Nimona, a anti-heroína mais heróica (resenha sem spoilers) 

Nimona, de Noelle Stevenson, é uma história em quadrinhos divertida, inspiradora e do tipo isso-poderia-ser-considerado-infantil-mas-é-muito-mais-do-que-algo-para-crianças. Se você está procurando uma boa aventura que resgate de você aquela heroína (leia-se anti-heroína) que você sempre quis ser, leia este livro!

Quem é Nimona?

Nimona é uma menina-monstro. Ela é uma poderosa metamorfa, ou seja, tem o poder de se transformar em qualquer ser vivo “existente” que ela quiser, incluindo dragões!

Por ser a fã número 1 do maior vilão do reino, o temível Ballister Coração-Negro, Nimona inicia a aventura querendo ajudá-lo a realizar os seus malvados planos.

Em um primeiro momento, Coração-Negro não quer uma criança como comparsa, mas Nimona não aceita ter sua ajuda recusada e, quando ele vê que ela pode lhe ser útil, devido ao seu poder de transformação, diz que tudo bem, desde que ela obedeça as suas regras.

Os vilões mais divertidos que você respeita

Regras? Nimona não as conhece. Afinal, que vilão é esse que tem regras de conduta? Não pode isso, não pode aquilo. Como vão causar os transtornos que ela tanto deseja?


“Nimona” é aquela história que ensina que nem todas as pessoas são completamente boas ou más.

Quando Coração-Negro era jovem, perdeu o braço e, com isso, foi marginalizado. Estando à parte da sociedade, ele assumiu o posto de vilão. O seu trabalho era causar problemas ao reino, respeitando as leis da Instituição de Heroísmo & Manutenção da Ordem – que não é tão heróica quanto pensamos.

Além disso, gostei muito da história pela quebra de paradigmas que ela propõe, com a relação entre Coração-Negro e Sir Ouropelvis (o “mocinho” do reino). Ao longo do livro, vamos conhecendo melhor sobre esses dois e o que existe ali que provocou o acidente a Coração-Negro, ocasionando em sua saída da Instituição.

Outro ponto interessante é a mistura de tempo no universo onde vive Nimona. Poderia ser a idade média, se não fossem as televisões, geladeiras, computadores, e diversos aparatos que usamos nos dias de hoje, além das comidas, expressões e crítica social perfeitamente relacionada à nossa realidade.

Tudo isso torna o livro ainda mais encantador e divertido.

Os personagens que amamos

Nimona, discriminada desde criança por ser diferente. Ela cresce sozinha, é auto-suficiente, mas sabemos que precisa de alguém que a ajude a amadurecer. Afinal, ela vivia recusando ajuda.

Coração-Negro, discriminado desde que perdeu o braço e ficou diferente. Ele vive sozinho, é auto-suficiente, mas sabemos que precisa de alguém com quem possa se relacionar e se divertir, tornando a vida mais leve. Afinal, ele se sentia muito abandonado e magoado pelo antigo companheiro, Sir Ouropelvis, e desde então, se isolou.

Ambrosius Ouropelvis, estimado pela Instituição e por todos no reino. Ele é o exemplo para o reino, o herói. No início, sentimos até mesmo raiva de Ouropelvis porque sabemos que perfeito ele não é. Mas, com o tempo, vemos que pessoas admiradas também cometem erros e, apesar de nem todos saberem disso, no fundo, elas não esquecem e também se arrependem do mal que fizeram. É um personagem que ilustra a hipocrisia, mas em que enxergamos a essência humana, e nos identificamos quando há o reconhecimento por seus erros.

Não importa se você tem 10, 25 ou 50 anos! Nimona foi escrito para você, ser humano. 

Vamos encarar 2017 com a coragem de Nimona

Para saber mais, você pode acessar o site da criadora de Nimona, Ginger Haze, ou segui-la no Twitter! (Ambos em inglês).

Onde você encontra Nimona para comprar:

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UnREAL: o drama, sem drama, que você respeita.

Recentemente um professor comentou que as séries que a esposa dele assiste, Grey’s Anatomy e Scandal, são dramalhões muito chatos. Fiquei com isso na cabeça e tentei fazer uma análise com o outro exemplo que ele citou, Breaking Bad.

Não posso negar que os trabalhos da deusa Shonda Rhimes são dramalhões, mas muito maravilhosos. Também não posso negar que Breaking Bad é puro drama, só que o foco do protagonista vai da família ao poder, enquanto os personagens da Shondaland lidam e focam em milhares de coisas.

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“Alguém me dê um sedativo.” Até Yang sofre em Grey’s, admitimos isso. #tamojunto

Para não rebater o argumento usado com outro projeto que a própria Shonda tenha criado ou produzido, pensei em abordar outro programa, que também tenha protagonismo feminino, seja do gênero drama, além de ser o oposto das séries citadas.

Com isso em mente, o seriado escolhido foi UnREAL. A trama foi criada por duas mulheres, Marti Noxon e Sarah Gertrude Shapiro, e o protagonismo é encabeçado por Rachel Goldberg (Shiri Appleby) e Quinn King (Constance Zimmer).

 

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Quinn King (Constance Zimmer) e Rachel Goldberg (Shiri Appleby) no cartaz da segunda temporada.

A história mostra os bastidores do reality show Everlasting, que é baseado no famoso reality The Bachelor. O programa original, The Bachelor, é um show onde várias mulheres disputam o coração de um homem. Hoje em dia existe o The Bachelorette, que é a versão onde homens disputam o coração de uma mulher.

Em UnREAL, nós vemos toda a parte da produção e filmagens do programa fictício, Everlasting, e descobrimos que o “príncipe”, tão disputado, não tem nada de encantado, que a maioria das falas das participantes são induzidas pelos produtores e, posteriormente, editadas, além de vermos todos os podres dos bastidores, que apesar de ser ficção, tem muita veracidade.

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Pois é…

Para você ter uma noção de como esse drama é surreal, na primeira temporada, uma das candidatas comete suicídio no local onde o programa é filmado e na segunda temporada, um personagem é morto por racismo. Não estou entrando em detalhes porque não quero dar spoilers, mas quero provar que essa série é um drama bastante pesado e muito bem desenvolvido.

Além do mais, diferentemente de protagonistas como Meredith Grey, nós não gostaríamos nenhum pouco de conhecer Rachel e Quinn, mas a amamos de tão monstras e bizarras que elas são. Sinceramente, Walter White vai pro chinelo perto delas, porque elas conseguem manipular muito bem, tudo e todos, sem precisar fabricar drogas para isso.

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Go Rachel, Go Rachel!

Antes que pensem, eu gosto muito de Breaking Bad. No entanto, é exaustivo quando as pessoas só falam e elogiam esse tipo de programa, com protagonismo masculino, com o argumento de que é excelente e bem desenvolvido, mas nunca ouviram falar de UnREAL, que é tão maravilhoso quanto.

A intenção da série parece bem clara: mostrar todas as mentiras de um reality show, não é à toa que o nome é UnReal (Não Real). Ele mostra como essa indústria é perigosa pras próprias pessoas que participam dela, por tudo o que são obrigados a passar e por toda a competitividade fora e dentro das câmeras.

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O “bachelor” da primeira temporada Adam (Freddie Stroma)
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O “bachelor” da segunda temporada Darius Hill (B.J.Britt)

Aliás, o mais interessante do programa é justamente mostrar como a mídia cria fantasias românticas como se tudo fosse real, mas, na verdade, as pessoas do programa são bastante problemáticas, assim como qualquer outro ser humano, e vivem dentro de um sistema sedutor e destrutível, ao mesmo tempo.

Além disso, a relação das duas anti-heroínas, Rachel e Quinn, é muito questionável, pois elas são uma dupla dinâmica incrível, porém se atacam toda hora, se necessário. A Rachel tem vários problemas de saúde mental e uma mãe psicóloga que cuida dela, mas acaba piorando seu estado, enquanto a Quinn é uma pessoa que só pensa na audiência e em fazer o seu querido show, o melhor de todos, e nunca derrama uma lágrima sequer.

Ou seja, temos duas mulheres ambiciosas e excelentes exemplos de personagens femininas que vivem dramas, sem fazer drama, até porque, elas são obrigadas a esconder tudo, senão seriam presas em três segundos. E claro, não posso deixar de comentar que ambas tem relacionamentos amorosos péssimos, com homens, mas uma acaba sendo o suporte da outra e sempre dão a volta por cima dos ex, que também não são flor que se cheire.

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“Isso é o poder feminino.”

Em contra partida, temos outros persongens como Jay (Jeffrey Bowyer-Chapman) e Madison (Genevieve Buechner) que tem atitudes mais associáveis, mesmo fazendo besteiras, de vez em quando. Aliás, as próprias candidatas do falso reality são maravilhosas, porque cada uma tem uma história diferente e por mais que elas queiram ganhar o “prêmio”, elas não fazem ideia do que estão fazendo ali e questionam a produção do programa o tempo todo, além de terem medo do que pode acontecer com elas. É si por si, mas volta e meia algumas alianças são formadas, até algo quebrar essa união.

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Elenco da primeira temporada.

É importante frisar que essa narrativa é bem forte e mostra o pior do ser humano e da televisão, nos fazendo refletir e questionar sobre o que assistimos, sobre relacionamentos humanos e ambição profissional, e pior, como que vale tudo por audiência.

Sendo assim, eu recomendo essa série pra quem gosta de assuntos pesados e uma realidade nua e crua, cheia de reviravoltas, com personagens mulheres maravilhosas, algumas assustadoras, mas incríveis, e também porque cada temporada tem somente dez episódios de 40/50 minutos e a terceira temporada ainda vai começar.

