O machismo no mundo dos jogos

No final de 2016, a Nintendo lançou o jogo Super Mario Run para iOS e agora, em 2017, lançará a versão para o sistema operacional, Android.

Como toda criança e adolescente dos anos 90, obviamente, fiquei super empolgada e baixei o jogo, assim que lançou. No entanto, logo de cara me assustei com a narrativa da história, sobre a famosa donzela em perigo.

A princesa Peach convida Mário para comer bolo, que ela mesma cozinhou, em seu castelo, mas o vilão Bowser a sequestra e agora o herói tem que resgatá-la. Ano passado eu li alguns textos sobre o machismo dentro do mundo dos gamers e, a partir disso, comecei a questionar os jogos de vídeo game que passei minha infância jogando, ao lado do meu irmão e meu primo.

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É possível jogar com a princesa Peach, mas, para isso, você precisará vencer todos os 24 níveis do modo World Tour e derrotar Bowser.

Apesar de hoje em dia eu não jogar como antes e não estar atualizada no assunto, eu lembro que na graduação em Cinema & Audiovisual, na aula de roteiro, aprendi que existe a área de roteiro para games e, esse mercado, assim como a maioria no cinema, é dominado pelos homens.

Com isso em mente, lembrei dos famosos jogos da minha infância – Super Mário, Street Fighter, Tekken, GTA, 007, Mortal Kombat, Ragnarok, entre vários outros – e argumentei com uma amiga, que sempre que eu jogava MarioKart Double Dash (o jogo de corrida do Mário para Nitendo GameCube), ninguém escolhia as princesas Daisy e Peach, porque elas eram as piores. Na conversa, ela rebateu dizendo “mas já reparou que as personagens mulheres sempre são piores?”

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Imagem do jogo MarioKart Double Dash, com Peach e Daisy em destaque.

Quando ela me disse isso, lembrei não só das princesas, mas também da Chun Li, de Street Fighter e, que, toda vez que jogávamos com ela, a piada era sobre os “gritos irritantes” que ela dava ao perder a luta. Aliás, haviam poucas mulheres em jogos de luta e a Chun Li é considerada a primeira personagem feminina desse estilo de game.

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Vega vs Chun Li.

Outro fato memorável, foi quando eu joguei Ragnarok, um jogo online, e usava a conta do meu irmão, onde eu só podia escolher personagens masculinos e, ao longo do tempo, descobri que outras meninas também usavam personagens masculinos para não serem intimidadas e assediadas no jogo (era possível casar e até ter filhos em Ragnarok) e que assim elas podiam jogar em paz e serem respeitadas. Ainda me recordo que quando contei para alguns meninos da minha turma, que eu jogava Ragnarok, fui lembrada de que “esse jogo é de menino, não acredito que você saiba jogar”.

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Poster de Ragnarok Online.

E o que isso tem a ver com machismo?

Num universo onde a maioria dos criadores são homens, não é surpreendente ver os heróis representados como homens poderosos e as mulheres como princesas lindas e frágeis. Assim como falei no texto sobre séries televisas, é impossível a visão de mundo do roteirista não interferir em sua escrita e como vivemos num mundo machista, claro que as histórias, sejam cinematográficas, televisas ou de videogames, vão refletir isso.

Eu me questionei seriamente se os personagens femininos, quando não são protagonistas dos jogos, são realmente piores que os homens e se isso era proposital. Seria necessário uma tese de doutorado para abordar esse assunto, porém não acho que essa ideia seja absurda e acredito que tenha muita coisa velada.

É claro que temos jogos (e filmes) como Residente Evil e Tomb Raider, com mulheres fortes e poderosas, mas hipersexulizadas, nos lembrando que, até mesmo as histórias de videogames, protagonizadas por mulheres, foram criadas por homens.

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Gosto muito de Tomb Raider, mas não posso deixar de notar que ela é uma personagem hipersexualizada.

Na verdade, infelizmente, não são só os criadores que refletem essa visão de mundo, como também os jogadores. O caso mais recente que vi sobre machismo no mundo dos jogos, foi em Pokémon Sun e Pokémon Moon, para Nintendo 3ds. A evolução do Pokémon Popplio, Brionne e Primarina, respectivamente, assumiu uma forma mais feminina, e não faltou foi crítica por parte dos meninos, para essa mudança.

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Imagem retirada do site Kotaku.

No site Kotaku, a autora Patricia Hernandez, relata muito bem o ocorrido, dizendo que “Nas mídias sociais, as pessoas estão criticando o design do vestido de Brionne, junto com sua delicadeza, por dar ao Pokémon um ar muito feminino.”

