O poder que as histórias têm na formação do caráter humano

E por que isso tem tudo a ver com feminismo.

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O machismo se manifesta de diversas formas. Pode ser no Masterchef contra a Dayse, ou nas publicações da mídia contra as famosas. Nesse ano, por exemplo, vários tabloides divulgaram que Jennifer Aniston estava grávida. Afinal, “já passou da idade, não é mesmo?”

Não, não é.

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Já na infância somos apresentados aos estereótipos de gênero. Uma das formas que isso acontece é por meio das histórias que nos contam. Quando ainda não sabemos demonstrar vontades, somos expostos a uma variedade de informações que, com o tempo, agem como blocos na construção da nossa personalidade e caráter.

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A que histórias vocês foram apresentados quando eram crianças?

Por exemplo, o vídeo da menininha que viralizou nas redes sociais, em que ela pergunta à mãe por que as roupas das meninas dizem que elas devem ser bonitas, e as dos meninos dizem que eles devem ser aventureiros, é análogo ao que estou dizendo sobre essa exposição a histórias durante a infância.

Quero dizer, ela diz “Hey!”, escrito em uma das blusas, “O que isso ao menos significa? Que mensagem isso passa?”, e compara com a frase na blusa masculina “Pense fora da caixa” que, evidentemente, diz alguma coisa.

Juro que pensei em falar sobre o ensino das crianças nesse texto. Mas aí vi que talvez eu também tivesse me esquecido o quanto é importante educarmos as adultas e os adultos. Gente, é só pararmos um pouquinho para ler os comentários das notícias, como a que Buenos Aires permitiu multa aos homens que praticarem assédio nas ruas contra as mulheres. Essa atitude do governo é ótima? É. Mas, há cada “opinião” por aí que assusta.

Vejamos alguns exemplos:

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O primeiro comentário começou mal ao dizer “não concordo com algumas bizarrices do feminismo”. Fico aqui pensando o que ele acha de tão bizarro: direitos iguais?

Então eu penso: o que aconteceu na vida dessas pessoas que as tornou assim? Quais foram os fatores ao longo do crescimento delas que impediu o surgimento da ideia de sermos iguais?

Eu admiro muito o poder da literatura e entendo que nem todos tiveram as mesmas oportunidades e privilégios que pude acessar ao longo da minha vida, mas não estou nem querendo dizer sobre o poder de compra no caso de livros. Estou falando sobre as histórias que ouvimos de forma geral. No meu caso, a literatura desempenhou bem essa função humanista na minha formação. Mas, e as pessoas machistas? Que histórias elas ouviam quando eram pequenas?

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Um exemplo para embasar o que estou dizendo é uma pesquisa da Universidade Federal do Piauí (UFPI), intitulada Influência das estórias infantis na formação dos papéis de gênero.

Os pesquisadores fizeram uma seleção aleatória de 10 livros infantis e descobriram que 72,7% dos autores eram do sexo feminino. No entanto, entre os ilustradores, as mulheres eram apenas 40%. Diante disso, para a maior parte dos personagens ilustrados correspondentes ao gênero feminino, foram atribuídas as seguintes características: gorda, baixa, feia, idosa e fraca. Por outro lado, a maior parte dos personagens ilustrados do gênero masculino receberam características como: alto, magro, bonito, jovem e forte.

“Com relação aos valores humanos associados a cada gênero observou-se que nas estórias estudadas as características relacionadas ao gênero feminino foram, paciência/tolerância, solidariedade, proteção, medo, emotividade e aspectos comumente atribuídos à imagem da mulher como um ser bondoso e frágil, porém que protege maternalmente”. (Lembra daquilo que falei sobre a Jennifer Aniston? Então.)