BIBLIOGRAFIA

IMDB, UnREAL.2015. Disponível em: <http://www.imdb.com/title/tt3314218/&gt;. Acessado em: 29 de dez.

Tina Fey e o poderoso roteiro de Meninas Malvadas

Vamos deixar algo claro: eu, você, ela e a galera toda da década de 90/00 simplesmente amamos o filme Meninas Malvadas. Todo mundo ri, se identifica e, se deixar, ainda chora com algumas cenas, de tão associável com a nossa realidade no ensino médio.

No entanto, acredito que a maioria das pessoas avalie esse filme como uma comédia sem muita pretensão, a não ser entreter. Eu discordo dessa opinião e vou explicar meus motivos.

Em primeiríssimo lugar, o roteiro foi escrito por ninguém mais, ninguém menos, que Tina Fey, que teve como inspiração o livro Queen Bees & Wannabes de Rosalind Wiseman. Fey interpreta a professora Srta. Norbury, acusada de vender drogas no famoso livro/diário criado pelas populares, o “Burn Book”.

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Quem não morria de medo de aparecer nesse livro, hã?

Eu digo isso porque os trabalhos da Tina, normalmente, vem com muitas mensagens subliminares, digamos assim. Desde suas esquetes em Saturday Night Live (1997-2010) até sua última série Unbreakable Kimmy Schimdt (2015-16), seu humor é bastante sarcástico e sempre tem umas alfinetadas na sociedade, alfinetadas essas, muito bem vindas, por sinal.

Com isso em mente, pelo o que entendo de roteiro, acredito que ela teve claras intenções com o projeto e obteve sucesso com ele. Quando um roteirista inicia um filme, ele segue algumas regras “universais”, para conseguir vender seu trabalho, além de envolver paixão e propagar mensagens, aos quais chamamos de TEMA, no univervo cinematográfico.

O tema do longa-metragem é: escola, relações e amadurecimento.

Diferentemente do filme Patricinhas de Beverly Hills, por exemplo, o argumento de Fey além de enfatizar todos os estereótipos que criamos na época da escola, ele nos mostra o quão mal eles nos fazem, dentro e fora do colégio. Sem desmerecer Patricinhas de Beverly Hills, que também é um excelente filme, mas só querendo marcar um ponto, dizendo que o filme dos anos 90 realmente é um projeto despretencioso e que nos faz refletir de qualquer forma, mas o dos anos 2000 nos impulsiona a refletir o tempo todo, desde a entrada de Cady Heron (Lindsay Lohan) na escola até o acidente com nossa amada inimiga Regina George (Rachel Mcadams).

Além do tema, outra ferramenta utilizada pelos roteiristas são os diálogos e os diálogos de Meninas Malvadas são maravilhosos e tem muita coisa nas entrelinhas. O maior exemplo disso é a fala da professora:

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“Vocês tem que parar de chamar umas as outras de putas e vadias. Isso faz com que seja ok para os meninos chamá-las assim também.”

Você tem noção do quão poderoso essa frase é? É uma simples frase que vem carregada de tanta coisa, e claro, o roteiro não usa argumentos explícitos contra o machismo, mas está ali, embutido. Ela esta falando do machismo da nossa sociedade, que se inicia na infância e vai piorando na adolescência, fase em que nossa sociedade nos provoca a lutarmos umas com as outras, na maiorias das vezes, por homens dispensáveis.

Lembrando que o ódio a Regina George começou pela disputa entre o Aaron Samuels (Jonathan Bennet), certo? Os amigos de Cady tentam convencê-la de destruir a reputação de Regina, mas ela só aceita participar depois que a rainha da escola volta a namorar o Aaron.

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Ele é lindinho, mas homem nenhum vale uma disputa, certo?

Bom, vamos aos fatos: Regina George não é a melhor pessoa do mundo. Ela gosta de ser o centro das atenções, acha que o mundo gira em torno dela e magoa a Cady de propósito, no entanto, a história nos deixa a questão: será que vale a pena essa guerra toda entre meninas?

No final, tanta coisa ruim acontece e tudo por causa de um rapaz – claro que não é só o boy magia, mas, no roteiro, o ato que impulsiona a protagonista a tomar atitudes é ele – e a eterna disputa entre mulheres, quando na verdade, devíamos nos unir. Lembram da nossa amiga do bolo de arco-íris?

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“Eu queria poder fazer um bolo de arco-íris e sorrisos.”

Outro assunto relevante na trama é a polêmica do professor de educação física,Coach Carr (Dwayne Hill), que se relaciona com suas alunas adolescentes. Não é à toa que investigam a professora Norbury por tráfico de drogas, já que descobrem que a acusação ao professor era realmente verdade e é simplesmente muito errado um homem de mais de quarenta anos se envolver com alunas que são menores de idade. Uma das melhores cenas é ele correndo quando descobrem tudo, porque na hora do vamos ver, homem nenhum assume as responsabilidades dos atos criminosos né?

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Então…

Continuando, a personagem Lizzy Caplan (Janis Ian) é outro exemplo excelente na comédia. Ela é uma menina que foge completamente do padrão e, justamente por isso, é acusada de ser lésbica pela famosa queen be. Seria ótimo se ela fosse lésbica, mas não é o caso da personagem, ela simplesmente não se veste e não assume uma postura feminina e, infelizmente, isso é motivo o suficiente para as más linguas a atacarem. Mas ela é a melhor personagem e nós a amamos por todos os tabus que ela quebra.

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E esse terno maravilhoso, hã?

Aliás, o BFF (best friends forever) de Lizzy, Damian (Daniel Franzese), é assumidamente gay e o amamos também. Eu lembro que na minha época de colégio, infelizmente, quase não havia gays assumidos e o motivo é o mesmo de hoje em dia: homofobia. Atualmente as coisas estão mudando, aos poucos, mas só em vermos personagens incríveis como Damian, num filme de 2004, ficamos extremamente felizes pela representatividade, mesmo que não sendo a mais ideal.

Além disso, até a professora interpretada por Tina é um ótimo exemplo. Uma mulher na faixa dos 30/40 anos, divorciada e sem filhos, com mais de um emprego, é outra que sofre com os preconceitos da sociedade e, mesmo assim, é justamente quem apoia e inspira os alunos.

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“Porque eu sou uma incentivadora. Eu incentivo as pessoas.”

E não vamos nos esquecer da participação de Amy Poehler, como a mãe de Regina George, uma mulher descolada que deixa as filhas fazerem o que quiserem, mas também perdida no espaço, com tantas imposições as mulheres de não envelhecerem, serem mães e amigas, além de cuidar da casa, linda e jovem, e sabe-se lá mais o que. Eu sei que ela não é um exemplo de pessoa mas, todas as mulheres sofrem com imposições machistas, isso não podemos negar.

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Difícil, né?

E claro, a personagem que deixei pro final é Karen Smith, interpretada pela Amanda Seyfried. Ninguém a incentiva com suas ideias, sempre a lembram que ela não é considerada inteligente e ela mesma reproduz esse pensamento, e, pior ainda, é a quantidade de vezes que a chamam de “puta”. Na cena em que estão elegendo as meninas que vão disputar a rainha do baile de formatura, Regina diz que Karen nunca é escolhida, apesar de ser considerada bonita, porque ela fica com todos os meninos. E ai, lembram que não podemos ter muitos parceiros, senão somos isso ou aquilo?

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#machistasnãopassarão

Na época em que assisti ao filme, eu tinha apenas 13 anos e ele teve muita importância no meu crescimento pessoal, porque eu vivi de perto muitos dos problemas mostrados no longa e consegui compreender, com o passar do tempo, o que estava por trás de tudo.

Justamente por isso que acho que o roteiro tem muita lição de moral pra todas as jovens meninas e meninos também, sobre a tortura que o ensino fundamental/médio é e como podemos evitar isso, quebrando os ensinamentos conservadores e destrutivos e dando espaço ao respeito e à individualidade.

Peço desculpa aos fãs, caso eu tenha falado algo de que não gostaram ou se esqueci de mencionar alguma coisa importante. Eu amo esse filme e o defendo loucamente porque ele me influenciou bastante e acredito que ainda influencie muitos pré-adolescentes, como eu já fui um dia, e a resolução de tudo é que tem espaço pra todas as diferenças dentro e fora do colégio e está tudo bem. Não precisamos nos encaixar nos padrões, temos que abrir a mente para novas formas de crescimento e aprendizado como grupo e como pessoas individuais. O trabalho de Tina me ajudou muito nesse sentido e mesmo não sendo o filme com maior quebra de tabus possíveis, até porque todos os protagonistas são brancos, lindos e ricos, ele tem questões importantes e que valem a reflexão.

Por fim, em breve farei um texto sobre a carreira e os trabalhos da Tina Fey e contarei sobre o que aprendi lendo seu livro autobiográfico Bossypants e como as séries e filmes dela me inspiram como jovem roteirista. Até breve.

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Bibliografia

IMDB, Mean Girls, 2004. Disponível em: <http://www.imdb.com/title/tt0377092/&gt;. Acesso em: 28 dez. 2016.

WIKIPEDIA, Mean Girls, 2004. Disponível em:<https://pt.wikipedia.org/wiki/Mean_Girls&gt;. Acesso: 28 dez. 2016.

O protagonismo feminino no cinema nacional 2016.

O cinema nacional, de uns anos pra cá, tem ganho uma força monstruosa, e não só o conteúdo, quanto a qualidade técnica, estão cada vez mais impressionantes.

Nesse ano, tivemos muitos lançamentos, alguns já batidos mas que não deixam de ter um valor simbólico, outros que não se saíram tão bem e, claro, o que nos deixaram de queixo caído.