Hernandez continua, mostrando a verdade nua e crua “Parecer feminino é infelizmente considerado uma coisa ruim para algumas pessoas. Afinal, a feminilidade tem estigma, incluindo a suposição de que ela incorpora fraqueza, monotonia ou submissão. Ao aparentar ser ‘feminino’, Brionne não tem a chance de ser considerado ‘legal’ ou ‘forte’ por algumas pessoas, e isso é uma merda.”

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Pokémon Primarina, considerado muito “feminino” pelo público masculino.

Será mesmo que o problema está na aparência feminina ou na visão que a feminilidade tem? Nossa sociedade ainda perpetua esse erro, de ensinar que meninas são frágeis e delicadas, enquanto homens são fortes e líderes nato. Isso é um problema muito sério e que deve ser combatido a todo o custo e a mídia exerce um papel muito grande nisso. Se mantermos essas histórias, de princesas em perigo, vamos sempre acobertar o machismo, dizendo que homens são superiores só por serem homens.

Outro texto importante que achei na internet, foi o do site pokemongobrasil, dizendo que uma pesquisa feita pelo SurveyMonkey mostra que a maioria dos jogadores dos EUA, de Pokémon Go (app para smartphone), são mulheres. Isso é interessante, pois quebra aquela famosa ideia de que só homem gosta e joga videogame.

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Gráfico por: Nick DeSantir/Forbes (imagem retirada do site pokemongobrasil)

Assim, está mais do que na hora de botarmos a boca no trombone e reclamarmos, como clientes e como mulheres, sobre essa hipersexualização e submissão das personagens femininas em jogos. Muitas mulheres gostam de jogar, inclusive querem ou já trabalham na área, e tudo o que exigem é uma boa representação. Igualdade de gênero é mais que necessário e a mídia deve aderir essa causa o quanto antes, para acabarmos de vez com essa visão machista na representação das mulheres.

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Sim Peach, também estamos cansadas do machismo. #machistasnãopassarão

BIBLIOGRAFIA

HERNANDEZ, Patricia. Starter Pokémon’s ‘Feminine’ Evolution Is Bothering Some Fans. 2016. Disponível em: <http://kotaku.com/starter-pokemons-feminine-evolution-is-bothering-some-f-1787416839&gt;. Acesso em: 04 de jan. 2017. 

SCHULZE, Thomas. Como liberar todos os personagens secretos de Super Mario Run. 2016. Disponível em: <http://www.techtudo.com.br/dicas-e-tutoriais/noticia/2016/12/como-liberar-todos-os-personagens-secretos-de-super-mario-run.html&gt;. Acesso em: 04 de jan. 2017.

TADDEO, Tiago. As mulheres estão dominando o Pokémon GO. 2016. Disponível em: <http://www.pokemongobrasil.com/as-mulheres-estao-dominando-o-pokemon-go/&gt;. Acesso em: 04 de jan. 2017.

 

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quando só nos resta Ouvir o que o tempo tem a dizer

muita gente esperou por mim. acho até que será difícil agradar a todos, porque a expectativa é grande demais, mas vou Tentar. o problema é que, sozinho, não tenho o poder de melhorar a vida de ninguém. a verdade é que sempre estive aqui. não sou uma novidade. você apenas se sente melhor quando me imagina pequeno, inofensivo, novo. mal sabe que eu Estou aqui antes de tudo e de todos. e tudo bem.

talvez seja bom que pense em mim como uma criança. isso pode fazer com que você tenha mais cuidado. ao Menos nos primeiros dias, no engatinhar das primeiras semanas, dos primeiros passos. depois pode já desconfiar do porquê da permanência das coisas. ora, como se eu tivesse alguma culpa! a verdade é que eu apenas passo por você, mas também andamos lado ao lado. os que tomam atitudes mudam, aproveitando enquanto Passo. aliás, enquanto passamos.

mas eu gosto de dar voltas. queria frisar que eu não mudo nada. não tenho esse poder. Ora, sou apenas o meio que mostra que as mudanças existem, até mesmo em você. então não me culpe quando você não conquistar o que deseja. chego a dar risada. ninguém tem o poder de voltar. e seja paciente. se o que você sonha não é possível no momento, saiba esperar. o poder que você tem é escolher o que fazer a partir de agora. finalmente.

comigo você Pode contar. aliás, às vezes me contar é tudo o que fazem. mas, não sou apenas números, não se esqueça disso! Apesar de ser infinito, sou um pouco de tudo. sou música, sou trabalho, sou férias, também falho. Sou escolha, sou dinheiro, sou viagem em janeiro. curo as feridas de corações machucados. e você aprende comigo. você até mesmo me dá a mim mesmo quando quer se acalmar. e corre contra mim. Só não permita ser por mim carregado. hoje você está comigo, mas amanhã pode não estar. e Aí já será tarde demais. o que ainda faz aqui? vai lá me aproveitar. livre.

