Uma resenha sobre Para Sempre Alice em forma de conto

Os créditos apareceram na tela, mas a escritora Beatriz ficou paralisada enquanto eles subiam, sem entender por que demorou tanto para assistir ao filme Para Sempre Alice.

O título não estava nem mais disponível na Netflix, mas ela precisava assisti-lo porque só assim poderia terminar a história que ela começara a escrever um ano antes, mas que ficou deixada de lado durante todo aquele tempo. Sua personagem, Dona Josefine era uma senhora com Alzheimer que recebia uma visita todos os dias.

Quando ainda estava bem de saúde, Dona Josefine gostava de cultivar flores na janela e ir ao mercado diariamente para comprar frutas e vegetais. Passou boa parte de sua vida ensinando português em uma escola no final da rua, onde conheceu seu marido. Apesar de ter amado dar aulas, sua grande paixão era a escrita. Josefine sempre teve grande apreço por cada um de seus personagens. Era quase como se eles tivessem vida própria. As manhãs eram preenchidas pelo som de suas conversas com eles. Durante o almoço o mesmo ocorria, e claro que antes de dormir também.

Mas a rotina de Dona Josefine passou a incluir cada vez menos as conversas com os personagens, o barulho reconfortante da máquina de escrever e os encontros com a filha, conforme o Alzheimer avançava.

Determinado dia, ela recebeu uma visita. Era uma moça que segurava-lhe a mão enquanto balbuciava qualquer coisa. A moça ficou ali por horas, desde que Dona Josefine acordou. E só apagou a luz e saiu quando a professora aposentada já estava pegando no sono. E não é que em outro dia Dona Josefine também recebeu a mesma visita? Ela se perguntou se aquela não era sua irmã mais velha, Cecília. Resolveu chamar por ela. A moça sorriu, mas os olhos não. Aliás, eles ficaram marejados. Em outro dia, sua filha veio vê-la. Dona Josefine então chamou por seu nome, ao que a filha respondeu “estou aqui, mamãe”.

Os dias se passaram até Dona Josefine não mais receber visitas, pois seus dias já tinham atingido a marca no relógio que contou seu tempo aqui. Era sua hora de ir. Os personagens por quem ela era apaixonada, contudo, permaneceram e jamais iriam embora. Nem ela tampouco iria. Sua história ficou aqui, independentemente do que lhe acontecera.

Beatriz sentiu que o desenvolvimento da personagem andava bem. Ela precisava, contudo, ajustar ainda diversos pontos da história que ficaram soltos. Mas, se tudo seguisse conforme seus planos indicavam, no próximo ano o livro estaria publicado.

Após ter desligado e computador, Beatriz ficou contente por ter assistido ao filme. Ele não apenas lhe servira como fonte de inspiração, mas também lhe dera força. O que ela mais gostou do filme foi de ver o desenvolvimento da relação entre a personagem principal, Alice (Julianne Moore), e sua filha mais nova, Lydia (Kristen Stewart). Ao que tudo indicava no início do filme, ela era a mais distante dos seus filhos. No jantar do seu aniversário, em outubro, ela foi a pessoa que faltou. Quando as duas conversavam sobre o futuro de Lydia, sempre discutiam. Beatriz entendeu o lado da mãe em querer que ela tivesse um sustento próprio e não dependesse do pai. Mas também entendia o lado da filha de querer buscar os seus sonhos.

No entanto, os outros filhos – que pareciam tão mais próximos enquanto ela estava bem – foram sumindo da história, enquanto Lydia aproximou-se cada vez mais da mãe, lhe fazendo perguntas sobre como ela estava se sentindo e conversando com ela por vídeo mesmo que morasse do outro lado do país.

Naquela noite, enquanto pensava sobre o filme, Beatriz pegou no sono. No quarto ao lado, sua mãe já dormia fazia algumas horas e acordaria cedo no dia seguinte com a visita de uma moça.


 

 

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