Me livrei das amarras conservadoras (e quiçá fascistas) que ainda prendem membros da minha família

A História é cíclica e já é possível perceber semelhanças entre o que está acontecendo no Brasil, diante da liderança de Você-Sabe-Quem nas pesquisas eleitorais, e o movimento integralista nos anos 1930. A Ação Integralista Brasileira tinha por inspiração o fascismo, disseminado por Mussolini na Itália, e por Hitler na Alemanha (nazismo).

“Os integralistas (…) seguiam o lema ‘Deus, pátria e família’ e saudavam o chefe com o brado ‘Anauê!’. Os integralistas sonhavam com uma ditadura nacionalista que eliminasse os comunistas. Na época, a Igreja católica era politicamente conservadora. Muitos padres brasileiros aderiram ao integralismo crendo que só o fascismo preservaria a moral cristã no Brasil”. (SCHMIDT, 2005, p. 144)

O discurso fascista mostrado no trecho acima, retirado do livro “Nova História Crítica”, que foi o que usei na 8ª série, lembra bastante o atual bordão daquele-que-não-deve-ser-nomeado: “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”. Aliás, ainda durante o início do governo de Getúlio Vargas, em 1934, o presidente já demonstrava simpatia ao movimento integralista. O problema maior surgiu em 1937, quando o governo forjou uma tramoia comunista e a usou como pretexto para dar um golpe na democracia.

“Apoiado pelas Forças Armadas, Getúlio cancelou as eleições e fechou o Congresso”. (SCHMIDT, 2005, p. 146)

Daí veio uma nova Constituição e começou a ditadura do Estado Novo, que perdurou até 1945.

Mas por que estou falando sobre esse período em particular, se em geral as pessoas comentam mais a respeito da Ditadura Militar de 1964 a 1985 para criticar o inominável? Porque me preocupa o tempo que leva para determinados pensamentos serem erradicados na sociedade.

Digamos que um homem que apoiava o integralismo tenha tido uma filha, que por sua vez tornou-se mãe. E o filho dela também procriou. Como quebrar essa linha de pensamento que contamina as relações humanas com discriminação, seja por meio do racismo, homofobia, ou machismo.

Com tantas pessoas ainda hoje apoiando esse tipo de discurso, quando a sociedade será formada por indivíduos que entendam os erros do passado para que eles não sejam repetidos? Até quando o nome de Deus será usado para legitimar discurso de ódio? E pior: demonstrar o ódio às minorias, como vimos nesta semana um vídeo de homens gritando que Você-Sabe-Quem mataria os gays. Afinal, não foi o próprio inominável que disse preferir um filho morto do que um filho homossexual? Difícil pensar que não há relação entre a fala e a manifestação de ódio, não é mesmo?

Mas eu tento não julgar essas pessoas por elas terem crescido no meio de homens opressores que estavam ali moldando a visão de mundo delas desde crianças. Se antes a função social da mulher era ser esposa e mãe, por exemplo, após a luta de muitas, hoje podemos estudar, trabalhar, sermos independentes. E ainda temos que persistir nessa luta diária pela equidade.  O que me motiva é justamente a minha própria existência. Quando penso que me livrei das amarras conservadoras (e quiçá fascistas) que ainda prendem membros da minha família, me vejo abraçada pela esperança de uma sociedade menos facista e mais liberal.

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Minhas apostas para o Oscar 2018 de Melhor Filme

Consegui, finalmente, assistir a todos os títulos indicados à categoria de Melhor Filme do Oscar. (Pela primeira vez na vida! Ufa!) Então decidi fazer – ainda há tempo – uma análise geral das obras que estão concorrendo em 2018.

Melhor Filme

O que eu quero que ganhe: Me Chame Pelo Seu Nome

Me Chame Pelo Seu Nome (Também está concorrendo a: Melhor Ator – Timothée Chalamet, Melhor Roteiro Adaptado, e Melhor Canção Original – “Mystery of love” de Sufjan Stevens)

Esse filme merece levar o Oscar por causa da sua história, atuações e local onde é gravado. Falo mais sobre esses fatores em uma resenha. Você pode lê-la clicando aqui. E ainda considero sua trilha sonora como um bônus que torna a adaptação desse livro homônimo maravilhoso ainda mais incrível e apaixonante! Além de assistir ao filme, recomendo ler o livro. É uma das histórias imperdíveis, que nós temos que encarar em algum momento da vida.

O que amei e acharia justo se ganhasse: Corra!

Corra! (Também concorre às categorias de: Melhor Direção – Jordan Peele, Melhor Ator – Daniel Kaluuya, Melhor Roteiro Original)

Não sou uma pessoa ligada a filmes de terror, mas esse título que deixou plugada na tela do início ao fim. É assustador, mas não de uma forma que te dá sustos horripilantes ao longo do filme. É assustador de uma forma real. Não sei o que é sofrer racismo na pele, mas Corra! conseguiu passar o sentimento de como é estar em meio a um grupo de pessoas racistas que agem como se não o fossem. Há comentários “sutis” porém bizarros que nos deixam intrigados enquanto aguardamos os próximos acontecimentos e tentamos entender o que está acontecendo na casa daquela família peculiar. Apesar de não ter sido meu predileto, eu amei esse indicado e, se vencer, considero com prêmio muito merecido!

