Impressões após ler ‘O Conto da Aia’

Sem fôlego. É assim que fiquei quando terminei de ler “O Conto da Aia”, escrito pela canadense Margaret Atwood e publicado em 1985. (É bizarro o quanto permanece atual). A história é brutal, mas escrita de forma leve e instigante. É difícil deixar o livro de lado. Admito que comecei a ler, principalmente, por causa da vontade de ver a série depois, produzida pela Hulu, mas, conforme adentrei na cabeça de Offred, mais presa à escrita me senti. Agora, independentemente da adaptação, sei que o livro é indispensável. E estou satisfeita por ter feito a escolha de ler antes de começar a assistir.

O texto deixa a impressão de ir além das palavras redigidas. A experiência de ler “O Conto da Aia” é como acompanhar o processo da pintura de um quadro. A voz da narradora é poderosa e atraente. O livro beira a linguagem poética. Ela vai mostrando ao leitor imagens, pouco a pouco, com cuidado. Fragmentos da realidade em que ela vive na República de Gilead, onde um governo teocrático controla os passos de todos. Como se a personagem estivesse nos conhecendo e como se estivéssemos conquistando sua confiança, ela nos conta episódios de seu passado e os detalhes do presente, já tendo perdido sua identidade. 

“Uma cadeira, uma cama, um abajur. Acima no teto branco, um ornamento em relevo em forma de coroa de flores, e no centro dele um espaço vazio, coberto de emboço, como o lugar em um rosto onde o olho foi tirado fora. Outrora deve ter havido um lustre, um candelabro. Eles tinham removido qualquer coisa em que você pudesse amarrar uma corda.

Uma janela, duas cortinas brancas. Sob a janela, um assento com uma pequena almofada. Quando a janela está parcialmente aberta — ela só se abre parcialmente — o ar pode entrar e fazer as cortinas se mexerem.”

Trecho de: Atwood, Margaret. “O Conto da Aia.” iBooks. 

Seu nome, Offred, faz sentido quando entendemos que “of”, em inglês, significa “de”. Assim, ela é identificada como “De Fred”, sendo este o nome do comandante do qual deve engravidar, para cumprir seu papel na sociedade. 

Facebook (Margaret Atwood)/Reprodução

O livro vale a pena ser lido não só por passar uma mensagem forte, fantasiada de crítica a um pensamento que diminui as mulheres, mas também por ser muito bem escrito. O regime autoritário narrado é assustador, chega a ser angustiante, mas, devido à proximidade que estabelece entre os leitores e a personagem principal, é impossível largar o livro sem saber o que vai acontecer com ela. Lendo, realmente passei a me importar com Offred. Conforme acontecimentos absurdos são expostos, me surpreendo com o quanto refletem visões já presentes entre nós, por algumas pessoas que, aliás, detém posições de liderança política. Tais visões são apenas amplificadas pelo regime autoritário que dissolveu os Estados Unidos, na história. 

Na distopia, o presidente é assassinado, o Congresso desfeito, e os filhos de Jacob assumem o poder. As religiões como conhecemos tampouco são permitidas. O que o livro critica não é a fé, mas, sim, aquela outra palavra com “f”, o fundamentalismo. Os casais que não são unidos na seita bizarra da história têm seus casamentos desfeitos, como acontece com a Offred. Ela começou a se relacionar com Luke quando ele ainda estava casado, portanto, apesar do posterior divórcio, a união deles não é considerada legítima. Sua filha lhe é tirada para morar com outra família que segue os valores tradicionais. De seu marido, não sabemos. Offred, por sua vez, é enviada ao Centro Vermelho Raquel e Lea, onde aprende os dogmas do regime com as Tias, mulheres mais velhas que forçam os novos costumes goela abaixo das “meninas” consideradas privilegiadas por serem férteis numa época em que isso tornou-se raro. 

“Mas de quem foi a culpa?, diz tia Helena, levantando um dedo roliço.

Dela, foi dela, foi dela, foi dela, entoamos em uníssono.

Quem os seduziu? Tia Helena sorri radiante, satisfeita conosco.

Ela seduziu. Ela seduziu. Ela seduziu.

Por que Deus permitiu que uma coisa tão terrível acontecesse?

Para lhe ensinar uma lição. Para lhe ensinar uma lição. Para lhe ensinar uma lição.”

Trecho de: Atwood, Margaret. “O Conto da Aia.” iBooks. 

No período que antecedeu o autoritarismo, a taxa de natalidade caiu absurdamente, muitas pessoas contraíram doenças que as impediram de ter filhos e acidentes em usinas nucleares emitiram quantidades grandes de radiação e lixo tóxico que prejudicou ainda mais o meio ambiente, tornando certos locais inviáveis para a habitação humana. Apesar disso, o regime enviou para tais áreas perigosas, consideradas fatais e chamadas de Colônias, os desobedientes, as Não mulheres, como feministas, lésbicas, além daquelas que trabalhavam como Aias, mas não conseguiram gerar bebês. Afinal, elas serviam apenas com esse objetivo. Nem todas as Colônias, porém são tóxicas. Algumas delas são localizadas em plantações e as pessoas que nelas moram trabalham para levar produtos às cidades. Os criminosos, contudo, não tinham a mesma “sorte”. Uma vez executados, tinham seus corpos expostos no Muro, em via pública, servindo de lição para os demais. Como forma de moeda de troca, presos políticos eram apresentados como estupradores diante das Aias, que sem desconfiar de suas reais intenções, podiam agir da forma como bem entendessem, descontando seus sentimentos oprimidos. Tal linchamento recebeu o nome de Particicução. 

