La La Land: Cantando estações | Resenha

La La Land: Cantando estações é o favorito a levar o Oscar de Melhor Filme em 2017. Além disso, está concorrendo em outras 12 categorias: Melhor Direção, Melhor Atriz (como fora mencionado na resenha de Louise Smith aqui no Projeto Nellie Bly), Melhor Ator, Fotografia, Mixagem de Som, Figurino, Edição de Som, Direção de Arte, Trilha Sonora, Canção Original – para duas músicas: Audition (The fools who dream) City of Stars -, Roteiro Original, e Edição.

A história é muito simples. Sebastian é um pianista que sonha em abrir um clube de jazz em Los Angeles. Mia é uma atriz, buscando sua grande chance de brilhar nos filmes de Hollywood. Antes de se conhecerem, vemos como é difícil essa jornada, mas, uma vez que se unem, um dá força ao outro para que ambos arregacem as mangas, façam sacrifícios e lutem por seus sonhos, vencendo cada meta, dando um passo de cada vez.

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Me senti exatamente assim assistindo ao filme. É apaixonante!

No entanto, a forma como os sonhos são realizados não é nada simples. Tampouco as consequências do que é preciso abrir mão para torná-los reais. Com La La Land, você aprende que os sonhos custam um preço. É preciso decidir se você tem a garra necessária para ir atrás deles, independentemente do que possa lhe custar. Dessa forma, no fim do filme – e este não é um spoiler do que acontece com os personagens, mas é um spoiler de como você possivelmente vai se sentir -, você entende que tornar os sonhos reais não significa alcançar uma vida perfeita, tampouco ter chegado ao fim. E o que mais gosto é da sensação que paira no ar. A conquista de um objetivo não é o fim. É apenas um virar de páginas.

A magia do Cinema está presente em cada segundo que você perde seu fôlego assistindo a La La Land, em cada vez que você pisca e teme ter perdido um brilho no olhar de Ryan Gosling ou uma expressão de angústia estampada no rosto da sonhadora Mia (Emma Stone).

Por isso, é um musical feito para os apaixonados por Cinema. Não estou me referindo aos blockbusters de hoje em dia. Estou falando sobre o Cinema de Audrey Hepburn, Marilyn Monroe, Elizabeth Taylor.

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Quem mais pegou a referência a essa cena em La La Land?

 

Tudo isso sem contar as diversas referências a filmes que marcaram a história do Cinema e, possivelmente, as vidas de milhares de pessoas (estou claramente me incluindo neste grupo de pessoas). Como uma grande fã de Audrey Hepburn, soltei um suspiro ao ver uma referência à cena de Cinderela em Paris, quando Audrey segura vários balões coloridos.

No entanto, se você não gosta de jazz, sonhos, cores vibrantes, ou esperança, certamente este não é um título que lhe diga respeito. La La Land é para os que enxergam, nos sonhos, objetivos, porque eles não são feitos para serem deixados guardados em gavetas. Sonhos são feitos para serem vividos. E o objetivo da vida é justamente ir atrás deles.

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Desventuras em Série | Significados e interpretações 

A organização secreta apresentada em Desventuras em Série trata de pessoas que se uniram para, literalmente, combater incêndios. No entanto, conhecendo bem o estilo de Lemony Snicket, presumo que ele tenha se referido aos voluntários de CSC, ou VFD (em inglês), como pessoas que também combatem incêndios figurativamente; uma expressão que aqui significa “combatem as mais diversas adversidades e injustiças que pessoas perversas cometem, prejudicando terceiros, em benefício próprio”.

Com isso, se há uma pessoa que, em situação de poder e liderança, defende certo tipo de abuso de autoridade – que utiliza meios violentos para impedir a livre expressão -, e, somando-se a isso, se essa pessoa tem seguidores que concordam com suas ideologias excludentes, temos como resultado uma sociedade injusta, em que as pessoas que prezam por um mundo sereno encontram muitas dificuldades para tal, pois há muitas barreiras que vão contra à diversidade. Ou então, se a pessoa em situação de poder, simplesmente, aproveita o cargo para acumular fortunas que pertencem, na verdade, a outras pessoas ou outros fins.

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Um muro é um bom exemplo para representar barreiras contra a diversidade, podendo ser de forma literal ou figurativa.

No entanto, há pessoas que não combatem esse mal, tampouco se juntam a ele, porque é mais fácil não pensar sobre os problemas sociais e como eles afetam as vidas de tantas pessoas.

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Essas pessoas agem como o Sr. Poe. Elas trabalham, se preocupam com o seu próprio sucesso e se esforçam para conquistar os seus objetivos.

Trabalhe!

Mas elas não reconhecem quando uma pessoa em cargo de poder comete atitudes que prejudicam outras pessoas em benefício próprio. São cegas demais para isso.

Você enxerga os disfarces?

Por isso, acredito que haja uma crítica social contida em Desventuras em Série, sendo esta saga, portanto, algo que vai muito além de mero entretenimento infantil.

Vamos analisar a situação

Uma pessoa em cargo de poder …

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Notícia do portal G1 de 3 de outubro de 2010

…que acumula fortunas em benefício próprio,…

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Notícia do jornal O Globo do dia 27 de janeiro de 2017

…prejudicando outras pessoas…

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Notícia do jornal Extra de 25 de janeiro de 2017

… das quais muitas não percebem essa situação…

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Notícia da revista Veja de 26 de janeiro de 2017

… e os que mais sofrem são aqueles que menos podem fazer por si próprios.