O que recomendo a todos assistirem: Lady Bird – A Hora de Voar

Lady Bird – A Hora de Voar (Melhor Direção –Greta Gerwig, Melhor Atriz –Saoirse Ronan, Melhor Atriz Coadjuvante – Laurie Metcalf, Melhor Roteiro Original)

Gostei desse. Se eu fosse o bonequinho do jornal O Globo, estaria aplaudindo sentada a esse filme. A história é muito boa e, caso não vença Melhor Filme, torço para que leve Melhor Roteiro Original. A construção dos diálogos e maneiras de mostrar os sentimentos dos personagens são duas coisas que funcionaram muito bem juntas. Claro que as atuações contribuíram bastante para isso. Mesmo assim, não espero que a estatueta pare na mão de Saoirse Ronan. Laurie Metcalf, a atriz que fez o papel da mãe da personagem dela, porém, é capaz de ser considerada a Melhor Atriz Coadjuvante. Ela fez uma mãe firme, séria e severa, mas frágil em seu íntimo. A cena em que ela e a filha olham casas de ricos à venda é de partir o coração. Ali ficou evidente o quanto as duas são parecidas e de onde vieram os sonhos irreais de Christine McPherson.

O que reforça a paixão pela carreira: The Post – A Guerra Secreta

The Post – A Guerra Secreta (Melhor Atriz – Meryl Streep)

The Post foi uma história maravilhosa para reafirmar a paixão pelo jornalismo, ainda que não tenha chegado aos pés de Spotlight. Meryl Streep e Tom Hanks formaram uma dupla e tanto! O desenrolar dos fatos é interessante, e a gritante diferença entre homens e mulheres na década de 1970, fundamental de ser evidenciada.

Filmes “dobradinha”

O Destino de Uma Nação e Dunkirk se complementam primorosamente. Ambos contam a história do salvamento das Forças Armadas britânicas presas em Dunquerque, na França, durante o avanço dos nazistas na Segunda Guerra Mundial. Enquanto o primeiro mostra o desenrolar da política a partir da posse de Winston Churchill como primeiro-ministro do Reino Unido, o segundo mostra os soldados em meio à batalha da sobrevivência na praia no Norte da França.

O Destino de Uma Nação (Mehor Ator – Gary Oldman, Melhor Fotografia – Bruno Delbonnel, Melhor Figurino, Melhor Maquiagem e Cabelo, Melhor Design de Produção).

Dunkirk (Melhor Direção – Christopher Nolan, Melhor Fotografia – Hoyte van Hoytema, Melhor Mixagem de Som, Melhor Edição de Som, Melhor Design de Produção, Melhor Montagem, Melhor Trilha Sonora Original)

O superestimado, mas que gostei: A Forma da Água

Tomado como favorito entre os críticos de cinema, A Forma da Água não atingiu minhas expectativas. Não digo que é ruim, só não gostei tanto quanto esperava. É bonito e é bom para se distrair. A atuação de Sally Hawkins está excelente, mas Michael Shannon ficou péssimo. O vilão que ele interpretou ficou muito forçado, ele pesou na mão, como quando um cozinheiro erra na receita e o prato não fica como deveria. Ele me cansou. A fantasia do filme não me convenceu tão bem, assim como a história de amor entre a moça e a criatura marítima. No entanto, as cenas entre eles ficaram interessantes, assim como as cenas em que o casal recebe apoio de personagens inesperados.

A Forma da Água (Melhor Direção – Guillermo del Toro, Melhor Atriz – Sally Hawkins, Melhor Ator Coadjuvante – Richard Jenkins, Melhor Atriz Coadjuvante – Octavia Spencer, Melhor Roteiro Original, Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Melhor Mixagem de Som, Melhor Edição de Som, Melhor Design de Produção, Melhor Montagem, Melhor Trilha Sonora Original – Alexandre Desplat)

Os dois que se vencerem, vou considerar um desperdício de Oscar

Embora as atuações em Três Anúncios Para Um Crime estejam incríveis e os atores mereçam as indicações, o filme em si não é tão bom assim para um prêmio de Melhor Filme. A história é exagerada demais. Algumas cenas simplesmente não fizeram sentido e não ficou parecendo ser uma ironia como o filme argentino Relatos Selvagens. Pelo contrário, me deu a impressão de seriedade, só que de um jeito inverossímil.

Três Anúncios Para um Crime (Melhor Atriz – Frances McDormand, Melhor Ator Coadjuvante – Woody Harrelson / Sam Rockwell, Melhor Roteiro Original, Melhor Montagem, Melhor Trilha Sonora Original)

Finalmente, entre todos os indicados, Trama Fantasma é o mais fraco, para mim. O personagem principal é tão insuportável que chegou um momento do filme que eu não aguentava mais e fiquei me perguntando por que aquela mulher, interpretada por Vicky Krieps, não simplesmente ia embora??? Ficava com vontade de ela construir sua própria história em vez de se diminuir para um homem horroroso que não dava a menor para ela e para ninguém, só pensava nele próprio. Os vestidos, porém, de fato são lindos e acho que entre as indicações, seria justo Trama Fantasma vencer Melhor Figurino. (O que de fato aconteceu!)

Trama Fantasma (Melhor Direção – Paul Thomas Anderson, Melhor Ator – Daniel Day Lewis, Melhor Atriz Coadjuvante – Lesley Manville, Melhor Figurino, Melhor Trilha Sonora Original – Jonny Greenwood)

 

Três razões para ‘Me chame pelo seu nome’ ser meu indicado ao Oscar favorito

A adaptação do livro “Me chame pelo seu nome”, escrito por André Aciman, para o filme dirigido por Luca Guadagnino, é o meu favorito entre os indicados ao Oscar de Melhor Filme 2018, a levar a prêmio que será entregue neste domingo, em Los Angeles.

A primeira razão seria a história em si. O romance entre Elio e Oliver é tão bonito que me fez pensar no quanto um amor intenso nos faz sofrer. E o quanto isso é maravilhoso.

A necessidade de estar com a pessoa amada a todo instante, as tentativas de disfarçar o que é tão evidente e as de agir naturalmente como se nada estivesse parecendo consumir suas entranhas por dentro. Tudo isso está presente – e foi muito bem adaptado do livro para o cinema.

