, ele escreve mais, o que pode ser interpretado como o Novo Testamento. A vinda de Jesus foi um divisor de águas e modificou a forma de muitas pessoas olharem o mundo. A ideia de sermos irmãos e compartilharmos as coisas fazem parte disso. Até mesmo quando o bebê morre, há a cena em que os seguidores do poeta comem seu corpo, assim como nós, católicos, comemos o corpo e bebemos o sangue de Cristo. 

No entendo, outro pensamento que também tive é que o novo poema do escritor pode ser a própria história a que estamos assistindo. Pode ser uma metalinguagem empregada ali. Afinal de contas, alguém pensou nessa história e criou aqueles personagens. O texto escrito pelo Criador pode ali no filme ser a própria história deles, o que de certa forma, se encaixa com a teoria de uma alegoria ao Novo Testamento. 

– A representação do mundo

As palavras dele se espalham e a população de seguidores surge em sua casa. Uma das cenas parecia claramente a imagem de um noticiário de protesto, ao mostrar conflito entre batalhão do choque e manifestantes. Houve música, explosões de guerra, mortes, fanatismo. Tudo o que existe e nos incomoda. Tudo o que queremos mudar, mas que foge do nosso alcance. Também queremos que parem. Entendi a dor da personagem gritando e clamando e ninguém a ouvindo. 

Nessa parte friso a crítica que o filme fez ao machismo. Chega a doer quando a mãe está sendo agredida devido a sua reação após a morte de seu filho. Os xingamentos são aqueles clássicos dirigidos às mulheres: vadia, puta, cachorra, etc. Vi um machismo também na forma como ela se portava diante do marido por meio da divisão de papéis entre eles. Ele escreve e ela arruma a casa. Depois, claro, entendemos que ela É a casa, o lar. Mas até chegar a esse ponto, ela foi retratada como a musa do poeta. 

– Ninguém ouve 

Isso tudo fez com que eu pensasse no quanto a humanidade está destruindo o mundo e parece que ninguém está ouvindo os chamados da natureza. A casa que estava sob reforma foi ficando cada vez mais danificada. As pessoas estavam derrubando e acabando com todo o trabalho da personagem. E não importava o quanto ela gritasse e pedisse, as pessoas continuavam abusando e utilizando suas coisas e roubando seus pertences. Ela tentou mostrar, mas quem poderia escutá-la? Quem está escutando? São furacões, terremotos e vulcões acontecendo e pessoas morrendo. Não seriam gritos pedindo o fim da destruição? 

– O trabalho como um parto 

Quando fazemos um trabalho que exige muito de nós, dizemos que foi “um parto”. Então acredito que essa também seja uma interpretação válida para explicar que a partir do momento que a inspiração do poeta engravidou, ele começou a escrever. Quando o trabalho foi concluído, ela deu à luz. Um trabalho importante é como um filho, é como algo que faz parte da gente, porque, afinal, é algo que veio de nós, saiu de nossas entranhas. Ao terminarmos, entregamos para o mundo aquilo que somos. E as pessoas fazem daquilo o que bem entenderem. (Desde fanfics até adaptações para o cinema, no caso de livros, por exemplo). As pessoas podem até mesmo destroçar a sua criação. Isso pode ser simbolizado na morte do bebê. (E que cena forte foi aquela!) 

“Mãe!” é provocativo e é um ótimo filme para ser visto e debatido. Você saí do cinema com vontade de conversar. Você olha pro lado e já quer falar com sua companhia: “Você entendeu o mesmo que eu?”. 

E vocês, o que entenderam depois de assistir a “Mãe!”? Deixe sua opinião nos comentários! 

Amor & Sexo & FEMINISMO

Você conhece o programa Amor & Sexo, exibido no canal Rede Globo e apresentado pela Fernanda Lima?

Para quem não conhece o show, ele foi lançado em 2009 e aborda sexualidade de uma maneira direta, porém sutil. Tanto a apresentadora, quanto os convidados famosos e a plateia falam sobre a liberdade individual, diversidade e respeito nos relacionamentos, estimulando o diálogo entre amigos e famílias.

Cada temporada possui dez episódios e, cada episódio, possui um tema específico. Nesta quinta-feira, 26, o programa estreou sua décima temporada e o assunto da vez foi o FEMINISMO.

“A gente acredita na igualdade de direitos entre homens e mulheres. Para quem não sabe, isso é feminismo” diz a apresentadora.

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A apresentadora e redatora final, Fernanda Lima.