O jornalismo machista nas matérias de esporte

Por um jornalismo mais humano e feminista

Que a imprensa não dá a menor relevância para as notícias de esporte feminino, isso nós já sabemos. No entanto, uma manchete do jornal Manaus Hoje desta segunda-feira, 12 de dezembro, viralizou nas redes sociais diante do quão absurda foi.

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A manchete “Meninas dão de quatro” do jornal Manaus Hoje recebeu duras críticas por ter escrachado algo que já sabemos que existe, mas que às vezes não fica tão evidente: o jornalismo machista nas matérias de esporte.
A matéria em questão dizia respeito à vitória da seleção feminina de futebol contra a Rússia. Com este resultado, o Brasil conquistou uma vaga antecipada para a final em Manaus.

Mas, você provavelmente está se perguntando: “como um título desses foi aprovado?”, ou então: “como alguém até mesmo pensou em publicar isso?”

Esse tipo de atrocidade acontece porque alguns jornalistas ainda não enxergaram a linha que separa o que é genuinamente engraçado do que é desrespeitoso, que, aliás, ultrapassa muitas vezes o machismo aqui comentado e criticado.

O jornalismo trabalha com humor e não raro apropria-se de chavões para atrair a atenção dos leitores e conquistar audiência. Até aí, beleza. No entanto, quando o humor pertence aquele discurso de quem diz “o mundo está ficando muito chato, não se pode nem mais fazer uma brincadeira”, aí entra o problema.

Como ainda bem que o mundo está ficando um lugar muito chato para os machistas de forma geral reproduzirem seus discursos, o jornal recebeu, de forma muito merecida, uma enxurrada de críticas.

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Este é um conselho muito bom. E digo isso para jornalistas de todos os veículos de comunicação.
Com isso, como já era de se esperar, o jornal Manaus Hoje pediu desculpas na edição desta terça-feira, 13, oferecendo, inclusive, o mesmo espaço da ridícula matéria.

Mesmo que essa atitude tenha sido a esperada e, portanto, não é nem um pouco surpreendente que tenham feito o mínimo de assumir o erro e pedir desculpas, queria levantar alguns pontos aqui que me chamaram a atenção nessa retratação deles.

O pedido de desculpas do jornal Manaus Hoje foi publicado na edição da terça-feira, 13 de dezembro, um dia depois de terem cometido um ˜deslize˜ na manchete, atrelando uma piada de cunho sexual ao resultado de um jogo de futebol feminino.
Eles usaram o espaço que tinham para pedir desculpas para dizer algo como: “poxa, gente, vocês ficaram chateadas? Pedimos desculpa, de verdade. Mas, olha só, nós fizemos uma ~homenagem linda e fofa~ pra vocês no Dia das Mulheres. Nós gostamos tanto dela que vamos botar aqui de novo, ó”.

Antes de mais nada, não gostei desse tom usado na edição de 8 de março. Achei que foi mais um exemplo que romantiza uma data que deve ser lembrada pela luta por direitos; e não para dizer “ah, mulheres, vocês são lindas, mas se deem ao respeito. Vocês são lindas, mas não andem à noite na rua. Vocês são lindas, mas se forem abusadas é porque estavam querendo, né? Parabéns!”.

Uma capa ˜bonitinha˜ no Dia das Mulheres não compensa erro grotesco algum. Não sei por que eles relacionaram o fato de terem sido o único jornal num raio de x km que homenagearam as mulheres por seu dia. Gente, e se os outros jornais estivessem mais preocupados em fazer um bom jornalismo? Desconheço a concorrência deles e nem estou defendendo eles, mas, acho que me fiz clara quanto a este ponto.

Agora, vamos combinar: essa forma de comunicar está toda errada. Nós estudamos quatro anos na faculdade, nos preocupamos com questões sociais e aí vemos esse tipo de erro de sensacionalismo barato sendo ainda publicado. Não nos resta a ter outra sensação além de: gente, até quando? Como podemos tornar o jornalismo menos machista?

Nessas horas ressoa na minha mente o discurso da Emma Watson na ONU em que ela diz: “Se não agora, quando?”.

Busquei dados para embasar este fato de que o jornalismo é machista, sim. Confira:

Pesquisa da Universidade de Cambridge mostra discrepância entre cobertura relacionada às mulheres e aos homens durante a Rio 2016

Uma pesquisa feita pela Universidade de Cambridge durante as Olimpíadas Rio 2016, comprovou que há uma diferença semântica na cobertura de notícias sobre atletas mulheres e atletas homens. Por exemplo, “o vocabulário nas notícias sobre atletas mulheres tiveram um enfoque desproporcional voltado para a aparência, roupas e vida pessoal, colocando em evidência a estética em detrimento do atletismo”, informa.