(Lendo a história, os pensamentos do adolescente são evidentes e bastante claros, mas o ator no filme conseguiu demonstrá-los por suas expressões, voz e linguagem corporal, o que me faz também torcer para que Timothée Chalamet ganhe o Oscar de Melhor Ator. Apesar disso, não acho que ele vá levar a estatueta, e sim Gary Oldman – sim, o Sirius Black de “Harry Potter” – por sua atuação em “O destino de uma nação”, em que ele encarna Winston Churchill. Mas devo dizer ainda que Chalamet está o-u-t-r-a pessoa em “Lady Bird: a hora de voar”, o que me fez admirá-lo ainda mais. Então mesmo achando que Oldman mereça o Oscar, não vou achar nem um pouco injusto se o novato vencer. Ainda sobre a questão da adaptação, amei que os diálogos foram preservados. A essência do livro está toda lá).

Me chame pelo seu nome
Uma das minhas cenas favoritas do filme “Me chame pelo seu nome” também é uma das partes que mais gostei no livro

E, convenhamos, é gostoso ver Elio deixar sua timidez de lado, enquanto Oliver vai se entregando, aos poucos, aos seus sentimentos.

A trilha sonora é envolvente e se encaixa muito bem com as cenas. Não é à toa que a música “Mystery of love”, de Sufjan Stevens, foi indicada ao Oscar de Melhor Canção Original – que, aliás, também torço para conquistar a estatueta.  Não acredito que seja um motivo para garantir o Oscar de Melhor Filme, mas considero um bônus que torna o filme ainda mais especial.

A próxima razão é a atuação dos atores Timothée Chalamet, no papel de Elio, e Armie Hammer, que interpreta Oliver. Fiquei surpresa quando vi ambos dizendo em entrevistas que são heterossexuais. (Indico assistir a essa participação deles no programa da Ellen Degeneres).

Timothée e Armie se beijam demonstrando tanta paixão no filme que imaginei que a produção tivesse escolhido artistas gays. De fato, não há nem como suspeitar que eles tenham outra orientação sexual. Mesmo nas cenas em que eles ficam com mulheres, você percebe claramente que aquelas pessoas não são as com que deveriam estar. Eles conseguem mostrar de uma forma muito natural que cada um combina com o outro. Os gostos semelhantes, as conversas, aquela casa na Itália maravilhosa, com os quartos dos dois um do lado do outro. Amei a situação relatada pelos atores na entrevista sobre “quebrar o gelo” no início das filmagens.

Algo que me deixou chocada foi saber que o ator Michael Stuhlbarg, que faz o pai de Elio, trabalhou também nos filmes “A forma da água” e “The Post: a guerra secreta”, que também estão concorrendo na categoria de Melhor Filme, sendo esse primeiro o favorito, segundo a mídia. O mais impressionante é que não consegui reconhecê-lo. Assisti aos três filmes sem perceber que era a mesma pessoa, mas depois li uma publicação no grupo do Cine Arte UFF que trazia essa informação, para minha surpresa.

Michael Stuhlbarg

O que me leva à terceira razão para ter amado muito “Me chame pelo seu nome”: o lugar. Viajei para a Itália em 2014 e considero como um dos lugares mais bonitos que já fui. No filme, aquela energia de um verão italiano é transmitida diretamente para o público. A impressão que tenho é que aquele país tem uma tonalidade amarela, uma luz diferente de qualquer outro lugar no mundo. E o filme conseguiu mostrar isso.

Assistir à obra é uma forma de descansar no Norte da Itália, aproveitar boas conversas, vencer os medos do que a sociedade pode pensar, viver uma história de amor e conseguir sobreviver a ela.

Para terminar, sugiro a vocês ouvirem a outra música do artista Sufjan Stevens que faz parte da trilha do filme:

Impressões após ler ‘O Conto da Aia’

Sem fôlego. É assim que fiquei quando terminei de ler “O Conto da Aia”, escrito pela canadense Margaret Atwood e publicado em 1985. (É bizarro o quanto permanece atual). A história é brutal, mas escrita de forma leve e instigante. É difícil deixar o livro de lado. Admito que comecei a ler, principalmente, por causa da vontade de ver a série depois, produzida pela Hulu, mas, conforme adentrei na cabeça de Offred, mais presa à escrita me senti. Agora, independentemente da adaptação, sei que o livro é indispensável. E estou satisfeita por ter feito a escolha de ler antes de começar a assistir.

O texto deixa a impressão de ir além das palavras redigidas. A experiência de ler “O Conto da Aia” é como acompanhar o processo da pintura de um quadro. A voz da narradora é poderosa e atraente. O livro beira a linguagem poética. Ela vai mostrando ao leitor imagens, pouco a pouco, com cuidado. Fragmentos da realidade em que ela vive na República de Gilead, onde um governo teocrático controla os passos de todos. Como se a personagem estivesse nos conhecendo e como se estivéssemos conquistando sua confiança, ela nos conta episódios de seu passado e os detalhes do presente, já tendo perdido sua identidade. 

“Uma cadeira, uma cama, um abajur. Acima no teto branco, um ornamento em relevo em forma de coroa de flores, e no centro dele um espaço vazio, coberto de emboço, como o lugar em um rosto onde o olho foi tirado fora. Outrora deve ter havido um lustre, um candelabro. Eles tinham removido qualquer coisa em que você pudesse amarrar uma corda.

Uma janela, duas cortinas brancas. Sob a janela, um assento com uma pequena almofada. Quando a janela está parcialmente aberta — ela só se abre parcialmente — o ar pode entrar e fazer as cortinas se mexerem.”

Trecho de: Atwood, Margaret. “O Conto da Aia.” iBooks. 

Seu nome, Offred, faz sentido quando entendemos que “of”, em inglês, significa “de”. Assim, ela é identificada como “De Fred”, sendo este o nome do comandante do qual deve engravidar, para cumprir seu papel na sociedade. 