Particularmente, sempre achei as pautas do Amor & Sexo maravilhosas e, elas me ajudaram muito, para entender melhor sobre sexo e relacionamento, visto que o primeiro ainda é um grande tabu na nossa sociedade e ambos vêm carregados de regras machistas.

Com isso em mente, o episódio de ontem fez HISTÓRIA e nós precisamos falar sobre isso. Quando um canal aberto como a Globo, que normalmente investe em conteúdos com padrões conservadores e misóginos, exibe um espetáculo de empoderamento feminino, todos nós, seres humanos, ganhamos e MUITO.

O programa começou com uma apresentação musical, como de costume, com a música “Piranha*” e, seguiu, com Fernanda Lima, as bailarinas e as convidadas, “queimando” sutiãs e questionando o machismo que cada uma vivencia no dia a dia.

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Ao tirar o sutiã e queimá-lo, cada mulher falava uma frase empoderada, como: “Se eu quiser, eu dou na primeira vez.”

Nesse momento, algumas convidadas usaram palavras como piranha, vadia, vagabunda, que, sempre vêm carregadas de ódio e repressão e as deram novos significados, como:

Piranha: “É o direito de fazer o que quiser com o nosso corpo”, dito pela pesquisadora na área de Filosofia Política e feminista Djamila Ribeiro.

Além disso, a apresentadora abriu espaço para outras vozes feministas, além dela, como mulher cis, branca e hétero, para falarem das suas necessidades. Como já foi dito no site do Projeto Nellie Bly, no texto “A luta feminista: dos anos sessenta aos dias atuais”, é muito importante entendermos que dentro do feminismo existem várias questões, mas, se as mulheres não se unirem e deixarem de abraçar as questões das outras, todas nós perdemos.

Sendo assim, o programa convidou as cantores Gaby Amarantos e Karol Conka, que falaram do feminismo das mulheres negras e, também, abriu espaço, mesmo que pouco, para mulheres da comunidade LGBTQ. Infelizmente, estas últimas não tiveram muita chance de falar, no entanto, a cantora da banda do programa é a drag queen Pabllo Vittar e isso já é incrível e merece ser aplaudido, além de que, a primeira bailarina a queimar o sutiã, falou: “Pelo prazer de ser uma mulher homossexual”.

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A apresentadora e redatora final, Fê Lima, ainda deu espaço para Thais Ataíde falar da Marcha das Vadias*, que começou no Canadá em 2011, quando um policial foi dar dicas de seguranças e errou feio, dizendo que mulheres deveriam evitar se vestir como vadias para não serem estupradas. A partir disso, mulheres do Canadá e, agora, de todo o mundo, participam dessa Marcha, vestidas de “vadias”, para mostrar que independente da roupa que usamos, homem NENHUM tem o direito de encostar no nosso corpo, sem a nossa permissão.

E o que falar da habitante da Galáxia Clitoriana, que, inclusive, fez questão de mudar seu gênero e se autonomeou A Clitória?

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Grace Gianoukas como Clitônia.

A atriz e humorista, Grace Gianoukas, fez uma participação vestida de Clitóris (órgão do prazer feminino) para falar do orgasmo feminino e quebrar mais este tabu, visto que a maioria das mulheres nunca teve um orgasmo na vida. Com a fala “Yes, nós temos ereção!”, a personagem deixou claro que PRECISAMOS FALAR DE ORGASMO E CLITÓRIS, SIM, até porque, senhoras e senhores, somente nós, mulheres, conseguimos ter orgasmos múltiplos e isso é maravilhoso!

Ademais, em uma das cenas mais lindas, Elza Soares foi homenageada no programa de estreia e LACROU*, entrando no palco sentada num trono em forma de salto alto, aonde cantou e, depois, falou da sua história de vida e como batalhou para conquistar seu espaço. Hoje, Rainha Elza, é uma das maiores artistas do Brasil, não sendo à toa que a cantora e compositora venceu o Grammy Latino 2016 pelo disco “A Mulher do Fim do Mundo“.

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Elza Soares em Amor & Sexo.

Por fim, depois de muitos assuntos maravilhosos, debatidos de forma descontraída e divertida, Fernanda Lima fala sobre o Ligue 180 – número para denúncia da violência contra a mulher – e fecha o show, mostrando que mesmo com todas as conquistas para a igualdade de gênero, as estatísticas no Brasil confirmam que ainda são necessárias MUITAS MUDANÇAS, pois “A cada 11 minutos, uma mulher é estuprada no Brasil”.