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Matérias sobre atletas mulheres costumam adotar um vocabulário mais voltado à aparência, roupas e vida pessoal. A estética supera o atletismo.
Apesar de a pesquisa ter usado uma amostra de notícias em inglês, achei que seria interessante buscar exemplos de mídia nacional para ajudar a explicar o que o item apresentado acima quis dizer.

No exemplo que coloquei aqui, de uma matéria no site da revista Veja, encontramos alguns dos elementos que a pesquisa descobriu que são mais relacionados às notícias sobre atletas mulheres. A matéria em questão aqui foi muito bem escrita e não estou desmerecendo a repórter que a escreveu. Mas, acho válido refletir sobre o uso do adjetivo “doce” no título. Será que se fosse um resultado de jogo masculino essa palavra teria sido empregada? Será que uma matéria iria destacar, no primeiro parágrafo, um presente dado ao atleta homem?

Diferentemente de trabalhar o vocabulário mais voltado às mulheres, sem desrespeitá-las, é usar o seu poder como formador de opinião na área de jornalismo esportivo para falar besteiras.

 

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Muitos seguidores já avisaram para o colega aqui que algo de errado não está certo em sua fala e postura, mas não adiantou. A crítica ao seu machismo entranhado entrou por um ouvido e saiu por outro sem fazer efeito algum em sua consciência.
Ainda sobre a pesquisa da Universidade de Cambridge, matérias sobre esportes feminimos adotam níveis mais altos de infantilização para as atletas. O que estava escrito mesmo no pedido de desculpas do jornal Manaus Hoje? Ah, isso mesmo. “Meninas, nos perdoem”. O mesmo, contudo, não ocorre com homens sendo chamados de “meninos”.

Com relação aos termos mais empregados quando as notícias são sobre as atletas mulheres, se destacam: mais velhas, grávidas, casadas ou solteiras. Já as principais palavras relacionadas aos homens são: mais rápidos, fortes, autênticos e ótimos.

Sobre a forma de retratar o desempenho na competição, a pesquisa mostrou que aos atletas homens são atrelados verbos como: bater, vencer e dominar; enquanto às mulheres: competir, participar e lutar.

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Quando uma atleta mulher se destaca, ela é comparada a um atleta homem de destaque, para que a gente perceba que elas são boas mesmo.
O erro mostrado na imagem acima é um dos mais graves, porque ele mostra que há um hábito de comparar uma atleta mulher que tem um desempenho de destaque perante sua categoria ou no seu time, com um atleta homem renomado. É como se, fazendo isso, a mídia projetasse uma analogia proporcional do tipo: ah, Pelé é uma lenda no futebol brasileiro, então se estão comparando a Marta com ele, é porque a Marta foge da regra das outras atletas mulheres.

Essa matéria do Milton Neves, como um todo, é horrorosa. O “jornalista profissional diplomado, publicitário, empresário e apresentador esportivo” até mesmo disse que a jogadora Marta já conquistou quase tudo – incluindo o respeito.

Pois, é, gente. Parece que, para ele – para outros tantos -, para uma atleta mulher ser respeitada, ela precisa ser “praticamente” um homem. Ele brinca em alguns momentos sobre a entrada dela na seleção masculina. Afinal, onde já se viu uma mulher jogar bola tão bem, não é mesmo?

Que mais pessoas reclamem quando se virem desrespeitadas e que o mundo fique mesmo “mais chato” para os que acham graça de subjugar as mulheres.

E é por isso que luto por um jornalismo mais humano e feminista.

“Se não agora, quando?”

Bibliografia

UNIVERSIDADE DE CAMBRIDGE, Aesthetics, athletics and the olympics, 2016. Disponível em: <http://www.cambridge.org/about-us/news/aest/>. Acesso em: 13 dez. 2016.

Como tudo começou


Minha paixão pela Nellie Bly começou no fim de 2015. Estava lendo “Descobrindo a notícia: Uma história social dos jornais nos Estados Unidos”, de Michael Schudson, quando a conheci. Não dizia muito sobre ela no livro, mas algo me dizia que valeria a pena saber mais.

De fato. O mais estranho era que não há muito sobre Nellie Bly em português. Nem ao menos os livros são traduzidos!

Com o Projeto Nellie Bly, meu objetivo é disseminar as realizações que esta fantástica jornalista concretizou a partir de 1880. Acredito que será uma jornada e tanto. Vamos juntas e juntos nessa?