O ano de 2016 foi um ano de muita luta pela igualdade de gênero, dentro e fora das câmeras, uma luta que vem ocorrendo há anos e cada vez mais obtém força e sucesso. Com isso em mente, nesse texto eu gostaria de destacar seis produções cinematográficas com protagonismo feminino, seja na frente ou por trás das câmeras, pois valem a reflexão, a homenagem e o orgulho de quem aprecia a sétima arte brasileira, além de ser um pequeno avanço na luta pela igualdade entre homens e mulheres no meio audiovisual.

AQUARIUS

Sinopse: Clara (Sonia Braga) mora de frente para o mar no Aquarius, último prédio de estilo antigo da Av. Boa Viagem, no Recife. Jornalista aposentada e escritora, viúva com três filhos adultos e dona de um aconchegante apartamento repleto de discos e livros, ela irá enfrentar as investidas de uma construtora que tem outros planos para aquele terreno: demolir o Aquarius e dar lugar a um novo empreendimento.”

O filme foi escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Sonia Braga. Pra quem assistiu a outra realização do diretor, Som ao Redor (2012), notou semelhanças na estrutura narrativa e na direção do filme, o que deu ao longa um estilo bem autoral, e por sinal, igualmente ao trabalho anterior, mostra toda a beleza de Recife.

No entanto, quem rouba a cena, sem sombra de dúvidas, é Sonia Braga. Ela está um furacão de personagem, de carisma, de sensualidade, de interpretação, de tudo o que você puder imaginar. A personagem principal é a força de tudo na história! É incrível assistir à garra dessa mulher ao defender seu apartamento, que é e sempre foi, seu lar, além de vermos a fragilidade desta, com assuntos mais delicados como saúde e família.

Além disso, a atriz, aos 66 anos de idade, esbanja sensualidade e inclusive quebra um grande tabu com suas cenas de sexo, pois mulheres dessa faixa etária, aos olhos da sociedade machista, não são procuradas para esse tipo de papel, já que sexo após certa idade é visto como algo grotesco e não comercial, e claro, mulheres não podem envelhecer né?

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Sonia Braga divando aos 66 anos de idade.

O drama é incrível e foi muito bem construído e levou vários prêmios mundo afora, pela potência que foi. No entanto, é importante frisar que a trama foca no público de classe média alta, então, ao meu ver, tem alguns equívocos ao retratar certas mordomias dessa classe.

No geral, esse filme é tudo o que você já deve ter ouvido falar e um pouco mais. Aquarius deu e ainda vai dar muito orgulho ao cinema nacional.

AMORES URBANOS

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Poster do filme Amores Urbanos.

Sinopse: Amores Urbanos é uma comédia dramática que conta a história de três amigos que vivem no mesmo prédio, em São Paulo. Júlia, Diego e Micaela são jovens anti-heróis, que superam desventuras amorosas e profissionais com humor e muita personalidade.”

Escrito e dirigido por Vera Egito, Amores Urbanos rompe muitas barreiras no cinema brasileiro, pois é um filme com muita carga emocional e conta histórias de relacionamentos amorosos entre pessoas, independente da sexualidade, da forma mais honesta possível.

O longa se utiliza do multiprotagonismo e segue em torno da vida de três amigos Júlia (Maria Laura Nogueira), Micaela (Renata Gaspar) e Diego (Thiago Pethit) e suas vidas amorosas, bastante desastrosas, por sinal.

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Júlia (Maria Laura Nogueira), Micaela (Renata Gaspar) e Diego (Thiago Pethit).

Não há efeitos especiais, não há nenhum artíficio “blockbuster” que prenda a atenção do público, mas tem muita história pessoal dentro do roteiro e que qualquer um na faixa dos 25-35 anos consegue se identificar com as crises pessoais dos personagens.

Além disso, é incrível termos dois protagonistas assumidamente gays, Diego e Micaela, e seus relacionamentos serem mostrados pelo lado bom e também pelo ruim, como qualquer outra relação heterosexual.

No demais, apesar de ser um filme com um público alvo muito fechado, é interessante pela narrativa, pelos personagens, pelas dores vividas por eles e como os três amigos conseguem superar todas as dificuldades juntos. Acredito que seja um filme que retrata família no sentido de conexão e não de sangue e só por isso já é possível se emocionar com o longa-metragem.

ELIS

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Cartaz do filme Elis, com Andreia Horta.

Sinopse: A vida de Elis Regina – indiscutivelmente a maior cantora brasileira de todos os tempos -, é contada nesta cinebiografia em ritmo energético e pulsante. A trendsetter cultural que sinalizou a mudança de estilos de Bossa Nova para MPB, a “pimentinha” ardente (brilhantemente interpretada por Andréia Horta), que viveu uma vida turbulenta. Ao mesmo tempo em que se chocava com a Ditadura Militar no Brasil, ela lutou com seus próprios demônios pessoais. “Elis”, o filme, está imbuído da alma da cantora e do país que ela amava.”

O filme tem a direção de Hugo Prata que também assina o roteiro, junto com Vera Egito e Luiz Bolognesi.

Estrelado por Andreia Horta, que brilhantemente encarna o papel da cantora Elis Regina, o longa segue uma narrativa clássica, e nos retrata muito bem as emoções de Elis com o passar do tempo, do começo de sua carreira ao sucesso, até sua despedida desse mundo.

Assim que assisti ao filme, fiz um texto comentando a falta de personagens femininos no roteiro, além da protagonista, Elis. Uma pessoa que com certeza faltou nesse longa foi Rita Lee, mas, infelizmente, não podemos mudar isso.

No entanto, não posso deixar de elogiar a performance de Andreia e dizer que Elis foi e sempre será um ícone para a música nacional. Toda sua história e seu talento me arrepiam só de pensar e o filme nos deixa arrepiado a todo o instante, tocando clásssicos da cantora, além de mostrar suas crises pessoais, às quais podemos nos indentificar humanamente.

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Andreia Horta como Elis Regina na cena em que Elis fala sobre a didatura militar numa entrevista internacional. “Sem querer ofender os gorilas, obviamente.”

No demais, apesar do erro de não dar voz às outras mulheres que fizeram parte dessa história, a personagem principal, seja por ser uma biografia ou não, dá um banho de presença em todos os homens em cena e nos encanta com tamanha potência, de voz e vida pessoal.

Se eu fui ao cinema apaixonada por Elis Regina, saí completamente encantada e admirada por tudo o que ela passou e conquistou. Esse filme vale a pena, não só pela boa produção, mas pelo nome que traz. Por Elis vale a homenagem e vamos torcer para que as próximas produções venham com mais protagonismo feminino e menos homens desnecessários à trama.

MÃE SÓ HÁ UMA

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Cartaz do filme Mãe só há uma.

Sinopse: Mãe só há uma é uma tragédia adolescente que confronta a idéia de família, de identidade, de cultura: Pierre, 17 anos, mora no interior de São Paulo com sua amorosa mãe Aracy e sua irmã Jaqueline. Vive uma vida louca até que a polícia aparece em sua casa com uma delicada suspeita. Joca, 13 anos, mora na capital de São Paulo com sua mãe ausente Gloria, seu delicado pai Matheus e sua empregada Marly. Um exame de sangue vai revelar o que havia oculto em sua família.”

Longa escrito e dirigido por Anna Muylaert, primeiro longa lançado após o sucesso de “A Que Horas Ela Volta (2015)”.

A história é baseada num acontecimento real, o famoso “Caso Pedrinho”. Eu era muito nova na época, mas lembro das notícias contando o caso do menino que foi sequestrado por um mulher, que até então assumiu o papel de mãe – e para ele, realmente foi a mãe dele – e 16 anos depois, a polícia o encontra e o leva para sua família biológica.

Apesar desse forte cunho para o lado do suspense, a diretora trabalha a trama de outra forma, bastante singular por sinal. A narrativa já começa com a separação de Pierre com sua mãe “adotiva” e o vemos lidar com a nova vida, além de lidar com sua identidade de gênero e sexualidade.

Pierre gosta de vestir roupas femininas, apesar de ser considerado do gênero masculino, e se relaciona tanto com meninas, quanto com meninos. O interessante disso tudo, é que na ficção criada pela diretora, o rapaz que, até então, poderia explorar seus gostos pessoais na vida que tinha, ao chegar no novo lar, sua sexualidade e rupturas de gênero não são aceitas, e por sinal, são o principal problema da boa relação nesse novo núcleo familiar.

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Don’t call me son (Não Me Chame de Filho), título do filme na versão em inglês.

Acredito que a maioria do público assistirá ao filme e poderá se decepcionar pelo o roteiro não focar na parte do sequestro e da revelação de tudo, mas irá se deliciar com essa narrativa única, de pertencimento e não pertecimento de um menino ao seu corpo, seu gênero, sua sexualidade e a sua mais nova família.

No demais, Anna Muylaert surpreende novamente e traz mais um orgulho para a cinematografia brasileira.

MATE-ME POR FAVOR

 

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Cartaz do filme com a atriz e protagonista Valentina Herszage.

Sinopse: Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Uma onda de assassinatos invade o bairro. O que começa como uma curiosidade mórbida se apodera cada vez mais da vida dos jovens habitantes. Entre eles, Bia, uma garota de 15 anos. Após um encontro com a morte, ela fará de tudo para ter a certeza de que está viva.”

Escrito e dirigido por Anita Rocha da Silveira, Mate-Me Por Favor é, na minha opinião, o filme do ano. Eu diria isso por razões que vão além de considerar um filme um sucesso ou não. O longa é uma mistura de suspense, com thriller, com alívios cômicos, e além de mostrar a vida pessoal de Bia (Valentina Herszage) e suas amigas, nos mostra como todas lidam com os assassinatos que vem ocorrendo na região em que moram, a Barra da Tijuca.

