San Junipero: lugar onde as diferentes épocas vivem memórias 

Antes de começar a falar sobre San Junipero, vou contar uma pequena historinha, mas prometo que vou chegar ao ponto.

Anúncios

Na manhã desta quarta-feira, 30 de novembro, aconteceu o Fórum Permanente de Gestão do Conhecimento, Comunicação e Memória, com o professor Matthew Allen, da University of Leicester – Inglaterra, no Museu de Arte Moderna, em São Paulo. E eu fui conferir a palestra “A influência das mídias, da política e da economia na construção da nossa memória” para trazer para vocês alguns pontos interessantes para a reflexão.

Na verdade, essa era minha intenção. Acontece que meus planos não saíram exatamente conforme eu desejava. Meu voo foi cancelado e só pude sair do Rio no voo de 8h15. A palestra começava às 8h30. Com isso, me atrasei horrores e só cheguei no momento em que o professor agradeceu a atenção e se disponibilizou a responder os questionamentos do público.

Ele comentou alguns pontos interessantes, mas admito que me senti por fora. Se ao menos não tivesse ocorrido um acidente no caminho entre o aeroporto de Congonhas e o parque Ibirapuera, eu poderia ter assistido alguma coisa. Mas, não foi o caso. E tudo bem. Criei coragem para falar com o professor Allen no final.

Aliás, não que importe, mas o fato de o nome dele ser Allen me deixou criando referências a Barry Allen enquanto eu fingia entender as perguntas (e o que ele poderia ter falado na palestra que possa as ter plantado nas cabeças dos felizardos que conseguiram chegar a tempo), enquanto ele as respondia. Queria ser rápida também, rs.

flash

Quando o evento terminou, perguntei para ele sobre a influência do espírito do tempo na proposta de resgatar a memória da Nellie Bly e divulgá-la. Matthew  disse que essa atitude seria uma interessante interposição da herança [a memória dela] que se encaixa bem na pessoa para quem ela é transmitida.

“Se há uma coisa que nossas tecnologias de memória podem fazer por nós, é manter vivas as dificuldades do passado e as táticas usadas para superar, principalmente, as pressões do tempo”, ressaltou o professor.

No entanto, antes desse momento, esperei ele conversar com a equipe de Relações Públicas da empresa que produziu o Fórum. Fiquei ali perto, esperando minha vez. Mas, uma das perguntas de um rapaz fez com que eu refletisse. Ele questionou o professor sobre o terceiro (e último) episódio da primeira temporada de Black Mirror [The Entire History Of You], em que as pessoas têm acesso às suas memórias a qualquer momento.

Black Mirror – The Entire History Of You (E03S01)

Admito que minha cabeça fugiu daquela situação na mesma hora. Nem parei para prestar atenção na resposta do professor. (Que vergonha, rs). Ao invés disso, fiz uma conexão imediata com San Junipero, o quarto episódio da terceira temporada. (Pronto, aí está!)

black-mirror-season-3-san-junipero-mackenzie-davis
Black Mirror – Episódio San Junipero (E04S03)

Nesse episódio, existe uma “vida eterna” computadorizada. A sua consciência permanece viva mesmo após a sua morte. Acho que esse aspecto de preservar a memória mais interessante do que gravar tudo o que te acontece para poder ficar assistindo depois, e revendo e revendo e revendo tudo aquilo que você já sabe.

No caso de San Junipero, tive a impressão de que Yorkie estava vivendo mais do que quando seu corpo era saudável. O episódio me deixou com uma sensação muito positiva. Diferentemente de outras formas de se aplicar a tecnologia, achei que San Junipero foge à regra de Black Mirror.

As memórias de Kelly e Yorkie pareceram funcionar com mais autenticidade do que aquele outro episódio por exemplo em que a mulher compra um robô para ajudá-la a superar o luto pela perda de seu marido.

black-mirror-4
Black Mirror – Be Right Back (E01S02)

Foi como se tivessem feito um upload de quem elas eram, respeitando ao máximo possível a sua essência.

No entanto, além dessa preservação das consciências das pessoas em pen drives acoplados em um cemitério digital gigante, o que eu achei mais interessante foi a preservação de épocas.

Quando o episódio começou, eu jurava que era realmente 1987, apesar de saber que, se tratando de Black Mirror, não poderia ser 1987, mas, sim, uma ilusão, uma miragem, daquele ano.

Parando para pensar, vemos que isso combina muito com o conceito de espírito do tempo.

Em 1808, antes mesmo de os folhetins se espalharem pela Europa e influenciarem, enfim, também o Brasil, surgiu o termo Zeitgeist – traduzido como “o espírito da época” –, criado pelo filósofo alemão Georg Wilhelm Hegel.

De acordo com Tom Wolfe (2007, p. 152, tradução da autora), a teoria de Hegel dizia que para cada período histórico haveria um “tom moral” inevitável na vida dos indivíduos. Wolfe concorda com este pensamento e para justificar, exemplifica que, em ficção ou não-ficção sobre grandes cidades, elas deveriam ser interpretadas como personagens, já que são locais nitidamente agitados por um tom moral.

San Junipero é mais do que um lugar, não é mesmo? É um espaço de tempo também. E na história acaba funcionando mesmo como um personagem em determinados momentos. Kelly e Yorkie conseguem ir e vir através do tempo, visitando diferentes épocas, cada qual com suas características marcantes. Sua moda, música, tecnologias…

Quando falamos em Black Mirror, dissemos que são histórias à parte uma da outra, que cada episódio tem uma história e seus próprios personagens, porém, se entendermos o espírito do tempo (ou da época, como queira chamar), como um personagem, podemos notar que é ele quem está presente em todos os episódios. O espírito de um tempo com tecnologias tão avançadas que poderão mudar tudo. E é muito provável que ele já esteja entre nós.

O que eu gostaria de fazer, resgatar a memória de Nellie Bly, não é o mesmo, é claro, mas é uma tentativa de mantê-la viva, fazer com que suas histórias tenham influência nesse tempo. Nas vidas de quem está aqui, tal como se ela estivesse também, falando e informando as pessoas.

nellie-bly

Bibliografia

WOLFE, Tom. The Emotional Core of the Story. “In”: KRAMER, Mark; CALL, Wendy (orgs.). Telling True Stories: A Nonfiction Writers’ Guide from the Nieman Foundation at Harvard University. 1 ed. Boston: Plume Book, 2007, p. 149-154

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s