Trecho em que a apresentadora fala sobre as estatísticas.

BÔNUS DO DIA

Para quem tem interesse em assistir o episódio comentado, segue o link no YouTube, com o programa completo.

Link com o episódio de estreia da décima temporada de Amor & Sexo.

*Piranha: música interpretada por Alípio Martins.

*Marcha das Vadias: é um movimento que surgiu a partir de um protesto realizado no dia 3 de abril de 2011 em Toronto (Canadá) e, desde então, se internacionalizou, sendo realizado em diversas partes do mundo. A Marcha protesta contra a crença de que as mulheres que são vítimas de estupro teriam provocado a violência por seu comportamento. As mulheres durante a marcha usam não só roupas cotidianas, mas também roupas consideradas provocantes, como blusas transparentes, lingerie, saias, salto alto ou apenas o sutiã.

*Lacrou: é uma gíria que corresponde a um elogio para quem foi muito bem em alguma coisa, que deixou os outros sem fala ou sem reação.

BIBLIOGRAFIA:

GSHOW.’Amor & Sexo’ fala sobre feminismo em programa de estreia. Confira!. 2017. Disponível em: <http://gshow.globo.com/tv/noticia/amor-sexo-fala-sobre-feminismo-em-programa-de-estreia-confira.ghtml&gt;. Acesso em: 27 de jan. 2017.

GSHOW. ‘Elza Soares é homenageada na estreia de ‘Amor & Sexo’: ‘Ia até o inferno por amor, hoje não vou mais’. 2017. Disponível em: <http://gshow.globo.com/tv/noticia/elza-soares-e-homenageada-na-estreia-de-amor-sexo-ia-ate-o-inferno-por-amor-hoje-nao-vou-mais.ghtml&gt;. Acesso em: 27 de jan. 2017.

SPM. Central de Atendimento à Mulher. 2017. Disponível em: <http://www.spm.gov.br/ligue-180&gt;. Acesso em: 27 de jan. 2017.

WIKIPEDIA. Marcha das Vadias. 2017.Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Marcha_das_Vadias&gt;. Acesso em: 27 de jan. 2017.

ONU lança planos de aula sobre os direitos das meninas e mulheres

A ONU Mulheres elaborou um currículo e seis planos de aula, financiados pela União Europeia, para conscientizar professores e professoras, meninos e meninas sobre o direito das mulheres e meninas a uma vida livre de violências. O conteúdo está disponível para download gratuito.

Com o objetivo de contribuir para o ensino do tema no Ensino Médio, esse material serve de alerta para prevenir a violência decorrente do machismo. Afinal, espaços como escolas e universidades são fundamentais na formação do caráter humano.

O currículo aborda, por exemplo, o conceito de masculinidades, visando promover masculinidades positivas e desconstruir comportamentos machistas. Você pode ver mais sobre este conceito em um texto que publiquei aqui, chamado A máscara que os meninos usam.

Entre os temas que aparecem nos planos de aula, estão:

  • sexo, gênero e poder;
  • violências e suas interfaces;
  • estereótipos de gênero e esportes;
  • estereótipos de gênero, raça/etnia e mídia;
  • estereótipos de gênero, carreiras e profissões;
  • diferenças e desigualdades;
  • vulnerabilidades e prevenção.

Para baixar o conteúdo, clique nos títulos abaixo:

Inventário | Currículo |Plano de aula 1 | Plano de aula 2 | Plano de aula 3 | Plano de aula 4 | Plano de aula 5 | Plano de aula 6

A violência no ambiente escolar

Publicado neste mês, o relatório da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), sobre violência escolar e bullying, mostra que milhões de meninas e meninos sofrem com a violência no ambiente escolar.

Vemos bastante isso sendo retratado, por exemplo, nas obras de ficção. Recentemente, fiz uma resenha sobre Eleanor & Park, um livro que aborda tais assuntos de uma maneira muito sutil. E se na escola houvesse um trabalho como esse que a ONU Mulheres apresenta? Como a história seria se Eleanor tivesse recebido apoio na escola? Talvez, assim, ela não precisasse enfrentar o bullying, além da violência do padastro em casa. Talvez, a escola pudesse auxiliá-la de diversos modos. No entanto, esta história é ficção e já está escrita, assim como outras histórias que, ainda que sejam reais, também já estão registradas no passado. Mas, você, como uma educadora ou um educador, pode mudar a atual situação pela qual os jovens passam.