Facebook (Margaret Atwood)/Reprodução

Outras mulheres ocupam posições distintas, como as Esposas, as Econoesposas (de famílias menos abastadas), Marthas (empregadas domésticas), Tias (propulsoras do regime), e Salvadoras (capatazes a serviço do governo). (Não oficialmente, havia as prostitutas para o alto escalão).  

“— A Natureza exige variedade para homens. É lógico, razoável, faz parte da estratégia de procriação. É o plano da Natureza. — Não digo nada, de modo que ele prossegue. — As mulheres sabem disso instintivamente. Por que elas compravam tantas roupas diferentes, nos velhos tempos? Para enganar os homens levando-os a pensar que eram várias mulheres diferentes. Uma nova a cada dia.

Ele diz isso como se de fato acreditasse, mas diz muitas coisas assim. Talvez acredite mesmo, talvez não acredite ou talvez faça ambas as coisas ao mesmo tempo. Impossível saber em que ele acredita.

— De modo que agora, que não temos roupas diferentes — digo —, vocês apenas têm mulheres diferentes. — Isso é ironia, mas ele não demonstra ter notado.”
Trecho de: Atwood, Margaret. “O Conto da Aia.” iBooks. 

Os homens também ocupam diferentes cargos, como Comandantes, Guardiões (membros do Exército), Olhos (espiões, tipo investigadores, para pegar quem estaria traindo o regime), Salvadores, além de servos de serviços gerais, como o motorista Nick, que trabalha para o mesmo Comandante que Offred. 

As relações entre as pessoas da sociedade de Gilead são estritamente formais, pelo menos oficialmente, preenchidas com diálogos próprios com base na seita cristã que rege o novo estado.

“— Bendito seja o fruto — diz ela para mim, a expressão de cumprimento considerada correta entre nós.

— Que possa o Senhor abrir — respondo, a resposta também correta.”

Trecho de: Atwood, Margaret. “O Conto da Aia.” iBooks. 

Ao mesmo tempo em que me senti mal pelos personagens e por quem pensa de forma muito semelhante ao que a distopia apresenta, senti-me aliviada por viver numa era em que ainda há esperança de que o mundo mude para melhor. De que as mulheres não sejam vistas como coisas e que as pessoas tenham liberdade para amar quem elas amam e serem quem elas são. De que possamos compreender o outro, respeitando sua realidade, limitações e escolhas. De que medidas de regimes totalitários do passado fiquem no passado. De que haja justiça da forma como deva ser feita justiça. De que haja amor. 

“Nada muda instantaneamente: numa banheira que se aquece gradualmente você seria fervida até a morte antes de se dar conta. Havia matérias nos jornais, é claro. Corpos encontrados em valas ou na floresta, mortos a cacetadas ou mutilados, que haviam sido submetidos a degradações, como costumavam dizer, mas essas matérias eram a respeito de outras mulheres, e os homens que faziam aquele tipo de coisas eram outros homens. Nenhum deles eram os homens que conhecíamos. As matérias de jornais eram como sonhos para nós, sonhos ruins sonhados por outros. Que horror, dizíamos, e eram, mas eram horrores sem ser críveis. Eram demasiado melodramáticas, tinham uma dimensão que não era a dimensão de nossas vidas.

Éramos as pessoas que não estavam nos jornais. Vivíamos nos espaços brancos não preenchidos nas margens da matéria impressa. Isso nos dava mais liberdade.

Vivíamos nas lacunas entre as matérias.”
Trecho de: Atwood, Margaret. “O Conto da Aia.” iBooks. 

Para quem está buscando um livro que seja um soco no estômago, fica aqui a sugestão para  “O Conto da Aia”. Desde que não interpretem seu conteúdo como um manual, tudo bem. Que fique claro que o livro é uma crítica ao regime que ele apresenta. Deve ser lido como “o que devemos evitar”, “para qual caminho não devemos seguir”. Façamos diferente. Sejamos diferentes.

“Quando eu sair daqui, se algum dia conseguir registrar isso, de qualquer modo, mesmo sob a forma de uma voz para outra, será uma reconstrução também, em um grau ainda mais distante. É impossível dizer alguma coisa exatamente da maneira como foi, porque o que você diz nunca pode ser exato, você sempre tem de deixar alguma coisa de fora, existem partes, lados, correntes contrárias e nuances demais; gestos demais, que poderiam significar isto ou aquilo, formas demais que nunca podem ser plenamente descritas, sabores demais, no ar ou na língua, semitonalidades, quase cores, demais. Se acontecer de você ser homem, em qualquer tempo no futuro, e tiver chegado até aqui, por favor lembre-se: você nunca será submetido à tentação de sentir que tem de perdoar um homem, como uma mulher. É difícil de resistir, creia-me. Mas lembre-se de que o perdão também é um poder. Suplicar por ele é um poder, e recusá-lo ou concedê-lo é um poder, talvez de todos o maior.

Talvez nada disso seja a respeito de controle. Talvez não seja realmente sobre quem pode possuir quem, quem pode fazer o que com quem e sair impune, mesmo que seja até levar à morte. Talvez não seja a respeito de quem pode se sentar e quem tem de se ajoelhar ou ficar de pé ou se deitar, de pernas abertas arreganhadas. Talvez seja sobre quem pode fazer o que com quem e ser perdoado por isso. Nunca me diga que isso dá no mesmo.”

Trecho de: Atwood, Margaret. “O Conto da Aia.” iBooks. 

Anúncios

2 comentários em “Impressões após ler ‘O Conto da Aia’

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s