Reportagem do RJTV, veiculada em 26 de dezembro de 2016 sobre a ajuda que servidores fizeram para aqueles que ficaram sem salário e 13º. Parece com algo que os voluntários de CSC fariam. 🙂

Desventuras em Série deixou muitos mistérios, mesmo após os livros do mesmo universo que o autor Daniel Handler lançou após a conclusão dos 13 volumes.

Depois de ler e refletir, cheguei a formular minha interpretação sobre o que significaria o conteúdo do açucareiro, algo que gera até hoje muitos debates entre os fãs da saga.

Assim, acredito que o açucareiro esteja guardando a verdade, em seu sentido mais utópico possível. Afinal, em “A Gruta Gorgônea”, o Capitão Andarré diz que o açucareiro é importante porque guarda algo perigoso de ser conhecido.

ONU lança planos de aula sobre os direitos das meninas e mulheres

A ONU Mulheres elaborou um currículo e seis planos de aula, financiados pela União Europeia, para conscientizar professores e professoras, meninos e meninas sobre o direito das mulheres e meninas a uma vida livre de violências. O conteúdo está disponível para download gratuito.

Com o objetivo de contribuir para o ensino do tema no Ensino Médio, esse material serve de alerta para prevenir a violência decorrente do machismo. Afinal, espaços como escolas e universidades são fundamentais na formação do caráter humano.

O currículo aborda, por exemplo, o conceito de masculinidades, visando promover masculinidades positivas e desconstruir comportamentos machistas. Você pode ver mais sobre este conceito em um texto que publiquei aqui, chamado A máscara que os meninos usam.

Entre os temas que aparecem nos planos de aula, estão:

  • sexo, gênero e poder;
  • violências e suas interfaces;
  • estereótipos de gênero e esportes;
  • estereótipos de gênero, raça/etnia e mídia;
  • estereótipos de gênero, carreiras e profissões;
  • diferenças e desigualdades;
  • vulnerabilidades e prevenção.

Para baixar o conteúdo, clique nos títulos abaixo:

Inventário | Currículo |Plano de aula 1 | Plano de aula 2 | Plano de aula 3 | Plano de aula 4 | Plano de aula 5 | Plano de aula 6

A violência no ambiente escolar

Publicado neste mês, o relatório da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), sobre violência escolar e bullying, mostra que milhões de meninas e meninos sofrem com a violência no ambiente escolar.

Vemos bastante isso sendo retratado, por exemplo, nas obras de ficção. Recentemente, fiz uma resenha sobre Eleanor & Park, um livro que aborda tais assuntos de uma maneira muito sutil. E se na escola houvesse um trabalho como esse que a ONU Mulheres apresenta? Como a história seria se Eleanor tivesse recebido apoio na escola? Talvez, assim, ela não precisasse enfrentar o bullying, além da violência do padastro em casa. Talvez, a escola pudesse auxiliá-la de diversos modos. No entanto, esta história é ficção e já está escrita, assim como outras histórias que, ainda que sejam reais, também já estão registradas no passado. Mas, você, como uma educadora ou um educador, pode mudar a atual situação pela qual os jovens passam.

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Eleanor mora com sua mãe, seus irmãos mais novos e o padastro agressivo. Além de sofrer com a violência a que a mãe é subjugada, a menina também enfrenta bullying na escola. Mas, no meio disso tudo, há pessoas boas, como o Park, que a ajudam a superar.  

Há pouco tempo, comecei a ler Extraordinário, um livro de R.J Palacio, que tem tudo a ver com a problemática do bullying. Neste caso, contudo, não se trata de violência à menina ou à mulher, mas, sim, a um menino com uma deformidade no rosto. Aliás, o livro tem uma linguagem muito boa para crianças, muito por causa do narrador ser em primeira pessoa. Então parece mesmo que você está conversando com um menino que enfrenta preconceito e olhares estranhos dos adultos e dos colegas de classe. Se eu fosse professora, gostaria muito de passar um trabalho em sala de aula sobre Extraordinário. (Em breve, haverá resenha aqui também sobre esta história).

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E vai estrear neste ano!

“Esses atos [de bullying] são impulsionados por dinâmicas de poder desiguais, que muitas vezes são reforçadas por normas e estereótipos de gênero, orientação sexual e demais fatores que contribuem para a marginalização — como pobreza, identidade étnica ou idioma”, afirma o documento da UNESCO sobre violência escolar e bullying.

Dia Laranja Pelo Fim da Violência

Esta quarta-feira, 25, foi o Dia Laranja Pelo Fim da Violência contra as Mulheres. O objetivo da data é engajar ativistas, governantes, gestores e agências das Nações Unidas a se mobilizar pela prevenção e eliminação da violência contra mulheres e meninas. Contribua também da forma como você pode para que o mundo seja mais justo para todas e todos.

Uma das organizadoras da Marcha das Mulheres dá a melhor resposta a comentários islamofóbicos que inundaram seu perfil do Twitter após o evento

Linda Sarsour deu a melhor resposta para os xingamentos que inundaram seu Twiter após a Marcha das Mulheres

Linda Sarsour, uma das líderes do Women’s March on Washington – que ocorreu neste sábado, 21, um dia após a posse do presidente dos EUA, Donald Trump – recebeu uma série de “críticas de pessoas contra o islamismo e a presença de muçulmanos nos Estados Unidos” (um termo brando que usei aqui para me referir a islamofóbicos que inundaram o Twitter da ativista de origem paquistanesa com xingamentos). Acredito que essa exposição preconceituosa reinforce ainda mais a necessidade pela marcha e pela continuação da mensagem que ela traz. Aliás, Linda Sarsour deu a melhor resposta para essa situação:

“Quando a oposição, incluindo islamofóbicos, estão enchendo sua timeline com ódio – você percebe que fez alguma coisa certa. #marchadasmulheres”

A origem da Women’s March on Washington

O resultado da eleição presidencial norte-americana saiu no dia 8 de novembro de 2016 e, no dia seguinte, Teresa Shook – conhecida como Maui – convidou cerca de 40 amigas para marchar em Washington, D.C. A ideia se espalhou e, a partir do momento que alcançou o Facebook, já havia um extenso número de mulheres envolvidas no movimento, criando páginas e encorajando milhares de outras a participarem.