Facebook (Margaret Atwood)/Reprodução

O livro vale a pena ser lido não só por passar uma mensagem forte, fantasiada de crítica a um pensamento que diminui as mulheres, mas também por ser muito bem escrito. O regime autoritário narrado é assustador, chega a ser angustiante, mas, devido à proximidade que estabelece entre os leitores e a personagem principal, é impossível largar o livro sem saber o que vai acontecer com ela. Lendo, realmente passei a me importar com Offred. Conforme acontecimentos absurdos são expostos, me surpreendo com o quanto refletem visões já presentes entre nós, por algumas pessoas que, aliás, detém posições de liderança política. Tais visões são apenas amplificadas pelo regime autoritário que dissolveu os Estados Unidos, na história. 

Na distopia, o presidente é assassinado, o Congresso desfeito, e os filhos de Jacob assumem o poder. As religiões como conhecemos tampouco são permitidas. O que o livro critica não é a fé, mas, sim, aquela outra palavra com “f”, o fundamentalismo. Os casais que não são unidos na seita bizarra da história têm seus casamentos desfeitos, como acontece com a Offred. Ela começou a se relacionar com Luke quando ele ainda estava casado, portanto, apesar do posterior divórcio, a união deles não é considerada legítima. Sua filha lhe é tirada para morar com outra família que segue os valores tradicionais. De seu marido, não sabemos. Offred, por sua vez, é enviada ao Centro Vermelho Raquel e Lea, onde aprende os dogmas do regime com as Tias, mulheres mais velhas que forçam os novos costumes goela abaixo das “meninas” consideradas privilegiadas por serem férteis numa época em que isso tornou-se raro. 

“Mas de quem foi a culpa?, diz tia Helena, levantando um dedo roliço.

Dela, foi dela, foi dela, foi dela, entoamos em uníssono.

Quem os seduziu? Tia Helena sorri radiante, satisfeita conosco.

Ela seduziu. Ela seduziu. Ela seduziu.

Por que Deus permitiu que uma coisa tão terrível acontecesse?

Para lhe ensinar uma lição. Para lhe ensinar uma lição. Para lhe ensinar uma lição.”

Trecho de: Atwood, Margaret. “O Conto da Aia.” iBooks. 

No período que antecedeu o autoritarismo, a taxa de natalidade caiu absurdamente, muitas pessoas contraíram doenças que as impediram de ter filhos e acidentes em usinas nucleares emitiram quantidades grandes de radiação e lixo tóxico que prejudicou ainda mais o meio ambiente, tornando certos locais inviáveis para a habitação humana. Apesar disso, o regime enviou para tais áreas perigosas, consideradas fatais e chamadas de Colônias, os desobedientes, as Não mulheres, como feministas, lésbicas, além daquelas que trabalhavam como Aias, mas não conseguiram gerar bebês. Afinal, elas serviam apenas com esse objetivo. Nem todas as Colônias, porém são tóxicas. Algumas delas são localizadas em plantações e as pessoas que nelas moram trabalham para levar produtos às cidades. Os criminosos, contudo, não tinham a mesma “sorte”. Uma vez executados, tinham seus corpos expostos no Muro, em via pública, servindo de lição para os demais. Como forma de moeda de troca, presos políticos eram apresentados como estupradores diante das Aias, que sem desconfiar de suas reais intenções, podiam agir da forma como bem entendessem, descontando seus sentimentos oprimidos. Tal linchamento recebeu o nome de Particicução. 

Facebook (Margaret Atwood)/Reprodução

Outras mulheres ocupam posições distintas, como as Esposas, as Econoesposas (de famílias menos abastadas), Marthas (empregadas domésticas), Tias (propulsoras do regime), e Salvadoras (capatazes a serviço do governo). (Não oficialmente, havia as prostitutas para o alto escalão).  

“— A Natureza exige variedade para homens. É lógico, razoável, faz parte da estratégia de procriação. É o plano da Natureza. — Não digo nada, de modo que ele prossegue. — As mulheres sabem disso instintivamente. Por que elas compravam tantas roupas diferentes, nos velhos tempos? Para enganar os homens levando-os a pensar que eram várias mulheres diferentes. Uma nova a cada dia.

Ele diz isso como se de fato acreditasse, mas diz muitas coisas assim. Talvez acredite mesmo, talvez não acredite ou talvez faça ambas as coisas ao mesmo tempo. Impossível saber em que ele acredita.

— De modo que agora, que não temos roupas diferentes — digo —, vocês apenas têm mulheres diferentes. — Isso é ironia, mas ele não demonstra ter notado.”
Trecho de: Atwood, Margaret. “O Conto da Aia.” iBooks. 

Os homens também ocupam diferentes cargos, como Comandantes, Guardiões (membros do Exército), Olhos (espiões, tipo investigadores, para pegar quem estaria traindo o regime), Salvadores, além de servos de serviços gerais, como o motorista Nick, que trabalha para o mesmo Comandante que Offred. 

As relações entre as pessoas da sociedade de Gilead são estritamente formais, pelo menos oficialmente, preenchidas com diálogos próprios com base na seita cristã que rege o novo estado.

“— Bendito seja o fruto — diz ela para mim, a expressão de cumprimento considerada correta entre nós.

— Que possa o Senhor abrir — respondo, a resposta também correta.”

Trecho de: Atwood, Margaret. “O Conto da Aia.” iBooks. 

Ao mesmo tempo em que me senti mal pelos personagens e por quem pensa de forma muito semelhante ao que a distopia apresenta, senti-me aliviada por viver numa era em que ainda há esperança de que o mundo mude para melhor. De que as mulheres não sejam vistas como coisas e que as pessoas tenham liberdade para amar quem elas amam e serem quem elas são. De que possamos compreender o outro, respeitando sua realidade, limitações e escolhas. De que medidas de regimes totalitários do passado fiquem no passado. De que haja justiça da forma como deva ser feita justiça. De que haja amor. 