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Eleanor mora com sua mãe, seus irmãos mais novos e o padastro agressivo. Além de sofrer com a violência a que a mãe é subjugada, a menina também enfrenta bullying na escola. Mas, no meio disso tudo, há pessoas boas, como o Park, que a ajudam a superar.  

Há pouco tempo, comecei a ler Extraordinário, um livro de R.J Palacio, que tem tudo a ver com a problemática do bullying. Neste caso, contudo, não se trata de violência à menina ou à mulher, mas, sim, a um menino com uma deformidade no rosto. Aliás, o livro tem uma linguagem muito boa para crianças, muito por causa do narrador ser em primeira pessoa. Então parece mesmo que você está conversando com um menino que enfrenta preconceito e olhares estranhos dos adultos e dos colegas de classe. Se eu fosse professora, gostaria muito de passar um trabalho em sala de aula sobre Extraordinário. (Em breve, haverá resenha aqui também sobre esta história).

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E vai estrear neste ano!

“Esses atos [de bullying] são impulsionados por dinâmicas de poder desiguais, que muitas vezes são reforçadas por normas e estereótipos de gênero, orientação sexual e demais fatores que contribuem para a marginalização — como pobreza, identidade étnica ou idioma”, afirma o documento da UNESCO sobre violência escolar e bullying.

Dia Laranja Pelo Fim da Violência

Esta quarta-feira, 25, foi o Dia Laranja Pelo Fim da Violência contra as Mulheres. O objetivo da data é engajar ativistas, governantes, gestores e agências das Nações Unidas a se mobilizar pela prevenção e eliminação da violência contra mulheres e meninas. Contribua também da forma como você pode para que o mundo seja mais justo para todas e todos.

Women’s March: a marcha das mulheres e o que está por trás do evento.

O dia 16 de janeiro de 2017 foi considerado o dia mais triste do ano, chamado de “Blue Monday”, segundo o estudo de Cliff Arnall, psicólogo da Universidade de Cardiff, no País de Gales. No entanto, ao meu ver, o dia mais triste do ano é hoje.

Hoje, infelizmente, nós perdemos e muito. No dia 20 de janeiro de 2017, Donal Trump assume a presidência dos Estados Unidos e é doído escrever sobre isso. Hoje, nos despedimos da maravilhosa família Obama e entramos numa era assustadora, com Trump, Temer, Brexit*, tristeza e tristeza.

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“A Esperança é necessária.” Já estamos com saudades, Michelle!

Como não sou jornalista e não entendo tanto de política, eu vou mudar o foco do texto e falar sobre a luta feminista e, mais especificamente, o Women’s March (Marcha das Mulheres), que irá ocorrer amanhã, dia 21 de janeiro de 2017.

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“Marcha das Mulheres em Washington, 21 de janeiro de 2017, às 10hrs”

No dia após a posse do novo presidente, mulheres irão marchar, para que suas vozes não mais sejam silenciadas. A ideia surgiu depois que os resultados das eleições presidenciais saíram, nos EUA, tendo como ponto de partida, a cidade de Washington e, agora, são mais de 600 cidades. No site do womensmarch, é possível ler sobre a missão e visão do projeto:

“Estamos juntos em solidariedade com nossos parceiros e crianças para a proteção de nossos direitos, nossa segurança, nossa saúde e nossas famílias – reconhecendo que nossas comunidades vibrantes e diversas são a força do nosso país.”(Tradução livre)

E por quê essa caminhada é tão importante para a sociedade?

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“Quando os poderosos usam sua posição para praticar bullying nos outros, todos nós perdemos.”

Aproveitando a fala da querida Meryl Streep, no Globo de Ouro 2017, vale a reflexão de que está mais do que na hora de discutirmos o quão assustador e retrógrado será, para todos nós, um homem como o Trump assumir a presidência de uma das maiores potências econômicas atuais, destilando ódio e preconceito em todas as suas falas.

Eu não vou fazer esse texto criticando ele, porque senão eu escreveria um livro de 500 páginas só pro primeiro capítulo, mas, sim, usarei as palavras das líderes da Marcha, para mostrar o quão importante esse evento será.

“A Marcha das Mulheres em Washington enviará uma mensagem ousada ao nosso novo governo em seu primeiro dia no comando e para o mundo, de que os direitos das mulheres são direitos humanos. Estamos juntos, reconhecendo que defender os mais marginalizados entre nós é defender a todos nós.”(Tradução Livre)

Como o grupo deixa bem claro no site, essa luta não é só contra o machismo e misoginia, é contra todo e qualquer tipo de preconceito. É a favor de todas as minorias, que, por sinal, são os grupos de maior ataque do atual presidente.