Esse longa-metragem rompe com tantas regras cinematográficas, mas de uma forma tão magnífica, que quase cria um novo gênero no cinema nacional. Não lembro de nenhum outro filme brasileiro que siga esse exemplo, talvez porque infelizmente não é fácil produzir filmes por aqui ou porque também não é fácil divulgar os filmes já realizados, mas nenhum me vem à cabeça e eu fiquei encantada com essa trama.

O filme não só nos dá agonia e receio por tudo o que está acontecendo com as mulheres assassinadas, nos remetendo ao medo que todas as mulheres têm no dia a dia, como ainda nos surpreende com cenas transcedentais e outras engradíssimas, como as sequências do culto Evangélico “Funkeiro”.

Clipe da música Sangue de Jesus, incluída no filme.

Aproveito para dizer que a trilha sonora está impecável e ela vai de músicas transcedentais até Claudinho e Buchecha. Preciso dizer mais alguma coisa para te convencer a assistir ao filme?

No demais, o longa-metragem consegue entreter, causar e nos fazer refletir sobre como é ser uma menina no mundo em que vivemos e como desde jovens, meninas enfretam medos que, infelizmente, as cercam pelo resto da vida.

PEQUENO SEGREDO

 

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Cartaz do filme Pequeno Segredo.

Sinopse: O longa-metragem de ficção, baseado na história real de Kat Schurmann e que também inspirou o best-seller homônimo de Heloísa Schurmann, revela a força do amor no destino de duas famílias. Ao adotar Kat, o casal Schurmann convive com a delicada escolha de manter ou não um segredo que vai além da adoção.

Dirigido por David Schurmann, Pequeno Segredo, da lista, é o filme que mais foge do ritmo dos outros. A trama começa um pouco perdida, ao tentar situar a história de duas famílias que estão conectadas e só com o desenrolar da história que iremos entender o porquê.

A produção está excelente, mas peca em algumas coisas como direção de atores, no entanto, do meio do filme até o fim, é impossível você desconectar seus olhos da tela. Estamos lidando diretamente com a dor de duas famílias, em proteger Kat (Mariana Goulart), não só do seu “segredo”, como da reação dos outros ao descobrirem esse segredo.

É baseado numa história real, aliás, o diretor do filme é irmão de Kat Schurmann , personagem principal, e fica nítido, a todo o tempo, o amor e carinho que Kat recebeu ao longo de sua vida, além de nos fazer lidar diretamente com tabus que nossa sociedade simplesmente tem medo de tocar.

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Capa do livro de Heloisa Schurmann, com a verdadeira Kat Schurmann.

Mistérios a parte, eu optei por não contar o segredo da protagonista porque é algo muito importante e simbólico para a narrativa e irá surpreender a qualquer um que não conheça a história, ou que conheça, mas verá, através da ficção, o que aconteceu na vida de todos os que estavam presentes na história.

INDICAÇÃO BÔNUS

JUSTIÇA

Apesar de ser uma minissérie, logo foge do tema que é voltado para o cinema, não posso deixar de comentar essa obra-prima criada por Manuela Dias.

Sinopse: A narrativa segue a história de quatro personagens, que no mesmo dia, são julgados e condenados a sentença de seus “crimes” e, a todo o instante, lidamos com a pergunta: “Justiça pra quem?”

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Vicente(Jesuíta Barbosa), Fátima (Adriana Esteves), Rose (Jéssica Ellen) e Maurício (Cauá Reymond).

Cada episódio segue o desenrolar da condenação de um dos protagonistas, mas todas as histórias estão interligadas entre si.

Caso Vicente Menezes

Vicente Menezes (Jesuíta Barbosa), possuído por ciúme e raiva, atira e mata sua noiva, covardemente, ao vê-la se relacionando com o ex. Ele pega cinco anos de cadeia e, ao sair, busca mais que tudo, o perdão de sua sogra, interpretada por Deborah Block.

Caso Fátima Libéria do Nascimento

A personagem Fátima, interpretada por Adriana Esteves, que está maravilhosa no papel, atira no cachorro do vizinho para proteger seu filho pequeno. Com raiva do ocorrido, o vizinho, Douglas (Enrique Díaz), que é policial, enterra drogas no terreno de Fátima e esta é condenada  por tráfico. Quando sai da cadeia, Fátima tem o sonho de reconstruir a família, mas o marido Waldir (Ângelo Antônio) já faleceu, seu filho Jesus (Bernardo Berruezo/Tobias Carrieres) se tornou morador de rua e a filha Mayara (Letícia Braga/Julia Dalavia) se prostitui.

Caso Rose Silva dos Santos

Comemorando ter passado no vestibular, numa festa na praia, Rose (Jéssica Ellen) é presa com drogas dos amigos, enquanto sua melhor amiga, Débora (Luisa Arraes), é liberada. Rose sai da cadeia sem ter para onde ir e busca por Débora, agora casada e com um grande ódio dentro de si. Débora conta a Rose sobre o dia em que foi estuprada e, assim, as duas decidem procurar o homem que a violentou e fazer justiça com as próprias mãos.

Caso Maurício de Oliveira

Maurício (Cauã Reymond) foi preso por eutanásia, após matar sua esposa Beatriz (Marjorie Estiano), uma bailarina que foi atropelada e ficou paraplégica. Ao sair da cadeia, Maurício planeja se vingar de Antenor (Antonio Calloni), que durante a fuga com o dinheiro roubado do sócio, atropelou sua esposa e não prestou socorro.

Essa minissérie nos faz questionar tantos problemas do nosso dia a dia, além de nos entreter a todo o instante, com histórias maravilhosas e muito bem desenvolvidas. Eu devorei essa minissérie e fiquei extremamente orgulhosa por saber que foi criada por uma mulher, Manuela Dias, e que foi lançada em canal aberto, pois este não é um espaço que aceite tanta quebra de tabus.

Recomendo o drama pois vivemos num mundo em que Justiça é algo extremamente questionável, pois esta, infelizmente, não é feita para todos. No entanto, podemos e devemos questionar o que deve ser feito para que finalmente todos possam ser tratados da mesma forma perante a lei.

Além disso, a trilha sonora da série está impecável, com músicas do Johnny Hooker, por exemplo.

Por que ainda existe ódio ao feminismo?

Desde que vi as campanhas publicitárias de uma determinada marca de móveis, cujo nome não vale a pena ser aqui mencionado, me surpreendi com o quanto o feminismo ainda recebe tanto ódio. (Você pode ler sobre este caso aqui – matéria do G1).

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Esta pequena amostra dos comentários que recebi depois de ter avaliado a marca X com 1 estrela no Facebook ilustra bem o ódio que algumas pessoas têm ao feminismo.

Qual é a dificuldade em entender que objetificar o corpo feminino para fins mercadológicos é um erro de marketing? Muitos dizem “ah, mas ninguém obrigou a modelo a estar ali, e ela ainda recebeu pelo trabalho”. Veja bem: a questão aqui não é sobre objetificar o corpo daquela mulher em específico, mas, sim, agredir todas as mulheres (mesmo as que não se sentem ofendidas) com aquelas campanhas publicitárias, como tantas que o mercado cervejeiro já produziu, por exemplo.

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A primeira razão que me vem a mente para tentar justificar reações agressivas ao feminismo é a falta de conhecimento sobre o movimento feminista e as suas ondas, sobre as consequências do machismo na sociedade e, até mesmo, sobre o próprio discurso machista que é reproduzido sem que seja feito qualquer tipo de reflexão.

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Fonte: IT Online

A segunda razão é a epidemia de uma cultura do ódio no meio digital, reproduzida pelos trolls, não importando o assunto. Em geral, pelo o que observo, essas pessoas colocam-se a favor da direita em um âmbito político, são conservadoras e frustram-se com o empoderamento das minorias, como os LGBT, mulheres, negras e negros. Em geral, não são apenas contrários ao feminismo, mas também às cotas nas universidades, às políticas sociais, ao uso do nome social por pessoas transgênero, ao direito de adoção de casais homossexuais, ao direito de escolha da mulher em abortar. E para finalizar: são aquelas pessoas que participaram das manifestações “Fora Dilma”, colocaram narizes de palhaço e acreditaram que retirá-la do poder seria um passo decisivo no combate à corrupção.

Essas pessoas são os trolls que vão atrás do que dizem os formadores de opinião machistas, a exemplo do Danilo Gentili.

 

Após a Jout Jout postar um vídeo informando seus fãs sobre o término do namoro com o Caio, que acompanhamos já há anos, vieram as manifestações machistas sobre o quanto ele foi “guerreiro”, que agora vai poder “aproveitar” e vi até mesmo um que perguntava que aposta o Caio perdeu para ter que namorá-la por tanto tempo.

Há uma série de páginas nas redes sociais, formadas em sua maior parte por mulheres, que manifestam o seu descontentamento com a possibilidade de uma igualdade de gêneros e o empoderamento feminino.

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Esta página é um exemplo que critica a luta pela igualdade de gêneros, ou seja, que critica o feminismo. Repare que a foto de capa compara o movimento em defesa do empoderamento feminino com um câncer, algo que estaria corroendo a sociedade. 

Acredito que essa é mais uma daquelas situações clichés em que se pode dizer: “isso é muito Black Mirror. No entanto, eu diria que se assemelha, especialmente, ao último episódio da terceira temporada, Odiados pela Nação (Alerta de spoilers).

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O sexto episódio da terceira temporada de Black Mirror fala sobre o movimento de proliferar o ódio nas redes sociais e de que forma a tecnologia pode impactar a vida das pessoas que recebem as mensagens. 