“Nada muda instantaneamente: numa banheira que se aquece gradualmente você seria fervida até a morte antes de se dar conta. Havia matérias nos jornais, é claro. Corpos encontrados em valas ou na floresta, mortos a cacetadas ou mutilados, que haviam sido submetidos a degradações, como costumavam dizer, mas essas matérias eram a respeito de outras mulheres, e os homens que faziam aquele tipo de coisas eram outros homens. Nenhum deles eram os homens que conhecíamos. As matérias de jornais eram como sonhos para nós, sonhos ruins sonhados por outros. Que horror, dizíamos, e eram, mas eram horrores sem ser críveis. Eram demasiado melodramáticas, tinham uma dimensão que não era a dimensão de nossas vidas.

Éramos as pessoas que não estavam nos jornais. Vivíamos nos espaços brancos não preenchidos nas margens da matéria impressa. Isso nos dava mais liberdade.

Vivíamos nas lacunas entre as matérias.”
Trecho de: Atwood, Margaret. “O Conto da Aia.” iBooks. 

Para quem está buscando um livro que seja um soco no estômago, fica aqui a sugestão para  “O Conto da Aia”. Desde que não interpretem seu conteúdo como um manual, tudo bem. Que fique claro que o livro é uma crítica ao regime que ele apresenta. Deve ser lido como “o que devemos evitar”, “para qual caminho não devemos seguir”. Façamos diferente. Sejamos diferentes.

“Quando eu sair daqui, se algum dia conseguir registrar isso, de qualquer modo, mesmo sob a forma de uma voz para outra, será uma reconstrução também, em um grau ainda mais distante. É impossível dizer alguma coisa exatamente da maneira como foi, porque o que você diz nunca pode ser exato, você sempre tem de deixar alguma coisa de fora, existem partes, lados, correntes contrárias e nuances demais; gestos demais, que poderiam significar isto ou aquilo, formas demais que nunca podem ser plenamente descritas, sabores demais, no ar ou na língua, semitonalidades, quase cores, demais. Se acontecer de você ser homem, em qualquer tempo no futuro, e tiver chegado até aqui, por favor lembre-se: você nunca será submetido à tentação de sentir que tem de perdoar um homem, como uma mulher. É difícil de resistir, creia-me. Mas lembre-se de que o perdão também é um poder. Suplicar por ele é um poder, e recusá-lo ou concedê-lo é um poder, talvez de todos o maior.

Talvez nada disso seja a respeito de controle. Talvez não seja realmente sobre quem pode possuir quem, quem pode fazer o que com quem e sair impune, mesmo que seja até levar à morte. Talvez não seja a respeito de quem pode se sentar e quem tem de se ajoelhar ou ficar de pé ou se deitar, de pernas abertas arreganhadas. Talvez seja sobre quem pode fazer o que com quem e ser perdoado por isso. Nunca me diga que isso dá no mesmo.”

Trecho de: Atwood, Margaret. “O Conto da Aia.” iBooks. 

Após ataque em Las Vegas, guitarrista muda de opinião sobre a segunda emenda

Um atirador, identificado como Stephen Paddock, de 64 anos, abriu fogo contra milhares de pessoas que curtiam o festival de música country Route 91 em Las Vegas, nos Estados Unidos, na madrugada desta segunda-feira (2), deixando 58 mortos e mais de 500 feridos, segundo a polícia.

Esse fato por si só já foi o bastante para ser um choque em todo o mundo. Conforme foram surgindo informações sobre o autor dos disparos, mais dúvidas sobre a motivação do massacre apareceram. O Estado Islâmico reivindicou a sua autoria, mas não apenas a família do suspeito, já encontrado morto pelos policiais em um quarto do 32º andar do cassino Mandalay Bay, afirmou desconhecer qualquer afiliação religiosa da parte dele, como também o FBI negou uma conexão entre ele e o grupo terrorista. No cômodo de Stephen, havia mais de dez armas. Com isso, ainda não há um motivo concreto que ajude a elucidar as razões que levaram o aposentado a cometer tal atrocidade.

Em decorrência deste que foi o ataque armado com maior número de vítimas nos Estados Unidos, o guitarrista do conjunto Josh Abbott Band mudou sua opinião a respeito da segunda emenda à constituição americana. Caleb Keeter escreveu em seu perfil do Twitter que defendeu o direito ao porte de armas durante toda sua vida – até este momento. “Eu não consigo expressar o quanto estava errado”, disse o músico.

 

Keeter contou que integrantes da equipe técnica da banda possuem licenças para possuirem armas, inclusive algumas delas estavam no ônibus deles. “Elas foram inúteis”, registrou o guitarrista na rede social. A conclusão a que ele chegou é a necessidade de um controle de armas nos Estados Unidos com urgência.

O músico explicou em sua publicação que ninguém da equipe técnica podia acessar suas armas para não confundir os agentes, que poderiam pensar que fizessem parte do ataque e os atingissem por medida preventiva. “Meu maior arrependimento é, teimosamente, não ter percebido isso até eu e meus irmãos de estrada sermos ameaçados”, confessou.

“Escrever adeus aos meus pais e ao amor da minha vida ontem à noite e meu testamento vital porque senti que não sobreviveria no decorrer da noite foi o suficiente para eu perceber que isso está completa e totalmente fora de controle. Esses disparos foram poderosos o bastante para que os caras da minha equipe técnica, estando próximos a uma vítima baleada por este covarde da porra, ficassem com ferimentos por estilhaços”, frisou Keeter.

