Por que ainda existe ódio ao feminismo?

Desde que vi as campanhas publicitárias de uma determinada marca de móveis, cujo nome não vale a pena ser aqui mencionado, me surpreendi com o quanto o feminismo ainda recebe tanto ódio. (Você pode ler sobre este caso aqui – matéria do G1).

comentarios-machistas-fb
Esta pequena amostra dos comentários que recebi depois de ter avaliado a marca X com 1 estrela no Facebook ilustra bem o ódio que algumas pessoas têm ao feminismo.

Qual é a dificuldade em entender que objetificar o corpo feminino para fins mercadológicos é um erro de marketing? Muitos dizem “ah, mas ninguém obrigou a modelo a estar ali, e ela ainda recebeu pelo trabalho”. Veja bem: a questão aqui não é sobre objetificar o corpo daquela mulher em específico, mas, sim, agredir todas as mulheres (mesmo as que não se sentem ofendidas) com aquelas campanhas publicitárias, como tantas que o mercado cervejeiro já produziu, por exemplo.

objetificacao-feminina

A primeira razão que me vem a mente para tentar justificar reações agressivas ao feminismo é a falta de conhecimento sobre o movimento feminista e as suas ondas, sobre as consequências do machismo na sociedade e, até mesmo, sobre o próprio discurso machista que é reproduzido sem que seja feito qualquer tipo de reflexão.

feminismo
Fonte: IT Online

A segunda razão é a epidemia de uma cultura do ódio no meio digital, reproduzida pelos trolls, não importando o assunto. Em geral, pelo o que observo, essas pessoas colocam-se a favor da direita em um âmbito político, são conservadoras e frustram-se com o empoderamento das minorias, como os LGBT, mulheres, negras e negros. Em geral, não são apenas contrários ao feminismo, mas também às cotas nas universidades, às políticas sociais, ao uso do nome social por pessoas transgênero, ao direito de adoção de casais homossexuais, ao direito de escolha da mulher em abortar. E para finalizar: são aquelas pessoas que participaram das manifestações “Fora Dilma”, colocaram narizes de palhaço e acreditaram que retirá-la do poder seria um passo decisivo no combate à corrupção.

Essas pessoas são os trolls que vão atrás do que dizem os formadores de opinião machistas, a exemplo do Danilo Gentili.

 

Após a Jout Jout postar um vídeo informando seus fãs sobre o término do namoro com o Caio, que acompanhamos já há anos, vieram as manifestações machistas sobre o quanto ele foi “guerreiro”, que agora vai poder “aproveitar” e vi até mesmo um que perguntava que aposta o Caio perdeu para ter que namorá-la por tanto tempo.

Há uma série de páginas nas redes sociais, formadas em sua maior parte por mulheres, que manifestam o seu descontentamento com a possibilidade de uma igualdade de gêneros e o empoderamento feminino.

anti-feminismo
Esta página é um exemplo que critica a luta pela igualdade de gêneros, ou seja, que critica o feminismo. Repare que a foto de capa compara o movimento em defesa do empoderamento feminino com um câncer, algo que estaria corroendo a sociedade. 

Acredito que essa é mais uma daquelas situações clichés em que se pode dizer: “isso é muito Black Mirror. No entanto, eu diria que se assemelha, especialmente, ao último episódio da terceira temporada, Odiados pela Nação (Alerta de spoilers).

hated-in-the-nation
O sexto episódio da terceira temporada de Black Mirror fala sobre o movimento de proliferar o ódio nas redes sociais e de que forma a tecnologia pode impactar a vida das pessoas que recebem as mensagens. 

 

Neste episódio, alguns dos personagens cujas ações foram hostilizadas nas redes sociais são atraídos por dispositivos eletrônicos no formato de abelhas que, controladas por um homem misterioso, são responsáveis por suas mortes. O público é tomado por esta ação em massa, devendo escolher, a cada dia, uma pessoa para morrer, com base no quanto ela “merece” aquilo, segundo o senso comum.

Vamos imaginar que isso ocorresse de fato. Você provavelmente concorda que haveria quem participasse de um assassinato coletivo, como os que foram representados na série – não concorda?

black-mirror-hated-in-the-nation
A hashtag que provocava o ataque das abelhas eletrônicas em Black Mirror era #DeathTo + o nome da pessoa escolhida para morrer. (Em português, #MorteA).

Na época em que a polícia levou o Garotinho para prisão, por exemplo, enquanto ele saía do hospital, houve uma ampla divulgação das imagens que mostravam uma cena, no mínimo, degradante. Como há um sentimento coletivo de ausência da Justiça oriunda do Estado, esse vazio é preenchido muitas vezes por outras formas que seriam “justas”. Concordo que Garotinho precise pagar por seus atos, mas de que maneira?

Aliás, essa falsa noção de “justiça” lembra bastante o episódio Urso Branco, da segunda temporada (Alerta de spoilers). Ambos tratam de uma vingança social baseada na barbárie. A diferença é que no episódio das abelhas, o movimento coletivo mata um por dia e, neste outro, a personagem principal está aprisionada em uma situação que serve de divertimento para os “cidadãos de bem”, enquanto ela, sem consciência sobre o que lhe acontece e desprovida de qualquer tipo de memória sobre seu passado, é torturada diariamente.

White Bear featuring Toni (Lenora Chrichlow) and Jem (Tuppence Middleton)
Em Urso Branco, ou no original, White Bear, uma mulher passa o episódio todo sendo perseguida, enquanto os demais nada fazem para ajudá-la – apenas filmam o seu sofrimento e agonia. Depois, descobrimos que isso era uma forma de “justiça”.

Quando percebi o que a tal da marca de móveis estava fazendo, por meio de sua comunicação nas redes sociais, associei o posicionamento escolhido com esses episódios porque ela conseguiu permitir que houvesse um livre espaço para o discurso de ódio circular livremente. E o ponto de interseção entre esses episódios de ficção e a realidade é o motivo que leva às manifestações de ódio proliferadas pelo coletivo: a impunidade.

A empresa adotou uma estratégia de comunicação debochada como resposta a uma crítica pertinente a suas campanhas publicitárias. O que começou como uma maneira de objetificação feminina, com função mercadológica, transformou-se em um desafio sarcástico, desrespeitoso, grosseiro e, obviamente, machista, que além disso tudo deu o aval para uma manifestação brutal contra o movimento feminista. Não é à toa que, tão logo classifiquei a empresa com uma estrela, recebi diversos comentários ofensivos e machistas. É assustador, vale ressaltar, o quanto ainda há de mulheres que compartilham deste pensamento.

liga-das-heroinas
No Tumblr Liga das Heroínas, criado para expor o machismo existente nas agências de comunicação, há uma série de relatos de mulheres que passaram por situações no ambiente profissional que as fazem ser muito mais do que publicitárias, mas, sim, heroínas por enfrentarem tais obstáculos diários. 

Entendam: feminismo defende a igualdade de gêneros. Mas, por que nós, feministas, provocamos tanto ódio? De que maneira o machismo entranhou-se na sociedade a ponto de ficar agarrado como um carrapato em determinadas pessoas e em determinadas áreas, como a de publicidade? E de que forma podemos eliminar a resistência às mudanças?

A luta continua e percebo que ela está, cada vez mais, atrelada à difusão do conhecimento.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s