 

Neste episódio, alguns dos personagens cujas ações foram hostilizadas nas redes sociais são atraídos por dispositivos eletrônicos no formato de abelhas que, controladas por um homem misterioso, são responsáveis por suas mortes. O público é tomado por esta ação em massa, devendo escolher, a cada dia, uma pessoa para morrer, com base no quanto ela “merece” aquilo, segundo o senso comum.

Vamos imaginar que isso ocorresse de fato. Você provavelmente concorda que haveria quem participasse de um assassinato coletivo, como os que foram representados na série – não concorda?

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A hashtag que provocava o ataque das abelhas eletrônicas em Black Mirror era #DeathTo + o nome da pessoa escolhida para morrer. (Em português, #MorteA).

Na época em que a polícia levou o Garotinho para prisão, por exemplo, enquanto ele saía do hospital, houve uma ampla divulgação das imagens que mostravam uma cena, no mínimo, degradante. Como há um sentimento coletivo de ausência da Justiça oriunda do Estado, esse vazio é preenchido muitas vezes por outras formas que seriam “justas”. Concordo que Garotinho precise pagar por seus atos, mas de que maneira?

Aliás, essa falsa noção de “justiça” lembra bastante o episódio Urso Branco, da segunda temporada (Alerta de spoilers). Ambos tratam de uma vingança social baseada na barbárie. A diferença é que no episódio das abelhas, o movimento coletivo mata um por dia e, neste outro, a personagem principal está aprisionada em uma situação que serve de divertimento para os “cidadãos de bem”, enquanto ela, sem consciência sobre o que lhe acontece e desprovida de qualquer tipo de memória sobre seu passado, é torturada diariamente.

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Em Urso Branco, ou no original, White Bear, uma mulher passa o episódio todo sendo perseguida, enquanto os demais nada fazem para ajudá-la – apenas filmam o seu sofrimento e agonia. Depois, descobrimos que isso era uma forma de “justiça”.

Quando percebi o que a tal da marca de móveis estava fazendo, por meio de sua comunicação nas redes sociais, associei o posicionamento escolhido com esses episódios porque ela conseguiu permitir que houvesse um livre espaço para o discurso de ódio circular livremente. E o ponto de interseção entre esses episódios de ficção e a realidade é o motivo que leva às manifestações de ódio proliferadas pelo coletivo: a impunidade.

A empresa adotou uma estratégia de comunicação debochada como resposta a uma crítica pertinente a suas campanhas publicitárias. O que começou como uma maneira de objetificação feminina, com função mercadológica, transformou-se em um desafio sarcástico, desrespeitoso, grosseiro e, obviamente, machista, que além disso tudo deu o aval para uma manifestação brutal contra o movimento feminista. Não é à toa que, tão logo classifiquei a empresa com uma estrela, recebi diversos comentários ofensivos e machistas. É assustador, vale ressaltar, o quanto ainda há de mulheres que compartilham deste pensamento.

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No Tumblr Liga das Heroínas, criado para expor o machismo existente nas agências de comunicação, há uma série de relatos de mulheres que passaram por situações no ambiente profissional que as fazem ser muito mais do que publicitárias, mas, sim, heroínas por enfrentarem tais obstáculos diários. 

Entendam: feminismo defende a igualdade de gêneros. Mas, por que nós, feministas, provocamos tanto ódio? De que maneira o machismo entranhou-se na sociedade a ponto de ficar agarrado como um carrapato em determinadas pessoas e em determinadas áreas, como a de publicidade? E de que forma podemos eliminar a resistência às mudanças?

A luta continua e percebo que ela está, cada vez mais, atrelada à difusão do conhecimento.

Rogue One traz a mensagem que todos nós precisávamos ouvir em 2016 

Assistir Star Wars é uma arte porque a história transcende a sua própria ficção. O enredo de Rogue One não é apenas sobre o roubo dos planos da (primeira) Estrela da Morte; sendo, claro, enriquecido, primorosamente, pela história da protagonista, Jyn Erso (Felicity Jones). No entanto, é também sobre a evolução dessa personagem que de protagonista vai à heroína, passando por fases que nos servem de inspiração para enfrentarmos as injustiças (que, aliás, sempre existiram) em nossa realidade. Confira:

Superação

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Lyra Erso entrega para sua filha um colar com um cristal Kyber, parte importante de um sabre de luz, por estabelecer uma conexão com a Força.

Quando criança, Jyn perde a mãe, Lyra Erso (Valene Kane), no dia em que o pai, Galen (Mads Mikkelsen), é levado pelo Império, pois o cientista é uma peça chave na construção da poderosa arma destruidora de planetas, como forma de o regime frisar o seu poder em toda a Galáxia. Este é o trauma da protagonista que vem e vai em flashes de memória, nos momentos mais turbulentos. É o acontecimento que exige dela superação para que a história avance. Para lutar as próximas batalhas, Jyn precisa vencer a sua própria batalha interior e vencer o tempo com os pais que lhe fora roubado.

Acreditar na causa pela qual se luta

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Anos depois, o piloto Bodhi Rook (Riz Ahmed) trai o império e leva uma mensagem de Galen Erso endereçada ao rebelde isolado Saw Gerrera (Forest Whitaker) em Jedha. No entanto, a maior parte de seu conteúdo é voltada para Jyn que, quando a assiste, sente-se atraída por reencontrar seu pai e, com isso, também sente-se mais próxima da Rebelião. E é com esta mensagem que ela descobre a existência de uma falha na Estrela da Morte, deixada lá de propósito por seu pai, para que os rebeldes tenham uma chance contra o Império, como nós vemos acontecer no Episódio IV: Uma Nova Esperança. No entanto, Cassian Andor (Diego Luna), o integrante da Aliança Rebelde que a acompanha, não acredita inteiramente em sua palavra, ao mesmo tempo em que Jyn não acredita totalmente na causa e na forma como a Aliança Rebelde encara alguns desafios. Mais adiante, os dois entenderão que a confiança mútua é indispensável em momentos como aquele.

Comprometimento

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A cena em que Jyn arrisca a própria vida para salvar uma criança que estava perdida no meio na guerra em Jedha, pequena lua desértica, inspirada em cidades como Mecca e Jerusalém, consolida-se como o momento em que ela deixa de ser apenas a protagonista para assumir o papel de heroína.

No entanto, o Império vence a batalha em Jedha, destruindo-a com a Estrela da Morte. Saw Gerrera decide não mais lutar e padece junto com toda a cidade. Tendo como rumo Eadu, onde Galen trabalha com sua equipe de engenheiros, o grupo que acompanha a heroína aumenta. Dessa forma, Jyn, Cassian e o droide K-2SO (Alan Tudyk), recebem em sua jornada o piloto Bodhi, o religioso cego Chirrut Îmwe (Donnie Yen) e o rebelde Baze Malbus (Wen Jiang), provavelmente o melhor atirador em toda a Galáxia. Estes são os responsáveis pela maior parte das cenas cômicas do filme – muito bem construídas, por sinal.

O ápice do reencontro entre Jyn e seu pai é marcado pelas últimas palavras do cientista, que deixa claro seu último desejo: a destruição da arma que ajudou a projetar. E, neste momento, Jyn compromete-se por inteiro aos planos de seu pai e, paralelamente, à causa rebelde de restabelecer a democracia.

Liderança

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A continuação da jornada da heroína é posta à prova em seu retorno à base rebelde. A maioria dos líderes não acredita que uma vitória seja possível neste momento em que o Império dispõe de uma arma tão poderosa e, dessa forma, eles deixam de lado os planos apresentados no envolvente discurso de Jyn.

Quando tudo parece perdido, a posição de liderança da heroína desponta e, aos personagens que o público já conhecia, juntam-se seguidores que depositam naquela missão toda sua confiança de concretizá-la, derrotando, portanto, o Império, na próxima batalha. Com isso, Jyn passa a ser a líder do pelotão autodenominado Rogue One.

Não desistir dos objetivos

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Scarif, onde estão os planos da Estrela da Morte

Rogue One é repleto de cenas de tirar o fôlego em suas três grandes batalhas (Jedha, Eadu e Scarif). Quanto mais os rebeldes correm risco de falhar, mais eles tomam controle da situação e, subestimados pelos oficiais do Império, ultrapassam as expectativas de todos. Uma vez que a base é informada sobre o ataque, envia reforços, solidificando o discurso de esperança apresentado por Jyn antes de sua partida.

A fala da líder é clara e direta: o objetivo é tentar até conseguir ou até não poder mais. Com isso em mente, eles sabem o que aquilo significa, e cada um vai até o seu limite visando cumprir a missão pelo bem maior. A cena em que o monge cego sai do esconderijo, rumo ao interruptor, que iria permitir a transmissão dos planos da Estrela da Morte aos rebeldes que aguardavam no espaço, é provavelmente a que mais evidencia o desprendimento ao mundo, ressaltando a sua coragem e sua confiança de que a Força estaria ao seu lado.

“Rebeliões são construídas com esperança”

Quando Uma Nova Esperança foi lançado, em 1977, o mundo passava pela Guerra Fria, o Brasil combatia a Ditadura Militar, e diversas regiões do mundo eram campos de guerra. O mundo estava dividido em muros de ideias.

Em um primeiro momento, olhar para a situação em que estamos em 2016 pode ser bastante desanimador. O Brasil enfrentou um golpe em sua democracia e rasgos constantes em sua constituição, por meio de medidas que privilegiam os já privilegiados, colocando à parte os demais. Além disso, observar que o local da primeira batalha em Rogue One fora baseado no Oriente Médio, área de constante guerra, – e que este local é destruído pela Estrela da Morte – é algo extremamente simbólico. Então pergunto: até que ponto vai a linha que separa a destruição de Jedha da guerra na Síria, por exemplo?