O problema era que, neste primeiro momento, praticamente todas eram brancas. E elas sabiam da necessidade de haver representatividade no movimento. Dessa forma, uma das organizadoras, chamada Vanessa Wruble, tomou essa iniciativa.

O reconhecimento de ser preciso dar voz a todas

O primeiro passo foi contatar Tamika Mallory, Carmen Perez e Linda Sarsour. Em 2015, elas lideraram uma marcha da cidade de Nova York a Washington, viajando por impressionantes 250 milhas a pé, enquanto clamavam por mudanças no sistema de justiça criminal dos Estados Unidos. Além disso, são conceituadas líderes que construíram carreira, organizando mobilizações interseccionais.

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Na imagem, Carmen Perez está ao centro e, ao seu lado de moletom também preto, Tamika Mallory. A foto foi postada no Twitter de Linda Sarsour.

No vídeo abaixo (em inglês), as três contam sobre as origens da Women’s March on Washington, dizem que a marcha é uma forma de mostrar que estarão de olho no governo de Trump, caracterizado por elas, logo no início da conversa, como um narcisista. Além disso, salientam que a marcha vai muito além de ser sobre os pontos que elas são contra, como racismo, retaliação policial e segregação, mas, sim, para dizer o que elas defendem, quais são os valores que importam e devem ser conquistados e compartilhados por todos.

Foi necessário para o movimento, certificarem-se de que ele estava sendo construído em uma estrutura sólida, unindo vozes asiáticas, das ilhas do Pacífico, mulheres trans, nativas americanas, deficientes, homens, crianças, e muitos outros, de forma que todos possam se expressar e encontrar apoio.

Entre os tópicos debatidos na entrevista, há a diferença entre as lutas das feministas brancas e das “de cor” (uma expressão traduzida ao pé da letra que se refere às mulheres que são latinas, muçulmanas, negras, ou seja, as minorias). Por exemplo, Tamika fala sobre a diferença salarial entre homens e mulheres, mas destaca o fato de que as mulheres negras recebem ainda menos do que as brancas. Além disso, há uma série de outras lutas que estão na agenda das mulheres de cor que não fazem parte da realidade das brancas. No entanto, o mais importante é expandir a sororidade e, ainda, integrar os homens na luta.

A Women’s March on Washington em imagens

Agrupei as imagens da marcha que mais gostei. Em uma delas, há um cartaz que um homem segura que diz: “Marcho pelo meu filho que nós estamos criando para ser um feminista”. Em outro, um garoto segura a seguinte mensagem: “Garotos serão garotos bons seres humanos” e uma menina, esta: “Tenho apenas 4 anos e já sei que todo mundo é igual”. Não faltaram referências à Princesa Leia como símbolo de resistência e da luta rebelde contra o império galáctico e, como fã da personagem/atriz/saga, ela precisava também entrar nessa lista. Ademais, destaquei a presença de algumas celebridades, como Emma Watson e Miley Cyrus. Estas imagens foram retiradas de álbuns criados pelas páginas Quebrando o Tabu e Collant Sem Decote.

Os valores pelos quais lutamos são para todos os humanos

Como foi dito no texto A máscara que os meninos usam, feminismo não é apenas sobre mulheres, é sobre igualdade e respeito a todos os seres humanos. Trump não é o presidente do Brasil e, por isso, talvez algumas pessoas possam não entender a importância de falarmos sobre essa marcha aqui. No entanto, considerando a semelhança que existe entre ele e alguns (muitos) de nossos políticos, temos muitas razões para abraçarmos esse exemplo para engajar por aqui nossa resistência. De forma que mulheres brancas, como eu, reconheçam seus privilégios e lutem pelas causas urgentes das mulheres negras, da mesma forma como homens, de modo geral, percebam que uma sociedade desigual também os prejudica, sendo necessário, portanto, lutar pelo respeito aos direitos humanos.

Vivemos tempos difíceis, mas também vivemos uma época que nos oferece a oportunidade de defender os valores que nós acreditamos, como empatia, equidade, inclusão e diversidade. A marcha é de todas e todos. Sigamos em frente.

A máscara que os meninos usam

O documentário The Mask You Live In, do roteiro e direção de Jennifer Siebel Newsom, e disponível na Netflix, é um daqueles filmes que deveria ser assistido por todos, meninos ou meninas, homens ou mulheres. O filme aborda como a masculinidade é socialmente construída e o quanto isso fere a forma de como os homens poderiam se expressar. Mas também fala sobre bullying, assassinato, agressividade e suicídio. Eu sou feminista, o que significa que sou contra o machismo. Isso também significa que eu não sou contra os homens. E este texto é sobre eles.

“Ele veste uma máscara, e seu rosto se molda a ela…” – esta frase de George Orwell foi um excelente ponto de partida do documentário The Mask You Live In (que em português pode ser traduzido como A Máscara Em Que Você Vive).

A partir daí, dá-se início à discussão sobre como a cultura norte-americana contribui para solidificar essa máscara nos homens, desde a infância, impedindo que eles exponham o que há por baixo dela.