Considero como nobre a reação do guitarrista ao reconhecer seu erro e admitir, publicamente, que mudou de lado sobre as vendas de armas nos Estados Unidos, que é um sério problema, apontado por muitos já há algum tempo. A tragédia de Las Vegas marcou a história americana, mas ao menos serviu para abrir os olhos para uma possível mudança. Não vejo, contudo, essa possibilidade acontecendo ainda durante o mandato do presidente Donald Trump, mas vejo a retomada do debate como algo minimamente positivo a partir de uma barbárie tão devastadora. Minhas orações estão com as vítimas e suas famílias.

Em outro post, vale destacar, o músico salientou que “não viverá com medo de ninguém”. E assim todos devemos seguir, independentemente de onde ocorreu o massacre. A dor humana é compartilhada entre todos que sentem empatia.

“Mãe!” Significados e referências bíblicas 

“Mãe!” (2017), da direção de Darren Aronofsky, é uma obra para incomodar e promover discussões. Não é um filme para relaxar e assistir despretensiosamente. Admito que até a ficha cair demorou um pouco, pelo menos para mim. O início é arrastado, mas quando você percebe o que está acontecendo, cada minuto compensa. 

Este texto contém spoilers. Caso você não tenha ainda assistido ao filme, recomendo que pare a leitura aqui. 

As referências bíblicas foram surgindo aos poucos e o momento mais claro pra mim de que se tratava de uma alegoria ocorreu na cena em que o poeta (Javier Bardem) marca a testa de um dos seus leitores com tinta. Aquela imagem está tão ligada à Quarta-feira de Cinzas que não consegui imaginar mais em qualquer outra coisa além do Cristianismo. Com isso, quando o bebê nasceu, já tinha entendido que seria Jesus e não me surpreendi quando ele morreu nas mãos dos seguidores do pai dele. 

– A quebra da pedra e a morte do irmão 

Um acontecimento antes mesmo de a personagem da Jennifer Lawrence engravidar passou a fazer sentido depois que pesquei as referências bíblicas. 

O casal de hóspedes (Ed Harris e Michelle Pfeiffer), que invade o escritório do poeta – o cômodo proibido da casa -, representam Adão e Eva. Ela leva o homem até o local onde o Criador não permita a entrada de ninguém sem a sua presença. Lá, encostam e quebram o objeto mais precioso e querido do dono da casa, tal como Eva faz com que Adão coma a maçã da árvore proibida. O seguimento da história segue a mesma alegoria com a morte de um dos irmãos, tal como Caim e Abel. 

– O novo poema 

Depois das histórias do Antigo Testamento, chega uma nova era da vida do Criador. A partir do momento que a mulher engravida, ele escreve mais, o que pode ser interpretado como o Novo Testamento. A vinda de Jesus foi um divisor de águas e modificou a forma de muitas pessoas olharem o mundo. A ideia de sermos irmãos e compartilharmos as coisas fazem parte disso. Até mesmo quando o bebê morre, há a cena em que os seguidores do poeta comem seu corpo, assim como nós, católicos, comemos o corpo e bebemos o sangue de Cristo. 

No entendo, outro pensamento que também tive é que o novo poema do escritor pode ser a própria história a que estamos assistindo. Pode ser uma metalinguagem empregada ali. Afinal de contas, alguém pensou nessa história e criou aqueles personagens. O texto escrito pelo Criador pode ali no filme ser a própria história deles, o que de certa forma, se encaixa com a teoria de uma alegoria ao Novo Testamento. 

– A representação do mundo

As palavras dele se espalham e a população de seguidores surge em sua casa. Uma das cenas parecia claramente a imagem de um noticiário de protesto, ao mostrar conflito entre batalhão do choque e manifestantes. Houve música, explosões de guerra, mortes, fanatismo. Tudo o que existe e nos incomoda. Tudo o que queremos mudar, mas que foge do nosso alcance. Também queremos que parem. Entendi a dor da personagem gritando e clamando e ninguém a ouvindo. 

Nessa parte friso a crítica que o filme fez ao machismo. Chega a doer quando a mãe está sendo agredida devido a sua reação após a morte de seu filho. Os xingamentos são aqueles clássicos dirigidos às mulheres: vadia, puta, cachorra, etc. Vi um machismo também na forma como ela se portava diante do marido por meio da divisão de papéis entre eles. Ele escreve e ela arruma a casa. Depois, claro, entendemos que ela É a casa, o lar. Mas até chegar a esse ponto, ela foi retratada como a musa do poeta. 

– Ninguém ouve 

Isso tudo fez com que eu pensasse no quanto a humanidade está destruindo o mundo e parece que ninguém está ouvindo os chamados da natureza. A casa que estava sob reforma foi ficando cada vez mais danificada. As pessoas estavam derrubando e acabando com todo o trabalho da personagem. E não importava o quanto ela gritasse e pedisse, as pessoas continuavam abusando e utilizando suas coisas e roubando seus pertences. Ela tentou mostrar, mas quem poderia escutá-la? Quem está escutando? São furacões, terremotos e vulcões acontecendo e pessoas morrendo. Não seriam gritos pedindo o fim da destruição? 

– O trabalho como um parto 

Quando fazemos um trabalho que exige muito de nós, dizemos que foi “um parto”. Então acredito que essa também seja uma interpretação válida para explicar que a partir do momento que a inspiração do poeta engravidou, ele começou a escrever. Quando o trabalho foi concluído, ela deu à luz. Um trabalho importante é como um filho, é como algo que faz parte da gente, porque, afinal, é algo que veio de nós, saiu de nossas entranhas. Ao terminarmos, entregamos para o mundo aquilo que somos. E as pessoas fazem daquilo o que bem entenderem. (Desde fanfics até adaptações para o cinema, no caso de livros, por exemplo). As pessoas podem até mesmo destroçar a sua criação. Isso pode ser simbolizado na morte do bebê. (E que cena forte foi aquela!) 