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A lua Jedha, local da primeira batalha do filme, teve como base locais do Oriente Médio

No entanto, Rogue One resgata a sensação deixada pelos outros Star Wars ao provocar o rebuliço que já existe seja aqui, seja em quaisquer outros países que sofrem injustiça. Apesar de a democracia existir por escrito, não é o que vemos acontecer na prática, uma vez que a cidadania plena nos foi ainda mais afastada da realidade. Ela mais parece um sonho. Mas, assistir ao filme no final desse conturbado 2016 traz a mensagem de que todas e todos nós precisávamos ouvir, de que se houver esperança, haverá uma saída.

“Salve a rebelião; salve o sonho”.

O jornalismo machista nas matérias de esporte

Por um jornalismo mais humano e feminista

Que a imprensa não dá a menor relevância para as notícias de esporte feminino, isso nós já sabemos. No entanto, uma manchete do jornal Manaus Hoje desta segunda-feira, 12 de dezembro, viralizou nas redes sociais diante do quão absurda foi.

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A manchete “Meninas dão de quatro” do jornal Manaus Hoje recebeu duras críticas por ter escrachado algo que já sabemos que existe, mas que às vezes não fica tão evidente: o jornalismo machista nas matérias de esporte.
A matéria em questão dizia respeito à vitória da seleção feminina de futebol contra a Rússia. Com este resultado, o Brasil conquistou uma vaga antecipada para a final em Manaus.

Mas, você provavelmente está se perguntando: “como um título desses foi aprovado?”, ou então: “como alguém até mesmo pensou em publicar isso?”

Esse tipo de atrocidade acontece porque alguns jornalistas ainda não enxergaram a linha que separa o que é genuinamente engraçado do que é desrespeitoso, que, aliás, ultrapassa muitas vezes o machismo aqui comentado e criticado.

O jornalismo trabalha com humor e não raro apropria-se de chavões para atrair a atenção dos leitores e conquistar audiência. Até aí, beleza. No entanto, quando o humor pertence aquele discurso de quem diz “o mundo está ficando muito chato, não se pode nem mais fazer uma brincadeira”, aí entra o problema.

Como ainda bem que o mundo está ficando um lugar muito chato para os machistas de forma geral reproduzirem seus discursos, o jornal recebeu, de forma muito merecida, uma enxurrada de críticas.

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Este é um conselho muito bom. E digo isso para jornalistas de todos os veículos de comunicação.
Com isso, como já era de se esperar, o jornal Manaus Hoje pediu desculpas na edição desta terça-feira, 13, oferecendo, inclusive, o mesmo espaço da ridícula matéria.

Mesmo que essa atitude tenha sido a esperada e, portanto, não é nem um pouco surpreendente que tenham feito o mínimo de assumir o erro e pedir desculpas, queria levantar alguns pontos aqui que me chamaram a atenção nessa retratação deles.

O pedido de desculpas do jornal Manaus Hoje foi publicado na edição da terça-feira, 13 de dezembro, um dia depois de terem cometido um ˜deslize˜ na manchete, atrelando uma piada de cunho sexual ao resultado de um jogo de futebol feminino.
Eles usaram o espaço que tinham para pedir desculpas para dizer algo como: “poxa, gente, vocês ficaram chateadas? Pedimos desculpa, de verdade. Mas, olha só, nós fizemos uma ~homenagem linda e fofa~ pra vocês no Dia das Mulheres. Nós gostamos tanto dela que vamos botar aqui de novo, ó”.

Antes de mais nada, não gostei desse tom usado na edição de 8 de março. Achei que foi mais um exemplo que romantiza uma data que deve ser lembrada pela luta por direitos; e não para dizer “ah, mulheres, vocês são lindas, mas se deem ao respeito. Vocês são lindas, mas não andem à noite na rua. Vocês são lindas, mas se forem abusadas é porque estavam querendo, né? Parabéns!”.

Uma capa ˜bonitinha˜ no Dia das Mulheres não compensa erro grotesco algum. Não sei por que eles relacionaram o fato de terem sido o único jornal num raio de x km que homenagearam as mulheres por seu dia. Gente, e se os outros jornais estivessem mais preocupados em fazer um bom jornalismo? Desconheço a concorrência deles e nem estou defendendo eles, mas, acho que me fiz clara quanto a este ponto.

Agora, vamos combinar: essa forma de comunicar está toda errada. Nós estudamos quatro anos na faculdade, nos preocupamos com questões sociais e aí vemos esse tipo de erro de sensacionalismo barato sendo ainda publicado. Não nos resta a ter outra sensação além de: gente, até quando? Como podemos tornar o jornalismo menos machista?

Nessas horas ressoa na minha mente o discurso da Emma Watson na ONU em que ela diz: “Se não agora, quando?”.

Busquei dados para embasar este fato de que o jornalismo é machista, sim. Confira:

Pesquisa da Universidade de Cambridge mostra discrepância entre cobertura relacionada às mulheres e aos homens durante a Rio 2016

Uma pesquisa feita pela Universidade de Cambridge durante as Olimpíadas Rio 2016, comprovou que há uma diferença semântica na cobertura de notícias sobre atletas mulheres e atletas homens. Por exemplo, “o vocabulário nas notícias sobre atletas mulheres tiveram um enfoque desproporcional voltado para a aparência, roupas e vida pessoal, colocando em evidência a estética em detrimento do atletismo”, informa.

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Matérias sobre atletas mulheres costumam adotar um vocabulário mais voltado à aparência, roupas e vida pessoal. A estética supera o atletismo.
Apesar de a pesquisa ter usado uma amostra de notícias em inglês, achei que seria interessante buscar exemplos de mídia nacional para ajudar a explicar o que o item apresentado acima quis dizer.

No exemplo que coloquei aqui, de uma matéria no site da revista Veja, encontramos alguns dos elementos que a pesquisa descobriu que são mais relacionados às notícias sobre atletas mulheres. A matéria em questão aqui foi muito bem escrita e não estou desmerecendo a repórter que a escreveu. Mas, acho válido refletir sobre o uso do adjetivo “doce” no título. Será que se fosse um resultado de jogo masculino essa palavra teria sido empregada? Será que uma matéria iria destacar, no primeiro parágrafo, um presente dado ao atleta homem?

Diferentemente de trabalhar o vocabulário mais voltado às mulheres, sem desrespeitá-las, é usar o seu poder como formador de opinião na área de jornalismo esportivo para falar besteiras.

 

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Muitos seguidores já avisaram para o colega aqui que algo de errado não está certo em sua fala e postura, mas não adiantou. A crítica ao seu machismo entranhado entrou por um ouvido e saiu por outro sem fazer efeito algum em sua consciência.
Ainda sobre a pesquisa da Universidade de Cambridge, matérias sobre esportes feminimos adotam níveis mais altos de infantilização para as atletas. O que estava escrito mesmo no pedido de desculpas do jornal Manaus Hoje? Ah, isso mesmo. “Meninas, nos perdoem”. O mesmo, contudo, não ocorre com homens sendo chamados de “meninos”.

Com relação aos termos mais empregados quando as notícias são sobre as atletas mulheres, se destacam: mais velhas, grávidas, casadas ou solteiras. Já as principais palavras relacionadas aos homens são: mais rápidos, fortes, autênticos e ótimos.

Sobre a forma de retratar o desempenho na competição, a pesquisa mostrou que aos atletas homens são atrelados verbos como: bater, vencer e dominar; enquanto às mulheres: competir, participar e lutar.

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Quando uma atleta mulher se destaca, ela é comparada a um atleta homem de destaque, para que a gente perceba que elas são boas mesmo.
O erro mostrado na imagem acima é um dos mais graves, porque ele mostra que há um hábito de comparar uma atleta mulher que tem um desempenho de destaque perante sua categoria ou no seu time, com um atleta homem renomado. É como se, fazendo isso, a mídia projetasse uma analogia proporcional do tipo: ah, Pelé é uma lenda no futebol brasileiro, então se estão comparando a Marta com ele, é porque a Marta foge da regra das outras atletas mulheres.

Essa matéria do Milton Neves, como um todo, é horrorosa. O “jornalista profissional diplomado, publicitário, empresário e apresentador esportivo” até mesmo disse que a jogadora Marta já conquistou quase tudo – incluindo o respeito.

Pois, é, gente. Parece que, para ele – para outros tantos -, para uma atleta mulher ser respeitada, ela precisa ser “praticamente” um homem. Ele brinca em alguns momentos sobre a entrada dela na seleção masculina. Afinal, onde já se viu uma mulher jogar bola tão bem, não é mesmo?

Que mais pessoas reclamem quando se virem desrespeitadas e que o mundo fique mesmo “mais chato” para os que acham graça de subjugar as mulheres.

E é por isso que luto por um jornalismo mais humano e feminista.

“Se não agora, quando?”

Bibliografia

UNIVERSIDADE DE CAMBRIDGE, Aesthetics, athletics and the olympics, 2016. Disponível em: <http://www.cambridge.org/about-us/news/aest/>. Acesso em: 13 dez. 2016.

Filmes de ação com protagonistas mulheres e a crítica às personagens que não são donzelas em perigo.

Em 2000, foi lançado o filme As Panteras, estrelando Cameron Diaz (Natalie), Drew Barrymore (Dylan) e Lucy Liu (Alex), interpretando as famosas espiãs de Charlie.

Eu lembro que na época, com apenas nove anos de idade, fiquei encantada com aquelas mulheres maravilhosas lutando ferozmente contra os vilões. Eu não conhecia a série original Charlie’s Angels e, até então, a referência que eu tinha de mulheres em filmes e, principalmente, em games, eram princesas frágeis esperando ser resgatadas.

Para uma menina como eu, foi uma quebra muito grande com o que eu consumia da mídia e fiquei apaixonada com tudo aquilo.