É interessante observar o amadurecimento de alguns deles. Me impressionou a história de um rapaz que, no ensino médio, sentiu a necessidade por afirmar-se como homem com H maiúsculo e deixou de fazer coisas que gostava, entrou para o time de futebol da escola, namorou uma líder de torcida e deixou de ser amigo do menino que conhecia desde o ensino fundamental porque ele não seguiu esse mesmo caminho e continuou fazendo coisas consideradas como “não masculinas o suficiente”. O outro menino perguntou para ele o porquê do afastamento e, na época, ele não soube responder. A ficha só caiu anos depois, quando ele reconheceu as pressões da família, da escola, da sociedade como um todo para “ser um homem”. Ademais, reconhece, inclusive, os privilégios de ser um homem branco, quando fala sobre o seu avô, um “macho alfa”, em suas palavras.

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Este é um dos entrevistados. Ele conta sobre sua passagem do ensino fundamental para o médio, quando sofreu bullying, abandonou o teatro (que anos depois ele retomaria, porque – afinal – ele gosta!) e a necessidade que havia por afirmar-se como homem. Aqui, nesta passagem, ele fala sobre o avô, um homem branco do sul dos EUA, que serviu ao exército e viveu o “sonho americano”.

Coloco aqui a fala de um psicólogo que resume a mensagem do documentário e também do que vivo tentando dizer para as pessoas:

Meninos e meninas são muito mais humanos e muito mais iguais do que são diferentes. Se você der 50 mil testes psicológicos para meninas, os resultados formarão uma curva em forma de sino. Se der os mesmos 50 mil testes psicológicos para meninos, os resultados formarão uma curva de sino de meninos. Se sobrepuser as duas, elas coincidirão em 90%”, afirma o psicólogo Dr. Michael Thompson

Concluindo:

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A neurologista Lise Eliot explica as diferenças entre os conceitos de sexo, um termo biológico, e gênero, uma construção social, em que há “expressões de masculinidade e feminilidade”. O problema da construção da masculinidade durante a infância dos meninos é passar para eles a ideia de que devem rejeitar o que é considerado feminino. Com o tempo, eles acabam acreditando que são superiores às mulheres e aí vem toda a história do machismo que nós já conhecemos bem.

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A neurologista Lise Eliot explica as diferenças entre sexo e gênero e afirma que as expressões de masculinidade e feminilidade são socialmente construídas.

Como afirmei no início do texto, essa é uma publicação sobre os homens, mas também é para os homens. Por isso, deixo aqui uma mensagem para eles:

Prezados homens,

sei que houve momentos em que vocês se sentiram tristes, solitários e assustados, mas não demonstraram isso porque vocês pensavam que deveriam agir de outro modo. E essa é a máscara que os meninos usam. Vocês, mesmo que sem notarem, escondem quem são, ou ao menos esconderam durante um período da vida. Agora, como muitos dos entrevistados (já na fase adulta), é possível que tenham enxergado que não é essa máscara que faz de vocês homens, que define vocês. Porque, antes de mais nada, vocês são humanos e está tudo bem se demonstrarem isso.

As pesquisas indicadas no documentário mostram que a fase da vida em que os garotos começam a esconder as emoções consideradas femininas coincide com o aumento do número de suicídios, que são superiores ao das garotas.

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O número de suicídio de meninos aumenta na fase da vida em que eles mais sentem pressão social para serem machos e não demonstrarem emoções consideradas femininas.

Este é um dado muito delicado e abordado de uma forma emocionante pelo documentário, com depoimentos de rapazes que consideraram ou até mesmo tentaram suicídio. As causas e consequências são analisadas pelos especialistas que salientam a necessidade da observação em casos de determinados comportamentos típicos da depressão. O problema, contudo, é que o senso comum acaba confundindo tristeza com depressão, o que pode dificultar o diagnóstico da doença nos garotos. Os que sofrem desse mal podem demonstrá-la por meio de agressividade, crimes (quantas notícias já vimos sobre atentados de jovens americanos com armas de fogo?) e, por fim, o suicídio.

Há muitos aspectos relatados no documentário que são dignos de serem mencionados aqui (arquétipos da cultura pop, bullying, sexualidade, bebidas, drogas, aversão ao que é feminino, a ideia que fazem das meninas, entre muitos outros), mas acredito que você deva assistir e permitir emocionar-se com os relatos dos garotos entrevistados. Há criminosos em prisão perpétua, estudantes de periferia, jovens de classe média, crianças, adultos, gays, héteros, e por aí vai.

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Um resumo do que você vai encontrar no documentário

É por isso que defendo o feminismo e acredito que ele seja, sim, um movimento para todas e todos. Seria ótimo se os homens, de modo geral, enxergassem que a igualdade de gêneros também diz respeito à liberdade de eles serem quem são e não precisarem se esconder atrás de uma máscara imposta pela sociedade.

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Esta é uma das minhas cenas favoritas, em que um professor faz uma dinâmica com os alunos. Ele dá uma folha para cada um com uma máscara desenhada em um dos lados e pede para que escrevam ali o que os outros sabem deles e, no verso, o que eles não permitem que os outros vejam. Boa parte das respostas contiveram “dor”. Por que meninos não mostram que sentem dor?

Conspiração e Poder | Um filme sobre jornalismo e a busca pela verdade

Procurei o que assistir na Netflix na noite desta terça-feira sem muita convicção de que algo iria despertar minha atenção. Mas quando vi “Conspiração e Poder” na lista dos adicionados recentemente, me senti atraída para clicar e saber mais. E o que me fez assistir não foi a capa, o título, ou a presença da Cate Blanchett no elenco, tampouco o fato de ser um filme baseado em fatos reais. Eu decidi assistir por ser um filme sobre jornalistas que cometeram um erro que lhes custou o emprego e a reputação, contado sob o ponto de vista da produtora do extinto programa jornalístico. Até hoje, ela defende a veracidade da matéria.