“Mãe!” é provocativo e é um ótimo filme para ser visto e debatido. Você saí do cinema com vontade de conversar. Você olha pro lado e já quer falar com sua companhia: “Você entendeu o mesmo que eu?”. 

E vocês, o que entenderam depois de assistir a “Mãe!”? Deixe sua opinião nos comentários! 

Grandes olhos: resenha

A artista americana Margaret Keane, de 89 anos, acredita que os olhos são a janela da alma e se baseia em seus sentimentos para pintar belíssimos quadros que encantam a todos. No entanto, para levar o crédito por suas pinturas, precisou vencer o machismo dos anos 1950 e 1960, que se fez presente em sua vida por meio de um relacionamento abusivo que a consumiu por dentro, despedaçando-a pouco a pouco, enquanto seu marido fora reconhecido por um trabalho que não lhe pertencia por anos a fio.

O filme “Grandes Olhos” (2014), dirigido por Tim Burton e estrelado por Amy Adams e Christoph Waltz, apareceu nas opções da Netflix na seção “Adicionados recentemente” e eu e minha mãe resolvemos assisti-lo. E ficamos encantadas. 


A atuação da Amy Adams é deslumbrante, como sempre. (Não teve um trabalho dela de que eu não gostei). Vê-la subjugada provoca uma dor misturada com raiva. Raiva que você não quer sentir dela, porque ela é a vítima ali. O segundo marido aplica um golpe terrível e leva o crédito por todo o trabalho de Margaret, mas ela acredita nas palavras do salafrário de que “é melhor assim”. E continua pintando para ele. 

Gostei muito de ver a relação entre a pintora e a filha. É baseada em companheirismo e amor pleno. Desde o início, quando elas deixam a casa do primeiro marido de Margaret em um típico subúrbio American Way of Life rumo às ladeiras de São Francisco, onde ela começaria a mostrar sua arte em uma freira de rua em dias ensolarados. 

Em um desses dias, ela conhece o homem que, em um primeiro momento, demonstra charme, elegância e sedução com o papinho de “ah, as ruas de Paris”. (Blah). 

Conforme a relação avança, os dois dividem o mesmo sobrenome e, conforme Margaret assina seus quadros, a ideia de assumir o crédito por eles surge na mente do impostor. É assim vai, por anos. 

“De onde vem suas ideias?”, uma pessoa perguntou ao impostor que, boquiaberto, não soube dizer. Ficou ali observando um quadro em uma das exposições de sucesso da arte produzida por sua mulher. 

A mulher dele sofre em silêncio. E parece que quanto mais sofre, mais pinta. Parece trabalho escravo. Extorsão de vida, de identidade. 


Margaret viveu em um tempo em que mulher separada não tinha respeito, arte feminina não costumava ser reconhecida, esposas ficavam em casa enquanto o marido tinha o posto de provedor do lar. Tudo isso favoreceu para ela ficar nas mãos do impostor, que de artista não tinha nada. Mas a mentira dele terminou. A força que ela sempre teve guardada renasceu. E ela continua pintando. Vivendo. E emocionando. 

Deixo aqui essa dica de um filmaço. Verdadeiro e inspirador. 

13 Reasons Why | Precisamos falar sobre suicídio

Eu não tinha certeza se escrever uma resenha sobre 13 reasons why seria a coisa certa a ser feita porque tinha medo de me expor demais. Mas desde que terminei de assistir a série ontem às 2h da manhã, não consegui parar de pensar sobre a Hannah, Clay, Justin, Alex, e as vidas de todos aqueles personagens e como não podemos julgar ninguém. 

Pensei sobre minhas dificuldades e das pessoas próximas a mim que também já passaram por problemas. Aliás, quem não passa por problemas? 

O mais importante da série é o efeito que ela provoca. A conscientização, as conversas que ela gera e, se tudo der certo, as transformações na forma como nos relacionamos. Uma pessoa deprimida não pode passar despercebida. 

Hannah é uma adolescente que muda de escola e, sem ter muitos amigos, ganha uma reputação de “vadia” depois que os meninos viralizam uma foto dela pra todo mundo ver. Aos poucos, o bullying vai crescendo e se torna uma bola de neve, que ela chama de “efeito borboleta”. Os acontecimentos vão se embolando e piorando tudo. E durante todo esse tempo, Hannah sofre silenciosamente. 

Ela é uma menina incrível, bonita, inteligente, que escreve bem, e poderia ter sido feliz. Mas, conforme ela relata nas fitas que gravou justificando seu suicídio, as pessoas destruíram pouco a pouco sua alma, quem ela era, deixando-a completamente vazia e sem propósito. Ela se sente um fardo para os pais e imagina que a vida de todos seria melhor sem ela, porque a vida dela deixa de ter valor pra ela própria. 

O cyberbullying também marca presença na série, ressaltando que o sofrimento não surge apenas cara a cara. As pessoas se escondem por trás de um dispositivo e se sentem mais livres da responsabilidade de propagar determinada imagem ou boato, sem pensar que aquele simples ato traz sérias consequências. 

Às vezes algo que parece pequeno pode provocar uma dor muito grande no outro. E não é fácil perceber isso. 

É uma série forte e muito pesada, mas extremamente necessária. É muito importante que as pessoas assistam. Tanto as que possivelmente cometem atitudes semelhantes aos dos colegas de escola da Hannah, quando as pessoas que se sentem como ela. 

E se você precisa de ajuda, conversa com alguém, se abre, mostra o que está sentindo, mesmo que não esteja sentindo nada. Há muitas pessoas que também se sentem assim. Você não está sozinho, ainda que tudo indique que está. 

Em setembro de 2015, tudo o que eu queria era sumir. Mas consegui falar e contar pros meus pais o que estava acontecendo. Vamos falar sobre isso, vamos enfrentar e enxergar que há sempre uma saída, que as coisas melhoram e a escuridão passa. 