Segue o link da página do Facebook, Women’s March on Washington, com um vídeo (em inglês) explicando sobre o evento.

https://www.facebook.com/plugins/video.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fwomensmarchonwash%2Fvideos%2F1401849963161612%2F&show_text=1&width=560

Como a Paula Cosme Pinto diz muito bem, no texto A Marcha das Mulheres também é sobre os homens” no site Expresso: Se a forma misógina, desrespeitosa e totalmente discriminatória como se refere ao sexo feminino (mais de metade da população mundial) não era suficiente para irmos todos para a rua, então que pensemos também nos comentários racistas, xenófobos, homofóbicos e totalmente desproporcionados no que toca a diabolizar minorias ou populações mais excluídas. Na forma como constantemente desrespeitou e pôs em causa as regras mais básicas do direitos civis e humanos, no seu país e nos demais.”

Também no site Nexo, podemos ler que: “Em entrevista ao jornal “The New York Times”, Breanne Butler, uma das organizadoras da marcha, disse que a manifestação é uma afirmação política, uma demonstração de “boas vindas” por parte de grupos marginalizados e atacados por Trump durante a campanha presidencial, que agora tentam mostrar estar atentos a suas ações. Por isso, direitos de imigrantes e de minorias em geral também estão em pauta, além das questões de gênero.”

Ou seja, essa marcha põe em pauta todas as questões que homens brancos, como Donald Trump, insistem em pisotear e debochar, cegos com todo o seu privilégio.

Os 5 princípios do Women’s March, retirado do site original, com tradução livre, são:

  1. A não-violência é um modo de vida para pessoas corajosas.
  2. A amada Comunidade é o quadro para o futuro.
  3. Ataque as forças do mal, não as pessoas que fazem o mal.
  4. Aceitar o sofrimento, sem retaliação, pelo bem da causa, para alcançarmos nosso objetivo.
  5. Evitar a violência interna do espírito, assim como a violência física externa.

Ainda de acordo com o site, para as brasileiras e brasileiros interessados na causa, haverá uma marcha na cidade do Rio de Janeiro, em Ipanema – Praça Nossa Senhora da Paz, dia 21 de janeiro às 13hr. Segue o evento no facebook. Para os que não poderão ir, espalhe a notícia ou use a hashtag #WhyIMarch e mostre sua força e resistência, mesmo que através da internet. Estamos juntos nessa!

Sendo assim, em tempos em que levamos golpes cruéis, como no Brasil ou pela ascensão dos republicanos no EUA, não por Trump ser o mais votado, visto que Hillary Clinton teve 2,9 milhões de votos à mais, mas pelo sistema antiquado que silencia a democracia, devemos mais do que nunca, nos juntar nessa causa e usarmos nossa força maior: a fala.

Não ao ódio, ao preconceito, ao racismo. Chega de homofobia, machismo e xenofobia. Chega, Chega, CHEGA!

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“Mulheres do mundo unidas.”

BÔNUS DO DIA

Para quem tem interesse em ler e entender um pouco mais sobre a luta feminista, segue o link do texto em que falo sobre o documentário “She is Beautiful When She is Angry”.

*Brexit: é a abreviação das palavras em inglês Britain (Grã-Bretanha) e exit (saída). Designa a saída do Reino Unido da União Europeia.

BIBLIOGRAFIA:

DN.Resultado final: Hillary teve mais quase 2,9 milhões de votos que Trump. 2016. Disponível em: <http://www.dn.pt/mundo/interior/resultado-final-hillary-teve-mais-quase-29-milhoes-de-votos-que-trump-5567750.html&gt;. Acesso em: 20 de jan. 2017.

DE LIMA, Juliana Domingues. As mulheres que marcharam em Washington em 1913. E as que prometem marchar em 2017. 2017. Disponível em: <https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/01/17/As-mulheres-que-marcharam-em-Washington-em-1913.-E-as-que-prometem-marchar-em-2017?utm_campaign=a_nexo_2017117_-_duplicado&utm_medium=email&utm_source=RD+Station&gt;. Acesso em: 19 de jan. 2017.