Em setembro de 2004, o programa 60 Minutes 2, da CBS, veiculou uma reportagem que apontava privilégios que George W. Bush teria tido durante seu serviço militar na Guarda Nacional do Texas em 1973. No entanto, pouco tempo depois da divulgação, diversas críticas à matéria apareceram e rapidamente se espalharam pela internet. Blogs conservadores apontavam de que forma os documentos mostrados pelo 60 Minutes 2 poderiam ser facilmente forjados no Microsoft Word.

Como a equipe de jornalistas envolvidos na apuração detinha apenas cópias dos documentos que provariam os supostos privilégios de Bush, eles não puderam comprovar a veracidade dos papéis. Para preservar a imagem da empresa, o respeitado âncora, Dan Rather (Robert Redford), precisou pedir desculpas pelo erro enquanto apresentava o programa. (Ainda que a equipe tenha insistido na história relatada após as primeiras críticas).

Por fim, ocorreu uma investigação interna pela emissora, e a produtora Mary Mapes (Cate Blanchett) foi demitida, assim como os demais integrantes, com excessão de Dan Rather que, pouco depois, contudo, pediu demissão.

É evidente perceber a semelhança entre essa história e a segunda temporada da série The Newsroom, produzida pela HBO.

Assim como MacKenzie, a produtora da ficção, Mapes tem o compromisso com a verdade correndo em suas veias. No entanto, a sede por reportar o que a população precisa saber (e isso vale para ambas) atropelou a apuração e a posterior checagem dos fatos apurados.

A questão que deteriorou a reportagem foi a falta de provas. Por mais que todas as peças se encaixassem, por mais que faça sentido Bush ter recebido tratamento diferenciado enquanto servia ao exército porque vinha de uma família abastada e importante no Texas, os jornalistas precisavam da certeza, em 100%.

A pressa contribuiu para essa falha. Não havia muitas datas disponíveis para exibir a reportagem e a escolhida deixou a equipe com apenas uma semana para concluir toda a investigação.

Eles estavam tão envolvidos na apuração que enxergaram apenas o que era o bastante para veicular as informações. No entanto, deixaram os riscos debaixo do tapete.

Um jornalista deve duvidar sempre, inclusive de si próprio. Seja nessa história real, quanto em The Newsroom, os jornalistas confiaram na história e fecharam os olhos para a possibilidade de estarem errados.

Os jornalistas, na série, têm a “missão de civilizar”, por meio do telejornal. Diferentemente da concorrência, eles querem resgatar o que o jornalismo tem de bom. E isso inclui o compromisso com a verdade, com a população e com a necessidade de informar o que é de interesse público. A série cita Dom Quixote, de Miguel de Cervantes (1547-1616), em diversos momentos. Assim como o personagem da clássica história, os personagens de The Newsroom acreditam que precisam espalhar a verdade a que eles têm acesso para os demais, desprovidos das informações deixadas de lado pelo restante da mídia pelo fato de elas não serem rentáveis à empresa. Por isso, há constantes conflitos da redação com o departamento de marketing. Aliás, essa conturbada relação também aparece em alguns momentos do filme Conspiração e Poder.

Vale dizer, contudo, que a verdade mesmo jamais conheceremos. Sem provas, não há como dizer que Bush recebeu tratamento diferenciado no exército. Isso pode ser um fato ou pode ser algo criado por documentos forjados que acabaram gerando essa dúvida.

Vale salientar que toda essa situação ocorreu em período eleitoral. O pai de Mapes a chamou de liberal, em entrevistas à imprensa na época do escândalo, e disse que ela era feminista radical (como se isso fosse algum tipo de ofensa). Mapes não falava com o pai havia anos. O filme deixa claro que havia muita mágoa na relação que ela tinha com o pai. Quando criança, Mapes sofria com o pai alcóolatra e violento, mas nunca pedia para ele parar. Porque ela queria passar a imagem de que era forte. Mas ao ver o que ele estava falando dela para os jornalistas, Mapes pediu que parasse. E essa cena é muito impactante. Na verdade, é, para mim, a mais intensa de todo o filme.

Com essa ausência do pai em sua vida, é lindo ver a relação que ela desenvolve com o âncora do jornal.  É só amor ali, um pelo outro, e de ambos pelo jornalismo.

E é esse amor que conecta todos os personagens.

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Em um dos episódios de Supergirl (calma, eu não fugi do tema!), Alex, a irmã da heroína, questiona seu chefe do porquê ela ter conquistado sua vaga na instituição que investiga alienígenas inimigos e pergunta se foi por causa do seu parentesco com a Kara que ela foi aceita. A resposta é afirmativa, mas ele ressalta que aquele era só o motivo de ela ter entrado na companhia, não a razão por ali ter permanecido. Quanto a isso, ele completa dizendo que o desempenho dela, e unicamente dela, é o que justifica as suas conquistas.

Nossas escolhas profissionais são semelhantes a este caso. Assim, percebi que, depois de um tempo, não importa por que escolhemos o Jornalismo. O que importa é por que permanecemos nele. E ele em nós.

A segunda temporada de The Newsroom subiu muito no meu conceito devido à semelhança que ela apresenta ao caso real do 60 Minutes 2. Antes, não gostava tanto por achar que fugia da realidade. Mas a arte às vezes também imita a vida. Esta série pode não ter seu roteiro baseado em fatos reais, mas tem muitos aspectos da realidade ali contida. Sem contar as maravilhosas cenas em que vemos os bastidores da produção de notícias. ❤

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Bastidores ❤

E quer ver uma arte mais bonita do que a própria representação do real? Por isso amamos o jornalismo. Somos Dom Quixotes.