As atitudes precisam ser mudadas hoje

Para entender melhor nossa realidade, conferi alguns dados que mostram, em números, a presença do machismo que todas e todos nós sabemos que existe. Dê só uma olhada:

Na última quarta-feira, 7 de dezembro, o Instituto Avon e o Instituto Locomotiva lançaram a pesquisa “O papel do homem na desconstrução do machismo“.

“Mas cabe apenas às mulheres desconstruir essa cultura? Se todos nascemos, crescemos e vivemos imersos nela, não seríamos todos responsáveis por acabar com ela? E os homens, de que forma podem contribuir nesse processo?” – trecho do editorial da pesquisa O papel do homem na desconstrução do machismo.

Assim que vi essa pesquisa me lembrei do movimento HeForShe da ONU. Em outras palavras, nós, mulheres, não estamos sozinhas. Os homens também devem ser feministas e prezar pelo respeito a todos e pela igualdade de gênero.

Enquanto quase 90% dos entrevistados reconhecem a existência da desigualdade entre homens e mulheres na sociedade brasileira, apenas 59% acreditam que todas as mulheres devam ser respeitadas, não importando sua aparência ou seu comportamento.

Ou seja, gente, aproximadamente 40% acham que a aparência e o comportamento são fatores que importam para uma mulher ser ou não ser respeitada.

A pesquisa também mostra que a questão racial precisa ser levada em conta, pois também quase 90% dos entrevistados acreditam que as mulheres negras sofrem ainda mais preconceito do que as mulheres brancas.

É assustador quando vemos que 61% consideram que a mulher que se deixou fotografar também tem culpa quando um homem compartilha suas imagens íntimas sem a sua autorização. E vemos o quanto é necessário falar sobre o feminismo quando 55% acreditam que este movimento é o contrário de machismo.

Não! Feminismo defende a igualdade, não privilégios ou superioridade.

Há uma parte da pesquisa que diz o seguinte:

“A maioria enxerga que o mais importante a fazer é oferecer aos filhos uma educação na qual se ensine a respeitar as mulheres e só depois pensa em rever seu próprio comportamento. E, questionados sobre esteriótipos de gênero, mostram que, muitas vezes, não querem quebrar velhos paradigmas da desigualdade” (Instituto Avon/Locomotiva, p.14, 2016).

Entre as formas de se combater o machismo, os homens elegeram o ensino das crianças como a principal. Bacana, né? Mas, por outro lado, me chamou atenção que 43% dos homens acham que “pega mal” reclamar em um grupo de WhatsApp quando alguém compartilha fotos de mulheres nuas. Ou seja, na infância faz sentido incentivar a mudar mas quando adulto não vale o esforço.


Não é à toa eu pensar da forma como penso hoje. Está inclusive comprovado que ler Harry Potter é uma forma de estimular as leitoras e os leitores a lutarem contra o preconceito em suas mais variadas formas. A quebra de esteriótipos, pensamentos e atitudes machistas pode acontecer a partir do momento que nós falamos sobre isso. Para uns, isso é óbvio. Mas não vamos nos esquecer de que as crianças não são as únicas que precisam ser alertadas. Elas vão ouvir histórias. Se não forem contadas pelos pais, serão por outras pessoas. E essas histórias vão fazer com que elas se tornem alguém que acredita na igualdade, ou alguém que não consegue enxergá-la.

Vamos mudar isso? Vamos contar novas histórias para as adultas e os adultos?

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Bibliografia

INSTITUTO AVON, O papel do homem na desconstrução do machismo. Disponível em: <http://fsb.imcgrupo.com/>. Acesso em: 10 dez. 2016.

O GLOBO, Buenos Aires aprova multa para quem cantar mulheres na rua. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/>. Acesso em: 10 dez. 2016

SILVA, F. P. ; SOUZA, A. B. L. ; FERREIRA, R. S. ; ARAÚJO, L. F. . Representações Sociais Influência das estórias infantis na formação dos papéis de gênero, 2010 <http://www.abrapso.org.br/>. Acesso em: 10 dez. 2016

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