PINTO, Cosme Paula. A Marcha das Mulheres também é sobre os homens. 2017. Disponível em: <http://expresso.sapo.pt/blogues/bloguet_lifestyle/Avidadesaltosaltos/2017-01-20-A-Marcha-das-Mulheres-tambem-e-sobre-os-homens&gt;. Acesso em: 20 de jan. 2017.

UOL NOTÍCIAS. Hoje é ‘Blue Monday’,o dia mais triste do ano, mostra estudo. 2017. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/ansa/2017/01/16/hoje-e-blue-mondayo-dia-mais-triste-do-ano-mostra-estudo.htm&gt;. Acesso em: 20 de jan. 2017.

WOMEN’S MARCH. 2017. Disponível em: <https://www.womensmarch.com/mission/&gt;. Acesso em: 20 de jan. 2017.

A violência à mulher no mundo pop como reflexo da realidade de 1/3 das mulheres

A data 25 de novembro foi escolhida pela ONU, em 1999, para ser lembrada como o Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres. A instituição estima que uma a cada três mulheres tenha sido violentada seja por abuso sexual ou agressão física em geral. A maior parte desses casos ocorre pelas mãos do próprio parceiro da vítima. E ainda há os casos de mutilação genital e casamento infantil. 

No último post, comentei sobre a relação que existe entre a ficção e a realidade. As histórias ficcionais refletem, de certa forma, o espírito do tempo em que são escritas. 

Com isso, selecionei algumas histórias da ficção que mostram a violência à mulher. 

Arlequina e Coringa

A Doutora Harleen Quinzel tornou-se a palhaçada do crime quando foi mentalmente abusada pelo Coringa. Ao invés de ser devidamente tratado no hospital psiquiátrico, o vilão lhe roubou a sanidade, aproveitando-se da faísca de obsessão que começava a brotar na Dra. Quinzel. 


Nos quadrinhos, a Arlequina distanciou-se dessa relação doentia e, como par romântico, a Hera aparece de vez em quando, como um relacionamento mais construtivo e não destrutivo. 

Assim como a Arlequina, outras tantas mulheres não enxergam a pessoa com a qual se relacionam e isso causa males psicológicos profundos. Por mais que elas não tenham duas cores de cabelo ou andem com roupa de palhaça, mesmo assim suas mentes ficam perturbadas pela violência psicológica a que são submetidas. 

Empodere-se.

As Vantagens de Ser Invisível

Esse é meu livro favorito e gosto muito da adaptação feita para o cinema. A violência contra a mulher nesse caso aparece em diferentes situações e com diferentes personagens. 

Quando eu tinha 15 anos, comecei a ler esse livro. No entanto, uma parte me chocou tanto que eu não consegui continuar. Parei de ler, coloquei o livro junto com outros que iam pra doação é só voltei a ouvir falar dele quando veio o filme. O mais estranho é que nesse momento eu não me lembrada do livro. Eu comprei novamente porque havia visto o filme e amado. 


Quando li pela segunda vez, reconheci ao chegar na parte em questão que havia me chocado. O Charlie estava sozinho em um quarto enquanto acontecia uma festa na casa. Um casal entrou e o rapaz abusou da menina que estava bêbada. Ele a forçou a fazer sexo oral. Essa cena não existe no filme. Talvez fosse ficar muito pesado. Não sei. 

Boa parte das personagens importantes na vida de Charlie, sua falecia tia, sua irmã e sua amiga (Sam, interpretada por Emma Watson), sofrem violência. 

A tia apanhava dos namorados e reproduzia em forma de abuso sexual essa violência no próprio Charlie quando criança. 

A irmã recebeu um tapa do namorado durante uma discussão. Ela também engravidou e abortou. 

Sam foi abusada pelo chefe do pai quando tinha 11 anos. (Na versão do filme pelo menos. No livro, não me lembro se esses são os detalhes). Ela também sentia que os caras com quem se envolvia não a tratavam bem. 

“Por que eu e todas as pessoas que amo escolhem pessoas que nos tratam como se não fossemos nada?” – Sam

Charlie sente essas dores intensamente. Ele tem empatia. Como disse Patrick, ele vê coisas e entende. Ele é um wallflower

Homens, apoiem as mulheres na luta contra a violência.

Há uma série de outros filmes, séries e livros sobre os quais eu poderia falar aqui, como Sucker Punch, Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, A Garota No Trem, e por aí vai. O ponto é que: seja ficção ou não, essas histórias trazem poderosas mensagens sobre o que está errado. É a partir daí que tomamos a frente para impedir que esse mal se alastre.