Uma resenha sobre Para Sempre Alice em forma de conto

Os créditos apareceram na tela, mas a escritora Beatriz ficou paralisada enquanto eles subiam, sem entender por que demorou tanto para assistir ao filme Para Sempre Alice.

O título não estava nem mais disponível na Netflix, mas ela precisava assisti-lo porque só assim poderia terminar a história que ela começara a escrever um ano antes, mas que ficou deixada de lado durante todo aquele tempo. Sua personagem, Dona Josefine era uma senhora com Alzheimer que recebia uma visita todos os dias.

Quando ainda estava bem de saúde, Dona Josefine gostava de cultivar flores na janela e ir ao mercado diariamente para comprar frutas e vegetais. Passou boa parte de sua vida ensinando português em uma escola no final da rua, onde conheceu seu marido. Apesar de ter amado dar aulas, sua grande paixão era a escrita. Josefine sempre teve grande apreço por cada um de seus personagens. Era quase como se eles tivessem vida própria. As manhãs eram preenchidas pelo som de suas conversas com eles. Durante o almoço o mesmo ocorria, e claro que antes de dormir também.

Mas a rotina de Dona Josefine passou a incluir cada vez menos as conversas com os personagens, o barulho reconfortante da máquina de escrever e os encontros com a filha, conforme o Alzheimer avançava.

Determinado dia, ela recebeu uma visita. Era uma moça que segurava-lhe a mão enquanto balbuciava qualquer coisa. A moça ficou ali por horas, desde que Dona Josefine acordou. E só apagou a luz e saiu quando a professora aposentada já estava pegando no sono. E não é que em outro dia Dona Josefine também recebeu a mesma visita? Ela se perguntou se aquela não era sua irmã mais velha, Cecília. Resolveu chamar por ela. A moça sorriu, mas os olhos não. Aliás, eles ficaram marejados. Em outro dia, sua filha veio vê-la. Dona Josefine então chamou por seu nome, ao que a filha respondeu “estou aqui, mamãe”.

Os dias se passaram até Dona Josefine não mais receber visitas, pois seus dias já tinham atingido a marca no relógio que contou seu tempo aqui. Era sua hora de ir. Os personagens por quem ela era apaixonada, contudo, permaneceram e jamais iriam embora. Nem ela tampouco iria. Sua história ficou aqui, independentemente do que lhe acontecera.

Beatriz sentiu que o desenvolvimento da personagem andava bem. Ela precisava, contudo, ajustar ainda diversos pontos da história que ficaram soltos. Mas, se tudo seguisse conforme seus planos indicavam, no próximo ano o livro estaria publicado.

Após ter desligado e computador, Beatriz ficou contente por ter assistido ao filme. Ele não apenas lhe servira como fonte de inspiração, mas também lhe dera força. O que ela mais gostou do filme foi de ver o desenvolvimento da relação entre a personagem principal, Alice (Julianne Moore), e sua filha mais nova, Lydia (Kristen Stewart). Ao que tudo indicava no início do filme, ela era a mais distante dos seus filhos. No jantar do seu aniversário, em outubro, ela foi a pessoa que faltou. Quando as duas conversavam sobre o futuro de Lydia, sempre discutiam. Beatriz entendeu o lado da mãe em querer que ela tivesse um sustento próprio e não dependesse do pai. Mas também entendia o lado da filha de querer buscar os seus sonhos.

No entanto, os outros filhos – que pareciam tão mais próximos enquanto ela estava bem – foram sumindo da história, enquanto Lydia aproximou-se cada vez mais da mãe, lhe fazendo perguntas sobre como ela estava se sentindo e conversando com ela por vídeo mesmo que morasse do outro lado do país.

Naquela noite, enquanto pensava sobre o filme, Beatriz pegou no sono. No quarto ao lado, sua mãe já dormia fazia algumas horas e acordaria cedo no dia seguinte com a visita de uma moça.


 

 

Ah, se todos lessem Eleanor & Park…

Esta é uma resenha sem spoilers

Na época da faculdade, quando um professor mandava escrever resenha de livro era um fardo a ser carregado por semanas, mesmo se o livro fosse bom. O problema eram as milhares de outras tarefas para fazer que atrapalhavam e ficavam no caminho.

Em 2017, as coisas começaram diferentes. Não há mais aulas, provas, trabalhos ou TCC.

O tempo livre tornou-se exatamente o que deveria ser. Um espaço de tempo que parece mais uma casinha aconchegante onde posso entrar e permanecer por horas, viajando por entre as histórias que leio. E foi em uma dessas visitas ao meu escape da realidade diário que me apaixonei pelo livro Eleanor & Park.

Havia me cansado um pouco de romances que não me levavam a lugar algum. Só que esse livro se mostrou completamente diferente de tudo o que eu esperava. E isso foi muito bom.

Eleanor & Park dói em você como uma triste canção dos Smiths. Você se deixa levar pelo ritmo e, quando percebe, está refletindo sobre um milhão de coisas que não tinham ressoado antes na sua mente. Ou que não ressoavam havia algum tempo.

Estou falando sobre detalhes. O livro conta a história de um menino que conhece uma menina no ônibus da escola em 1986. Ela é aluna nova, com roupas masculinas, cabelos vermelhos e é grande. Até aí você pode imaginar um filme de adolescente com os mesmos clichês: garoto cool se apaixona pela garota estranha, ela passa por uma transformação (solta o cabelo e tira os óculos) e vivem felizes para sempre após o baile de formatura.

Mas não é isso o que acontece. (Pra começar, Eleanor nem usa óculos. E partes do livro parecem até mesmo zombar desses momentos que transformam o patinho feio em um “lindo” cisne. Tudo isso é relativo).