Trilha Sonora do filme com as Deusas do Destiny’s Child.

Hoje em dia minha visão é diferente. Eu concordo que há uma forte sexualização das personagens e uma necessidade forçada em mostrá-las semi-nuas o tempo todo. No entanto, elas continuam sendo uma referência pra mim, não só pela nostalgia, mas porque existem poucos filmes de ação com protagonistas mulheres que fizeram sucesso desse tamanho.

Além disso, eu lembro que na época ouvi várias retaliações ao filme dizendo o quão surreal eram aquelas personagens enfretarem tantos homens e que faltava veracidade na história. A primeira coisa que passava pela minha cabeça quando eu ouvia esses comentários era: “Tom Cruise faz a mesma coisa em Missão Impossível e ninguém reclama”.

A partir disso, fiz questão de hoje, em pleno 2016, ler críticas cinematográficas de alguns filmes de ação, com protagonistas mulheres, e outros, com protagonistas homens, realizados em épocas parecidas, e eis minha pequena análise.

Busquei a resenha dos três primeiros longas de ação, com personagens femininos, que eu lembrei: As Panteras (2000),  Mulher-Gato (2004) e Salt (2010).

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Angelina Jolie no papel de Evelyn Salt.

Antes de qualquer coisa, gostaria de lembrar que a maioria dos filmes de ação foge da realidade e usa e abusa de efeitos especiais para nos envolver na trama. Com isso em mente, deixei o roteiro de lado e foquei na crítica às atrizes.

A resenha do filme de Cameron, Drew e Lucy falava do exagero destas em exibirem seus corpos, das cenas de lutas surreais em que seus cabelos continuavam perfeitos, o quão engraçado eram mulheres frágeis enfrentando vários homens, e o pior de todos: “se ao menos tivesse cena com elas nuas, o filme se salvaria”.

Em Mulher-Gato a crítica falava do prêmio Framboesa de Ouro* que Halle Berry ganhou, de sua sensualidade e ainda teve quem se referiu a participação da atriz em X-Men, em que interpreta Tempestade, como sendo outro fracasso. Já a avaliação de Salt exaltava a todo o tempo a beleza e sensualidade de Angelina Jolie e que só isso valia o filme todo.

Em contra partida, as análises dos filmes Missão Impossível 2 (2000), A Identidade Bourne (2002) e Duro de Matar 4.0 (2007), protagonizados por Tom Cruise, Matt Damon e Bruce Willis, ressaltavam as cenas de lutas como sendo extraordinárias e convincentes, nos fazendo esquecer dos buracos no roteiro.

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Raio neles, Tempestade!

Das obras cinematográficas citadas, todas foram dirigidas por homens e, somente Mulher-Gato, teve a participação de uma mulher no desenvolvimento da história, segundo o site IMDB.

É importante enfatizar que: no cinema, quem tem autonomia sobre o projeto é o diretor e, na maioria dos casos, o roteirista está fora do trabalho após a entrega do último tratamento do roteiro. Ou seja, mesmo os filmes com protagonistas mulheres, são histórias de heroínas pela visão e direção de homens.

Eu sempre falo que é impossível a visão de mundo do roteirista, no caso de séries televisas, e do diretor, no caso de filmes, não interferir no projeto. Sendo assim, nossas protagonistas, hipersexualizadas, são retratadas dessa forma porque um homem assumiu o projeto e é assim que ele imagina heróis femininos em combate.

Infelizmente, não posso negar que As Panteras, Mulher-Gato e Salt têm muitos problemas na narrativa e fogem da realidade, mas isso se aplica à maioria dos filmes do gênero, incluindo os do senhor Tom Cruise que, até hoje, com 54 anos de idade, interpreta os mesmos papéis e ninguém parece preocupado com suas cenas de ação.

Protagonistas de realizações cinematográficas mais recentes, como Rey (Daisy Ridley) em Star Wars: O Despertar da Força (2015) e Imperator Furiosa (Charlize Theron) em Mad Max (2015), também recebem críticas machistas e sem cabimento às personagens, coisa que não acontece com os heróis masculinos.

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Por quê será?

Sendo assim, acredito que quando mulheres roteiristas e diretoras assumirem o comando de filmes de ação, aliás, de qualquer gênero, com protagonistas mulheres, essa hipersexualização diminuirá ou sumirá de vez, mas a fantasia e o exagero desse estilo cinematográfico provavelmente continuará o mesmo e não há problema algum nisso. Porém, criticar heroínas pelos problemas do gênero narrativo é, na verdade, mais uma forma de a sociedade praticar o machismo e misoginia, que já estamos cansadas de ver e ouvir falar.

Que venham mais histórias protagonizadas por mulheres que lutam e acabam com os inimigos e menos machismo dentro e fora da ficção.

*Prêmio Framboesa de Ouro: é o prêmio americano, criado como uma paródia ao Oscar, dado aos piores filmes, atores, diretores, etc, do ano.

Bibliografia

IMDB, Mulher-Gato (2004). Disponível em: <http://www.imdb.com/title/tt0327554/fullcredits?ref_=tt_ov_wr#writers&gt;.

O poder que as histórias têm na formação do caráter humano

E por que isso tem tudo a ver com feminismo.

O machismo se manifesta de diversas formas. Pode ser no Masterchef contra a Dayse, ou nas publicações da mídia contra as famosas. Nesse ano, por exemplo, vários tabloides divulgaram que Jennifer Aniston estava grávida. Afinal, “já passou da idade, não é mesmo?”

Não, não é.

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Já na infância somos apresentados aos estereótipos de gênero. Uma das formas que isso acontece é por meio das histórias que nos contam. Quando ainda não sabemos demonstrar vontades, somos expostos a uma variedade de informações que, com o tempo, agem como blocos na construção da nossa personalidade e caráter.

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A que histórias vocês foram apresentados quando eram crianças?

Por exemplo, o vídeo da menininha que viralizou nas redes sociais, em que ela pergunta à mãe por que as roupas das meninas dizem que elas devem ser bonitas, e as dos meninos dizem que eles devem ser aventureiros, é análogo ao que estou dizendo sobre essa exposição a histórias durante a infância.

Quero dizer, ela diz “Hey!”, escrito em uma das blusas, “O que isso ao menos significa? Que mensagem isso passa?”, e compara com a frase na blusa masculina “Pense fora da caixa” que, evidentemente, diz alguma coisa.

Juro que pensei em falar sobre o ensino das crianças nesse texto. Mas aí vi que talvez eu também tivesse me esquecido o quanto é importante educarmos as adultas e os adultos. Gente, é só pararmos um pouquinho para ler os comentários das notícias, como a que Buenos Aires permitiu multa aos homens que praticarem assédio nas ruas contra as mulheres. Essa atitude do governo é ótima? É. Mas, há cada “opinião” por aí que assusta.

Vejamos alguns exemplos:

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O primeiro comentário começou mal ao dizer “não concordo com algumas bizarrices do feminismo”. Fico aqui pensando o que ele acha de tão bizarro: direitos iguais?

Então eu penso: o que aconteceu na vida dessas pessoas que as tornou assim? Quais foram os fatores ao longo do crescimento delas que impediu o surgimento da ideia de sermos iguais?

Eu admiro muito o poder da literatura e entendo que nem todos tiveram as mesmas oportunidades e privilégios que pude acessar ao longo da minha vida, mas não estou nem querendo dizer sobre o poder de compra no caso de livros. Estou falando sobre as histórias que ouvimos de forma geral. No meu caso, a literatura desempenhou bem essa função humanista na minha formação. Mas, e as pessoas machistas? Que histórias elas ouviam quando eram pequenas?

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Um exemplo para embasar o que estou dizendo é uma pesquisa da Universidade Federal do Piauí (UFPI), intitulada Influência das estórias infantis na formação dos papéis de gênero.

Os pesquisadores fizeram uma seleção aleatória de 10 livros infantis e descobriram que 72,7% dos autores eram do sexo feminino. No entanto, entre os ilustradores, as mulheres eram apenas 40%. Diante disso, para a maior parte dos personagens ilustrados correspondentes ao gênero feminino, foram atribuídas as seguintes características: gorda, baixa, feia, idosa e fraca. Por outro lado, a maior parte dos personagens ilustrados do gênero masculino receberam características como: alto, magro, bonito, jovem e forte.

“Com relação aos valores humanos associados a cada gênero observou-se que nas estórias estudadas as características relacionadas ao gênero feminino foram, paciência/tolerância, solidariedade, proteção, medo, emotividade e aspectos comumente atribuídos à imagem da mulher como um ser bondoso e frágil, porém que protege maternalmente”. (Lembra daquilo que falei sobre a Jennifer Aniston? Então.)

As atitudes precisam ser mudadas hoje

Para entender melhor nossa realidade, conferi alguns dados que mostram, em números, a presença do machismo que todas e todos nós sabemos que existe. Dê só uma olhada:

Na última quarta-feira, 7 de dezembro, o Instituto Avon e o Instituto Locomotiva lançaram a pesquisa “O papel do homem na desconstrução do machismo“.

“Mas cabe apenas às mulheres desconstruir essa cultura? Se todos nascemos, crescemos e vivemos imersos nela, não seríamos todos responsáveis por acabar com ela? E os homens, de que forma podem contribuir nesse processo?” – trecho do editorial da pesquisa O papel do homem na desconstrução do machismo.

Assim que vi essa pesquisa me lembrei do movimento HeForShe da ONU. Em outras palavras, nós, mulheres, não estamos sozinhas. Os homens também devem ser feministas e prezar pelo respeito a todos e pela igualdade de gênero.

Enquanto quase 90% dos entrevistados reconhecem a existência da desigualdade entre homens e mulheres na sociedade brasileira, apenas 59% acreditam que todas as mulheres devam ser respeitadas, não importando sua aparência ou seu comportamento.