A história da Hannah não precisa ser a história de outras meninas e meninos.

Se você estiver procurando o que assistir, veja 13 Reasons Why. Se não estiver procurando, assista. Não seja um porquê na vida de alguém, e se você tiver um porquê, fale sobre isso. Nem todo mundo é ruim. Ainda há pessoas boas. Acredite em mim. 

Centro de Valorização da Vida: http://cvv.org.br

Jojo Moyes fala do terceiro livro sobre Louisa Clark

Jojo Moyes, a autora dos livros “Como eu era antes de você” e “Depois de você”, sobre o relacionamento entre Louisa Clark e Will Traynor, que conquistaram corações mundo a fora, confirmou em seu perfil nas redes sociais que a saga continua em nova publicação.  

Leia a postagem traduzida na íntegra:

“Estou animada para anunciar que a história continua para Louisa Clark! A garota que todos nós conhecemos e amamos de COMO EU ERA ANTES DE VOCÊ e DEPOIS DE VOCÊ retornará em um novo livro a ser lançado na primavera de 2018, mas se encontrará despedaçada entre sua antiga vida e a nova. Para saber mais, assine a newsletter de Jojo Moyes: http://www.jojomoyes.com/

 Mais em: http://usat.ly/2lHhG7c”


Na imagem acima, Jojo afirma que “Eu sempre soube que uma vez que eu me comprometesse a escrever uma continuação para ‘Como eu era antes de você’, eu também iria escrever um terceiro livro… Revisitar a história de Lou tem sido uma alegria, enquanto eu a impulsiono a ir para um novo país, um mundo novo, e uma casa repleta de segredos. Com sua usual mistura de honor e emoção, ela precisa perguntar a si mesma algumas perguntas fundamentais, como a que lado do Atlântico ela realmente pertence? Espero que os leitores aproveitem essa nova aventura tanto quanto eu aproveitei escrevendo-a”.

Quem aí também está ansioso por essa continuação? o/ 

As emoções de ‘Manchester à beira-mar’ | sem spoilers

Após meu repentino sumiço, voltei para continuar a maratona de resenhas especiais para o Oscar 2017. Como mudei de emprego, precisei de um tempo para me adaptar à nova função e ao novo horário. Agora, já me sinto mais descansada, então vamos a “Manchester à beira-mar”!

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Manchester à beira-mar concorre em seis categorias do Oscar 2017

A história se passa em uma cidade no estado do Maine, a aproximadamente 270km de Boston, onde Lee Chandler (Casey Affleck) trabalha como um zelador e vive sozinho. No entanto, precisa retornar a Manchester quando recebe a notícia do falecimento de seu irmão, Joe (Kyle Chandler). Aos poucos, somos apresentados à família e aos amigos de Lee. Ficamos sem entender, em um primeiro momento, por que ele mostra-se tão relutante a voltar para sua cidade natal.

O suspense é preenchido com belas paisagens e as reações de cada personagem, à sua maneira, após a morte de Joe. O sobrinho de Lee, Patrick (Lucas Hedges), parece encarar bem a situação inicialmente, mas há uma cena em que ele se desmancha e deixa suas emoções à mostra, provando que ninguém é de ferro. Nem mesmo o adolescente do time de hockey da escola, que se acha durão o suficiente, pode encarar qualquer coisa facilmente. Há conflitos internos maiores do que podemos imaginar.

A relação entre tio e sobrinho é conturbada nesse processo de adaptação à nova realidade. Lee se considera como apenas um “apoio” na vida de Patrick. De repente, se descobre na nova função de tutor legal do adolescente. Com isso, veem as responsabilidades de cuidar de Patrick como um pai e os questionamentos e as incertezas se ele está apto para esta função. No entanto, Joe confiava em Lee o suficiente para colocar em seu testamento o desejo que ele retornasse a Manchester e tomasse conta de seu filho.

Lee considera entregar Patrick para a mãe que há muitos anos se separou de Joe, não convivendo mais com o filho. No entanto, ainda que tenha mudado com o tempo, deixando para trás os vícios que a atormentavam no passado, a ligação entre ela e o filho não poderia ser mais a mesma. E, com isso, o tio do garoto foi percebendo cada vez mais que era para ele levar adiante a criação de Patrick. Um precisava do outro para superar as dores que os seguiam.

As razões que repelem Lee daquele lugar aparecem posteriormente. Então entendemos seus medos e nos compadecemos por suas dores. O relacionamento com a ex-mulher, Randi (Michelle Williams) que havia há muito esfriado, mexe com ambos quando Lee volta a Manchester.

Manchester by the Sea (screengrab from EW.com Exclusive clip)
Michelle Williams concorre ao Oscar de melhor atriz coadjuvante

A atuação de Williams está brilhante, ainda que eu não ache que ela vá vencer a estatueta. Nesse caso, minha aposta é Octavia Spencer, de “Estrelas Além do Tempo”.

Dirigido por Kenneth Lonergan, o longa conta com seis indicações ao Oscar: melhor filme, direção, roteiro original, melhor ator (Casey Affleck), melhor ator coadjuvante (Lucas Hedges) e melhor atriz coadjuvante (Michelle Williams), sobre a qual você pode ler no texto de Louise Smith que aborda a performance de Williams, além das demais atrizes que concorrem com ela.

As acusações de assédio sexual ao ator Casey Affleck

Quando Casey Affleck recebeu o Globo de Ouro em janeiro por sua atuação em “Manchester à beira-mar”, as redes sociais foram tomadas por críticas dos que não se esqueceram das acusações de assédio sexual feitas por duas mulheres durante a produção do filme “Eu ainda estou aqui” (2010). O caso foi resolvido na época por um acordo extrajudicial. No entanto, muitos questionam Hollywood por não levar em consideração a ética dos atores no momento de classificar quem está apto a receber prêmios por seus trabalhos.