Ela vive em uma casa lotada de gente, autopreservação e medo. Divide o quarto com seus quatro irmãos mais novos: Ben, Mouse, Maisie e o “little Richie”, sendo este ainda um bebê. E logo descobrimos que nem sempre ela ficou com eles, devido a um incidente com o padrasto.

O livro trata de temas polêmicos, como violência à mulher e papéis de gênero na sociedade, com uma sutileza avassaladora, ao mesmo tempo em que mostra os encantos e as descobertas do primeiro amor.

  • Há molas que rangem no quarto da mãe e gritos de madrugada. Há cheiro de bebida vindo da sala e de silêncio perturbador, do quarto das crianças.
  • Alunos que se acham no direito de zombar de alguém novo e diferente só por considerarem este um passatempo divertido. Um estudo sobre bullying no Canadá, publicado recentemente pela Child Abuse & Neglect (2016), mostra que:
    • Um a cada quatro estudantes sofreram bullying no último ano.
    • Meninas são mais propensas a sofrerem bullying. Aproximadamente 27% disseram passar por este problema, enquanto para os meninos essa porcentagem gira em torno de 22%.
    • Alunos com renda familiar mais baixa – especialmente as meninas – sofrem mais bullying do que os estudantes de famílias mais abastadas.
  • Mensagens obscenas escritas nos livros da escola, misturadas às frases de músicas que ela gostaria de ouvir – e depois que Park lhes apresenta, que ela gosta de ouvir.
  • Park desabafa como a cultura pop trabalha a imagem dos asiáticos. (Ele é coreano). E critica o fato de as mulheres asiáticas serem tratadas como sexy por serem exóticas, enquanto isso nunca ocorre com os homens. E ele se sente mal com essa falta de representação de homens asiáticos na cultura pop como pessoas também bonitas. Eu nunca havia parado para pensar nessa questão e acredito que essa seja uma reflexão válida. Depois, a Eleanor acaba dizendo para ele há o Bruce Lee. Ela o considera sexy. Além de considerar o Park lindo, um gatinho, como ela diz.

Por outro lado, em um canto do beliche de Eleanor há uma caixa de segredos e sonhos. Lá é o lugar onde ela encontra esperança, felicidade e conforto nas lembranças de Park. Na casa dele, ela conhece o que é amor e acolhimento e quando as brigas ocorrem porque as pessoas gostam umas das outras. Vemos que problemas existem em todas as casas. Os da família de Park são apenas mais leves, ainda que também estejam lá.

Eleanor & Park é como uma música. Não só porque a narrativa tem ritmo e porque há infinitas referências a bandas e músicas da época, mas também, principalmente, porque ele gruda em você e uma vez que você tenha começado a “escutar” a história, não tem mais como parar. É viciante.

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A cereja do bolo são as referências (maravilhosas) à cultura pop que a gente ama!

Há uma frase do livro Jornalismo Literário, do jornalista Felipe Pena, que ficou marcada em mim. “Escrevo porque não sei fazer música. Se soubesse ler partituras e articular notas harmônicas, não me arriscaria nessas linhas tortas e analfabetas” (PENA, 2008, p. 16). Gostaria de tê-la citado na minha monografia, mas infelizmente precisei cortar. De qualquer forma, tenho guardado o trecho que escrevi, refletindo sobre o que o Felipe disse.

Obras de arte são formas de comunicação e, dependendo de como são interpretadas, podem angariar mais ou menos tempo de memorização. A música, para o jornalista Felipe Pena, é mais facilmente gravada na mente, de modo que seja possível ser atribuída a determinadas épocas da vida, a momentos específicos, congelando uma memória, como se o tempo passasse mais lentamente. Por outro lado, a literatura enfrenta um desafio maior nessa questão da memória. […] Mesmo que não seja possível saber de cor linha por linha de um livro, como geralmente acontece com uma música, ainda assim é possível deixar registrado relatos de outros tempos, como se o passado pudesse ser revisitado a qualquer momento. – Parte que precisou ser cortada da minha monografia (no momento de tirar os excessos de texto).

Dizem que não nos esquecemos do primeiro amor. Talvez por ele ser bom como sua música favorita. Talvez porque a história tenha sido tão marcante que não é possível esquecê-la.

Esse livro resgata de você a ingenuidade que se perdeu com o tempo, a esperança nas pessoas e o quanto algumas coisas não têm importância – enquanto outras são as mais importantes de todo o mundo. Além disso, corrobora o pensamento do jornalista, reescrito por mim no trecho acima. Eleanor & Park reflete o espírito de uma época, oferece a oportunidade de visitarmos o passado. No entanto, por se tratar de um tema tão agradável, e essa é uma boa palavra nesse caso, consegue ser facilmente atribuída a uma determinada época da vida, a momentos específicos, congelando uma memória, como se o tempo passasse mais lentamente.

Ah, se todos lessem Eleanor & Park…

Bibliografia

JOURNALIST’S RESOURCE. Student bullying on school buses: Comparing teen boys and girls. Disponível em: https://journalistsresource.org/studies/society/education/bullying-students-school-bus-teen-research?utm_source=JR-email&utm_medium=email&utm_campaign=JR-email

PENA, Felipe. Jornalismo literário. 1 ed. São Paulo: Contexto, 2008. 142 p.