Ou seja, gente, aproximadamente 40% acham que a aparência e o comportamento são fatores que importam para uma mulher ser ou não ser respeitada.

A pesquisa também mostra que a questão racial precisa ser levada em conta, pois também quase 90% dos entrevistados acreditam que as mulheres negras sofrem ainda mais preconceito do que as mulheres brancas.

É assustador quando vemos que 61% consideram que a mulher que se deixou fotografar também tem culpa quando um homem compartilha suas imagens íntimas sem a sua autorização. E vemos o quanto é necessário falar sobre o feminismo quando 55% acreditam que este movimento é o contrário de machismo.

Não! Feminismo defende a igualdade, não privilégios ou superioridade.

Há uma parte da pesquisa que diz o seguinte:

“A maioria enxerga que o mais importante a fazer é oferecer aos filhos uma educação na qual se ensine a respeitar as mulheres e só depois pensa em rever seu próprio comportamento. E, questionados sobre esteriótipos de gênero, mostram que, muitas vezes, não querem quebrar velhos paradigmas da desigualdade” (Instituto Avon/Locomotiva, p.14, 2016).

Entre as formas de se combater o machismo, os homens elegeram o ensino das crianças como a principal. Bacana, né? Mas, por outro lado, me chamou atenção que 43% dos homens acham que “pega mal” reclamar em um grupo de WhatsApp quando alguém compartilha fotos de mulheres nuas. Ou seja, na infância faz sentido incentivar a mudar mas quando adulto não vale o esforço.


Não é à toa eu pensar da forma como penso hoje. Está inclusive comprovado que ler Harry Potter é uma forma de estimular as leitoras e os leitores a lutarem contra o preconceito em suas mais variadas formas. A quebra de esteriótipos, pensamentos e atitudes machistas pode acontecer a partir do momento que nós falamos sobre isso. Para uns, isso é óbvio. Mas não vamos nos esquecer de que as crianças não são as únicas que precisam ser alertadas. Elas vão ouvir histórias. Se não forem contadas pelos pais, serão por outras pessoas. E essas histórias vão fazer com que elas se tornem alguém que acredita na igualdade, ou alguém que não consegue enxergá-la.

Vamos mudar isso? Vamos contar novas histórias para as adultas e os adultos?

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Bibliografia

INSTITUTO AVON, O papel do homem na desconstrução do machismo. Disponível em: <http://fsb.imcgrupo.com/>. Acesso em: 10 dez. 2016.

O GLOBO, Buenos Aires aprova multa para quem cantar mulheres na rua. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/>. Acesso em: 10 dez. 2016

SILVA, F. P. ; SOUZA, A. B. L. ; FERREIRA, R. S. ; ARAÚJO, L. F. . Representações Sociais Influência das estórias infantis na formação dos papéis de gênero, 2010 <http://www.abrapso.org.br/>. Acesso em: 10 dez. 2016

Nurse Jackie: a protagonista que trai o marido.

Você sabia que existe uma “regra” na televisão americana, em que mulheres não podem trair seus maridos?

De acordo com o livro Na sala de Roteiristas, escrito por Christina Kallas, essa é uma, de provavelmente muitas, das regras veladas das emissoras. O livro fala sobre a sala de roteiristas, muito comum na televisão norte-americana, em que alguns ou vários roteiristas sentam-se numa sala e discutem os episódios da série em questão.

A autora entrevista diversos profissionais da área, alguns roteiristas e produtores-executivos, sobre suas experiências no writer’s room e seus trabalhos em séries famosas como: Sex and the city, Gilmore Girls, Game of Thrones, Mad Men, etc.

O assunto que mais me chamou a atenção foi na entrevista do showrunner* Warren Leight, em que ele comenta sobre essa regra, dizendo que se o personagem feminino trair o marido no programa, as chances do público não gostar mais dela são grandes.

trairnaopodeTrecho do livro Na sala de roteiristas.

Com isso em mente, fiz questão de assistir a série que quebra essa norma, Nurse Jackie, e entender melhor esse regulamento, que mais parece uma imposição. O programa teve sete temporadas e, até agora, assisti as duas primeiras.

Antes de tudo, gostaria de deixar claro que traição não é legal. Quando estamos numa relação monogâmica, seja com quem for, trair é mentir e enganar o outro. Isso quebra a confiança e, pior, afeta a auto-estima do outro e pode causar feridas incuráveis. É muito melhor e mais saudável, quando se há vontade de ficar com outras pessoas, que o casal discuta a respeito e chegue num consenso, onde eles podem abrir a relação ou ser poliamoristas, por exemplo.

Porém, a verdade é: traição existe e ela não é restrita a nenhum gênero. Ela acontece por várias razões e a intenção aqui não é julgar, mas sim compreender o motivo desse princípio absurdo, em que personagens mulheres não podem ou não devem trair seus companheiros, mesmo que na ficção.

Esse assunto surgiu depois que a escritora perguntou “Você dá ouvidos a coisas como ‘o público não vai gostar disso’?” Com essa questão, Warren diz que na sala de roteiristas de Mad Men, eles queriam que a esposa do protagonista, Don Draper (Jon Hamm), tivesse um caso. Eu não assisti essa série, mas na sequência ele conta que a personagem, Betty Draper (January Jones), “acabou traindo, mas não gostou, ou a experiência só serviu para ela dar o troco no marido, mas foi um erro”.

img_8761-jpgTrecho tirado do livro Na sala de Roteiristas.

Refletindo sobre o assunto chego a conclusões óbvias: numa área de trabalho onde a maior parte dos escritores são homens brancos, é difícil conseguir mudar regras as quais eles mesmos criaram.

Além disso, Nurse Jackie, citada na entrevista, tem como protagonista Jackie Peyton (Edie Falco) e ela trai o marido. A série exibida no canal Showtime, foi lançada em 2009 e teve sete temporadas de dez a doze episódios cada. Ou seja, a série pode ser considerada de sucesso, pois um programa que chega ou passa da quinta temporada, já ganha tal mérito.

A trama é protagonizada por Jackie, uma enfermeira de personalidade forte, que entende mais do que alguns médicos sobre salvar vidas, é uma viciada em remédios, e você a ama porque ela faz coisas como: jogar a orelha cortada de um homem na privada porque ele batia na mulher. Isso é contra os princípios da medicina em que a médica ou enfermeira tem que tratar todos os pacientes da mesma forma, mas nossa personagem nunca se contém.

Ademais, um dos arcos principais da trama, é a vida amorosa de Jackie em que, já no piloto da série, a vemos tendo relações com o farmacêutico, Eddie Walzer (Paul Schulze), e retornando a casa para seu marido, Kevin Peyton (Dominic Fumusa), e suas filhas, Gracie (Rubie Jerins) e Fiona (Mackenzie Aladjem).

Essa parte da série não só é importantíssima pra história, como nos prende a todo o instante, e nos provoca a desvendar essa misteriosa mulher, que esconde sua vida pessoal no trabalho e conta poucos detalhes para sua família sobre seu dia a dia no hospital. Até onde vi da série, não dá pra entender os motivos pelo qual Jackie tem um amante – que por sinal, ele não sabe que ela tem marido e filhas – mas isso é o de menos. Assim como é “aceitável” que Don Draper trai sua mulher e sua vida segue normalmente, a vida de Jackie tem o mesmo rumo e nos deliciamos com essa série de comédia dramática que é muito bem escrita e desenvolvida.

Outro caso famoso de traição de uma mulher, também citado na conversa com Warren, é a de Dr. Addison Montgomery (Kate Walsh), em Grey’s Anatomy. Essa mulher linda e maravilhosa retorna a vida de seu marido, Derek Shepherd (Patrick Dempsey), depois de todos os problemas da traição, e faz tanto sucesso com o público que ganhou sua própria série, chamada Private Pratice (2007-2013). Uma série que inclusive teve seis temporadas e é trabalho da deusa Shonda Rhimes.

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Kate Walsh no papel de Addison Sheperd. “Oi, Eu sou Addison Sheperd.”

Mais um exemplo de caso extraconjugal é Skyler White (Anna Gunn), da série Breaking Bad, que trai o famoso professor de química e traficante, Whalter White (Bryan Cranston). Dizer que alguma dessas séries não fez sucesso é loucura. Dizer que essas personagens não são adoradas pelo público é insanidade.

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A atriz Anna Gunn que interpretou Skyler White.

Isso prova que essa regra está dentro da cabeça dos homens que escrevem as séries, que deixam clara sua visão de mundo. Talvez por nunca aceitarem ser traídos, talvez por querer impor isso, ou pelo simples fato de que nossa sociedade impõe tantas coisas as mulheres, como ser uma boa esposa e fiel a seu marido, que isso fica nítido nas histórias por trás e dentro da ficção.

Mesmo sendo dito na entrevista que esse padrão vem da televisão aberta, o exemplo citado – a traição em Mad Men – vem de um canal fechado e passou pelo mesmo problema que qualquer outro canal aberto teria: ser escrito e produzido por homens brancos.

Assim, ao escrever uma série, é impossível a visão de mundo do roteirista não tomar conta de seus personagens e suas tramas, e como a maioria são produzidas por pessoas do sexo masculino, acaba sobrando pras personagens mulheres as regras que os homens sempre nos impõem. Ainda bem que temos Jackies, Addisons, Skylers, para romper com esses padrões e nos encantar com suas histórias fictícias.

*O Showrunner é o cabeça de equipe de uma série televisa. Além de produtor executivo, é roteirista e costuma tomar a decisão final dos episódios.

Bibliografia

KALLAS, Cristina. Na sala de roteiristas. 2014.