ROWELL, Rainbow. Eleanor & Park. São Paulo: Novo Século Editora, 2014. 325 p.

quando só nos resta Ouvir o que o tempo tem a dizer

muita gente esperou por mim. acho até que será difícil agradar a todos, porque a expectativa é grande demais, mas vou Tentar. o problema é que, sozinho, não tenho o poder de melhorar a vida de ninguém. a verdade é que sempre estive aqui. não sou uma novidade. você apenas se sente melhor quando me imagina pequeno, inofensivo, novo. mal sabe que eu Estou aqui antes de tudo e de todos. e tudo bem.

talvez seja bom que pense em mim como uma criança. isso pode fazer com que você tenha mais cuidado. ao Menos nos primeiros dias, no engatinhar das primeiras semanas, dos primeiros passos. depois pode já desconfiar do porquê da permanência das coisas. ora, como se eu tivesse alguma culpa! a verdade é que eu apenas passo por você, mas também andamos lado ao lado. os que tomam atitudes mudam, aproveitando enquanto Passo. aliás, enquanto passamos.

mas eu gosto de dar voltas. queria frisar que eu não mudo nada. não tenho esse poder. Ora, sou apenas o meio que mostra que as mudanças existem, até mesmo em você. então não me culpe quando você não conquistar o que deseja. chego a dar risada. ninguém tem o poder de voltar. e seja paciente. se o que você sonha não é possível no momento, saiba esperar. o poder que você tem é escolher o que fazer a partir de agora. finalmente.

comigo você Pode contar. aliás, às vezes me contar é tudo o que fazem. mas, não sou apenas números, não se esqueça disso! Apesar de ser infinito, sou um pouco de tudo. sou música, sou trabalho, sou férias, também falho. Sou escolha, sou dinheiro, sou viagem em janeiro. curo as feridas de corações machucados. e você aprende comigo. você até mesmo me dá a mim mesmo quando quer se acalmar. e corre contra mim. Só não permita ser por mim carregado. hoje você está comigo, mas amanhã pode não estar. e Aí já será tarde demais. o que ainda faz aqui? vai lá me aproveitar. livre.

Nimona, a anti-heroína mais heróica (resenha sem spoilers) 

Nimona, de Noelle Stevenson, é uma história em quadrinhos divertida, inspiradora e do tipo isso-poderia-ser-considerado-infantil-mas-é-muito-mais-do-que-algo-para-crianças. Se você está procurando uma boa aventura que resgate de você aquela heroína (leia-se anti-heroína) que você sempre quis ser, leia este livro!

Quem é Nimona?

Nimona é uma menina-monstro. Ela é uma poderosa metamorfa, ou seja, tem o poder de se transformar em qualquer ser vivo “existente” que ela quiser, incluindo dragões!

Por ser a fã número 1 do maior vilão do reino, o temível Ballister Coração-Negro, Nimona inicia a aventura querendo ajudá-lo a realizar os seus malvados planos.

Em um primeiro momento, Coração-Negro não quer uma criança como comparsa, mas Nimona não aceita ter sua ajuda recusada e, quando ele vê que ela pode lhe ser útil, devido ao seu poder de transformação, diz que tudo bem, desde que ela obedeça as suas regras.

Os vilões mais divertidos que você respeita

Regras? Nimona não as conhece. Afinal, que vilão é esse que tem regras de conduta? Não pode isso, não pode aquilo. Como vão causar os transtornos que ela tanto deseja?


“Nimona” é aquela história que ensina que nem todas as pessoas são completamente boas ou más.

Quando Coração-Negro era jovem, perdeu o braço e, com isso, foi marginalizado. Estando à parte da sociedade, ele assumiu o posto de vilão. O seu trabalho era causar problemas ao reino, respeitando as leis da Instituição de Heroísmo & Manutenção da Ordem – que não é tão heróica quanto pensamos.

Além disso, gostei muito da história pela quebra de paradigmas que ela propõe, com a relação entre Coração-Negro e Sir Ouropelvis (o “mocinho” do reino). Ao longo do livro, vamos conhecendo melhor sobre esses dois e o que existe ali que provocou o acidente a Coração-Negro, ocasionando em sua saída da Instituição.

Outro ponto interessante é a mistura de tempo no universo onde vive Nimona. Poderia ser a idade média, se não fossem as televisões, geladeiras, computadores, e diversos aparatos que usamos nos dias de hoje, além das comidas, expressões e crítica social perfeitamente relacionada à nossa realidade.

Tudo isso torna o livro ainda mais encantador e divertido.

Os personagens que amamos

Nimona, discriminada desde criança por ser diferente. Ela cresce sozinha, é auto-suficiente, mas sabemos que precisa de alguém que a ajude a amadurecer. Afinal, ela vivia recusando ajuda.

Coração-Negro, discriminado desde que perdeu o braço e ficou diferente. Ele vive sozinho, é auto-suficiente, mas sabemos que precisa de alguém com quem possa se relacionar e se divertir, tornando a vida mais leve. Afinal, ele se sentia muito abandonado e magoado pelo antigo companheiro, Sir Ouropelvis, e desde então, se isolou.

Ambrosius Ouropelvis, estimado pela Instituição e por todos no reino. Ele é o exemplo para o reino, o herói. No início, sentimos até mesmo raiva de Ouropelvis porque sabemos que perfeito ele não é. Mas, com o tempo, vemos que pessoas admiradas também cometem erros e, apesar de nem todos saberem disso, no fundo, elas não esquecem e também se arrependem do mal que fizeram. É um personagem que ilustra a hipocrisia, mas em que enxergamos a essência humana, e nos identificamos quando há o reconhecimento por seus erros.

Não importa se você tem 10, 25 ou 50 anos! Nimona foi escrito para você, ser humano. 

Vamos encarar 2017 com a coragem de Nimona

Para saber mais, você pode acessar o site da criadora de Nimona, Ginger Haze, ou segui-la no Twitter! (Ambos em inglês).

Onde você encontra Nimona para comprar: